Antes de começar, eu gostaria sinceramente de pedir desculpas pelo atraso. Estava com este capítulo pronto há semanas, mas não estava conseguindo upload. Sempre aparecia uma mensagem de erro toda vez que eu tentava postar, aconselhando-me a mandar um e-mail para o administrador ou qualquer coisa que o valha. Depois de muito tentar - e me aborrecer, diga-se de passagem - uma santa pessoa num dos fórums do FF disse como contornar o problema e ,,eccolo qui!", já diria Feliciano (ou meu professor de italiano, huhu).

Mais uma vez, desculpem-me pelo atraso e ,,vielen danke für ihre Geduld".

MarshmallowTree.


Ao final do dia, ao invés de voltar para casa, passei numa livraria a fim de comprar um livro de Filosofia que eu estava querendo há algum tempo. Quando fui pagar, vi que havia afixado num pequeno quadro logo atrás da cabeça da operadora do caixa, um papel escrito:

,,Se você tem de 17 a 24 anos, gosta de ler e é bibliófilo, deixe seu currículo na nossa administração, no 1º andar, e venha trabalhar conosco! Estamos recebendo currículos até o dia 30 de abril."

Pensei que aquela seria uma ótima oportunidade e que o fato de eu ter passado naquela livraria, naquele dia, logo após uma conversa sobre emprego com Gregor, talvez fosse o Destino me mostrando o caminho.

- Licença... - estiquei o pescoço para ver o nome no crachá da operadora do caixa – Cristina, tem alguém na administração agora?

- Tem sim – disse a moça, me entregando o livro e a nota fiscal dentro de uma sacola plástica – Subido as escadas, logo depois do Café, segunda entrada à direita. É uma sala com paredes de vidro.

- Obrigado – respondi.

Tirei o livro e a nota fiscal de dentro da sacola plástica:

- Pode guardar a sacola, é preciso economizar o planeta – disse piscando um olho para ela.

Subi as escadas correndo e fui falar com a pessoa da administração. Era um rapaz alguns anos mais velho que eu, que me explicou como eu deveria escrever meu currículo.

- Eita, Gilbert – ele disse -, você ainda tem 16 anos?

- Tenho, mas completo 17 exatamente no dia 30 de abril.

- Ah! Então tudo bem. Que sorte, hein? Então vamos fazer assim, você me traz seu currículo no dia 30 de abril, porque aí eu poderei entregar ao meu chefe sem problemas. Provavelmente vai ter um processo seletivo, mas é coisa simples. É mais para avaliar o futuro funcionário e, como dizem, separar o joio do trigo.

Afonso era um cara simpático e bem humorado, mas falava mais do que minha avó. Senti firmeza e uma instantânea afinidade entre nós.

,,Se eu ficar aqui, acho que seremos amigos", pensei.

Quando voltei para casa, meu irmão ainda não estava falando comigo, mas não me preocupei, logo, logo a raiva que ele estava sentindo iria passar.

À hora do jantar, comentei com minha família que estava pensando em trabalhar em uma livraria no centro da cidade, relativamente perto da escola.

- Mas isso não vai atrapalhar seus estudos, filho? - perguntou meu pai.

- Acho que não, Vater. É um trabalho de meio-expediente, além do mais, posso aproveitar para ler um ou outro livro. Achei muito interessante a proposta.

- Veja com cuidado, não vale a pena você ficar muito cansado e não conseguir se concentrar na escola. Se for pelo dinheiro, você sabe que seu pai e eu podemos sustentá-lo até você se estabelecer na vida.

- Eu sei, Mutti, danke. Mas eu quero ter essa experiência.

- Experiência de livreiro? - disse Ludwig pela primeira vez naquele dia.

- Sim? É um trabalho como outro qualquer...

- Tá! - disse com desdém – E pra quê isso agora?

- Porque eu vou fazer 17 anos e quero começar a ganhar meu próprio dinheiro, para não ficar pedindo para o Vati e a Mutti o tempo todo!

- Acho digno, meu filho, mas não seja por isso, não nos incomodamos em lhe dar dinheiro – disse meu pai calmamente.

