Woa! Chegamos ao cap. 9! E tudo isso graças a vcs, que me apoiam e prestigiam com seus reviews e mensagens maravilhosas ou simplesmente lendo esta história; meus mais sinceros obrigadas. =3

Obrigada, pois sem vocês, a história provavelmente não teria chegado até aqui, huhuhuhu.

Danke schön Haine Weasley, DarkCherry27 e Tici.


Ele sorriu diferente para mim. Um sorriso meio gato de Cheshire, meio Jack Torrance de ,,O Iluminado". Um sorriso levemente sádico, meio como se dissesse ,,vou devorar você, coelhinho gordinho, muahahaha".

- Vejamos o quão feliz você vai ficar – ele disse.

Apesar de o estar afastando de mim com toda a força, ele não se deu por vencido, mergulhando em mim e me beijando com lascívia até que senti o ar faltar nos pulmões.

Com a mão livre, dei-lhe um tapão nas costas e ele se afastou um pouco.

- Ah! - exclamei, puxando ar como se tivesse estado de baixo d'água.

Ele me sorriu.

- Que fofo, prendeu a respiração?

Senti as bochechas arderem de vergonha.

- C-Claro que não! - exclamei, afastando os olhos rapidamente dos dele – Eu... Foi tudo planejado!

- Planejado? Sei... - ele disse fazendo pouco caso e se inclinando novamente para me beijar.

- É! - respondi enérgico, aproveitando a deixa para tentar sair de debaixo dele - Planejadíssimo!

Ele percebeu minha manobra evasiva.

- Nyet, aonde pensa que vai, coelhinho gordinho? - de novo o sorriso cheshiriano.

Ivan recomeçou a me beijar e eu cedi.

Ele beijava muito bem, passando de meus lábios para meu pescoço, e aqui devo confessar uma coisa: meu pescoço é meu ponto fraco.

É como se eu tivesse, sei lá, um ,,ponto G" no pescoço.

- I-Ivan... Ngh - gemi numa voz fraca que até eu fiquei impressionado.

Soltei seus cabelos deslizando minhas mãos até sua nuca, base do pescoço e finalmente, por dentro da gola de sua blusa branca macia e cheirosa.

Senti quando ele suspirou e começou a se ajeitar. Prontamente, segurou meus quadris levantando-me um pouco para acomodar minhas pernas em cada lado seu, de forma a elas ficarem meio que suspensas no ar. A parte posterior de minhas coxas, apoiadas na parte anterior das suas, como se eu estivesse sentado em seu colo, mas ambos estávamos deitados.

Confesso que eu não estava entendendo muito bem o que ele estava fazendo até sentir seus dedos longos puxando meus jeans pretos para baixo.

- Epa! - caí na real.

Paramos.

Ivan pareceu frustrado.

- O que foi, Krolik?

- Vo-vo-você... O quê você está pretendendo fazer comigo? - indaguei, olhos muito, muito abertos.

Outra vez o sorriso Cheshire-Jack Torrenciano.

- Comer você, ora.

- Me-me-me COMER?

- E essa agora, Gilbert? Você já não é mais nenhuma criancinha, nem virgem você é! Por que a surpresa?

- Alto lá! - exclamei tentando descolar nossos quadris – Posso não ser nem criança e nem virgem, mas eu NUNCA dei para um CARA antes!

Esse argumento fê-lo parar por um instante e me olhar com um pouco de surpresa.

- O que foi? - perguntei ruborescido.

Ele olhava para mim de uma forma diferente, um quê que indefinível.

Então, ele sorriu.

- Não se preocupe, serei gentil.

Fiquei irritado. Não, fiquei puto!

- Que porra de gentil o quê! Se você acha que eu vou fazer papel de mulher, você está muito enganaaah... - gemi.

Sim, gemi. Gemi, gemi, gemi e isso foi triste!

O russo bastardo, o bode comunista, havia descoberto meu ponto fraco e agora beijava e acariciava meu pescoço e eu, como um gato, rendi-me a todas as suas vontades e carícias.

O desgraçado sorria cada vez que eu gemia quando ele mordiscava meu pescoço ou minha nuca. Aquilo era bom demais. Puta que pariu, como era!

