Assim que deram 19h, liguei meu computador e acessei o MSN. Para minha surpresa, Ivan falou comigo:
,,Por quê não quis mais falar comigo? Se não queria, bastava dizer isso na minha cara, não precisava me deixar aqui, esperando por você, todos esses dias!"
,,Desculpe. Estive meio ocupado."
,,Tudo bem... Eu entendendo, afinal, é seu último ano de colegial e precisa mesmo se preparar para os exames. Sei como é, também passei por isso ano passado. Desculpe. É que me habituei a ter você todos os dias. É como um vício, quando me vi sem, tive crise de abstinência."
,,Eu também estava em crise... Por conta de uma certa ,,vodka" que ando tomando em doses cavalares."
,,Ah! De vodka eu entendo! Só não beba a Natasha, porque essa dá úlcera!"
,,Pois é... Digamos que essa vodka me tenta, porque além de úlcera, ela me dá olheiras e taquicardia, mas não consigo não tomá-la."
,,Que vodka má, então. O que fazer para parar com essa tentação?"
,,Não sei. Acho que é melhor não resistir a ela, o que você acha?"
,,Eu acho que você está certo, Gilbert."
O bom de conversar com o Ivan, era que podíamos conversar sobre absolutamente tudo, desde coisas que não entendíamos muito bem como física, à problemas de relacionamento.
,,Namorei uma menina 2 anos mais velha do que eu. A gente se dava bem e ela me disse que me amava. O sexo era bom e a gente estava sempre junto. Levei um tempo para começar a realmente amá-la e quando comecei foi algo muito intenso, mas poucas semanas depois que eu disse que a amava, ela quis terminar."
,,Mas por quê?", perguntei.
,,Não sei. Ela disse que me amava muito, mas estava confusa, precisava de um tempo para pensar, botar as ideias no lugar. Demos um tempo."
,,Ih... Não sou muito fã disso de ,,dar um tempo"."
,,Pois é. Só sei que no fim de semana, saí para uma festa e, por acaso, encontrei com ela e a melhor amiga."
Ele fez uma pausa longa e depois escreveu:
,,Elas estavam se beijando."
,,Scheiße1! E o que você fez?"
,,Nada. Fiquei com cara de imbecil. Fui para casa e, admito, chorei muito."
,,Chorou?"
,,Sim, chorei. Eu amava a mulher! Não tenho vergonha alguma de dizer que chorei porque é verdade. Chorei e talvez chorasse de novo. Ela mexeu muito comigo."
,,Entendo..."
,,Até hoje ela ainda fala comigo, mas é doloroso, sabe?"
,,Aham."
,,Agora, ela me disse que terminou com a amiga e quer voltar, mas eu não sei. Na verdade, uma parte de mim quer muito, mas outra tem receio. Não sei o que fazer. Lembra quando eu te contei que tentei me suicidar, mas meu pai me levou ao hospital a tempo e etc?"
,,Sim, e você não deveria ter feito isso, Ivan."
,,Foi por causa dela. E agora, ela pede para voltar e eu não sei o que fazer."
,,Bom, não sei se ajuda, mas qualquer que seja sua decisão, pode contar comigo, que estarei aqui sempre que você precisar, tá?"
,,Obrigado, Gilbert. Se você não fosse um cara, eu diria que você é fofo."
,,Não sou fofo, sou awesome!"
,,E Ivan, se você não fosse um homem, eu diria que você é um bobo! Quem já se viu, tentar se suicidar! Você é louco?"
,,Talvez... Mas sabe o que é, Gil? É que, quando você está sentindo muita dor, uma dor insuportável, a dor física alivia a dor mental, que é muito maior."
,,..."
,,Por favor, não conta para ninguém essas coisas que te contei, certo?"
,,Claro que não!"
,,Tenho o hábito de escrever tudo no blog, mas tem certas coisas que são, digamos, impublicáveis."
,,Sabe o que é engraçado?", perguntou.
,,O quê?"
,,Você, Gilbert."
,,Eu? Como assim?"