- Acho que o Bruder deveria se preocupar em escolher uma profissão, afinal, os exames serão no fim do ano e ele ainda nem sabe o que vai fazer. Fica a madrugada toda no computador, falando com aquele russo desocupado, ou quando não, fica saindo com esse bando de amigos vagabundos que ele tem!

- Ein Moment, bitte! O Ivan não é desocupado, ele estuda Medicina e passa as tardes num hospital, e meus amigos não são vagabundos! A maioria trabalha depois da aula e é por isso que também quero trabalhar. Como você pode ver, todos os meus amigos têm ocupação, já os seus, mein Gott, aquele seu amigo japa é um loser, e aquele italiano então? Só faz comer macarrão o dia inteiro!

Meu irmão se levantou abruptamente, derrubando a cadeira no chão.

- O Kiku foi o primeiro lugar nas Olimpíadas de Ciências esse ano, e o Feliciano ganhou o concurso de artes!

- Duas palavras, Bruderlein: Grande. Merda! - debochei.

- Bruderlein uma ova! - gritou – Vê sou eu que fico por aí, dando em cima de outros homens!

Aquilo me atingiu como uma pedra, senti meu coração apertar. Levantei-me na hora e encarei meu irmão

- Retire o que disse – falei furioso, agarrando-o pela camisa.

- Nein. Schwul - ele disse me encarando.

- Agora já chega, vocês dois - disse nossa mãe calmamente. - Não tolerarei brigas nesta casa, muito menos na hora do jantar. Gilbert, Ludwig, já terminaram de jantar.

- Não – dissemos ao mesmo tempo.

- Isso não foi uma pergunta. Vocês já terminaram de jantar. Agora saiam e me esperem na sala.

Obedecemos, claro.

Quando nossa mãe entrou na sala, encontrou-nos cada um num canto, amuados.

- Que cena foi aquela? Vocês sabem que seu pai não pode se estressar por conta da diverticulite, mas ainda assim vocês dois armaram aquele circo.

- Mas, mãe, o Ludwig...

- Shh! Ainda não terminei de falar, terminei?

- Nein. Entschuldigen Sie.

- Não me interessa os tipos de amigos de cada um, vocês que resolvam suas diferenças em outro lugar, e não durante o jantar.

- Gilbert, - ela continuou – você é o irmão mais velho, tem obrigação de se controlar. Você sabe o que eu penso de você usar palavrões, ainda mais à mesa!

- Ludwig, - ela disse virando-se para ele – não entendi o motivo de você ter se importado tanto com o fato de seu irmão querer trabalhar.

- Mas o mais lamentável disso tudo é ver as duas BESTAS que vocês são! Dois homens agindo como brutamontes. Inadmissível isso, espero que jamais se repita.

- Ja, Mutti – dissemos em uníssono.

- Os dois, hoje, vão lavar os pratos, arrumar a mesa e limpar a cozinha, - sentenciou – e eu quero ver tudo brilhando.

- Mas mãe, - protestei – já são 19h, tenho um compromisso! Além do mais, foi o Ludwig quem começou!

- Não interessa, os dois estavam brigando; e não se preocupe, tenho certeza de que seu compromisso pode esperar - ela disse, dando as costa para a gente.

- Mãe! - tentei.

- Como? - perguntou levantando, assustadoramente, uma sobrancelha.

- Nichts – temi.

- Gut.

Ludwig e eu trabalhamos calados, com raiva demais um do outro para questionar qualquer coisa. A cozinha estava um caos. Arrumei a mesa e depois varri e passei pano na cozinha enquanto meu irmão lavava os pratos.

Acabei levando o lixo para fora e aproveitei para tomar um ar. Ainda estava chateado com o Ludwig, me senti traído por ele ter me exposto daquela maneira. Meu irmão nunca tinha me chamado de ,,Schwul" antes.

Quando entrei de volta, ele estava enxugando o último prato para guardar no armário.

- Sabe que aquilo me doeu mais do que o soco na boca? - eu disse.

- Bem feito – respondeu seco.

- Achei que pudesse confiar em você. De todas as pessoas no mundo, meu irmão é o único que achei que nunca me trairia.

- E de todas as pessoas no mundo – ele disse -, achei que meu irmão seria o último a se tornar ein Schwul!

- Não sou ,,bicha", Ludwig.