E por falar em puta, lá estava eu, rendido, esmorecido com o russo lá, no meio das minha pernas, beijando meu pescoço.

Uma mão sua passeava pelo meu peito e a outra abria o botão do cós dos meus jeans, enquanto um volume estranho vindo dos jeans dele se encostava em mim.

,,Um volume estranho vindo dos jeans dele se encostava em mim?", abri os olhos subitamente.

,,Pelo olho vazado de Odim!", gritei horrorizado dentro na minha cabeça, ,,Ele pensa em ser gentil comigo com ISSO no meio das pernas?"

Senti meu coração bater mais rápido. Eu tinha que fazer alguma coisa; o russo iria, literalmente, me rachar ao meio!

Passei uma olhada para avaliar a situação: Ivan já havia abaixado as minhas calças até a altura do joelho, revelando minhas boxers awesome dO Pintinho Sanguinário - meu jogo de celular favorito -, e agora abaixava suas próprias calças, revelando boxers pretas que não disfarçavam, em absoluto, o quão ,,gentil" ele seria comigo...

Fiquei agitado. Movi-me em baixo dele tentando, em vão, removê-lo de cima de mim ou, pelo menos, que ele se afastasse um pouco, mas não consegui, pelo contrário, ele apenas se acomodou melhor e olhou para mim.

Olhei para ele apavorado. Ele me sorriu gentilmente e, em seguida, fechou os olhos e inclinou-se, beijando cada pedacinho do meu rosto bem devagar, os cabelos dele pendiam para frente e isso me pareceu sexy. Na verdade, ele era bem sexy.

Devo ter me perdido um pouco contemplando a sensualidade do bode comunista, porque me deixei levar por seus beijos estratégicos.

Ele tirou uma das mãos de debaixo da minha blusa e levou-a ao meu rosto, acariciando minha bochecha, depois, segurou meu queixo e, lentamente, virou minha cabeça para um lado, expondo-me a jugular.

,,Será que ele é um vampiro e vai me sugar?".

Então, ele começou a brincar com o lobo da minha orelha, mordiscando-o e aquela brincadeirinha sensual proporcionou frêmitos que me percorreram o corpo inteiro.

- Eu amo você – ele sussurrou no meu ouvido e senti como se eu fosse feito de manteiga e estivesse derretendo lentamente.

- Bär... - sussurrei num gemido fraco – para.

- Nyet.

Ivan me torturava com aquilo, tão fraco eu estava que decidi que ele poderia me tomar como quisesse, visto que aquilo era demais para mim. Eu gostava dele, ele gostava de mim, então estaria tudo certo.

Seus lábios quentes passearam por toda a extensão do meu pescoço e desceram um pouco mais, em minhas clavículas, depois, por cima de minha blusa, passando lentamente pelo esterno, costelas, região do diafragma, músculos abdominais, umbigo, baixo ventre e...

- Oi! - exclamei esquecendo por completo do torpor que Ivan me causava.

- Espe-pe-pe-pera aí! - gaguejei, empurrando a cabeça dele para longe de minhas partes pudendas – M-m-mas que danado que você está fazendo?

Meu rosto não era mais um rosto, ele um tomate maduro, daqueles quase podres de tão vermelhos.

- Estou fazendo o que você mandou – ele disse disfarçando a frustração em sua voz.

Estava bem claro que o russo estava a ponto de explodir.

- Eu não mandei você... Você... Você enfiar a cara ali! - finalmente eu disse. Mais vermelho, impossível.

- Não verbalmente, mas a sua blusa – e ele apontou para a minha blusa preta escrito ,,Dort Mund" e uma seta para baixo – sim.

- Isso é uma piada, Ivan. Um trocadilho com o nome da cidade, Dortmund.

- Eu sei, mas aí diz claramente ,,Aqui Boca" e a seta para baixo. Estou só obedecendo – ele disse dando de ombros – agora deixe de frescura e abra as pernas, da?

Ele, que estava de joelhos na minha frente, agora se inclinou novamente assumindo sua posição inicial.

- E desde quando – me interrompi para tentar empurrá-lo para longe de minhas regiões vitais - você obedece ordens tão facilmente?

