Chegamos ao cap 8 dessa fic maluca. E ele até q tá compridinho!

Uma forma de agradecimento aos reviews e msgs de vcs. Adoro =3

Espero que gostem.


- Você está... Chorando, Gilbert? - ele me perguntou inclinando levemente a cabeça para o lado.

- Sono! - respondi rápido e ainda aturdido, limpando os olhos com as costas da mão – Muito sono. Sempre lacrimejo quando estou com sono.

Tentei disfarçar. Ele sorriu. Ficamos por isso mesmo.

- Fez boa viagem? O avião balançou muito? - ele perguntou, aproximando-se mais para me ajudar com a mala.

Fiz menção de que não era necessário, mas como se ele insistisse, passei-lhe minha mochila e ele pareceu ok com isso. Ele foi andando e o segui, no começo alguns passos atrás, depois, corri até acompanhá-lo nas mesmas passadas.

,,Ele anda rápido! Também... com essas pernas compridas! Quantos metros de perna ele deve ter?", pensei.

Pois é... Sempre que me sinto acuado ou numa situação constrangedora, meus pensamentos ficam embaralhados e não consigo me concentrar muito bem; por isso, tenho a tendência de pensar muita, muita merda.

- Ups! Vou diminuir a passada – ele disse, percebendo a situação tragicômica que se desenrolava entre nós.

- Como... Como soube que era eu? - perguntei após respirar profundamente na tentativa de organizar as ideias.

- Simples. Primeiro, - paramos, ele olhou para mim e apontou um dedo - eu estava esperando você no portão de desembarque.

- Segundo, não existem muitas pessoas por aqui que descolorem o cabelo para ficar branco, geralmente, elas esperam a velhice... - ele disse rindo, tirando onda da minha cara.

- Como é que...

- Shh! - ele me interrompeu.

- Filho da...

- Terceiro, quem mais no mundo sairia de forma tão prepotente pelo portão de desembarque, num aeroporto em que nunca esteve antes, usando uma camisa preta de manga comprida escrito ,,Dort Mund" com uma seta apontando para baixo? - ele perguntou – Claro que só poderia ser você. Além do mais, é desligado. Desligado e dentuço! Tão absorto em seus pensamentos e roendo a unha com esses dentões estava, que nem me viu quando passou por mim!

- Geh zum Teufel! - esbravejei – Se eu não o vi, é porque você se escondeu, seu miserável!

Ele parecia estar se divertindo me bullying.

- Ora, esconder-me, eu? Por que eu faria isso?

- Porque se não tivesse se escondido, eu teria visto você, Verdamnt!

- Ah, teria?

- Teria, na klar.

- Posso saber como você teria me visto, Sr. Prepotência?

- Ora essa, seu bode comunista! Porque bonito assim, só se eu fosse cego para não ver!

E nessa parte, calei-me subitamente, como se tivesse me dado um soco na boca, largando a alça da mala com estrondo no chão. Odiei-me por ser impulsivo e falar antes de pensar.

Ficamos nos olhando, ambos surpresos, e senti minhas bochechas pegarem fogo. Percebi que Ivan também ruboresceu e virou o rosto, retomando a caminhada.

Abaixei-me rápido, peguei a alça da mala e apressei o passo a fim de acompanhá-lo.

O aeroporto parecia que não tinha fim!

Eu estava em Kaliningrad ou em Frankfurt am Main?

Finalmente, chegamos à uma saída que dava para uma parada onde pegamos o ônibus para a estação principal de trem.

Foi bem rápido até chegarmos à Estação do Centro. Saímos do trem, andamos até a saída da estação, passamos pelas portas de aço e madeira antigas e ganhamos a calçada.

Fiquei pensando comigo mesmo que, em apenas um dia, eu pude compreender o conceito de ,,transporte multimodal", quando Ivan parou próximo a um táxi.

- Você quer ir de táxi ou andando? - ele me perguntou.

- Hã? - fiquei realmente confuso.

- O hotel não fica longe daqui, são uns 15 minutos de caminhada, mas se você estiver cansado, podemos pegar um táxi.

- Ah, sei lá, o que você acha?

Ele respirou profundamente.

- O que eu acho não importa – senti a indireta mais que direta -, estou perguntando a você.

- Caminhando, caminhando – respondi apressado.