- Não me venha com essa agora, Gilbert! Você mesmo disse que está namorando aquele russo!

- ,,Aquele russo" se chama Ivan.

- Que seja!

- E sim, estou namorando ele.

- Então! É bicha sim. Schwul.

- Ludwig, eu não sou bicha. Você já me viu agindo como uma?

- Não. Digo, AINDA não.

- E não vai ver! Eu não sou gay, Ludwig, eu não sinto atração por outros homens.

- Como não? Você namora um, porra!

- É diferente, Bruder. Não é ,,um homem", é o Ivan. Eu me apaixonei por ele, pela essência. Podia ser uma mulher, mas não é. Eu... eu não sei explicar, só sinto.

Ele ficou olhando para mim.

- Ludwig, Bruder, por favor, tenta me entender. Eu o amo. Amo o Ivan. Não sei explicar, é inefável, é maior do que eu. Com ele, eu me sinto tão... completo! É algo tão real, tão...

- Não fala nada, Gilbert, - ele me interrompeu- eu não tenho mais interesse, para mim, você morreu.

- Lud...

Meu irmão me deu as costas e saiu da cozinha em direção ao seu quarto, deixando-me só e me sentindo a pior pessoa do mundo.

x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

- Tóris, lembra que eu disse que estava namorando?

- Sim, Gilbo, claro que lembro! - respondeu meu amigo – E lembro que você estava quase dizendo quem era quando a sineta tocou e o professor entrou.

- Então, Gil, quem é ela? É alguém que eu conheço? - perguntou animado.

- Sim, Tóris, é alguém que você conhece – respondi – e...

- E...?

- E não é ,,ela", é ,,ele".

Fez-se um silêncio estranho. Era impossível decifrar a expressão do meu amigo. Finalmente, ele disse:

- É o Ivan, não é?

- Sim.

Nossos cafés esfriavam nas nossas frentes. Havia convidado Tóris para tomar um café e atualizá-lo dos acontecimentos recentes. Escolhi o ,,Café Nero" por uma razão: fazer ou receber ligações no celular, lá, era especialmente difícil. Algo nas paredes – ou no ar – parecia atrapalhar as conexões telefônicas, tornando o pequeno estabelecimento uma desculpa perfeita para quem quisesse, pelo menos por alguns minutos, se libertar das amarras sociais que um celular trás.

O garçon já me conhecia, pois eu sempre ia lá com meus amigos. Havia trazido apenas um menu, que entregou para o Tóris e, com uma diligência digna de gorjeta, trouxe-nos o que pedimos: um capuccino sem açúcar para mim e um café latte com biscoitos para meu amigo.

- Mary Jane não me ligou hoje – ele disse meio aéreo.

- Tenho certeza de que ela vai ligar mais tarde.

- É... Eu sabia que você ia gostar dele, só não imaginei que fosse gostar tanto! - disse com um sorriso.

- Eu também não – respondi olhando para o vapor que desprendia do meu café.

- Devo dizer que eu ,,esperava" por isso, Gilbert?

- Não, Tóris. Porque eu mesmo não esperava. Aconteceu.

- Alguém mais sabe?

- Sim. Ludwig e Gregor.

- Ah, claro. Gregor sempre sabe, não é? - perguntou sorrindo, mas algo em seu rosto não pareceu sincero.

- Talvez – respondi evasivo.

O clima estava tenso, nenhum de nós tinha vontade de olhar para o outro. Comecei a achar que Gregor tinha razão e que Tóris fosse, de fato, começar a me evitar. Os sinais estavam bem claros para mim. Resolvi quebrar o gelo.

- Gosto deste lugar. Os melhores acontecimentos da minha vida, passei-os aqui.

- É agradável mesmo.

- É meio que uma ,,zona de convergência e mudança". Estranhamente, etapas se encerram e outras começam aqui. Sem falar que eles fazem o melhor café da cidade.

- Algum recomeço? - perguntou.

- Para lhe ser sincero, não. Ainda não.

- Sempre ,,tudo ou nada" - continuei.

- Sempre há uma primeira vez – ele disse, pegando a xícara e dando um gole no café.- Realmente, o café aqui é delicioso!

