Gostaria de pedir desculpas pela demora em upload um novo cap., mas estava meio que sem motivação e inspiração para continuar. Obrigada DarkCherry27, pelo review e desculpa a demora. My bad. T.T


30 de Abril amanheceu às 5:30 com o despertador como um dia qualquer, apenas com um pouco mais de chuva do que de costume. Era uma segunda-feira preguiçosa e cinzenta e se alguém me dissesse que eu poderia ficar em casa, eu não iria achar nada ruim.

Espreguicei-me na cama e lancei um olhar sonolento para fora da janela, as nuvens me diziam que teria um aniversário molhado. Achei sensual.

Levantei-me da cama e, como um autômato, arrumei tudo, fui tomar banho, escovar os dentes, colocar a farda do colégio, pegar meu moletom favorito e buscar qualquer coisa na cozinha para comer. Cara, como eu odiava comer pela manhã!

Mal desci as escadas, três cabeças surgiram:

- Feliz aniversário, Gilbert! - era minha família.

Tomamos café da manhã juntos, e foi bom. Minha mãe tinha feito panquecas com xarope de maple que tínhamos ganho de um primo que mora no Canadá. Panquecas eram uma das coisas que eu mais gostava de comer na vida e, por elas, eu faria uma exceção quanto ao ódio pelo café-da-manhã. Mal enfiei um pedaço na boca o telefone tocou, era Oma. Ela sempre era a primeira a ligar.

- Glücks zum Geburtstag, Sohn! - felicitou-me Oma.

- Danke schön, Oma. Como sempre, a senhora é a primeira.

- Meu neto, eu desejo a você toda a felicidade do mundo não só hoje, mas sempre.

- Obrigado. A senhora vem aqui hoje, não vem?

- Oh, filho, me perdoe, mas não vou poder. Eu gostaria imenso de ir, mas já não posso andar como antes.

- Tudo bem, Oma, kein Problem, hoje passo aí na sua casa para visitar a senhora, e Ludwig também vai comigo.

Minha avó era uma pessoa muito gentil e sempre atenciosa, mas de uns anos pra cá andava muito debilitada e muito idosa. Nossa diferença era de 70 anos e, como eu estava com 17, Oma já tinha 87 anos. Era muito lúcida, mas queixava-se de não poder andar tão bem. Respeitei.

Quando terminei de comer e fui subir as escadas para escovar os dentes e buscar meu material do colégio, Ludwig puxou-me:

- Bruder, o que o russo deu a você? - perguntou curioso.

- Mein Gott! - exclamei – Eu tinha esquecido completamente do presente dele!

- Was? - perguntou meu irmão, intrigado.

- Komm, Brudi, vamos ver o que é!

Subimos, os dois, as escadas como se fôssemos duas crianças que receberam a notícia de que Papai Noel havia lhes deixado um presente, entramos no meu quarto e peguei a caixa. Não era grande, mas também não era pequena. Não era pesada e nem leve. Sacudi.

- Pare, Bruder! - disse Ludwig – Assim você vai quebrar o que quer que tenha aí dentro.

- Ah é!

Abri, digo, rasguei a caixa. Parecia que o Ivan havia gasto trezentos rolos de fita adesiva, porque precisei de um canivete para abrir o papelão e, para minha surpresa, havia uma outra caixa menor dentro.

- Vai ver ele botou várias caixas uma dentro da outra, igual a uma matryoshka – já que ele é russo- e, quando você chegar na última, não ter nada - disse Ludwig pessimista.

- Raus ab! Claro que tem algo dentro.

Se a primeira caixa estava ruim de abrir, a segunda estava pior. Além de enfiar o canivete, pedi pro meu irmão para puxar um pedaço da caixa de um lado enquanto eu puxava o outro pedaço do outro lado, o que era ridículo porque, como Ludwig é mais forte do que eu, não só ele puxava o pedaço dele como puxava o meu – e comigo junto, diga-se de passagem!

Depois de uns bons 15 minutos nesse cabo de guerra idiota, abrimos a caixa. Havia dois pacotes menores, embalados num papel vermelho e outro verde, bem como uma carta.

- Abre os pacotes, Ludwig, vou ler a carta – pedi ao meu irmão.

Assim que rasguei o envelope e tirei o cartão, havia um post it grudado na frente: ,,Leia apenas quando estiver sozinho. Ivan". Peguei a carta e guardei dentro da mochila, eu adorava essas charadas que ele me fazia.

- Então, o que é?