O ar estava frio e agradeci a Odin por estar com aquela blusa de manga comprida. Era primavera e as ruas da cidade estavam floridas. Tudo muito bem cuidado e limpo. O Sol brilhava e o céu estava de um azul estonteante.

Desde pirralho eu tinha fixação com o céu.

Sim. Sempre gostei de ficar olhando o céu em diferentes momentos do dia.

Gostava do tom azul contrastando com a relva verde clara e as árvores verdes-escuras; gostava de ver as nuvens passando como flocos de algodão, ou como um véu fino de odalisca; os cirros. Mas na verdade, o que eu mais gostava era dos dias de céu cinzento e nublado, pois sempre havia a esperança de haver um céu azul acima daquelas nuvens.

No nosso caminho rumo ao hotel, passamos por algumas pessoas, que olhavam para mim num misto de curiosidade e reprovação. Algumas, inclusive, chegavam até a virar o pescoço de tanto olhar para mim, sem fazer questão em serem discretas.

,,Será que tem algo na minha cara?", pensei.

,,Ou será que algum pombo Hitman, profissionalmente, me atingiu em cheio e eu não senti?".

Instintivamente, levei uma mão à cabeça, esperando pelo pior, e, para o meu completo alívio, não havia nada que não fosse meu cabelo.

,,Povo mais estranho! Vou começar a encarar também!", pensei amuado comigo mesmo.

Ivan não dizia palavra, deveria estar ainda muito irritado comigo por tudo o que aconteceu, e eu não tirava a sua razão.

Suspirei.

,,Acho que não deveria ter vindo. Devo ser um estorvo para ele.".

- Seus olhos realmente parecem vermelhos na luz do Sol, é legal – ele disse sem olhar para mim.

Senti-me na obrigação de retribuir o elogio (?).

- Seu cabelo... Parece cabelo de menina na luz do Sol.

,,Puta que pariu, por que eu disse isso?"

- Porque é brilhante, sabe? - tentei consertar – E grande, digo, compridinho, digo, chanel curto!

,,A emenda está saindo pior do que o soneto...".

- Seu cabelo é bonito - falei rápido.

- Hunf.

,,Seria um sorriso?", olhei para ele esperançoso, e voltei os olhos para a calçada.

Mais uma vez, o silêncio aterrador.

,,Se for pra me ignorar tanto, seu bastardo, vou voltar pra casa!", pensei.

Percebi que a mão direita dele estava bem perto de mim. Como ele era quase uma cabeça mais alto do que eu, seus dedos, vez por outra, roçavam no meu antebraço. Sem saber bem o porquê, quase que por impulso, aproveitei a deixa e segurei na sua mão. Num quase sobressalto, ele puxou sua mão da minha.

Fiquei surpreso.

,,Poxa... Ele me odeia.".

Sem me dar tempo para ficar depressivo, tentei pela segunda vez segurar a sua mão e pela segunda vez, ele me dispensou.

Pensei em tentar uma terceira, mas três foras seriam demais...

Não, não seriam demais!

Tentei a terceira vez, e pela terceira vez ele me dispensou, dessa vez mais forte. Doeu um pouco quando ele empurrou minha mão e ela bateu contra meu corpo, afinal eu tinha cortado o pulso bem em cima, e na vertical.

Um sentimento ruim de rejeição tomou conta do meu peito e fiquei sem reação. Nunca ninguém – salvo a Elizaveta, e ela não contava, pois eu sabia que ela gostava do meu primo – havia me rejeitado antes. Era um sentimento novo para mim, esse da rejeição.

Senti-me um lixo, kesesesese.

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,,Ora bolas! Esse bode comunista não fala comigo e está me rejeitando, por que raios, então, quis que eu viesse?", gritei na minha mente, ,,Ele nem olhar pra mim olha e ainda me faz andar como um condenado! Isso aqui é o caminho para o hotel ou é o Caminho de Santiago de Compostela?".

,,Ainda mais esse povo fica olhando para mim como se eu fosse uma aberração circense!".

Eu estava puto. Tão puto, que quando a 899ª velhinha olhou para mim como se eu fosse uma aberração circense, levei um dedo ao olho, puxei a pálpebra para baixo e estirei língua para ela.

