E mais uma vez, aqui estou eu para pedir sinceras desculpas por demorar tanto a upload o cap. 7. A partir de agora, a fic vai assumir a verdadeira natureza ,,M" dela, huhuhu.

Muito obrigada Sih, Haine Weasley, DarkCherry27, o feedback de vocês é muito importante para a gente. Acho que o Gilbert gostaria que vocês soubessem disso, huhuhu.


Madrugada do dia 1º de maio, foi essa a infeliz data do meu infeliz desfecho com o Ivan. Eu não deveria ter tomado tantas tequilas na noite anterior, ou, se o tivesse feito, não deveria ter entrado no MSN, não deveria ter mentido para o Ivan.

Deveria, sim, ter lido a carta, ter agradecido os presentes, ter dito a ele que o amava e que o presente de aniversário dele já estava comprado e que eu já havia mandando pelos Correios e estava contando os dias até o dia 07/5 – seu aniversário-, ou seja, deveria ter contado a verdade e me odiei muito por não ter feito as coisas que deveria ter feito e por ter feito as coisas que não deveria ter feito. Era algo perto de 2h da manhã e eu ainda remoía a mancada.

Sem perspectivas de ter sono e ainda com aquela sensação horrorosa na barriga, peguei novamente a carta e, dessa vez, preocupei-me em ler todo seu conteúdo, saboreando cada palavra como se fosse a última.

Sua caligrafia troncha... Quantas vezes ele me pedia desculpas por ter a letra mais feia de toda a Rússia e quantas vezes eu lhe dizia que a letra dele era linda, que me lembrava um eletrocardiograma...

,,Não vejo nada de mais na sua letra, Bär, ela é linda. Parece um eletrocardiograma!"

,,..."

,,É sério!"

,,Um eletrocardiograma, Krolik? Eu sei que para decifrar meus hieroglifos precisaria de uma Pedra de Rosetta alienígena, mas daí a ser um eletrocardiograma?"

,,Ah, não! Não é isso o que eu quero dizer! Eu quero dizer que adoro a sua letra, acho linda, de verdade, ela tem altos e baixos, você escreve forte, uma letra grande, e, ao contrário do que você diz, eu consigo compreendê-la claramente."

,,É porque eu escrevo em letra de forma em cartas para você..."

,,Ah, é?..."

,,É..."

,,Humm..."

,,Acho... Que vou fazer um curso rápido de caligrafia..."

,,Acho que você não precisa."

,,Como não? Se essa minha ,letra de médico' já está parecendo um eletrocardiograma! Isso é uma coisa ruim."

,,Nenhum momento eu disse que isso era uma coisa ruim."

,,Mas nenhum momento disse que era uma coisa boa."

,,Mas é uma coisa boa, Bär."

,,Como?"

,,Você consegue escrever certinho os batimentos do meu coração sempre que ,estou' com você. "

,,...''

,,Eu quero você aqui, agora, Krolik."

Mal terminei de pensar, senti um nó na garganta. Será que eu ainda iria ler mais daquele eletrocardiograma?

Meu Krolik,

Feliz aniversário. Eu amo você.

Apesar de termos acertado de comum acordo não sermos namorados, no meu coração é como se fôssemos; como se nunca tivéssemos deixado de ser.

Não sei se você ainda se lembra de quando virou o meu krolik, mas deixe-me refrescar a sua memória: aquela foto.

Dentuço!

Você deve estar irritado, agora, e deve estar esbravejando, ,,NÃO SOU DENTUÇO!", queria muito estar aí com você para ver essa cena, mas, principalmente, para beijá-lo muito – tendo, é claro, o cuidado para não esbarrar nesses seus enormes incisivos centrais ( e aqui, ele desenhou uma arcada dentária DENTUÇA perfeita e apontou uma seta para a frase: Krolik's sexy teeth).

Bom, vou parar – por hora – de atormentá-lo já que é seu aniversário. 17 anos, hein? Está ficando homem! O que eu não daria para checar com meus próprios olhos CLÍNICOS essa evolução...

À essa altura, os Correios devem ter enviado o pacote e você já deve tê-lo aberto, não foi?

Então, o que achou?

O próximo presente de aniversário será uma passagem de avião só de ida para você vir aqui para minha casa, mas, enquanto isso não acontece, enquanto não posso estar junto a você, fico implorando esmolas de sonhos ao deus Hypnos, o Sandman, para que ele me permita sonhar com você nem que seja um pouco. Há noites que meus apelos são concedidos, mas há noites que não, então me percebo Donnie Darko sem o Frank e minha realidade não tem sentido. (Aqui, não pude conter as lágrimas, que caíam copiosamente molhando todo o papel. Ele sempre escrevia as melhores cartas e eu ainda estava no começo.)