,,Sei lá... Eu conheço você a tão pouco tempo, mas sinto que podemos conversar sobre tudo! Eu aqui, contando coisas que só eu e meu pai sabemos... Acho tão estranho, mas tão bom ao mesmo tempo! Pela primeira vez, sinto que posso ser eu mesmo. Obrigado."
,,Poxa Ivan... Acho que nenhuma das namoradas que eu já tive me disseram algo tão... Tão intenso. Obrigado pela confiança, e pode apostar que o sentimento é recíproco."
,,Se você não fosse homem, eu diria que você continua fofo, Gilbert."
,,E se você não fosse homem, Ivan, eu diria que, se dependesse de mim, você NUNCA mais iria sofrer por amor."
,,Se você não fosse homem, eu iria querer abraçar você."
Ivan estudava Medicina em Moscou, mas quando conheceu Tóris durante o Simulado da ONU, ele morava em Vilna.
Ele me contou que seus pais eram russos, mas que sua avó materna era lituana casada com um russo. Seus avós viviam na Lituânia e insistiram para que o neto cursasse o colegial lá. A família acabou concordando, mas com a condição de que ele voltasse à Rússia assim que terminasse o colégio, para cursar a Universidade de Moscou.
Disse que era filho único do casamento de seus pais, mas que possuía duas meia-irmãs por parte de mãe 18 e 16 anos mais velhas do que ele.
Sua mãe havia se casado pela primeira vez com um homem da Rússia europeia, mas que não tinha dado certo então, ela havia se divorciado. Com o ex-marido, ela teve duas filhas, Catarina e Natália, que já eram mães. Catarina tinha dois filhos pequenos e Natália, um bebê.
Ele comentou que Catarina, a mais velha, vivia com problemas financeiros. Que havia ganho muito dinheiro quando era mais nova, mas que quando se divorciou, o ex-marido, que era um crápula, havia lhe tomado praticamente tudo e agora, ela pulava de emprego em emprego e se não fosse por sua mãe, estaria na pior.
Natália era mãe-solteira e muito trabalhosa. Não se fixava em emprego algum apesar de ser extremamente inteligente; contudo, era uma mãe zelosa e fazia tudo pelo filho.
O pai de Ivan era desembargador aposentado do Tribunal de Justiça, mas que agora trabalhava como advogado ,,por diversão". A mãe dele trabalhava como secretária no escritório do pai e o sonho dos pais dele era ver seu único filho formado em Direito.
Ivan gostava de História e Filosofia. Seu sonho era ser professor de História e teve condições de estudar na melhor faculdade de História do país, com bolsa integral, porque tirou primeiro lugar geral nos exames para a Instituição, mas que seu pai o proibiu de cursar porque ,,História não leva ninguém para frente". Disse que o pai só deixava ele cursar Direito, Medicina ou Engenharia. Então ele optou por Medicina, porque:
,,Eu sou péssimo em matemática para fazer Engenharia. Direito, eu não faria nunca, então, escolhi Medicina; mas, assim que me formar e ganhar meu próprio dinheiro, farei meu curso de História".
Ele me perguntava sobre minha vida, e acabei contando que tinha um irmão mais novo chamado Ludwig, que meu pai era Procurador da República e minha mãe era juíza civil, e que eu ainda não sabia o que iria fazer, mas adorava tocar guitarra e apreciava Artes; disse que queria ser músico. Meus pais sempre me apoiariam em quaisquer que fossem minhas escolhas, mas que gostariam que eu fizesse Direito também, mas eu não queria.
,,Sorte a sua que seus pais te deixam escolher."
,,Mas por quê você não se revoltou e fez o que realmente queria?"
,,Não é tão simples como parece. Meu pai pode ser bem... Persuasivo."
Eu passava horas da minha vida conversando com o russo, e me parecia que quanto mais escrevíamos, mais coisas tínhamos para escrever. A melhor parte do meu dia era quando voltava para casa à noite e me trancava no quarto para falar com ele.
,,São 23:30h, Gilbert, vai dormir."
,,Mas não estou com sono."