- Brudi, um é um DVD com um filme chamado ,,Donnie Darko" e o outro é um livro chamado ,,Sandman" - disse Ludwig.

- Mein Gott, Mein Gott, Mein Gott! - surtei – Deixa eu ver!

Arranquei os pacotes das mãos do meu irmão.

O fato é que sou nerd; um nerd que deu certo, mas um nerd. Sei praticamente tudo o que se pode saber sobre o Neil Gaiman e seus quadrinhos então, ganhar o número mais recente da coleção quase trouxe lágrimas aos meus olhos! Quase.

- Toma, enfia de uma vez! - disse meu irmão, irritado.

- Se for com o Neil Gailman, eu deixo – respondi com voz de falsete.

- Depois dessa eu me retiro.

- Então cái fora.

- Gilbert, Ludwig, 20 min paras as 7:00h, vocês não têm aula? - gritou nossa mãe da cozinha.

- Scheiß! - dissemos em uníssono.

Corremos para fora do quarto, meu irmão e eu, quase esquecendo de tudo pelo caminho. Segurei forte a carta, mal podia esperar para ler o quê de tão misterioso havia nela.

Ludwig e eu costumávamos ir ao colégio de bicicleta, como muitos colegas da nossa idade, e geralmente, durante o caminho, apostávamos corrida, mas desta vez, apostamos contra o tempo, ou devo dizer, contra o mau-tempo.

Começou a chover e chover bastante. Havíamos esquecido nossos guarda-chuvas e o resultado foi chegar pingando à escola. Por sorte a carta não molhou tanto.

- Feliz Aniversário, Gil – sussurrou meu amigo Gregor, inclinando-se para frente e me passando algo pelo lado esquerdo da carteira. - Toma. É pra você.

Meu amigo gostava de se sentar no último lugar da fila perto da porta, ele dizia que era para facilitar na hora que o professor mandasse ele sair da sala... Além do mais, como eu sempre sentava à sua frente, ele poderia fingir que estava prestando muita atenção ao quadro toda vez que se inclinasse para falar comigo, porque, visto de frente, o professor não conseguiria visualizar o que ele estava fazendo, apesar do Gregor ser um pouco mais alto que eu.

- Obrigado, Greg, mas não precisav...

Já eu, pelo contrário...

- Sr. Beilschmidt... Além de chegar atrasado fica conversando? - disse o professor sem parar o que estava escrevendo no quadro.

,,Porra! O homem consegue me enxergar DE COSTAS?" - pensei revoltado.

- Entschuldigung, Herr Sauer.

Gregor havia me passado um envelope rosinha terrivelmente gay, daqueles de festa infantil de menina. Fiquei bolado, principalmente porque ele estava todo grampeado e escrito com letras garrafais: ,,GILBERT. Feliz Aniversário. Gregor.". Pensei que só faltava ele ter escrito ,,com amor, Gregor", para que minha reputação acabasse de vez... Mesmo assim, abri o envelope. Claro que o abri em baixo da carteira, a fim de que ninguém visse e, para minha surpresa, era uma entrada para o show de ,,Grendel", uma de minhas bandas de aggrotech favoritas, para o dia 7 de maio.

E mais! Quem ia abrir o show era ,,Tactical Sekt", aí sim, minha banda favorita!

- Caramba, Gregor! - disse baixo, mas sem conseguir disfarçar meu entusiasmo – Grendel e Tactical Sekt!

- Gostou?

- Ja, natürlich! - quase gritei.

- Shhhh! - alguém ,,chiou" na sala. Provavelmente Mirella, a ,,garota-chaleira". Ela sempre fazia esse ruído desagradável mesmo se fosse somente alguém que respirasse mais forte dentro da sala.

- Mas as entradas já estavam esgotadas a mais de um mês. Eu chequei no site e tudo! - continuei num tom mais sussurrado.

- É que vocês germânicos talvez não sejam tão insistentes quanto nós dinamarqueses – ele respondeu brincalhão.

- Nos seus sonhos, viking! E não esqueça de que os dinamarqueses também são germânicos.

- Mas diga, você também vai, não é? - perguntei.

- Claro. Por isso que coloquei num envelope de convite. Eu estou ,,convidando você" - disse rindo. - Foi mal aí a cor, mas foi o único que eu achei na gaveta; ainda da festa de 6 anos da minha irmã mais nova.

- Ah, mas é lógico. Não poderia esperar menos de você, viking... - falei – Ainda assim, caramba, gostei demais, cara, obrigado.