Krolik, mil desculpas, mas não vou poder falar com você no dia do seu aniversário.

Amanhã (dia 25/04), irei com meus colegas de turma e alguns professores e residentes à Sibéria. Vamos dar um plantão solidário numa aldeia chamada Vagaitsevo, na região de Novosibirsk que fica a 3.440 km de Moscou (precisaremos viajar mais alguns bons quilômetros de carro até Vagaitsevo).

Em Vagaitsevo vai ser meio complicado conseguir sinal de celular e internet dentro do hospital, porque lá tais serviços são um luxo reservado a poucos. Basicamente, só para emergências. Desculpa.

Voltarei dia 1º de maio, na madrugada. Com sorte, poderei falar com você caso você esteja online, não vou ligar pois não sei ao certo a hora exata que chegaremos. Desculpa, meu amor.

Guil, como vão as coisas em casa?

Espero que esteja tudo bem e que Ludwig e você estejam bem.

Você desistiu mesmo dessa bobagem de ser livreiro, não foi?

Não faça isso, Krolik. Você não precisa provar nada a ninguém, seja quem você é, estude muito e faça o que você ama, aí sim você será feliz e realizado.

Não vá atrás da cabeça de ninguém e fique longe do tal do Álvaro, Alfredo, Alface, sei lá! Não vá atrás daquele tiozão da livraria!

Se você quiser ir atrás de alguém, por que não vir atrás de mim, aqui na Rússia?

Eu vou arrumar um estágio em um Hospital, enquanto ainda não posso fazer residência, e ouvi dizer que eles pagam mais ou menos bem (mais pra menos do que pra mais, mas tudo bem...). Não vou prometer uma mansão e um Audi R8 na garagem, mas também não será um barraco frio e miserável, além do mais, se casarmos, você poderá morar comigo no alojamento da faculdade!

Então, voltamos para a questão: não é uma mansão, mas também não é um barraco, pense nisso.

Ah!

Por falar na faculdade e antes que eu me esqueça, meu colega me mostrou uma matéria da Horas Revista – a qual destaquei e enviei para você nesta carta – indicando as cinco melhores Universidades com os cinco melhores cursos de Música do mundo, e advinha quem está classificada no ranking de melhor curso de Música da Europa e Oriente Próximo?

Minha Universidade!

Portanto, Krolik, faça vestibular para música e venha morar aqui em Moscou!

Estou enviando o Formulário de Inscrição, mas faça logo pois o prazo se encerra dia 15 de maio!

Você pode fazer a inscrição online, peguei o formulário só para dar um incentivo, e não se preocupe, o site está traduzido em 5 línguas diferentes e você não precisa ser fluente em russo para cursar Música, mas nada impedirá se você quiser aprender, principalmente porque eu terei o maior prazer em ensiná-lo a minha língua-mãe – e muitas outras coisas mais...

Por falar em música, uma coisa que eu sempre quis era ouvir você tocando guitarra. Imagino que você toca bem e, um dia, quem sabe, não vai realizar seu sonho de fazer turnês ao redor do mundo? E eu, naturalmente, serei seu médico de plantão!

Só não vá se drogar! Quanto ao ,,sexo e o rock 'n' roll", eu ajudo você.

Ô se ajudo!

Especialmente no primeiro.

Guil, mal desliguei o MSN com você, mas já estou com saudades. Mais ainda sabendo que vou passar alguns dias sem escrever para você e nem vê-lo e a seus dentões pela webcam.

Todos os dias amaldiçoo essa distância titânica que me mantém longe do meu Krolik. Antes minha universidade fosse em Kaliningrad, aí seria mais simples encontrar-me com você.

Você já ouviu falar em Kaliningrad Oblast, Krolik?

É um enclave russo, antigamente, era um pedaço da Prússia, país de origem de sua família, não é?

Você já foi lá?

Só estive duas vezes e é um lugar belo.

O que você me diz de se encontrar comigo lá, coelhinho?

A razão de eu querer que você lesse esta carta sozinho é exatamente esta; estou convidando você para passarmos meu aniversário juntos em Kaliningrad. O que me diz?

Dia 7 de maio vai ser feriado aí na Alemanha também, não é?