A pobre mulher fez um sonoro ,,Oh!", ajeitou o lenço que trazia na cabeça e saiu o mais depressa possível, para longe de mim. Meu eu interior riu maldosamente: eu iria trollar todo russo que me olhasse estranho dali para frente!

Devo ter feito careta para mais umas dez pessoas, sei lá! Só sei que uma hora eu cansei, porque o cenário era realmente lindo.

A cidade era muito bonita e eu podia vislumbrar construções no estilo alemão, uma igreja ortodoxa russa aqui, um prédio tipicamente stalinista ali, enfim, uma mistura arquitetônica bem interessante.

Porém, uma cena prendeu minha atenção. Alguns metros à nossa frente, um senhor tocava guitarra na calçada. Uma música triste e melancólica, quase enfadonha; talvez algo que remetesse à sua infância ou a dias melhores.

Defronte a ele, um chapéu preto desgastado com algumas moedas que os transeuntes que passavam lhe doavam, cena típica na maioria das cidades da Europa.

Notei que o velho tinha uma guitarra muito boa, era uma Gibson ES-335, a qual ele segurava como se fosse seu bem mais valioso; se é que não ERA o seu bem mais valioso. O amplificador dele não era grande coisa, mas a guitarra era, por isso dava para escutá-la de uma distância até razoável. Uma Gibson afinal.

Tomado por uma ideia maluca, corri até o velho e larguei a mala, de qualquer jeito, no chão.

- Verzeihung. - desculpei-me com ele e tomei a guitarra de suas mãos.

Meu coração batia tão forte que tive a impressão de que ia quebrar minha caixa torácica e cair aos meus pés. Meus dedos gelados pelo frio e pela ansiedade começaram a se mover agilmente à medida que comecei a tocar o meu solo favorito:

E|-|-|

B|-|-|

G|-7-7-7-7-9-9-10-10-9-9-7-7-10-7-|-5-5-5-5-7-7-9-9-7-7-5-5-9-5-| (2x) D|-7-7-|-5-5-|

A|-|-|

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E|-|-|

B|-|-|

G|-|-|

D|-7-7-7-7-9-9-10-10-9-9-7-7-10-7-|-5-5-5-5-7-7-9-9-7-7-5-5-9-5-|

A|-7-7-|-5-5-|

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G|-|-|

D|-7-7-7-7-9-9-10-10-9-9-7-7-10-7-|-3-3-3-5-7-5-3-7-3~-|

A|-7-7-|-3-3-|

E|-|-|

Se eu já parecia estranho quando não estava fazendo nada de mais, agora, tendo ,,roubado" a guitarra do velho e começado a tocar, aí sim as pessoas começaram a parar para ver o que eu estava fazendo.

Ivan parou, de frente para mim, incrédulo.

Ri interiormente e comecei a cantar:

I am a man who walks alone
And when I'm walking in a dark road
At night or strolling through the park

When the light begins to change
I sometimes feel a little strange
A little anxious when it's dark

Fear of the dark, fear of the dark
I have a constant fear that something's always near
Fear of the dark, fear of the dark
I have a phobia that someone's always there

Have you run your fingers down the wall
And have you felt your neck skin crawl
When you're searching for the light?
Sometimes when you're scared to take a look
At the corner of the room
You've sensed that something's watching you

Fear of the dark, fear of the daaaaaaaark
I have a constant fear that something's always near
Fear of the daaaaaark, fear of the daaaaa - aark
I have a phobia that someone's always there

Have you ever been alone at night
Thought you heard footsteps behind
And turned around and no one's there?
And as you quicken up your pace
You'll find it hard to look again
Because you know that someone's theeeeere

Fear of the dark, fear of the daaaaaark
I have a constant fear that something's always near
Fear of the daaaaaark, fear of the daaaaaaa - aark
I have a phobia that someone's always there

Fear of the dark (oh oh oh ooooohhh) (x3) fear of the daaaaaaaaark

Watching horror films the night before
Debating witches and folklores
The unknown troubles on your miiiind
Maybe your mind is playing tricks
You sense, and suddenly eyes fix
On dancing shadows from behiiiiiind

Fear of the daaaark, fear of the daaaaark
I have constant fear that something's always near
Fear of the daaark, fear of the daaaaark
I have a phobia that someone's always there

(x2)

(repete o solinho do início)

When I'm walking in a dark road
I am a man who walks alone

Muitas das pessoas que haviam parado para ver aquele ,,maluco" do cabelo branco eram jovens, e a maioria delas cantou a música de Iron Maiden comigo.

