Ele não me deixou falar, simplesmente desligou. Corri para o celular e tentei ligar, mas o número deu fora de área.

,,Por quê ele agiu assim?", pensei.

Um vazio enorme se apoderou de mim, como se alguém tivesse arrancado meu coração fora. Fiquei tão desesperado, que minha mente apagou e não consegui raciocinar direito, abri a porta do quarto e fui em direção ao banheiro, estranhamente senti vontade de vomitar.

No caminho, encontrei Ludwig, que olhou para mim como se estivesse vendo um fantasma.

- Você... Está bem? - perguntou seco.

Balancei a cabeça negativamente.

Depois disso, não me lembro de muita coisa, só do meu irmão gritando ,,Bruder!"

Aparentemente eu havia desmaiado, porque quando abri os olhos estava no quarto de Ludwig, deitado de costas para o chão, com as pernas para cima, apoiadas na parede, formando um L e com uma dor de cabeça monstro.

- Gilbert? - ele me chamou com a voz baixa, ao meu lado.

- Ludwig – respondi, sentando-me no chão.

- Ludwig, ele terminou comigo. Ele terminou comigo.

Comecei a chorar, depois, a soluçar. Meu irmão disse que eu estava tremendo e me abraçou.

- Ruhig, Brudi – ele disse, me abraçando – Calma.

- Terminou, Bruder. Minha vida terminou.

- Não, não!

- Sim. Meu peito dói tanto. Parece que arrancaram meu coração fora – chorei.

Ludwig ainda me abraçava, sem dizer nada. Afundei o rosto no peito de meu irmão e chorei, chorei muito.

- Bruder... - ele disse.

- Ja? - perguntei entre soluços.

- Você está sujando minha blusa com catarro...

- Hã?

Quando percebi, tinha molhado a blusa do meu irmão com lágrimas e coriza. Nunca tinha chorado tanto por alguém na vida; na verdade, não estava nem lembrado da última vez que tinha chorado.

- Entschuldigung Bruder – desculpei-me limpando o nariz com as costas da mão.

- Olha para mim – ele disse segurando meu rosto com suas duas mãos, fazendo-me olhar para ele.

- O que aconteceu, de verdade?

- Ele t-terminou comigo! - nova onda de lágrimas – Não tenho mais propósito nenhum, quero morrer!

- Controle-se!

Ludwig me deu um tapa na cara tão forte que senti os dedos dele queimando na minha bochecha.

- Você disse que eu não ia ver meu irmão agindo como ein Schwul, mas agora você se superou!

Fiquei calado, eu sabia que ele estava certo.

- Vou repetir a pergunta: O que aconteceu de verdade? - perguntou, segurando meu rosto novamente.

- Eu não sei ao certo – respondi. - Ele simplesmente terminou comigo. Estávamos conversando normalmente, eu disse que estava me sentindo mal porque você não estava falando comigo desde a semana passada por causa do nosso namoro. Foi quando ele demorou a escrever e, quando o fez, digitou reticências. Eu disse para ele me dizer o que estava acontecendo, porque quando ele coloca reticências, assim como Gregor, ele sempre quer dizer mais. Foi quando ele se estressou e depois me chamou de vagabundo porque eu queria trabalhar! Que era melhor eu me concentrar e estudar para entrar na Universidade.

- Eu disse que ele conseguia ser imbecil com um comentário daqueles, ele ficou com raiva e disse que a gente nunca daria certo e que era melhor para nós dois se terminássemos e desligou o MSN na minha cara. Tentei ligar mas seu celular estava fora de área, agora eu não sei o que fazer, não sei o que eu disse de tão grave, Bruder – meus olhos se encheram de lágrimas novamente mas não chorei, afinal, o tapa ainda estava doendo.

- Bom, pelo menos ele concorda que é bobagem você trabalhar de livreiro – ele disse.- Pelo menos, com toda desgraça, esse cara fez algo bom, Bruder. Esquece ele, é melhor, e concentre-se nos seus exames.

- Essa relação de vocês estava fadada ao fim, mesmo porque, além de ser com um outro cara, é com um cara que mora lá na puta que pariu. Além do mais, Bruder, sinceramente, você achava mesmo que fosse dar certo?

Fiquei calado, olhando de lado. Meu irmão ainda segurava meu rosto.

- Dá pra largar minha cara? - perguntei no tom de costume.

- Ach! Sim. Desculpa – ele me largou.

Levantei-me do chão e fui até a porta, antes de sair, eu disse:

- Sabe, Ludwig... Eu nunca achei que NÃO fosse dar certo.