Comecei a sentir um clima mais leve entre nós, como se a grossa nuvem do desconforto começasse a se dissipar.

- É o melhor – respondi com um ar brincalhão.

- O que o Ludwig pensa disso? - perguntou dando outro gole no café.

- Sobre o namoro? - perguntei um pouco ansioso.

- Sobre o café – Tóris respondeu pousando a xícara de volta no pires.

Nossa amizade nos permitia falar através de metáforas e nos compreendermos. Era óbvio que meu amigo não estava digerindo muito bem a história toda, mas vi que ele estava tentando.

- Ludwig não gosta de café, então para ele tanto faz.

- Alguém mais na sua casa gosta? - ele perguntou e entendi que realmente estávamos falando do que nos propusemos a falar.

- Bom, meus pais gostam, mas não fazem questão, acho.

- Meus pais detestam – sentenciou.

- E você? - perguntei.

- Gosto somente com leite e bastante açúcar. O gosto do café puro não me agrada, mas sou tolerante.

,,Que bom?", pensei.

- Gosto de capuccino. Só.

Não era verdade. Sou viciado em café, mas não estávamos falando em café, mas numa metáfora de café.

- Mas a cafeteria tem outros cafés, o meu, por exemplo. E ah! Você viu que eles têm um Irish coffee, um french vanilla, um café dinamarquês, até! - ele enfatizou o ,,dinamarquês".

- Será que você não experimentaria aquele também? - Tóris disse levantado um pouco a voz.

- Não. Quando digo capuccino, é SÓ O capuccino! - falei com raiva.

Aquilo me encheu muito.

- Olha, Tóris, cansei dessa metáfora ridícula de café. Seja logo direto, droga! Não estou aqui pedindo para você aceitar ou não o meu relacionamento com o Ivan, estou aqui para dizer que ele existe. Foi algo alheio à minha vontade, sim, mas aconteceu – continuei. - O que você está pensando de mim agora, pouco me importa. Só me dignei a dizer a você porque o considero meu amigo, mas se for para você ficar de sacanagem, fo... Fique com sua opinião para você.

- Certo, certo, Gilbert... Contanto que você não venha dar em cima de mim, faz da sua vida o que você quiser!

- Wie bitte? Como é que é?

- Não... É porque com vocês, a gente nunca sabe, não é? Vai que você esquece que eu tenho namorada! - ele disse rindo.

- ,,Com vocês"? - repeti - Cara, dessa vez você se superou!

- Tóris, com essa, você ganhou o Oscar de Babaca do Ano, meus parabéns!

Controlando-me para não dar um murro na cara do lituano, chamei o garçon, paguei tudo e deixei uma gorjeta generosa. Levantei-me sem dizer palavra. Não dissemos palavra.

Ainda fiquei um tempo olhando para o Tóris, que olhava para fora da janela apoiando o queixo numa das mãos, antes de sair, disse-lhe em tom que só ele escutasse:

- Eu JAMAIS ficaria com outro homem que não fosse o Ivan. Com você, muito menos. Lembra quando eu disse que esse lugar era especial? Bem, mais uma etapa acaba de se encerrar.

Dizendo isso, saí do Café Nero e fui para casa, deviam ser umas 15h e eu precisava escrever meu currículo. Assumir meu relacionamento com Ivan estava sendo mais difícil do que imaginei e agora, mais do que nunca, precisava daquele emprego.

,, Se você precisar...", as palavras de Gregor ecoavam na minha mente.

Quando voltei para casa, encontrei Ludwig, cumprimentei-o, mas ele simplesmente me ignorou, como de costume ultimamente.

Subi para o meu quarto, fiz meu currículo e fiquei estudando até as 18h, quando descemos todos para jantar, em seguida, lavei os pratos pois era meu dia.

Às 19h, liguei o computador e fiquei falando com Ivan.

,, É... Eu já esperava essa reação dele. Pelo pouco que convivi com Tóris, dá para ver que ele tem uma mentalidade bem quadrada. Кролик... Já dava para imaginar que ele iria agir assim."

,, Bär, a questão não é ele não falar comigo depois, a questão foi a forma como ele me tratou, insinuando que eu era promíscuo e pior, que eu iria dar em cima dele! Como se ele fosse irresistível..."