Claro que fiquei me achando o máximo. Eu tocava bem e sabia disso, só não tinha certeza de que não fosse errar alguma nota, já que estava muito, muito nervoso e excitado. Para minha sorte, não cometi deslize algum, afinal, era minha música favorita para tocar e a que eu sabia de cor, inclusive, eu até tinha tocado ela na noite anterior!

Minha voz não era ruim então contribuiu para chamar a atenção.

É como dizem: quem sabe faz ao vivo, richtig?

Num gesto exibicionista, subi no amplificador e curvei-me para a audiência como uma estrela do rock, pulando em seguida. Algumas pessoas riram, afinal, que tipo de doido faz algo assim, no meio da rua?

Quando terminei, as pessoas aplaudiram e encheram o chapéu surrado com rublos: moedas e notas.

Claro que deixei tudo com o velhinho. Ele ficou feliz e eu fiquei feliz porque pude ver o Ivan entreabrir os lábios surpreso. Acho que aquilo significava.

Lentamente, aquela comoção foi-se dispersando e voltamos, eu e ele a caminhar silenciosamente, lado a lado e confesso que fiquei meio chateado, meio frustrado.

- Huhu, você realmente toca bem – ele disse, virando o rosto para mim e sorrindo.

Fiquei olhando para ele.

- Agora você sabe como eu toco – sorri de volta e algo dentro de mim me fez ter um pensamento obsceno.

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Finalmente chegamos ao hotel. Não era nada grande, mas era aconchegante e ficava bem no centro da cidade, a decoração não tinha opulência alguma, era bem simples e funcional na verdade, o que me agradou bastante.

Assim que entrávamos, à nossa esquerda, uma pequena antessala com duas poltronas que pareciam confortáveis e uma mesinha de centro com muitos jornais e revistas, todas em russo.

Passando a antessala, a recepção, que se resumia em um balcão bem longo, uma recepcionista gostosa de unhas longas e vermelhas que digitava, eficientemente, todas as informações que Ivan lhe passava em um computador preto e um móvel na parede com vários compartimentos feito cofres com chaves numeradas.

Sobre o balcão, mapas da cidade, panfletos de restaurantes, aluguel de carro e sugestão de pontos turísticos, bem como um guia bilingue com a programação de todos os shows, concertos, apresentações de balé e dança folclórica que estavam acontecendo naquele mês nos museus e óperas da cidade; enfim, programas culturais.

Peguei o guia com a programação pois me pareceu bem interessante e fiquei entusiasmado com as fotos dos museus e óperas. Um requinte e sofisticação dignos da realeza!

Como o guia era grosso e eu estava cansado de ficar em pé, resolvi terminar de olhar as fotos sentado confortavelmente na poltrona. Mal acomodei a dérrière no estofado, senti uma ,,presença". Sim, uma ,,presença".

Levantei os olhos e me aparece, do nada, um cara.

Meu primeiro pensamento foi: será que não posso ficar aqui?

Olhei para ele e ele para mim pelo que me pareceu uma eternidade, e ele me olhava tão no fundo dos olhos que fiquei visivelmente constrangido.

,,Was passt mit ihm?", pensei.

- Errr... Ain't I suppose to sit here? - perguntei-lhe no inglês chulo que aprendi durante os 8 meses que passei nos Estados Unidos.

- No, no, no, no - o cara me respondeu gesticulando tanto que fiquei tonto.

Interpretei tanto ,,no no no no" como sendo DEFINITIVAMENTE um não, então, fiz menção de me levantar.

- No! - ele disse alto – You. Stay, stay.

Olhei para a cara do homem visivelmente confuso. Entendi que eu poderia ficar sentado lá, mas não entendi por que raios ele ficava me encarando tanto!

Será só em Kaliningrad ou todo russo, em toda a Rússia encara você?

- Sprechen Sie deutsch? - perguntei-lhe na vã esperança de que ele soubesse falar alemão.

- ...? - ele me olhou inquisitivamente, como se eu tivesse acabado de xingar sua mãe.