- Desde quando as ordens me são convenientes – ele disse sorrindo com uma sinceridade pueril.

- Abre. As. Per-nas – ele soletrou, fazendo força para tentar abrir o que eu não queria abrir -, Gil-bert.

- Nein, Ivan! - neguei. Gotículas de lágrimas de tanta vergonha se acumulavam nos cantos dos meus olhos.

Ele parou de tentar.

- Está bem, eu paro. Mas posso saber o porquê que você não me quer? - ele disse de uma maneira quase sofrível, mas firme.

- Não é que eu não queira você, é que... - meu coração começou a bater acelerado.

- É que...?

- É que seus lábios foram feitos para beijar os meus, não outras partes de mim que me deixam extremamente constrangido – desabafei levando as mãos ao rosto de tanta vergonha.

Ele não disse nada e saiu de cima de mim.

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Se eu estava excitado?

Claro que estava!

Depois de tanto amasso, é claro que eu estava!

Mas pensar no Ivan fazendo ,,aquilo" em mim não me parecia, sei lá, certo.

Eu nunca tinha imaginado ele fazendo aquilo em mim, não que eu não gostasse de sexo oral, mas é que eu gostava de Ivan e me parecia meio ,,tenso" aquilo assim... Logo de cara - se me permitirem outro trocadilho de péssima qualidade -, no primeiro dia que nos encontramos de verdade. ..Eu sou tímido quando estou apaixonado!

Mas daí ao Ivan SAIR de junto de mim e ir ao banheiro e ficar um tempão tomando banho, logo agora que eu tinha decidido dar para ele! Poxa!

Ainda deitado na cama, com os jeans e as boxers a meio mastro e com uma ereção sofrível, passei os dedos nos cabelos.

- Verdamnt! Eu só faço merda! - falei pra mim mesmo. - Antes eu tivesse deixado ele fazer o que queria, pelo menos agora ele não estaria tão frustrado comigo e com razão!

,,Acabei de brochar o Ivan...", pensei comigo, ,,Que cuzonisse, hein Gilbert?".

Levantei-me e às calças.

Abri a mala em busca de uma roupas limpas. Quando o Ivan saísse, quem iria tomar banho era eu, mas ele estava demorando muito e minha situação era sofrível; portanto, tomei uma decisão:

,,Vou me aliviar aqui mesmo!", um primeiro pensamento me ocorreu.

Peguei uma revista com umas russas gostosas vestidas de aeromoça e decidi que ia ,,cometer alguns homicídios". O Ivan havia me deixado daquele jeito e tinha ido embora – claro que a culpa era dele e não minha -, eu não podia ficar assim!

Deslizei pelo lado da cama e sentei-me no chão mesmo. Ia bater uma e já havia enfiado a mão nas calças.

,,Não, Gilbert, aqui não! Imagine se outros caras não fizeram isso o que você está pensando em fazer e gozaram nessa revista?", minha consciência deve ter dito isso em um quarto de milésimo.

- Puta que pariu, que nojo! - gritei, jogando a revista para longe.

- Mas eu acabei de tomar banho! - era o Ivan.

Ele havia saído do banheiro e estava usando calças de tecido cáqui, umas meias brancas e um chinelão tipo vô. Não estava de camisa e enxugava os cabelos molhados com uma toalha enquanto me observava visivelmente intrigado.

- Sai da frente! - gritei com ele e zarpei para o banheiro. Minhas bochechas estavam muito vermelhas.

Tomei um banho bom e troquei de roupa, escolhi uma blusa vermelho bordô do Rammstein com mangas compridas, que coloquei por dentro de um bermudão preto de tecido de comprimento mediano – um pouco acima dos joelhos - e suspensórios pretos. Calcei uns coturnos pretos e passei meu perfume favorito. Eu parecia um garotinho punk. Pensei se não tacariam pedras em mim quando eu saísse na rua...

Com cuidado, fiz a acepcia dos meus pulsos que começavam, lentamente, a sarar; contudo, ainda doía quando eu fazia certos movimentos.

Passei uma dupla camada de gaze e puxei as mangas da camisa até cobrir metade dos dedos. Não queria que Ivan visse aquilo, era vergonhoso.