,, É uma droga mesmo, Gilbert. Bom, se isso ajudar de alguma forma, digo que pelo menos até agora não tive muitos problemas quando conto que estou namorando você. Acho que tenho sorte que meus amigos são bem mente aberta. No fundo, tinha um pouco de esperanças de estar errado quanto ao Tóris."

,, Se quer mesmo saber, Ivan, ele que se foda! Já preparei meu currículo, agora é só dar um tempo para chegar logo o dia 30 e eu começar a trabalhar. Algo em mim diz que vou conseguir. Além do mais, tem um cara lá na livraria que foi bem legal comigo quando me explicou como fazer o currículo, acho que vamos nos dar bem."

,,Hm... É bom que você pense positivo, Coelho, mas analisa bem se esse emprego não vai atrapalhar mais do que ajudar."

,, Já pensei em tudo, Bär, vai ajudar sim."

x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

Não lembro muito bem quando Ivan começou a me chamar de coelho, mas lembro o motivo, um dia, mandei uma foto para ele e ele me disse:

,, Haha, você é dentuço!"

Fiquei puto.

,, Não sou dentuço!"

,, É sim."

,, Não sou dentuço, Verdamnt!"

,, É. E eu acho uma graça. Você é meu krolik agora."

,, O que diabos é isso?"

,, Não sabe? Que bom. Isso o torna ainda mais meu, huhu."

,, Não achei graça."

,, Daria todos os meus livros de História para ver sua cara agora...", ele disse, ,,Krolik é coelho em russo. Você é dentuço, feito um coelho."

,, Äh, que simpático... Sou um coelho agora..."

,, Haha. Na verdade, não é ,um coelho', é ,meu' coelho."

,, Isso torna as coisas um pouco mais embaraçosas agora..."

,, Por quê?"

,, Sei lá... Meu avô chamava minha avó de meine Kaninchen, que é meu coelho (ou minha coelha) em alemão."

,, Verdade?"

,, Sim."

,, Ela é dentuça igual a você? Huhu."

,, Äh... Ela é ,,fofa", por isso que meu avô gostava de chamá-la assim..."

,, E porque não posso chamá-lo de coelho, já que você, além de dentuço, é fofo?"

,, Páre! Não sou dentuço e muito menos fofo!"

,, Krolik."

,, Páre."

,, Krolik, krolik, krolik,..."

,, ..."

,, Haha. Eu amo você por isso. Você sempre me faz rir, Coelho."

,, Ajudou muito agora. Além de dentuço, me chama de palhaço!"

,, HAHAHAHAHAHA!"

,, Tá legal... Então se eu sou um coelho, você é einen Bär, umurso!"

,, Por quê urso? Por acaso você tem uma namorada e eu sou seu amante?"

,, NEIN! Porque ursos irritam coelhos. Por isso."

,, Net, Gilbert, ursos COMEM coelhos. Haha. Bom... Pensando bem, nada mal ser seu urso..."

,, Alguém já disse que você consegue ser pervertido?"

,, Já nasci assim, fazer o quê, coelho?"

,, Seu urso folgado."

,, Quem manda ser um coelho tão apetitoso! E tão dentuço, diga-se de passagem."

,, Já disse, não sou dentuço! É que tenho mania de ficar com os lábios entreabertos, daí meus dentes da frente aparecem um pouco. O otorrinolaringologista disse que é porque sou alérgico, e todo alérgico tem mania de ficar com os lábios entreabertos."

,, Sei, sei, coelhinho..."

,, Você é um urso bullying das tundras. Seu russo comunista dos infernos."

,, Adoro seu lado Frank, coelho, me faz sentir tão Donnie Darko."

,, ..."

Às vezes me pego pensando nesses detalhes insignificantes entre Ivan e eu e, inevitável, toda vez que penso no Tóris e depois no Ivan, e os comparo, não tem como não ficar impressionado com a capacidade das pessoas em se tornarem substituíveis.

Tóris não falava mais comigo confirmando o prognóstico de meu amigo Gregor de que o lituano iria me evitar. Não que eu ligasse para isso mas... Eu ligava.

Estava triste com o desfecho da amizade, mas não iria me martirizar por isso. Eu tinha o Ivan, tinha o Gregor, tinha a Elizaveta e o resto dos meus amigos.