- Parlez vous français? Ou, sei lá, Lei parla italiano? - tentei mais uma vez. Talvez ele soubesse francês ou italiano?

Como se ele me olhasse de uma forma mais confusa beirando à comicidade, continuei:

- Ah! Já sei! Definitivamente ¡hablas español! - eu disse rindo, apontando um dedo para o moço lá, crente que ele não falava porra nenhuma que não fosse russo.

- ¡Ah, por supuesto. Sí, hablo español!

Duas palavras: O quê?

- ¿Hablas español? - perguntei-lhe mais em tom de incredulidade do que em tom de pergunta.

- Sí, sí. No mucho, pero sé hablar español – ele disse quase contente.

- Sabes hablar español, ¿pero no sabes hablar inglés? - perguntei-lhe levantando uma sobrancelha.

- Poco. No me gusta tanto el inglés. Es uma lengua fea, prefiero las lenguas latinas – respondeu-me sincero.

- ¿¡Que tienes contra las lenguas de orígene anglosajón! - perguntei-lhe visivelmente ofendido, ao que ele me olhou confuso.

- Tenga usted en cuenta que las lenguas de orígene anglosajón son muy hermosas e interesantes, y usted debería ser más considerado, porque...

Não pude terminar de passar lição de moral no russo, pois Ivan chegou junto de mim visivelmente furioso.

- O passaporte!

Olhei para ele confuso, muito confuso.

- Hã? - perguntei retardado.

- O passaporte, Gilbert. Sem ele não posso confirmar e concluir sua reserva no hotel!

- Ah! Ok, espera.

- Vai logo! - ele me apressou.

- Tenha calma! - exclamei quase gritando

Levantando-me da poltrona, tateei as mãos pelos bolsos da calça. Ivan me olhava assustadoramente.

- Estou procurando, estou procurando!

- Droga! Onde está? - falei comigo mesmo – Ah! Está na mochila!

- Então pegue-a! - ele disse impaciente.

- Mas a deixei com você! - exclamei.

- Não vou abrir a sua bolsa, Gilbert... - ele disse em um tom de voz baixo e comedido.

- Tem problema não, pode abrir, eu deixo.

Ele emudeceu e olhou tão profunda e assustadoramente dentro de meus olhos, que achei por bem fazer o que ele queria.

Só dessa vez!

Fui até o balcão da recepção seguido por Ivan, ele havia deixado minha mochila lá; abri-a, tirei o passaporte e entreguei à recepcionista gostosa das unhas vermelhas.

Ela olhou meu passaporte, checou uma ou duas vezes – cara-crachá, cara-crachá – e me disse com um forte sotaque russo:

- Now is everything alright, Mr. Beilschmidt, but I ought to tell You that we'll take charge of your passport for now. Management policy. We hope you understand. Later, on this very evening, we'll give it back to you.

,,Como assim vão ficar com meu passaporte?"

- Sorry but... What? Why are you keeping my passport? I mean... Why? - perguntei.

- Government procedures - Ela respondeu lacônica e profissional, entregando as chaves do quarto nº 202 para Ivan.

- Ahm... But isn't it too reckless go...

- Spacibo, Julia – Ivan disse sorrindo para a mulher e me interrompendo, puxando meu braço.

Em poucos segundos, ele havia pego minha mala, mochila e braço, arrastando-nos para dentro do elevador.

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- POR QUE FEZ ISSO? - gritei para ele no momento em que entramos no quarto.

- Isso o quê? - ele perguntou sem entusiasmo, colocando minha mochila em cima de uma cadeira.

- Isso de me interromper na hora em que eu estava perguntando algo sério para a mulher!

Ele arrastou minha mala até próximo a uma das camas, sentando-se , em seguida, na outra e pegando de um papel que parecia uma carta de restaurante.

O quarto não era grande, uma vez que o próprio hotel não era.

Entrando no quarto, o banheiro ficava à direita, oposto a ele, um guarda-roupas médio de madeira clara. Adentrando um pouco no quarto, a pessoa dava de cara com um janelão que ia de parede à parede acompanhando a fachada do hotel, esse janelão todo, graças a Deus, era coberto por uma cortina branca em voal e, por trás, um blackout branco-gelo. À frente da janela, uma escrivaninha em madeira clara com uma TV, um bloquinho de notas e uma caneta com o logo do Hotel e seu nome em russo. As camas de solteiro ficavam encostadas nas paredes, uma oposta à outra, de forma à pessoa, quando se deitasse, escolher se preferiria dormir com a cabeça voltada para Meca, ou o contrário. De um ou outro jeito, a janela – e a cortina – estariam ali, pertinho de você.