Quando saí do banheiro, vi que Ivan estava em pé, assistindo a um programa russo na televisão.

- Desculpa. Eu não queria gritar com você – eu disse.

- Ah, ok. - ele fez, meio chateado.

- Não era nojo de você, tá? - exclamei - Era nojo dessa revista.

- Revista? Que revista? - ele perguntou um pouco mais animado.

- Aquela ali – apontei para onde a revista estava.

- Esta? - ele a apanhou do chão.

- Sim. Mas não pegue nela não. É nojenta!

- Eu não sabia que você era misógino, Krolik.

- Eu não sou misógino! É só que essa revista deve estar com as páginas coladas!

- Com as páginas coladas? Como assim? Por quê?

- Porque vários caras, tipo, vários caras devem ter batido punheta olhando as gostosas e gozaram na revista inteira. Tipo, inteira!

- Ahhh... - ele fez – Então foi isso o que você estava fazendo enquanto eu tomava banho, não foi?

- Foi. Digo, Não! Absolutamente!

- Ahá! Coelhinho safado ficou batendo uma olhando para as meninas, mas quando é para ficar comigo, nega fogo.

- Eu não neguei fogo algum! - exclamei inflamado – Tanto não neguei que fiquei duro durante um tempão e tive que procurar subterfúgios para voltar ao normal e mesmo agora, depois do banho frio, minhas pernas ainda estão tremendo e eu não sei por que raios eu estou dizendo isso para você!

Ivan passou de ,,olhando fixamente para mim" para ,,rindo abertamente de mim".

- E agora você fica rindo. Depois de ter saído de cima de mim e voado, puto da vida, para o banheiro e ainda diz que EU neguei fogo?

Ele riu um pouco mais, depois disse:

- Não, não estou puto com você. Na verdade, não tem como eu ficar com raiva de você, Krolik, mesmo que eu quisesse. Se eu não continuei é porque eu não estava conseguindo mais me controlar, não depois do que você disse e com aquela carinha envergonhada.

- Hã? - indaguei confuso, levantando uma sobrancelha.

- Aquilo que você disse, dos meus lábios serem para beijar os seus – ele disse ruborescendo -, eu... Eu achei tão fofinho que se eu continuasse em cima de você e você daquele jeito, eu iria acabar não conseguindo ser gentil com você. Eu estava a ponto de estuprá-lo, coelhinho.

E ele disse isso com uma naturalidade impressionante.

- Estuprar-me? - indaguei incrédulo – Ahã, entendi.

O quarto encheu-se de um silêncio peculiar, apenas quebrado pelas pessoas falando na TV.

Fiquei meio sem ação, olhando do Ivan para a TV, da TV para a cortina.

- Sabe que está fazendo uma dia lindo lá fora? - exclamei mudando completamente de assunto.

Dirigi-me até o janelão e puxei as cortinas, abrindo-as para que o crepúsculo de Kaliningrad iluminasse o quarto.

Então, ouve-se aquela trovoada: Kabuuuum!

E o céu pareceu desabar de tanta chuva.

Ivan pigarreou:

- Você dizia...

- Assim... - sorri amarelo, procurando uma resposta. – É como dizem, ,,Depois do temporal, sempre há a bonança".

- Eu tenho certeza de que acima dessas nuvens há um céu crepuscular digno de Edouard Manet! – disse virando-me para ele e sorrindo sincero.

- Humph – ele sorriu cético. - ,,You see beauty and I see pain, you see sky and I see acid rain".

- Pessimista – falei para ele, estirando-lhe a língua.

- Nyet! Estou apenas cantando...

- Aham. De qualquer forma, Ivan, você sabe aonde eu encontro uma lan house ou um cartão telefônico para ligar para o meu irmão? Prometi ligar assim que chegasse aqui e já fazem umas 4h que cheguei e não liguei.

- Toma. Pode ligar do meu celular.

Ele me passou seu celular modernoso com uma interface tão impressionante que fiquei tonto.

- Mas vai sair caro!

- Nada. Usa esse programa de chamadas via internet. Sempre o uso quando ligo ou mando mensagens para você. É ilimitado e grátis. Fique à vontade.