Claro que não saí espalhando ao vento que estava namorando, mas sempre que as pessoas perguntavam o por quê de eu não sair mais como antes, dizia que era por causa dos estudos. Eles entendiam.

Contudo, a pessoa que mais me fazia falta era o meu irmão Ludwig. Ele não estava falando comigo nem para ser educado. Nem um ,,passa a manteiga?" ele me dirigia. Essas coisas me doíam muito.

Não queria pensar em Tóris, não queria falar nele, mas era inevitável.

,, Sim, Urso, mas não é só isso, desde o dia do Café ele não se dirige mais a mim nem ao restante dos nossos amigos. Ele fica somente com o pessoal mais pedante e preconceituoso do colégio; digo, QUANDO ele resolve conversar com alguém!"

,, кролик... Já dava para imaginar que ele iria agir assim desde que você me falou como foi a reação dele no Café."

,, Gregor até me disse que ele poderia me evitar, mas eu duvidei sabe, Urso? No fundo, achei que ele fosse continuar meu amigo de boa."

,, Sei. Mas deixa isso pra lá, Coelho. Diz, como foi seu dia hoje?"

,, Mas sabe o que é o pior de tudo, tudo mesmo?"

,, O quê?"

,, É o Ludwig. Já não sei mais o que fazer, Ivan, ele não fala comigo desde aquele dia."

,, É difícil mesmo, Gilbert. Eu sei como você é ligado a ele."

,, Eu disse a ele exatamente aquilo que te contei na época. Disse que eu não era bicha, mas que estava apaixonado por você, porque é VOCÊ, não é como se eu fosse me deitar com qualquer cara que me aparece!"

,,..."

,, O que foi, Vanya?"

,, Nada."

,, ,,Nada", nada. Sempre que você coloca reticências, você sempre quer dizer algo mais, assim como o Gregor. Diga."

,, Lá vem você com esse ,,Gregor" de novo. Sabe quantas vezes você fala nele?"

,, Wie, bitte?"

,, Você VIVE falando desse cara. Não tem uma conversa sequer que você não mencione: Gregor isso, Gregor aquilo... Como se não bastasse o Tóris ou aquele tio da livraria! Aliás, para quê você quer trabalhar em livraria? Vá estudar para cursar uma boa Faculdade ao invés de ficar vagabundeando por aí!"

,, Caramba, Ivan... Como você consegue ser imbecil."

,, Imbecil? Agora sou imbecil! Pensando bem, já que você acha isso de mim, então é melhor terminarmos logo, afinal, você é muito esperto não é, Gilbert?"

,, Você sabe que eu não estou falando isso, você não entendeu."

,, Ah, claro que não! Eu sou muito imbecil, não é? Talvez o Gregor entenda você melhor. Quer saber, Gilbert, a gente nunca ia dar certo mesmo. Acabou. Vai ser melhor para nós dois."

,, Espera, Ivan!"

/O usuário encontra-se offline/.


1 Danke = obrigado

2 Der Bruder = irmão

3 Ein Moment, bitte = um momento, por favor.

4 Die Bruderlein = irmãozinho. Porém, em alemão, é também uma gíria para ,,homossexual". Aqui, Gilbert faz um trocadilho com a palavra porque, além de ser seu irmão mais novo, ele quis chamar Ludwig de homossexual.

5 Schwul = termo pejorativo; Bicha; Boiola.

6 Entschuldigen Sie = Termo formal de se pedir desculpas; geralmente à uma pessoa mais velha ou à uma pessoa com quem não se tem muito contato. No caso, Gilbert trata sua mãe por ,,senhora".

7 Nichts = nada.

8 Gut = Bom.

9 Lê-se /krolik/ = coelho. Se tiver errado, por favor me desculpem, foi o melhor que consegui tentando desvendar a fonética desse idioma tão lindo.

10 Der Bär = urso

11 Verdammt! = porra.

12 Donnie Darko = filme norteamericano do ano de 2001, dos gêneros ficção científica, drama e horror, escrito e dirigido por Richard Kelly.

Fonte: .org/wiki/Donnie_Darko

13 Lê-se /krolik/ = coelho