Meu amigo sorriu e empurrou minha cabeça para frente, voltando a assumir sua posição desleixada habitual: ele praticamente se deitava na cadeira.

- Relaxa.

A aula não poderia ter sido pior. Eu odiava física com todos os meus genes alemães de herança prussiana. Se bem que os alemães são conhecidos por serem bons engenheiros, não é?

E filósofos! Então vai ver meus genes são mais pro lado dos alemães filósofos!

Enfim - meu problema de foco é incrível, até dentro da minha própria cabeça - o fato é que a aula foi especialmente ruim por ter sido física mecânica, mas foi especialmente boa porque era meu aniversário e eu iria para um show de aggrotech com meu amigo em menos de uma semana. Fiquei ansioso. Tão ansioso que esqueci-me completamente de abrir a carta que Ivan havia enviado junto com outros dois presentes.

À tarde eu e meu irmão, passamos na casa de nossa avó para um almoço em família, nossos pais já estavam lá. Oma tinha feito meu prato favorito, por isso, comi como um porco: Batatas gratinadas ao molho branco e ,,Grün Currywurst" , uma salsicha de tofu com curry que Oma inventou só para mim - porque tenho intolerância a qualquer tipo de carne vermelha – e que só ela consegue fazer bem ao ponto de a pessoa não saber se é tofu ou carne de porco. Para beber, cerveja, claro! Mas a Paulaner, a de Munique, pois é a melhor. Naturtrüb, obwohl!

Por volta das 17h, retornamos à casa e até as 21h – sem brincadeira, até as vinte e uma horas – atendi telefonemas de familiares e amigos, inclusive do Gregor, que demorou uns 20 minutos e do Tóris e seus pais, que me roubaram mais 30 minutos. É chato ser querido... Mas, em compensação, nenhuma ligação do Ivan. Sentindo-me um pouco frustrado, irritado e amaldiçoando Gran Bell por ter inventado o telefone, resolvi, às 21:30h, ligar o computador e acessar meu MSN em busca de um certo russo. Como ele não estava online, o que me pareceu uma falta de consideração, desliguei tudo e fui tomar um banho porque iria sair com o pessoal para um barzinho, coisa leve, afinal, era segunda-feira e o feriado do dia 1 de maio havia sido transferido para a próxima segunda-feira, 7 de maio, o dia do show, o que era bem bom.

A melhor parte do banho é possibilitar às pessoas pensarem e refletirem. O momento do banho é aquele lapso temporal em que o homem se une à Natureza e atinge seu Nirvana pessoal e, após esse instante de catarse, a pessoa sai renovada em seu humor e cheia de ideias na cabeça, ou seja, saímos do banho pessoas melhores, ou, ao menos, pessoas mais limpas - se me permitem o trocadilho de péssima qualidade - espiritualmente. Agora vejo que deve ser por isso que, quando brigamos com alguém educado aquela pessoa diz, ,,Ah! Vai tomar banho!", frase favorita do meu primo, o Roderich.

Contudo, o banho nem sempre é a fonte de catarse mais eficaz, sempre existem aqueles 0,0001% que são exceção à regra e, via de regra, eu faço parte desses 0,0001% da população mundial com os quais sempre aconteceu, acontece ou acontecerá algum tipo de merda. Quando compro um remédio, já nem leio mais a bula, porque fatalmente aquela reação adversa que só acomete os 1/12 dos 2% dos usuários que apresentaram alguma intolerância à substância vai acontecer comigo. É foda. Por isso, se uma boa ducha acalma os ânimos de 99,9999% das pessoas, ela só serviu pra me deixar remoendo ainda mais o fato de o Ivan não ter ligado para mim, mandado e-mail, sinal de fumaça, pombo correio, o que fosse!

Uma pessoa minimamente sensata teria pego o telefone e ligado, falado com a pessoa e resolvido o problema de vez, mas eu não faço o tipo ,,sensato" de pessoa, pelo contrário, faço o tipo ,,puto" de pessoa. Faço o tipo ,,acho um desaforo eu ter que ligar, no meu aniversário, para uma pessoa que supostamente deveria ligar para mim" de pessoa.

,,Obrigado por estragar meu aniversário, Ivan, seu desgraçado!" - remoí enquanto fazia moicanos absurdos com a espuma do xampú.