,,Você foi dormir às 2:00h e acordou às 5:00h, você não tem sono, homem?"
,,Tenho. Mas se eu for dormir agora, não vou falar com você."
,,Você por acaso anda tomando anfetamina?"
,,Não, só vodka."
,,..."
,,...?"
,,Vai dormir antes que eu mande você ficar!"
,,Haha. Como se você pudesse mandar em mim."
,,Tecnicamente não posso, mas garanto que tenho meus meios."
,,Quais?"
,,Vai dormir não?"
,,Não."
,,Então fica mais."
,,Você quer que eu fique?"
,,Quero."
,,Então eu fico. À propósito, eu estava querendo fazer o download daquela música que te falei, mas não consigo de jeito nenhum."
,,Aquela música de ontem?"
,,Sim."
,,Espera."
,,Ok."
,,Pronto. Está aqui, achei a sua música. Agora diga que você me ama!"
Eu sei que ele disse isso de brincadeira, mas fez meu coração bater mais acelerado e minhas bochechas arderem. Demorei um tempo até que finalmente disse:
,,Eu amo você, Ivan."
,,... Eu também amo você, Gilbert."
Foi a primeira vez que eu disse algo com tanto sentimento para alguém. Cada sílaba significou e pude sentir meu coração mais leve. Eu só esperava que ele também sentisse algo parecido.
,,Gilbert?"
,,Hm?"
,,Preciso dizer uma coisa para você."
,,Diga duas, então."
,,Bom... Já conversamos há alguns meses, não muitos, mas o bastante para você ter se tornado, para mim, muito mais do que apenas ,,mais um contato de MSN". Na verdade, Gilbert, para mim, você se tornou essencial. Não consigo mais imaginar meus dias (ou melhor, madrugadas), sem você."
,,Ivan..."
,,Espera! Deixa eu terminar, por favor."
,,Certo."
,,Gilbert, eu estou sentindo algo por você que eu jamais senti antes, e isso com razão porque eu tenho amigos homens e não sinto essas coisas por eles!"
,,Eu quero estar sempre com você.", ele escreveu, ,,Quero vê-lo, quero tocá-lo, quero beijá-lo. Sim, beijá-lo; Mesmo sabendo que você é homem! Porque... Porque é VOCÊ, entende?"
,,Eu sei que agora você deve estar me desprezando, mas eu precisava dizer isso. Eu estou apaixonado por você e não sei mais o que fazer. Se você ficar com raiva, enojado ou qualquer coisa do gênero, por favor, me desculpe. Eu apenas não aguentava mais isso dentro do meu peito."
,,Posso falar?"
,,Sim. Pode."
,,Ivan, eu jamais ficaria com raiva ou enojado de você."
,,Lembra quando você me passou aquela música e disse para eu dizer que eu amava você?", continuei.
,,Sim, eu lembro."
,,Eu realmente quis dizer cada palavra."
,,..."
,,Eu NUNCA usaria um ,eu amo você' em vão. São palavras muito fortes."
,,Eu também não."
,,Então, para eu ter dito a você que o amava, era porque eu amo. Mesmo."
,,Hmm..."
,,Eu tinha medo de que você me rejeitasse. Eu não sou gay, não me sinto gay, mas eu amo você, Ivan."
,,Eu também não sou gay e nem me sinto gay, mas por você e só você, eu seria. Gilbert, quero perguntar uma coisa a você."
,,Pergunte."
,,Sinta-se livre para rejeitar se você achar inviável."
,,Pergunte logo!"
,,Você quer ser meu namorado?"
,,Sim."
,,Nossa. Que rápido!"
,,Sempre."
,,Sempre rápido?"
,,Sempre seu namorado."
E foi assim que começamos a namorar à distância. Era 22 de março.
- Tóris, Tóris, estou namorando sério!
- Verdade, Gilbert? Que maravilhoso!
- Sim, sim. E pela primeira vez na vida, é um namoro sério. Estou apaixonado de verdade.
- Eita! A pessoa que conseguiu essa proeza merece ser canonizada, porque essa santa acaba de operar um milagre aqui! - disse meu amigo exagerando.