- Danke – sorri-lhe e ele me sorriu de volta.

- Eu vou sair para você ficar à vontade.

Ivan terminou de calçar seus coturnos pretos- que ele usava por cima da calça- vestiu uma blusa preta folgada de mangas longas do Cannibal Corpse e passou as mãos nos cabelos, bagunçando-os bem. Ele me pareceu um São Bernardo num primeiro momento, mas assim que deixou os cabelos caírem displicentemente pelo rosto, ele apenas me pareceu incomensuravelmente sensual.

- Você não precisa sair, Ivan. Não guardo segredos de você – eu disse rindo, mas sendo sincero.

- Eu sei, Krolik, mas vou sair para comprar algo para comermos, você não comeu nada desde que chegou, deve estar faminto.

- Não! Então vamos juntos, eu ligo mais tarde para o Ludwig.

- Ora, por que essa agonia?

- Ivan, eu vim para cá para me encontrar com você e aproveitar para conhecer a cidade, não para ficar num quarto de hotel só porque está chovendo. Ademais, eu gosto da chuva, dias nublados são lindos, e... - fiz uma pausa meio longa, porque minhas bochechas começaram a ficar quentes

- … - ele olhou para mim, inclinando a cabeça para o lado.

- E eu quero ficar ao seu lado o máximo que eu puder, especialmente na chuva – eu disse desviando o olhar para longe do dele.

Ele se aproximou de mim e me abraçou carinhosamente, mergulhando o rosto nos meus cabelos molhados e não menos estilosos.

- Spacibo – ele sussurrou.

Abracei-o de volta, ainda segurando o celular.

- Krolik?

- Hum?

- Você cheira à cerejas pretas maduras e dias ensolarados – ele disse ainda com o rosto nos meus cabelos.

Eu sorri.

- E você cheira à... Bode! À bode comunista, kesesese.

- Hein? - ele exclamou incrédulo, afastando-se de mim.

- Coelho dentuço! Segunda vez que me corta o clima... - lamentou-se.

Rimos.

- Vamos então? - perguntei-lhe.

- Nyet. Ligue logo para o seu irmão, eu espero.

- Richtig.

Digitei os números do celular de Ludwig e esperei chamar até que ele atendeu.

- Hallo?

- Haaaaaaalloooo, Brudiiiii!

- Gilbert! - ele exclamou do outro lado da linha – Por que demorou tanto a ligar, du Schwein? Fiquei preocupado!

- Verzeihung, Lud, é que eu tive alguns percalços – e aqui, olhei cúmplice para o Ivan, que me sorriu de volta – no meio do caminho e só consegui ligar para você agora.

- Percalços? Mas está tudo bem com você agora? Fez boa viagem? Encontrou-se com Ivan? Está gostando da cidade?

- Irmão, eu estou...

- Como ele é pessoalmente, Gilbert? Você teve problemas na imigração? As coisas por aí são precárias?

- Bruder...

- Ele soube da merda que você fez? Está fazendo frio aí? Disseram que na Rússia é SEMPRE frio. Não saia sem casaco, certo, irmão? Ele...

- LUDWIG, PORRA, DEIXA EU FALAR!

- Ah! Verzeihung. Sag mal, Gilbert.

- Sim está tudo bem comigo, fiz uma boa viagem, encontrei-me com o Ivan no aeroporto, não tive problemas com a imigração, a cidade é bonita e estou gostando muito do que vi até agora, mas como começou a chover copiosamente por aqui, ainda não fomos a nenhum ponto turístico. Se bem que...

- Se bem que o quê, Gilbert?

- Se bem que aqui já são quase 19h, os pontos turísticos devem estar fechados. Kesesese... Enfim, de qualquer forma, irmão, quando eu for, tirarei fotos e mostrarei a você quando voltar, ok?

- Ah sim! Antes que me esqueça, Vatti e Mutti, tudo ok em casa?

- Ja, tudo certo, groß Bruder. Não se preocupe. Para eles, se você está com o Gregor, então ok.

- Kesesese. Obrigado, Bruder.

- Ludwig?

- Hum?