- Você quer comer o quê?

- Waaaas? - perguntei fulo da vida.

- Eu perguntei o que você quer comer – ele repetiu quase soletrando as sílabas.

- Eu escutei o que você perguntou, mas...

- Então por que perguntou? - ele perguntou sem tirar os olhos do papel.

- Eu não perguntei porque não escutei o que você disse, eu perguntei de forma incrédula, animal! - esbravejei.

Ele levantou a vista em minha direção.

Olhei para ele de volta, hiperventilando de tanta consternação.

Calmamente, ele fechou o treco que parecia uma carta de restaurante, pousou-o em cima da cama, colocou os cotovelos sobre as coxas, cruzou as mãos e apoiou o queixo sobre elas.

- Okay, Gilbert, diga. O quê você não entendeu, o que você quer?

Mais calmo, respondi:

- Eu quero respostas, Ivan. Eu quero muitas respostas. Eu quero várias respostas, Ivan. Eu quero saber, Ivan, o por quê de você ter me impedido de perguntar à recepcionista sobre o meu passaporte, por que você está me maltratando desde que cheguei, por que você não fala direito comigo, por q...

- Vamos por partes – ele me interrompeu. - Primei...

- Por que você fica me interrompendo quando estou falando, eu não tinha terminado! - interrompi-o.

- Ok. Termine, então.

Olhei para o lado tentando me lembrar qual era o outro porquê.

-... Terminei.

- Posso? - Vi quando ele girou os olhos dentro das órbitas.

- Vai – fiz um gesto com a mão para que ele continuasse.

- Primeiro, todo, TODO visitante na Rússia, quando fica em hotel, tem que deixar o passaporte na recepção. São normas procedimentais, é a lei daqui, Gilbert. Cada país tem a sua política de Direito Internacional Privado e você, mais do que ninguém, deveria saber disso, uma vez que seus pais são da área jurídica.

- Certo, Ivan, mas o que eu estava e estou questionando é se não é temerário a pessoa, o turista, sair zanzando por aí sem documentos! Vai que um policial me para e resolve, sei lá, fazer um ,,baculejo"? A primeira coisa que ele vai querer ver são meus documentos e eu vou estar sem! Então, meu amigo, o alemão aqui DANÇA e eu não sei dançar! Nem gosto!

Notei, em seu rosto, um esboço de riso rapidamente reprimido.

- Entendo sua preocupação, Gilbert, e acho razoável, mas tentar questionar com a mulher é trabalho de Sísifo, ou seja, é inútil.

- Eu sei o que significa ,,trabalho de Sísifo" - respondi petulante -, aliás, quem ilustra muito bem o que seja um Trabalho de Sísifo é Albert Camus, em seu livro ,,O Mito de Sísifo". Um livro muito bom, por sinal. Camus é meu filósofo favorito! - sorri, esquecendo momentaneamente que estava discutindo com Ivan.

Ivan, por sua vez, deu um longo e profundo suspiro.

- Eu sei que você sabe, Kroli... Gilbert – ele disse se consertando e, por um breve segundo, senti meu coração mais leve. -, mas isso não é aonde eu quero chagar. Aonde eu quero chegar é que você estaria perdendo seu tempo questionando a mulher.

- Ela não iria lhe dar uma resposta melhor, nem mais longa, nem que você citasse toda a jurisprudência do CIJ! - ele continuou – Nós, russos, não somos como vocês, alemães.

Notei uma leve melancolia em suas palavras.

- Como assim? - perguntei mais brando.

Ele respirou fundo, como se estivesse escolhendo as palavras.

- Digamos que nós... Não fomos ,,educados" à questionar muito as coisas – ele disse sorrindo com o canto dos lábios num misto de ironia e conformidade.

Notei que ele abaixou um pouco o olhar e, nesse momento, me lembrei de toda a História da Rússia que eu havia estudado na escola. Fiz uma linha cronológica mental desde Ivan, o Terrível, passando por Pedro, o Grande, Catarina, a Grande, os Romanov e a Revolução de 1917; passei por Lênin, Trotsky e Stálin para fechar em 1991 com o fim da URSS e a Rússia contemporânea de Putin.