- Deixa de palhaçada, também não é assim!
- Claro que é! Mas conte logo, quem é ela? Conheço?
Mal abri a boca para falar, a sineta do colégio tocou e o professor de química entrou na sala. Como Tóris andava obcecado com os estudos, sentou-se na fileira da frente, eu, vagabundo sonolento, fiquei no fundão, junto com o Gregor, portanto, não consegui contar ao Tóris a novidade, em compensação, contei tudo ao meu amigo dinamarquês, que me parabenizou e disse:
- Mas isso é fantástico, Gilbert! Precisamos comemorar, e agora!
- Agora, Gregor, e a aula?
- Esse assunto é fácil. Vamos, vamos sair logo dessa sala antes que o professor nos convide a sair. Quero saber de tudo com detalhes!
- O assunto pode ser fácil para você, Gregor, que é bom em química, mas pra mim é uma tortura! Eu conto no intervalo. Prometo.
- Uma ova! Vamos e vamos agora!
Meu amigo se levantou da carteira e me puxou pelo braço, fazendo-me levantar também.
- Com toda licença, professor Gilson Castro, é com muito pesar que informo ao senhor que eu e meu amigo precisaremos nos ausentar de sua aula, mas temos assuntos de suma importância a tratar na secretaria.
Confusos, o professor, eu e o resto da turma olhamos para Gregor.
- Com sua licença. - disse meu amigo, acenando com a cabeça para o professor e depois, virando-se e sussurrando para mim – Anda, Gil, leva seu caderno e uma caneta.
Saímos da sala e escapamos pelos corredores sem que o zelador nos pegasse cabulando aula. Descemos as escadas e fomos para nosso lugar favorito: O batente de detrás da capela, no pátio.
- Então você está namorando o Ivan?
- Sim, estou.
- E como foi isso? O que os seus pais acharam? E por quê você não me disse logo?
- Calma aí, uma coisa de cada vez. Não contei a você que estava namorando Ivan porque começamos ontem à noite.
Contei ao meu amigo tudo com detalhes, ele me olhava visivelmente interessado.
Apesar de considerar Tóris meu melhor amigo, comecei a perceber que era muito mais fácil me expressar com Gregor, talvez porque estivesse saindo mais com ele ou porque, na verdade, Gregor era mais ,,livre".
- O que os seus pais acharam?
- Ainda não contei a eles.
- Eles sabem da existência de Ivan?
- Sabem. Meu pai até diz que estou ,,entusiasmado demais" com o novo amigo.
- Mas ele suspeita?
- Claro que não! - exclamei – Mas acho que minha mãe desconfia, apesar de ela não falar nada.
- E Ludwig?
- É o único que sabe, fora você, agora.
- Qual foi a reação dele.
- Ele me deu um soco bem na boca. Olha só, até cortou.
- Eita, cara. Que bosta.
- Está sem falar comigo.
- Você não tem medo de que ele conte aos seus pais?
- Não. Somos muito ligados apesar de tudo. Acho que ele está confuso, tentando pôr as ideias no lugar, afinal, não deve ser fácil para ele seu irmão mais velho, bringuento, turrão e bêbado, que chegava em casa com uma garota diferente a cada fim de semana, agora, dizer que está namorando um cara! E mais, em plena madrugada?
- Haha! Realmente, deve ter sido um soco no estômago.
- Mas eu acho que ele vai acabar aceitando, afinal, ninguém me diz que ele não dá uns ,,péga" naquele amigo italiano dele! - eu disse.
- Duro vai ser contar ao Vati e à Mutti – emendei.
- Se você quiser um conselho, vá contando devagar. Principalmente se você gosta mesmo do russo.
- Gosto. Na verdade, Gregor, eu amo.
- Eu vejo... Mas me diga mais, o que Tóris achou? Afinal, ele foi o Cupido, certo?
- Ainda não contei a ele. Quando tentei, a sineta tocou, o professor entrou e Tóris foi lá pra frente.
- Típico...