Fechei a porta atrás de mim e fui para o meu quarto, mal entrei, comecei a chorar muito. Eu amava aquela pessoa de uma maneira que jamais imaginei que pudesse amar; nunca havia sentido nada parecido.

Peguei meu MP3, cheio das nossas músicas e a cada estrofe, sentia uma parte de mim morrer. Nunca tivemos contato algum que não fosse virtual, mas cada momento permanecia vívido. As fotos que ele havia me mandado, os textos de filósofos russos que ele havia me indicado – e que eu havia lido todos-, sua ideologia, nossas pequenas brigas, as horas de conversas madrugada adentro, as olheiras do dia seguinte... Tantos detalhes que passariam desapercebidos, mas que para a gente , para mim, faziam tanto sentido!

,, …,this wonder always leaves, the time always comes to say goodbye', ,this tide always turns' i said, ,this night always falls again and these flowers will always die'...", as palavras do cantor ecoavam na minha mente.

Apesar de não estar mais chorando, as lágrimas simplesmente não queriam parar de umedecer meu rosto e, como estava deitado em minha cama, o travesseiro.

Devo ter adormecido assim.

Era 9 de abril.

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No dia seguinte, acordei muito cedo. Sonhei com Ivan a noite toda. Nos meus sonhos, não havíamos terminado, estávamos bem e isso me fez acordar e me sentir feliz por alguns segundos; até a realidade dos fatos me atingir como um soco no estômago: ele havia terminado comigo.

Como não fazia há muito tempo, fui até a escrivaninha, abri a gaveta e peguei meu diário de infância. A última anotação datava de 7 anos atrás.

,,Não consigo fazer mais nada direito. Tudo na minha frente está borrado,
nem o dia ter amanhecido lindo, não traz mais a mesma alegria de um novo dia, porque tudo é escuro e frio.

Elas vêm sem que eu as espere e me afogam. Talvez não fosse para ser, ou teria sido se fosse. Mas não foi. Não foi...

Quem sabe quando morrer ou em outra vida, se houver, não haverá tanta distância. Quem sabe em outra vida, ou na morte, ninguém chore, mas chorem por quem foi. Por enquanto, só visões embaçadas...", escrevi.

Quando se está em agonia, a pessoa não se preocupa em ser coerente.

Coerente ou não, escrever me fez sentir melhor, pude pensar um pouco sobre ontem... Quando se ama alguém de verdade e se tem consciência deste sentimento, só você mesmo pode encontrar as respostas que procura.

,, Pelo menos falei de novo com meu irmão", pensei fechando o diário e guardando-o de volta na gaveta.

Saí do meu quarto e fui ao banheiro, uma ducha iria melhorar as coisas; era o que eu achava.

Um sentimento de pesar me acompanhou ao longo do dia e meus pais notaram a mudança.

- Filho, está tudo bem? - perguntou meu pai.

- Sim, pai, está tudo ótimo! - forcei um sorriso e menti para meu pai – Por quê?

- Nada. Apenas estou achando você triste.

- Ando meio cansado, só isso.

- Bitte, não se esforce demais. Não quero que você adoeça.

- Danke Vater, não vou adoecer.

- À propósito, meu filho, Tóris passou mais cedo aqui em casa e deixou isto para você – disse meu pai entregando um envelope azul.

Fiquei surpreso, de fato era a letra dele. No mínimo deveria ser uma carta cheia de xingamentos e ofensas, mas será que o Tóris se daria ao trabalho?

- Danke Vater.

Subi para meu quarto ainda intrigado, entrei, fechei a porta atrás de mim, rasguei o envelope e li:

,, Gilbert, precisamos conversar. O Café Nero, às 14h, na segunda-feira, está bom para você?

Por favor, se puder confirmar ainda hoje, agradeço, pode ser a qualquer hora.

Tóris."

,,Não vou nem morto!", pensei com raiva, ,,E ainda mais com esse tom petulante dele!"

Já estava amassando o papel quando percebi, ao final da folha, uma observação:

,,OBS: Sei que você está chateado comigo e que provavelmente você não irá, portanto, até conseguir falar com você, irei todos os dias, no mesmo horário, ao Café."

Pensei que aquela observação fez muita diferença.

,,O que será que ele quer comigo?", pensei. Por um momento, cogitei não aparecer nunca, mas minha curiosidade felina era maior do que o sentimento de decepção. O dia seguinte seria uma sexta-feira, e nas sextas-feiras minhas aulas no colégio são mais curtas, eu poderia me encontrar com ele.