Coloquei sua passagem de avião e sua reserva no hotel dentro do formulário de inscrição da Universidade.

Como você deve ter percebido, a passagem está marcada para o dia 4 de maio, sexta-feira, às 13h e a volta, dia 7 de maio, às 16h.

Tive o cuidado de marcar um horário que desse para você assistir à aula pela manhã e chegar à tempo e com folga ao aeroporto.

Seu vôo deve durar no máximo 1h, e não se preocupe, estarei no aeroporto esperando por você.

Ah! Não se preocupe com o visto de entrada, já cuidei de tudo.

E sim, eu premeditei tudo isso e não contei a você porque quis fazer uma surpresa.

Desculpa se estou sendo muito intrometido e precipitado, mas é que se eu não o vir pessoalmente, não tocar em você, não sentir que você é de carne e osso, eu vou endoidar!

Sinta-se livre para cancelar, caso você não possa ir... Ah! Dane-se!

Venha, Krolik!

Venha que estarei esperando por você no aeroporto de Kaliningrad!

Beijos nessa sua boca dentuça e mal-criada.

Sempre e para sempre seu,

Bär.

xxxxxxxxxxxxx

,,Oh- Mein- Gott!", exclamei alto comigo mesmo.

Eu não havia aberto o formulário de inscrição e não havia prestado atenção a este parágrafo da carta.

De repente, senti como se no lugar onde havia um coração fosse agora nada mais do que um buraco vazado por onde uma corrente de ar gélido passava.

Senti que tinha feito a pior e mais hedionda sacanagem com o Ivan e duvidei se um dia ele iria falar comigo.

Tomado por um misto de desespero e otimismo tresloucado, peguei o celular e liguei para o Ivan, só iria desistir quando ele me atendesse.

O telefone chamava, chamava e chamava, mas ninguém atendia do outro lado.

Comecei a suar frio, o coração descompassado. Minhas mãos trêmulas se atrapalhavam todas as vezes em que pressionava as teclas do celular.

- VERDAMNT! Malditos botões minúsculos desse maldito celular! - explodi, atirando o aparelho no chão com toda a força.

Minhas lágrimas turvavam meus olhos e deixavam trilhas úmidas em minhas bochechas.

Ele não atendia o maldito telefone! Ele não atendia!

Pensamentos de autodestruição começaram a povoar minha mente e eu não consegui pensar em nada com clareza, somente na enorme dor que estava sentindo, uma dor que era um misto do ódio de mim por mim mesmo, do ódio que Ivan deveria estar sentindo por mim e remorso, muito remorso.

As vozes na minha cabeça gritavam que eu era a pessoa mais desprezível do mundo e lançavam em minhas retinas uma imagem mental de Ivan decepcionado comigo. As vozes diziam que ele nunca mais me dirigiria palavra.

Comecei a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer. Catei os cacos do celular e arrisquei outra ligação. Fiquei surpreso e aliviado ao escutar o som típico de que havia conseguido completar a chamada; para minha sorte, não tinha dado perda total no telefone.

Como se Ivan não atendesse e nem respondesse as minhas mensagens, fiquei atordoado. O lugar onde antes havia um coração estava doendo tanto que fiquei sem ar.

Sem raciocinar muito, fui até minha escrivaninha e peguei um canivete enferrujado que tinha dentro do estojo e comecei a lanhar os pulsos; primeiro o pulso direito, depois o esquerdo.

Os cortes não foram profundos para caracterizar uma tentativa de suicídio, e nem doíam tanto ao ponto de me fazerem esquecer um pouco a dor dentro do meu peito, por isso, fiquei irritado.

- Por- que vo-cê- não- me- trás- a-lí-vi-o? - exclamei comigo mesmo empurrando a lâmina com mais força contra a pele e cortando ainda mais.

- GILBERT! Que porra é essa que você está fazendo, imbecil?

Era o Ludwig, meu irmão.

Ele deve ter escutado quando atirei o celular no chão, sei lá, só sei que ele entrou no meu quarto e estava estranhamente pálido, lívido como um cadáver.

- O que foi, Ludwig? - perguntei.

- Vou ligar para o hospital agora!

,,Hospital?", pensei, ,,Por que ele quer um hospital?".

Foi quando olhei para meu colo e vi que, talvez, eu tenha exagerado um pouco.

xxxxxxxxxxxxx

Treze pontos.

Ao todo, levei treze pontos nos pulsos.

O médico disse que eu tive muita sorte.