Pelo menos a noite com meus amigos foi boa e bebi muita tequila. Não peguei ninguém porque, ao contrário do russo filho da puta que (ainda) namoro, sou uma pessoa de escrúpulos e tenho (ainda) consideração por ele, mas oportunidades não faltaram, o bar estava cheio de garotas incríveis e a mais incrível delas, Elizaveta, estava me dando mole. Será que eu gostava daquele russo bastardo comunista?

Quanto à carta... Bem, digamos que eu tenha tido um dia muito ocupado e estressante e, por uma brincadeira de mal gosto do Destino e um lapso perfeitamente admissível de memória, eu meio que tenha... Humm... Eu meio que tenha ,,protegido" a carta de olhares curiosos – inclusive o meu -, colocando-a estrategicamente no ponto cego, dentro da mochila e... Está bem, está bem, eu me esqueci da carta, foda-se.

xxxxxxxxxxxxx

Mal acessei o MSN, a janelinha do russo bastardo comunista pululou irritante e laranja, contribuindo ainda mais para o meu mal, digo, o meu péssimo humor.

,,Então, o que você me diz?"

,,Dizer o quê?" - respondi seco, com vontade de mandá-lo tomar naquele orifício profundo, úmido e escuro.

,,O que me diz quanto à carta que eu mandei para você?"

Então, como se eu tivesse sido fulminado por um raio do poderoso Zeus do Monte Olimpo, senti o remorso corroer minha entranhas.

,,Como pude ter esquecido da carta?" - pensei.

E, como qualquer pessoa acometida pelo remorso, fiz a coisa mais racional e óbvia que uma pessoa que ama incondicionalmente outra pode fazer: eu menti.

Antes de me crucificarem, eu não apenas menti descaradamente!

Eu enrolei...

No começo... E enrolei um bocado!

Sim. Pra ganhar tempo! Só no final é que tive de mentir, afinal, meu namorado não é burro. Que pena... Digo, que coisa. Mas confesso sim que menti, e mentiria novamente se preciso fosse só para não deixar o meu russo chateado comigo!

,,O que você acha?" - tentei ganhar tempo.

Vi que responder a uma pergunta com outra pergunta não era algo muito inteligente a se fazer, pois iria, no mínimo, levantar algumas suspeitas por parte do meu namorado. Rezando para todos os deuses de todos os panteões conhecidos, desejei secretamente que meu namorado fosse ,,chato" o suficiente para cair nessa minha provocação e me passar um sermão quilométrico do quanto estou sendo evasivo e irônico sem necessidade, afinal, um ,,o que você acha?" pode ter vários significados, um deles poderia ser: ,,Sua proposta é tão boa que é óbvio que eu aceito e estou usando de fina ironia perguntando o óbvio a você".

Ou outro deles poderia ser: ,,Sua proposta é tão ruim que é óbvio que eu não aceito e estou usando de fina ironia perguntando o óbvio a você".

Um ou outro caminho, responder com uma pergunta me faria ganhar tempo para voar até a mochila, procurar a carta, fazer uma leitura dinâmica mal e porcamente de seu conteúdo e apresentar algum juízo de valor, ou, ao menos, era esse o meu plano.

,,O que EU acho?"

Ufa! Parece que ele havia puxado para o lado pessoal da coisa e iria me passar sermão quilométrico, pelo tempo que aquele ícone de ,,tem gente escrevendo" ficou lá, no canto inferior esquerdo da janela de diálogo.

Enquanto isso, despejei tudo o que tinha dentro da mochila em cima da cama até encontrar a carta e, para minha surpresa – e desespero -, a bendita carta tinha 3 folhas frente e verso e uma Ficha de Inscrição para o vestibular da Universidade de Moscou. Será que ele queria que eu fosse pra lá?

Lancei uma olhada rápida para a tela do computador e vi metros e metros e metros de coisas escritas e mais metros e metros e metros de coisas escritas chegando. Dei-me ao trabalho de ler a primeira linha de cada parágrafo.

,, Eu disse a você que não poderia ligar..."

,, Não posso fazer nada se ficou chateado..."

,, Achei que não fosse tão infantil a esse ponto..."

,, ... amava você..."

,, ...armado com quatro pedras na mão..."

,, ...inocentemente, eu só perguntei..."

,, Se eu soubesse que você viria com sangue nos olhos..."

,, Palavras ofensivas..."

,, Você realmente acha que eu sou imbecil, não é, Gilbert?"

E etc, etc, etc... Não era à toa que eu o chamava de ,,Drama Queen" cá com meus botões.