- Típico? Como assim, típico?
- Nada não, esquece. Quando você e Ivan vão se ver de verdade? - perguntou entusiasmado.
- Esqueço não. Como assim ,,típico"? Anda, Gregor, diga. Você nunca foi de dizer coisas sem sentido, apesar de você SER sem noção de vez em quando.
- Haha, sou sem noção, não é?
- É. E não desconverse.
Meu amigo suspirou profundamente e, como se procurasse as palavras certas, disse:
- Sabe o que é, Gil? Tóris é um cara legal e tudo, mas sei lá... Ele não me parece muito o tipo de cara que aceitaria.
- Aceitaria? Como assim?
- Ach! Não ache que estou fazendo intriga!
- Como? Gregor, eu não estou entendo porra nenhuma do que você está falando!
- Eu acho que o Tóris não iria aceitar muito bem o fato de você estar namorando um homem. Pronto, é isso.
- Hein?
- Eu acho o Tóris meio ,,certinho" demais.
- Isso é verdade, mas não faz sentido isso de você dizer que ele não ,,aceitaria". Acho que você está sendo preconceituoso, Greg.
- Bom, espero que você esteja certo...
- Ih...
- O que foi?
- Você está reticente e olhando para baixo.
- E daí?
- Daí que SEMPRE que você fica assim, significa que você quer dizer mais do que de fato disse.
Ele me olhou surpreso.
- Anda, fala. Você pode ser preconceituoso, mas dificilmente está errado.
Meu amigo sorriu sem muito entusiasmo, ainda olhando para baixo.
- Observador, hein?
- Aprendi com você – disse dando um murro sem força no ombro de meu amigo.
Gregor suspirou, levantou o olhar para mim e disse:
- Acho o Tóris limitado.
- Ele nunca fala de nada além dele mesmo e quando tentamos conversar qualquer coisa mais aprofundada, ele não sustenta – continuou -. Ele pode até ser o melhor da turma em notas, mas dificilmente fala sobre qualquer assunto com desenvoltura. Ele tem um ego gigante e dá para notar como ele ama ser o centro das atenções, ser o favorito dos professores, do Diretor,... Sabe, Gilbert, para mim, isso de notas vale tão pouco. Essas coisas são tão relativas. Não tiro o mérito do Tóris, ele é inteligente, sim, mas não é culto.
- Será que a vida realmente se resume à uma média 10 e cumprimentos do Diretor? Eu acredito que existe tanta vida lá fora, tantas coisas que o colégio não é capaz de nos ensinar. ,,Viver" pode até ser uma prova de múltiplas escolhas, mas é impossível se atribuir uma nota, é impossível dizer qual das alternativas é a correta.
Gregor me deixou pensando.
- Eu acho, Gilbert, que o Tóris não está ,,mentalmente" preparado para o que você vai dizer e isso me preocupa, não por ele, mas por você.
- Onde você quer chegar, Greg?
- Acho que ele não vai aceitar muito bem o fato de você namorar um homem. Acho que ele vai evitar você.
- Gregor, você realmente acha que eu me importo com isso?
Ele me olhou surpreso.
- Concordo com tudo o que você falou. Eu vejo o puta egoísta que ele é. Somos amigos, sim, mas não sou cego. Não ligo para o que ele pensa ou vai pensar de mim, sinceramente, não devo explicações a ele, na verdade, estou mesmo preocupado é com meu pai e minha mãe. Eles não fazem o tipo ,,homofóbicos", mas daí chegar a eles e dizer: ,,Vati, Mutti, estou namorando o Ivan. Abraços.", acho que vai ser MUITO tenso.
- Fato. Meu pai ficou escandalizado quando eu disse que era bissexual, para ele, isso de gostar de mulher e homem é uma safadeza. Meu pai está a meses sem falar comigo.
- Eita, Gregor, que tenso, e o que você fez?
- Saí de casa. Estou morando com um casal amigo meu. Falo com minha mãe todos os dias, depois do trabalho, ela é muito mais compreensiva do que meu pai.