,,É... eles têm motivos para serem ,,educados" a não questionar...", pensei comigo mesmo, sentindo uma súbita vontade de deixar tudo para lá e abraçar o Ivan.

Um silêncio pesado pairava no ar.

- Além do mais – ele falou quebrando o silêncio -, se você questionasse se era prudente andar na rua sem documentos, poderia dar ,,ideias" à mulher e ela mandar algum cara ficar seguindo a gente.

- Mandar um cara seguir a gente?

- É. Pode notar que os russos somos naturalmente desconfiados em relação aos estrangeiros, você pôde confirmar isso hoje na rua, não foi? - e aqui ele abriu um lindo sorriso.

- Ô! Senti-me como uma aberração circense! Primeiro, achei que uma pomba havia feito cocô na minha cabeça – eu disse mais relaxado, sentando-me na cama que, supostamente, seria a minha -, afinal, eu tenho sorte para esse tipo de situação constrangedora.

Vi quando ele riu para mim.

- Você ri, mas é a mais pura verdade! - continuei – Toda pomba, tô te dizendo, TODA POMBA caga na minha cabeça! É como se eu tivesse um alvo ou uma placa escrito ,,Acerte Aqui e Ganhe Todo Alpiste que Você Puder Comer!".

Aqui, ele passou do riso à gargalhada.

- Você ri porque não é na sua cabeça, miserável! - fingi estar irritado. No fundo, fiquei feliz de estar fazendo-o rir tanto.- Então, daí tanta gente olhando para mim, pensei que as pombas tinham tido diarreia na minha cabeça e eu não tinha percebido!

- Você não é a primeira pessoa a me dizer que se sentiu incomodado com as pessoas ficarem olhando tanto – ele disse.

- Não? - perguntei um pouco desconfiado.

- Não. A primeira pessoa a me dizer isso foi uma amiga da minha mãe. Ela é belga e, quando ela foi a Moscou nos visitar, as pessoas ficavam olhando muito para ela. É normal aqui na Rússia. Durante muito tempo, vivemos sob a sombra da desconfiança quanto ao estrangeiro, principalmente quanto aos ,,capitalistas".

- Mas aqui é Kaliningrad, já foi um pedaço da Prússia! Tem até a antiga casa de Kant! Não deveria ser menos ,,russa"?

- Nyet, não. Kaliningrad é Rússia.

-... Eu sei.

- Então.

- Tá... - desisti. - Ainda assim, é estranho se sentir estranho.

- Mas é que você É estranho... - ele disse para me provocar.

- Wie, bitte? Estranho? Eu?

- É. Você é bem estranho.

- Sou nada! Vê se sou eu que fico agindo estranhamente e ME tratando mal!

Ele franziu o cenho.

- Agir estranhamente e tratá-lo mal?

- Sim! Você não ouviu bem?

- Quem está agindo estranhamente e tratando você mal?

- Ora, não se faça de tolo! Você, claro.

- Eu?

- Não, eu. CLARO que é você!

- Onde eu tratei você mal, Gilbert?

- Você ficou me chamando de dentuço prepotente lá no aeroporto e...

- E eu disse alguma inverdade? - ele perguntou.

- Não. - respondi sem pensar – DIGO!

Ele riu disfarçadamente.

- Digo... Enfim, você está me tratando estranho desde que cheguei.

- Ah é? Estranho como? - ele me sorriu um sorrisinho cafageste, retomando sua posição do queixo apoiado na mão.

- Estranho... Ééé... Estranho. Tipo... Estranho.

- Estranho...? Formule melhor isso.

- Ora, Ivan, estranho, droga! Você ficou me evitando o tempo todo! Tentei pegar na sua mão e você me evitou como se eu tivesse, sei lá, lepra, peste negra ou qualquer outra doença escrota da Idade Média! - exclamei.

- E mesmo depois daquele VEXAME que eu passei, tocando guitarra para você no meio da rua, correndo o risco de sofrer o eterno opróbrio pela sociedade russa, você me relega ao ostracismo clisteniano! - eu disse teatralmente – Aliás, e aquele seu olhar perplexo depois de tudo o que fiz tocando para você, hein, hein? E mais! Depois, já no hotel, você me faz passar de submisso na frente daquele tiozão lá que fala espanhol!