- Eu vou desligar agora, ok? Ivan e eu vamos sair para comer alguma coisa. A chuva deu uma trégua e vamos aproveitar para sair.

- Claro, claro. Auf Wiederhören, Groß Bruder.

- Auf Wiederhören, Brudi. Amanhã eu ligo de novo- despedi-me, feliz por ter falado com meu irmão mais novo.

- Está bem, Tschüss.

- Tschüss.

Click!

- Pronto – disse devolvendo o celular para o Ivan. - Podemos ir agora.

- Da, podemos ir agora.

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Quando saímos do elevador, dirigi-me até o balcão da recepção e perguntei pelo meu passaporte. Júlia, a recepcionista gostosa das unhas longas e vermelhas, acenou-me com a cabeça e sumiu-se por detrás do móvel de madeira clara com chaves, muitas chaves, pendendo dele como cofres.

- Thank you for your patience, Mr. Beilschmidt – ela disse amistosa devolvendo-me o passaporte. - We hope you have a nice and pleasant stay here in Kaliningrad.

- Thank you very much – sorri-lhe.

Então, percebi que Júlia tinha peitos bonitos. Na verdade, Júlia tinha peitos impressionantes, num decote impressionante. Como não notei antes?

Digo, digo, então, percebi que Júlia tinha nas mãos um guia em inglês escrito ,,Kaliningrad Gastronomy" e isso me pareceu um convite a perguntar à moça algumas sugestões de lugares para ir jantar com o Ivan.

- Err... Miss?

- Da?

- So, a place you'd recommend...

Mal comecei a formular uma pergunta à recepcionista, senti um cutucão nas costelas que me fez inclinar para o lado de tão forte.

- Vamos. - Ivan disse, ou melhor, ordenou.

- Ja, ja... - eu disse com voz dolorida – Bye, Fräulein Júlia.

Ela sorriu em resposta.

Ivan disparou na frente, passos largos e firmes. Eu fui atrás, ainda sentindo os dedões dele nas minhas costelas.

,,Filho da mãe! Que dedão estuprador! Aquele urso comunista das tundras!", pensei com uma mão no local.

O dito urso comunista já havia passado pelas portas de vidro, quando outro urso me abordou:

- ¡Hola!, ¿qué tal?

O susto venceu a dor nas costelas.

- Hola - respondi com pouco entusiasmo, ainda me refazendo da surpresa.

- Mira si non es el hombre que ODIA las lenguas de orígene anglosajón, ¿sí? - disse para provocá-lo.

- ¡Non, non, non, non. No es verdad! Yo no las odio, es sólo que yo prefiero las lenguas latinas. Yo hice mi licenciatura en Literatura Española, pero no es que yo odio las otras lenguas, solamente yo...

- Gilbert, venha – Ivan ordenou novamente, dessa vez, com uma aura muito, muito assustadora.

Ele havia voltado para o hotel quando percebeu que eu não estava atrás dele e, pela cara que ele estava fazendo, parecia não estar gostando nem um pouco do meu atraso...

- Hasta luego.

Despedi-me do cara e corri até onde o Ivan me esperava.

- Não posso descuidar os olhos de você por um segundo que você já fica de conversa mole – ele resmungou entre dentes.

- Não tenho culpa se as pessoas falam comigo! Você queria o quê? Que eu as ignorasse?

- Sim! Ignore-as.

- Não vou ignorar as pessoas só porque você quer, Ivan.

- …

- Ah, claro... Agora você vai me ignorar... - falei num suspiro.

- Não vou ignorar você, Gilbert.

Estávamos andando rápido pela calçada, tão rápido que minhas pernas começaram a doer.

- Mas me incomoda muito você ficar dando mole.

- DANDO MOLE? - parei subitamente.

Pessoas olhavam, curiosas, na rua.

Ele parou.

- É, você dá muito mole – ele disse silencioso.

- Como?

Ivan suspirou e não disse palavra, apenas tornou a andar.

Segui-o logo atrás, resmungando muito.

,,Ah, então é essa a ideia de ,,Não vou ignorar você, Gilbert", dele!".