- E seu emprego dá pra manter você?
- Cara... Dá. Esse casal alugou um quarto para mim, ajudo a pagar as contas e a cada dois meses, sou responsável pelas compras do mês. Minha mãe me ajuda, mas basicamente vivo com o que ganho.
- Que ótimo, Gregor, e você trabalha aonde?
- Numa loja de tintas. Comecei fazendo um ou outro bico, para descolar uma grana, mas aí, como sou bom em química e me interesso, um dia, perguntei aos nossos fabricantes se eu poderia acompanhar um dia na fábrica. Como eles são uma empresa pequena, ficaram com receio, mas meu chefe disse que eu era de confiança, então eles me deixaram ver. No começo, fiquei na minha, mas depois, muito devagar, comecei a questionar os compostos que eles usavam. Fiz muitas pesquisas de como melhorar a qualidade da tinta e, um dia, cheguei com uma ideia.
- Haha, que atrevido você!
- Sim muito! Cheguei para o fabricante e mostrei minhas pesquisas, ele se interessou na hora.
- E então?
- Bom, ele gostou.
- Ah cara, que fantástico!
- Hehe. O fabricante me fez assinar um contrato de aprendiz da fábrica e se comprometeu a pagar minha faculdade de Engenharia Química.
- Nossa!
- Como aprendiz, posso desempenhar algumas funções básicas na fábrica, mas nada muito importante, por isso, passo 4h na fábrica e 4h na loja, no futuro, serei efetivado como engenheiro químico chefe – ele me disse olhando para baixo.
- Gregor! Você nunca tinha me contado isso!
- Para você ver a quanto tempo a gente não se fala direito – ele disse sorrindo.
- Desculpa – foi minha vez de olhar para baixo.
- Hein?
- Desculpa eu estar dando uma de Tóris – eu disse olhando para ele, com um sorriso amarelo.
- Esquece. Você estava mais preocupado com outras coisas – ele disse com sinceridade. -Agora você está sabendo.
- Agora estou sabendo e estou muito feliz por você.
- Então, Gilbert, sugiro que você arranje um trabalho, um de meio-expediente já dá, para, pelo menos, se você precisar...
- Você tem razão.
A sineta soou anunciando o fim da aula e início do intervalo. Em poucos minutos, o então silencioso pátio se encheu de alunos de várias séries diferentes, que falavam ao mesmo tempo, enchendo o ambiente de barulho e vida.
- Depois da aula, você pode ir lá para casa para eu ensinar a você o assunto de química?
- Puxa, Gregor, obrigado. Mas e o seu trabalho?
- Hoje eu não vou precisar ir porque é aniversário da empresa e o meu chefe deu um dia de folga a todos.
- Chefe bonzinho o seu, hein?
- Ele é.
- Então vamos direto?
- Sim. Você aproveita e almoça comigo, preparei dois pratos típicos do meu país, Frikadeller e, depois, smørrebrød.
- Mein Gott! Diga algo que você não saiba fazer, Gregor!
Gregor e eu fomos nos juntar aos nossos amigos e amigas de outras salas. Não vi Tóris entre eles, de novo. Desde o início das aulas ele não passava mais o intervalo conosco, ia direto ligar para Mary Jane, enquanto comia alguma barra de cereal e, em seguida, subia até a biblioteca para estudar. É inegável que ele era um aluno muito esforçado.
Legenda
1 Scheiße = merda.
2 Vati – papai.
3 Mutti – mamãe.
4 Frikadeller apresentam-se como a versão dinamarquesa das almôndegas, constituindo um prato muito popular na Dinamarca.
Fonte: .org/wiki/Frikadeller
5 Smørrebrød é um prato nacional dinamarquês, que consiste em pratos frios feitos com uma fatia de pão de forma escuro, denominado rugbrød, coberta com diversos tipos de recheios, tais como saladas, frango, atum, pasta de fígado, rodelas de tomate ou carne bovina entre outros.
Fonte: .org/wiki/Sm%C3%B8rrebr%C3%B8d
6 Mein Gott = Meu Deus.