No dia seguinte, percebi que Tóris havia faltado, não dei muita importância porquê àquela altura já não falava com ele.

Tivemos aula de uma série de assuntos chatos, o mais legal foi gramática, para se ter uma ideia do nível de chatice. Às 12:30, fomos liberados e fui ao Café Nero, assim que cheguei, reconheci o Tóris, ele estava usando sua camisa verde favorita, era inconfundível.

- Boa Tarde – disse-lhe.

- Gilbert! - exclamou visivelmente surpreso. Algo em seu rosto me fez pensar se ele não estivera com alergia – Que bom!

Ele se levantou da cadeira e me abraçou muito forte. Minha vez de ficar surpreso.

- Achei que você não viria.

- É, eu também achei que não fosse vir – eu disse seco, empurrando-o educadamente e em seguida, puxando uma cadeira para mim.

- O que você quer comigo? - perguntei bem direto.

- Pedir desculpas. – respondeu - Não agi certo com você, fui um imbecil.

Ele parecia sincero.

- Achei que, agindo daquela forma, você fosse, sei lá, reconsiderar isso de namorar um cara, mas eu estava enganado.

- Eu realmente achei que você não fosse... - ele fez uma pausa muito longa.

- Que eu não fosse o quê, Tóris? - perguntei impaciente.

- Achei que entre mim e ele, você fosse escolher a mim. Achei que você não fosse escolher o Ivan.

- Wie, bitte? - perguntei confuso.

- Achei que se eu desse um gelo em você, talvez você largasse o Ivan e voltasse a ser meu amigo.

- HAHAHAHA!- ri maldosamente.

Tóris olhou muito fixamente para mim, numa mistura de surpresa e confusão.

- Não seja ridículo, Tóris! Você realmente acha que é tão importante assim?

- Eu... Eu achei. - ele disse olhando para suas mãos, em baixo da mesa.

Foi quando percebi que ele estava tentando se controlar.

- Desculpas aceitas.

Ele levantou o olhar para mim.

- Desculpas aceitas, Tóris. E não vamos mais tocar no assunto.

Pedi um capuccino e meu amigo, um latte. Ficamos conversando a tarde toda.

- Então esse é o seu primeiro ,,recomeço"! - disse sorridente.

- É. É meu primeiro ,,recomeço" - respondi um pouco aéreo.

Não contei ao Tóris que Ivan havia terminado comigo, não contei a ele o quanto estava me sentindo horrível. Amizade é como um vaso de alabastro, uma vez quebrado, você pode até colar os pedaços, mas nunca será como antes. As emendas sempre serão visíveis.

Fora isso, tivemos uma tarde agradável, rimos muito, tomamos café, ele me falou mais da Mary Jane, mas eu sabia que não seria mais a mesma coisa. Ele sabia que não seria mais a mesma coisa. Éramos falsos, ou estávamos tentando manter a política de boa vizinhança?

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Passei o fim de semana inteiro em casa, meus pais acharam estranho, mas como sempre me viam com um livro (o que não queria dizer, em absoluto, que eu estava estudando!), acharam por bem não me interromperem, somente Ludwig foi quem se aproximou. Ele bateu à porta:

- Pode entrar – respondi.

- Gilbert? - ele entrou, empurrando a porta lentamente – Você está se sentindo melhor?

Respirei fundo e, girando na cadeira, disse:

- Posso lhe dar duas respostas: a que você quer ouvir ou a que você já sabe.

- Diga, então, a que eu já sei.

- Não, não estou muito bem – disse categórico, parando bem de frente para meu irmão.

- É... Dá para ver.

Ludwig se aproximou de mim e mordeu o lábio inferior, olhando para baixo. Desde pequeno, quando ele queria dizer ou fazer algo e tinha vergonha, ele fazia isso.

- Desembucha, Ludwig.

- Wie bitte?

- Você está mordendo o lábio... Anda, fala logo.

- Não estou!... Digo...

Foi quando ele chegou junto de mim e, meio sem jeito, abraçou-me.

- Você é meu irmão, - ele disse, liberando-me – e me preocupo com você. Não gosto de vê-lo assim, tão para baixo.

Senti um nó na garganta.

- Você gosta tanto assim dele, Gilbert? - perguntou.

- Eu o amo, Ludwig.

- É... Ama mesmo.

- Então, por quê você não fala com ele? - perguntou.

- Eu já tentei, Ludwig! Ele que não quer falar comigo.

- Tentou mesmo?

- Sim. Liguei para ele no dia, mas o celular estava fora de área. Isso já foi mensagem o suficiente para mim.