- 1 milímetro a mais e poderia ter sido fatal. Da próxima vez, tome muito cuidado na hora em que for tomar banho, Gilbert. Um dos acidente domésticos mais recorrentes é exatamente esse, escorregar, cair e quebrar o vidro do box do banheiro. Se os senhores soubessem quantas pessoas por ano eu atendo com esse mesmo problema, Frau und Herr Beilschmidt, ficariam impressionados!

O médico sabia que eu não havia escorregado no box do banheiro.

Ludwig sabia que eu não havia escorregado no box do banheiro.

Eu sabia que não havia escorregado no box do banheiro, mas meus pais não sabiam que eu não havia escorregado no box do banheiro.

Minha mãe estava petrificada. Olhos arregalados, grudados no Dr. Vogel e mãos firmes agarradas às mãos do meu pai, como se caso ela as soltasse, o mundo desabaria debaixo de seus pés.

Ver o quanto minha família estava tensa me fez odiar ainda mais a mim mesmo. Mutti não merecia isto, Vatti não merecia isto, Ludwig não merecia isto e nem Ivan merecia isto.

Eu era o pior e mais egoísta de todos os seres humanos.

De volta para casa, ninguém se falou. Minha mãe mantinha os olhos fixos na estrada, dirigindo o Passat da família como se fosse a última vez. Talvez, no fundo, ela desconfiasse que eu não tinha escorregado no box.

Meu pai, para tentar quebrar o gelo, disse:

- A partir de amanhã, apenas boxes de plástico nos banheiros. - ele fez uma longa pausa - E tapetes antiderrapantes.

Ouvir a voz de meu pai me reconfortou de uma certa forma.

No banco de trás, Ludwig olhava pela janela do carro, o queixo apoiado na mão esquerda. Empurrei-me e me sentei no banco do meio, ficando perto de meu irmão mais novo, que continuava imóvel. Deitei a cabeça em seu ombro, minhas mãos displicentemente largadas no colo revelando os pulsos recém-enfaixados.

- Obrigado, Bruder – sussurrei.

Ludwig não se mexeu; estava chateado.

Desencostei de meu irmão pois eu não estava em posição de cobrar atenção dele nem de repreendê-lo por não falar comigo, pelo contrário, eu estava com vergonha de ter feito meu irmão mentir para livrar a minha cara.

Pelos lampejos de memória que que às vezes me vem à mente, suponho como Ludwig conseguiu inventar a história do escorregão no banheiro.

Ao entrar no meu quarto e me ver naquele estado, meu irmão deve ter me levado até o banheiro. Deve ter ligado a ducha para tentar limpar o sangue e, em algum momento, nós dois devemos ter perdido o equilíbrio e caído, nos chocando contra o vidro do box, espatifando-o.

Isso explica os pequenos cortes no meu rosto e a mão direita enfaixada de meu irmão mais novo.

Em algum momento, Mutti e Vatti devem ter acordado com o barulho e corrido até nosso banheiro, local de onde vinha o barulho, e nos visto alí.

Lud deve ter dito que eu caí sozinho, mas que, coincidentemente, ele estava passando pelo local na hora e me ajudou; contudo, não pôde evitar se cortar com os cacos de vidro.

Se não era essa a versão oficial, então deveria ser algo próximo a isso. Não sei, não perguntei e mesmo se tivesse perguntado, era muito provável que meu irmão não me contasse, pois ele tinha o hábito de guardar as coisas para ele mesmo, principalmente coisas ruins.

Meu irmãozinho... Tão mais maduro do que eu...

Olhei sua mão enfaixada.

,,Quantas vezes mais farei esse cara sofrer por minha causa?", pensei comigo mesmo e não pude evitar que meus olhos se enchessem de lágrimas.

Quase inaudivelmente, sussurrei mais para mim mesmo do que para ele:

- Bitte, não desiste de mim.

Então, para minha surpresa, meu irmão pegou uma de minhas mãos, segurando-a bem forte e só largou quando chegamos à casa.

xxxxxxxxxxxxx

Nem eu e nem Ludwig fomos à escola no dia seguinte.

Acordei um pouco tarde e não vi nem Vatti e nem Mutti naquela manhã, exceto por um bilhete que Mutti escreveu e deixou em cima de minha escrivaninha, ao lado de minha cama.

Ela dizia que voltaria às 14h para almoçarmos juntos e que, por volta das 12:00h, eu tirasse o camarão de dentro do freezer para descongelar, entre outras pequenas recomendações.