Chegamos a um lugar interessante. Uma construção baixa pintada em amarelo-palha. Portas de madeira escura entre duas janelas de vidros coloridos. Na fachada lia-se: Vodka- Strogronoff – Pirosky.

Kesesese, mentira.

Na fachada lia-se alguma coisa em russo que eu não fazia ideia do que se tratava, mas pelo rumor interno de pessoas conversando e pelo cheiro maravilhoso que emanava, deveria ser um restaurante!

- Não é um restaurante – Ivan disse olhando para mim -, mas é um local onde podemos sentar e comer as melhores tortas da cidade!

- Então é uma padaria?

- Não. Não é uma padaria. Não vende pão!

- Então é uma lanchonete?

- Ehh... Mais ou menos – ele disse fazendo uma cara cômica de quem está refletindo sobre a natureza do estabelecimento comercial. - Ah! Você sabe aqueles restaurantes menores italianos, que não chegam a ser restaurantes, mas é um local onde as pessoas podem se sentar e comer pratos típicos? A diferença é que aqui, você ainda pode fazer seu pedido que eles entregam em domicílio.

- Comer pratos típicos? Na Itália?

- Da, da. Como é o nome? - ele perguntou, estalando os dedos para se lembrar.

- Err... Vermes?

- Como? - ele olhou para mim visivelmente confuso.

- É, Ivan. Para alguém sair de casa para comer pratos típicos, ou essa pessoa tem vermes, ou tem um paladar muito exêntrico, tipo... MUITO excêntrico! Kesesese.

Ivan levou uma mão ao rosto.

- Não. Você não disse isso, Krolik...

Comecei a rir como um maníaco.

- Trattoria, Ivan?

- Hum?

- Esse lugar é tipo uma trattoria?

- É! Só que não há comida italiana.

- Então é tipo uma deli?

- Isso! Exatamente.

- Ótimo então, porque estou morrendo de fome. O que é que vende aí? Não é torta de vodka ao molho de vodka e vodka para acompanhar, não é? - gozei com a cara dele.

Ivan me olhou com uma cara de poucos amigos.

- Nyet. Tem comida de verdade.

- Hahahaha! Relaxa, Ivan, eu estou apenas brincando com você. Seu literal.

- Sei. Então, quer ficar aqui mesmo, ou prefere outro lugar?

- Nein, nein. Você disse que eles fazem as melhores tortas, e eu nunca provei torta de vodka antes.

Ele levou uma mão à minha cabeça, bagunçando meus cabelos como se eu fosse, sei lá, um pastor alemão.

- Coelhinho, vocé não é o Báltico, mas é cheio de onda!

- Gah! Você disse uma piadinha! - apontei para ele, chocado.

- Que seja.

Entramos na deli. O lugar era bem agradável. O perfume das muitas de tortas que tinham incensava todo o ambiente bem como a calçada defronte.

O lugar era pequeno e estava cheio de pessoas, que falavam ao mesmo tempo. Não consegui ouvir a voz de Ivan, que é naturalmente baixa.

- Que tal ali?

- Como? - perguntei, fazendo uma concha com a mão no ouvido.

- Ali está bom?

- É o quê?

- Eu perguntei – ele disse ao meu ouvido – se você quer se sentar ali.

- Ahhh! Sim, sim. Para mim está bom.

Ficamos em uma mesa um pouco mais afastada do rebuliço. Pude notar, no vai e vem de pessoas, uma mocinha pouca coisa mais nova do que eu que passava para lá e para cá carregando, numa bandeja grande, generosos pedaços de tortas que pareciam apetitosos. Muito apetitosos.

Meu estômago começou a reclamar como um doido àquela visão.

Prontamente, um rapaz magricela apareceu ao lado da nossa mesa, caderninho na mão, pronto para anotar nosso pedido. Ele se virou para mim e começou a perguntar uma porção de coisas num russo frenético. Fiquei tonto.

- Wie, bitte? - perguntei tendo certeza de que estava fazendo a cara mais horrorizada do mundo.

Ivan assumiu.

Fiquei olhando eles dois conversarem e o quanto que o rapaz magricela parecia ,,entusiasmado". Olhei para Ivan fuzilando-o, mas acho que ele não me percebeu, pois continuou a falar com o outro como se eu não estivesse ali.