Ivan possuía o talento singular de fazer tempestade em copo d'água por qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo. Ele conseguia distorcer as coisas com uma proeza digna de um ninja de filme oriental de ficção, portanto, enquanto ele preenchia minha tela de MSN com frases longas e melodramáticas em sua letra vermelha (e o tanto que ele escreveu me deu a sensação de estar, realmente, com sangue nos olhos), li muito mais ou menos a carta.

Em linhas gerais, meu namorado perguntava se eu havia gostado dos presentes, que o próximo seria uma passagem para eu ir lá e ficar na casa dele, disse, também, que não iria poder me ligar no dia do meu aniversário porque ele iria dar plantão numa clínica longínqua na Sibéria – o que era terrível pois, enquanto no meu país, quando alguém diz ,,vai pro Inferno!" à outrem, deseja que o tal outrem vá para um lugar muito ruim, na Rússia, o povo diz ,,vai pra Sibéria!", então, pensei se não teria sido mais ,,caridoso" se o reitor da Universidade onde o Ivan estudava tivesse simplesmente mandado ele se foder. Também, em certa altura da carta, ele me mandou um recorte de uma revista internacionalmente reconhecida citando a Universidade de Moscou como a universidade com o melhor curso de Música da Europa e Oriente Próximo, então, ele teve a gentil ideia de me mandar o formulário de inscrição daquela instituição de ensino superior com o fito de me convencer em ir morar lá e, tendo dito isso, lá se foram mais uns 20 parágrafos dele divagando o quão perfeito seria a nossa vida juntos. Eu achei extremamente fofo e fiquei feliz, apesar de ter pulado muitos parágrafos de palavras amorosas que ele me dirigia.

Devo ter levado uns 10 minutos para ler tudo e, quando voltei para o MSN, a ira divina de Ivan havia se abatido sobre mim. Só faltou me chamar de arroz doce, porque o resto ele havia feito.

Burro, como só sendo eu mesmo, ao invés de pedir desculpas ou escrever coisas para acalmar meu namorado, fiz eclodir o ovo da fúria eslava dos descendentes de Ivan, o Terrível.

,,Ora, que exagero, Ivan, não é como se eu tivesse dito qualquer coisa de ofensiva. Deixa de frescura!"

,,Ah! AGORA você responde... A julgar pelo tempo, deve ter me ignorado e ido fazer qualquer outra coisa, enquanto eu fiquei aqui, escrevendo para você feito um idiota!"

,,Se você diz..." - pensei comigo e ri.

,,Eu não fui fazer outra coisa. Eu estava lendo o que você escreveu." - o que não era uma mentira, certo? Só não disse que eu estava lendo a carta dele.

Vi quando o ícone do ,,tem gente escrevendo" apareceu e desapareceu algumas vezes, o que me levou a crer que ele não sabia o que escrever. Aproveitei que ele estava hesitando e fui ler o que estava escrito no MSN de fato e, para minha surpresa, o Ivan mostrou que me conhecia melhor do que eu imaginava, porque no meio dos enormes parágrafos, havia um monte de coisas que não tinham nada a ver, então, se eu realmente estivesse prestando atenção ao que ele havia escrito, teria me manifestado, certo?

,,Parece que fui pego." - pensei

Depois de ter realmente lido tudo, achei estranho que o Ivan não tivesse escrito mais nada, então percebi que ,,Ivan Braginski está offline". Merda!

Meu coração começou a bater descompassadamente, minhas mãos ficaram frias e senti um vazio nauseante no estômago (que nada tinha a ver com fome ou vermes), sinais típicos de que eu estava pressentindo que algo muito, muito ruim estava se aproximando.

Brigar com o Ivan sempre me deixava na merda, na fossa mais profunda e abissal da existência humana, mas eu não tinha sido honesto com ele, então deveria sofrer as consequências, e só de pensar nas consequências...

- Nãããooo! - gritei - Não.


Oma = vovó

Glücks zum Geburtstag, Sohn!: Feliz aniversário, filho.

Danke schön = muito obrigada

kein problem = sem problemas

Raus ab! = algo tipo, cala a boca!

Paulaner = cerveja de Munique, muio, muito, MUITO boa, a única cerveja que eu gosto, pena que é cara T.T

Currywurst = salsicha com carne de porco com o tempero curry - nunca comi pq n como carne, mas dizem q é muito boa e é bem famosa em Berlim. ,,grün" é ,,verde", isso de Grün Currywurst não deve existir, afinal, eu meio que ,,lasquei" com o prato típico alemão inventando uma versão vegetariana. Desculpa Alemanha! T.T