Quando finalmente desci, eram 11h e encontrei Ludwig, que estava estudando na mesa da cozinha; ele dizia que a luz, lá, era melhor. Não trocamos palavra, eu ainda estava com vergonha pelo que tinha acontecido naquela madrugada.

Ele deve ter percebido o meu desconforto, pois, assim que me preparei para sair da cozinha e deixá-lo em paz, ele me segurou pelo pulso, largando rapidamente quando viu que me contorci um pouco com a dor.

- Entschuldigung – disse rápido.

- Gilbert, quero falar com você.

- Diga, Bruder.

- Por que você fez isso?

- Eu...

Como era difícil explicar o porquê!

- Eu não sei – respondi desolado.

- Não sabe, Bruder? - ele perguntou calmamente.

- É que aqui dentro – levei as mãos à cabeça -, aqui dentro tinham tantas vozes gritando comigo, eu estava sentindo tanta dor, que a única forma que encontrei de fazer as vozes calarem e a dor passar foi aquela. Eu não queria, Bruder, eu não queria aquilo, não queria deixar você preocupado.

Ludwig me olhou bem no fundo dos olhos, um misto de confusão e incredulidade.

Tive raiva da incredulidade dele.

- Err... Explica melhor, Gilbert, Bitte.

Contei tudo ao meu irmão, desde o início.

Mostrei a carta para ele, falei sobre a ida a Kaliningrad, falei da mentira, das minhas tentativas de emendar um soneto ruim, das ligações que Ivan não atendeu e das mensagens que ele não respondeu, enfim, abri-me completamente com meu irmão mais novo, como sempre fizemos desde pequenos.

Ele me interrompeu poucas vezes, na maior parte do tempo me deixou falar e falar. Emitiu sua opinião um ou outro momento e foi o bastante para que eu sentisse que havia esperança para pirado como eu.

- Eu cada vez mais entendo você menos, irmão – ele disse -, mas uma coisa eu devo admitir: você realmente gosta desse russo.

Fiquei olhando para ele um pouco ansioso.

- Sabe, Gilbert? Vá a Kaliningrad.

- Como assim, Ludwig? Ele me odeia!

- Odeia não. Apesar de você não ter sido honesto, algo me diz que esse cara gosta de você.

- …

- Não se preocupe, Bruder, eu dou cobertura para você. Vou dizer ao Vatti e à Mutti que você vai passar o fim de semana prolongado com o Gregor e...

- Verdamnt!

- Was ist los?

- Gregor.

- O que tem ele?

- Dia 7 de maio, é o dia do show de Tactical Sekt. Vamos juntos.

- Vai ser a que horas?

- Deve começar à 21h.

- Ótimo.

- Ótimo?

- Sim. Você vai direto do aeroporto para o show, afinal, você chega por volta das 16h, nicht Wahr?

- Genau! Du bist ein Genie Bruder!

xxxxxxxxxxxxx

Apesar do Ivan não ter retornado minhas ligações e nem ter respondido às minhas mensagens, eu estava otimista. Iria vê-lo quer ele quisesse, quer não.

No colégio, chamei meu amigo Gregor num canto e contei a ele o que tinha acontecido, o porquê de eu ter faltado a aula no dia anterior e meu fatídico ,,snap" mental que me fez bater no hospital.

- Putz, Gilbert... Cara, isso é muito sério!

- É... - falei ainda com vergonha – Eu só contei a verdade a você, Gregor, porque você é meu amigo e eu confio em você.

Contei ao dinamarquês o plano de Ludwig e ele não conseguiu esconder a surpresa:

- Ludwig ajudando você a se encontrar com Ivan? Hahaha, depois disso, quem sou eu para não ajudá-lo também?

- Aliás – ele continuou -, vou dizer para Ludwig que eu pego você no aeroporto na volta, daí nós vamos direto ao show.

- Obrigado, Gregor.

- Relaxa.

Por mais que meu amigo parecesse desligado, notei que durante todo o tempo em que estivemos juntos, conversando no nosso lugar favorito no pátio, ele não parou de olhar para meus pulsos. Pela primeira vez na vida vi Gregor esboçar alguma preocupação.

Na quinta-feira à noite, enquanto arrumei uma mala pequena, comecei a sentir os sintomas da ansiedade antecipada. Talvez, amanhã, naquela mesma hora, eu fosse ver o Ivan, talvez até estar com ele, ou talvez não. Talvez ele ainda estaria magoado comigo e não aparecesse no aeroporto.