- Deixe de ser dramático, Gilbert...

- Dramático, eeeeeeeu? Imagina, Ivan.

- Não releguei você a ostracismo clisteniano algum – ele disse disfarçando um riso.

- Como não? Depois de tudo isso que eu disse!

- Se não segurei na sua mão não foi porque eu não quis - ele começou -, mas foi porque não posso. Infelizmente, por aqui, demonstrações públicas de afeto entre pessoas do mesmo sexo não são vistas de forma tão liberal quanto deve ser em Berlim; portanto, para evitar complicações para você, pelo menos nesse primeiro momento, preferi evitar. Até porque, no que dependesse de mim, eu não só seguraria na sua mão, como beijaria você, arrancaria sua roupa e fuderia você ali mesmo. Feliz?

Fiquei um pouco impressionado. Um pouco.

Abri e fechei a boca – como um peixe fora d'água – umas duas vezes, com o dedo indicador em riste, como se fosse dar-lhe uma resposta à altura. Mas falhei hediondamente, afinal, aquele verbo chulo conjugado no futuro do pretérito juntamente com aquele pronome pessoal de tratamento não paravam de ecoar dentro da minha cabeça.

,,Fuderia você, fuderia você, fuderia você..."

Ele deve ter percebido que eu fiquei meio perturbado e deixei transparecer isso na cara, como era bem típico de minha personalidade.

Aproveitando-se da deixa, ele se levantou de onde estava e veio rápido em minha direção, tão rápido que, mal dei por mim, tinha um Ivan me beijando voluptuosamente, empurrando-me contra a cama e se deitando por cima de mim, deslizando uma mão por baixo da minha blusa preta - escrito ,,Dort Mund" e uma seta apontando para baixo-, abrindo caminho por entre minhas pernas.

Ele estava usando uma blusa de algodão branca bem macia, de mangas compridas, um jeans índigo e coturnos pretos por cima da calça. Pude sentir seu perfume enquanto ele beijava meu pescoço. Era amadeirado com notas cítricas; delicioso nele.

Fechei os olhos, eu não estava acreditando muito naquilo tudo.

,,Será que tô sonhando?", pensei.

Abri os olhos subitamente quando senti dedos querendo desabotoar meus jeans pretos.

Protestei de baixo dele e até tentei empurrá-lo, mas era inútil.

,,Muito. Pesado... Muito. Alto".

Meio que lutando, meio que me rendendo, passei meus dedos por entre seus cabelos. Como era de se esperar, eram macios e finos. Primeiro, acariciei-o, e ele gemeu de levinho nos meus lábios.

,,Minha vez!", pensei e sorri durante nosso beijo.

Ainda com a mão em seus cabelos, juntei uma quantidade razoável entre os dedos, segurei bem firme e lhe dei um puxão, o mais forte que consegui, descolando seus lábios dos meus, expondo sua garganta ao meu bel prazer.

- Nhn – ele gemeu. Gotículas de lágrimas nos cantos de seus olhos.

Eu sorri sadicamente. Então, eu disse:

- Sim.

- ...? - ele fez. Abaixando o olhar até encontrar-se com o meu.

- Estou feliz – eu disse sentindo o rosto vermelho e quente.


Siiimmm, sou crueeeeel! Malvada, sádica, abominável!... Hohohohoho } Parei BEM aí!

Poxa, poxa... As tabladuras tinham ficado uma graça no meu office, mas foi passar pra cá e ficou toda zoada... Sniff... Enfim, c'est la vie...

Escolhi ,,Fear of the Dark", da banda Iron Maiden por ter um significado especial para mim. Digamos que o que aconteceu ao Gil, aconteceu algo ,,similar" comigo - em menores proporções, claro. BEM menores proporções! D: -, fazendo, então, dessa música, minha inspiração pessoal. =3

Tirei a tabladura do site Cifra Club e a letra (que alterei prolongando algumas vogais), do site . Ah! E quanto à voz do Guiru, fica à critério de vocês imaginá-la. =3

Sigla:

CIJ - Conselho Internacional de Justiça

Não sei se ficou alguma dúvida mais... Bom. É isso.

:)