Meu irmão, que esteve mexendo no meu celular enquanto eu falava, disse:

- Bruder... Esse cara quer falar contigo.

- Não, ele não quer.

- Quer sim. Senão não teriam 60 chamadas não atendidas só dele.

- WAS? -gritei, dando um salto da cadeira e puxando o celular da mão do meu irmão.

Fato. 60 chamadas não atendidas e 61 SMSs, dos quais 60 eram mensagens do tipo ,,Te Ligou", e apenas uma dizia:

,,Por favor, Gilbert, atenda o telefone. Ivan".

Eu havia esquecido o celular no silencioso. Ansioso, peguei o aparelho e olhei para a tela com todas aquelas chamadas.

- Ludwig, você poderia...

- Na klar, Bruder. Boa sorte. - disse meu irmão saindo e fechando a porta atrás de si.

Como não consigo decorar nada, inclusive o número do celular da pessoa que gosto, apertei o botão e redisquei o número que aparecia na tela.

Uma chamada, duas chamadas, três chamadas.

- Gilbert? - perguntou a voz no outro lado.

- Ivan – respondi.

- Desculpe, fui fraco - ele começou.- Fui errado, neguei o que eu sou para tomar uma atitude covarde, unilateral. ,,Nenhuma pessoa merece tuas lagrimas, e quem as merece, não te fará chorar." Desculpe, Gilbert, eu não queria. Parece que realmente eu sou o espírito que sempre nega, desculpe por isso. Estou mal com isso tudo também, você sabe que eu amo você, mesmo, mas não acho que seja saudável perpetuar algo que nunca vai se tornar realidade... Não tenho força, não tenho crença para isso.

Fiz um momento de silêncio do outro lado da linha. Uma parte de mim queria desabar em lágrimas, outra queria mandar ele ir pro Inferno.

- Geh' zum Teufel!, Vá pro Inferno! - eu disse.

Ao contrário do que possa parecer, as coisas terminaram bem entre nós. Mas não voltamos por telefone.

Aparentemente acertamos nossas diferenças e Ivan finalmente confessou que tem ciúmes de Gregor, por mais que eu dissesse que não temos nada. Ele me disse, ainda, que desde que terminamos, ele não conseguia parar de pensar em mim e que achava que a culpa por meu irmão não estar mais falando comigo era dele – o que, de fato, era quase isso -, então, ele quis terminar porque pelo menos eu e Ludwig voltaríamos a ter um diálogo.

Eu disse para ele para parar de ,,achar" as coisas por mim.

Decidimos que seríamos amigos.

Dois recomeços.

Voltamos a passar as madrugadas juntos e a trocar mensagens como fazíamos quando éramos namorados, a única diferença era que não éramos namorados, em tese.

À medida que os dias passavam, meu bom humor aumentava.

- Esse bom humor tem nome, não é? - perguntou-me Gregor uma manhã.

- Tem – respondi.

- Que bom. Esse Ivan consegue ser um escroto, mas se ele fizer você ficar de bom humor, então tá.

Ludwig falava comigo apesar de eu dizer que tinha ,,voltado" com o russo, o que era bom porque eu realmente gostava do meu irmão mais novo.

Um dia antes do meu aniversário, recebi pelos correios um pacote vindo da Rússia. No papel da caixa, uma mensagem: ,,Não abrir até o dia 30 de abril"

Ludwig, que estava ao meu lado, olhou curioso.

- O que será que esse russo colocou aí, Bruder?

- Ich weiß es nicht, Brudi, mas amanhã a gente descobre.

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,,You alone can make my song take flight, it´s over now the music of the night".


Legenda:

- WAS? - o quê?; pronuncia-se: /vás/

- Geh' zum Teufel - expressão idiomática; ao pé da letra: ,,vá pro diabo"; traduzindo: Vá pro Inferno. pronuncia-se: /guê tsum tóifel/

- Ich weiß es nicht - eu não sei. pronuncia-se: /irr/ ou /ish/ (depende da região da Alemanha ou do país [Áustria ou Suiça], eu pronuncio ,,ish", acho mais bonitinho) /váiss/ /es/ /nísht/.

Músicas:

,, …,this wonder always leaves, the time always comes to say goodbye', ,this tide always turns' i said, ,this night always falls again and these flowers will always die'..." - Bloodflowers, The Cure.

,,You alone can make my song take flight, it´s over now the music of the night". - Phantom of the Opera.

PS: Estou com abuso e dó do Gilbert... Ele é muito romântico! Huhuhu. Vamos ver até onde isso vai levá-lo...

MarshT.