As chances de ele estar eram grandes, mas as de ele não estar também eram e isso me preocupou enormemente.

Sexta-feira pela manhã passou rápido, quando mal dei por mim já estava no portão de embarque me despedindo de Ludwig e Gregor, que resolveu ir de última hora.

Prometi ao meu irmão que ligaria assim que pisasse em Kaliningrad e arranjasse um telefone público ou um lugar com wi-fi para mandar um mensagem, afinal, se eu ligasse do meu celular pela operadora, sairia muito caro e com certeza meus pais iriam perceber, quando a conta chegasse, que eu não estava mesmo na casa de Gregor.

Meu coração estava batendo de um jeito estranho quando sentei na poltrona do avião, num ritmo indeciso, não sabia se de ansiedade ou felicidade. Era algo no meio, no limiar entre dor e prazer, entre expectativa ou decepção.

Não consegui comer nada e nem dormir, aqueles foram os 60 minutos mais estranhos da minha vida.

,,E se ele não tiver vindo ao aeroporto, ou melhor, e se ele não tiver vindo a Kaliningrad?", fiquei pensando enquanto esperava minha mala chegar na esteira.

Peguei a mala assim que ela apareceu. Uma mala pequena da Victorinox que eu havia comprado há dois anos, quando fui a Berna com a excursão da escola, ela era inconfundível.

Olhei, para as placas e fiquei aliviado em ver que tinha a tradução em inglês, afinal, a coisa estava russa pro meu lado, literalmente.

Gott sei dank, não tive problemas para fazer a imigração graças ao visto e a permissão de permanência que Ivan havia conseguido para mim. É porque, para se entrar e permanecer na Rússia por um determinado tempo, a pessoa precisa de uma permissão, quase um ,,convite" de um russo, que diz ao governo que se responsabiliza por você lá. No meu caso, o próprio Ivan disse que ,,tomaria conta" de mim, por isso que foi bem rápido, mas caso eu estivesse indo sozinho, o hotel no qual eu me hospedasse é que teria que solicitar a permissão perante o governo, alegando que se responsabilizaria por mim, para eu entrar em território russo.

É meio complicado de entender e eu não sei explicar, mas é algo assim.

Após ser revistado pela enésima vez por um russo de cenho franzido, pude sair pelo portão de desembarque. Confesso que fiquei levemente apavorado com o número infindável de pessoas indo e vindo em todas as direções, arrastando malas, falando alto ao celular num idioma completamente estranho aos meus ouvidos.

Olhei ao redor procurando qualquer coisa que parecesse uma banca de jornal ou uma lan house, mas não achei.

Avistei de longe um homem vestido de policial e, como minha mãe sempre me ensinou que, caso eu estivesse perdido, procurasse um policial e pedisse informações a ele, fui em direção ao homem como se ele fosse um anjo na terra.

Assim que abri a boca para perguntar ao cara, senti alguém me puxando pelo ombro, forçando-me a olhar em sua direção.

- Perdido?

Era o Ivan.

Fiquei olhando para ele durante o que me pareceu horas.

No início, ou não sabia o que pensar, então pensei qualquer coisa.

,,Nossa, como ele é alto! Como é loiro! Nunca vi ninguém com olhos violeta! Caralho, como ele é bonito!"

Eu devo ter feito uma cara muito, muito escrota, porque Ivan começou a sorrir para mim. Seus lábios se moviam, mas eu não estava escutando nada do que ele dizia.

- V-você veio – eu gaguejei mais num sussurro do que numa frase.

- Você veio – ele respondeu e sorriu para mim.

E até hoje aquele sorriso ficou gravado na minha memória, pois de repente e não mais que de repente, senti minhas bochechas ficarem úmidas com minhas lágrimas.


Verdamnt - maldição; porra.

Bitte - por favor

Entshuldigung - desculpe-me

Was ist los? - o que aconteceu?

nicht Wahr? - não é verdade?

Genau. Du bist ein Genie, Bruder! - Sim. Você é um gênio, irmão!

Gott sei dank - Graças a Deus.

Ah! Quanto ao aeroporto de Kaliningrad, eu não sei como é a burocaria lá, pois ainda não conheço (huhuhuhu), mas como faz parte da Rússia, acho que o procedimento é o mesmo do de São Petersburgo. Quem souber como é em Kaliningrad Oblast, por favor, divida informações! Ficarei imensamente feliz e agradecida. =)

-MarshmallowTree