,,Ivan, bastardo! Depois sou eu que fico dando mole!"

Fiquei tão aborrecido com aquilo, que minha fome passou. Um pouco. Na minha mente, apenas pensamentos homicidas, ,,Ivanicidas", na verdade.

- Bom, Gilbert, o que o Dmitri está dizendo é que existem vários tipos de recheios das tortas. Tem salgadas e doces. Você quer qual?

- Nossa, vocês passaram esse tempo todo só para ele dizer o óbvio? Que tipo, tem vááários tipos de recheios salgados e doces? Eficiente, não? - perguntei num misto de ironia e incredulidade.

- … - Ivan suspirou – Enfim. Salgada para você. Se houvesse uma AMARGA, eu juro que pediria agora...

Eu não disse palavra, apenas olhei para ele.

- Tem de queijo, creme de cebola, galinha, carne de porco, carne bovina – apesar de você não comer carne vermelha -, mista, entre outras.

- Eu quero a Da Casa – falei só para contrariá-lo. Eu não fazia ideia qual era ou se tinha um sabor da casa.

- Da Casa?

- É, Ivan. Geralmente SEMPRE tem um tipo ,,da casa" - falei arrogante.

Ele se virou para o rapaz magricela e perguntou:

- Nii nii Marinska Nicolaievski vodka strogonoff raz dzvah trii rachmaninov?

E o rapaz respondeu:

- Vodka vodka vodka ski ski rachmaninov piotr dostoievski tchaikovsky.

Claro que eles não disseram exatamente isso, isso foi como soou aos meus ouvidos.

- Sim – Ivan disse para mim-, eles têm o sabor da casa, e o rapaz cumprimentou você pela ótima escolha.

Levantei uma sobrancelha desconfiado.

- Ah, foi?

- Foi.

- E de quê é? - perguntei.

Ivan olhou bem no fundo dos meus olhos:

- É de Soylent Green! - sentenciou com os olhos esbugalhados.

- ECA!

Ele riu, riu muito.

- É de repolho com cenoura, Gil. Cenoura. Bem coelho.

- Se fudê...- xinguei-o entre dentes.

- Como é que é?

- Nada! - sorri maroto. - Vaaaai, passa a de repolho. É ela!

- Que bom – ele disse.

- Hein? Por que ,,que bom"?

- É que, sem saber, você escolheu o meu recheio favorito. Isso prova o quanto estamos conectados.

O mundo pareceu parar.

O rapaz magricela pareceu sumir.

Era só eu e Ivan naquela deli.

Era só ele sorrindo, retardado, para mim.

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Comi como um porco. A torta estava deliciosa e, por mais que Ivan tenha ficado supostamente chateado com a minha piadinha infame quanto às tortas de vodka, acabou que tomamos sim vodka.

Ficamos conversando por horas lá. Precisou o rapaz magricela chegar junto da gente e praticamente nos convidar a sair. Foi hilário.

Pagamos a conta e deixamos uma gorjeta boa para o cara que, apesar de eu ter estado aborrecido com ele, foi um garçom diligente.

Quando me levantei da cadeira, tive uma sensação estranha. Eu estava acostumado a beber, e já tinha tomado vodka antes, mas aquela vodka russa era algo quase sobrenatural!

Fiquei meio tonto e leve, como se estivesse pisando em nuvens e, por falar em nuvens, foi só a gente botar o pé para fora do estabelecimento e o céu voltou a desabar.

- Que ótimo, chuva... - Ivan disse irônico.

- Que ótimo, chuva! - gritei.

Corri para o meio da rua e fiquei lá na chuva, feliz.

Abri os braços e levantei o rosto para o alto para sentir a gotas frias contra meu rosto. É... eu estava bem bêbado...

- Coelho maluco! Saia do meio da rua!

Ivan me agarrou pelo braço de volta para a calçada. O puxão me fez colidir contra o peito dele e a gente meio que se abraçou. Meu ouvido no coração dele.

Afastamo-nos rápido.

- Acho melhor voltar para o hotel. São onze horas, você deve estar com sono – ele disse olhando para o relógio.

- Aham – eu fiz, meio grogue.

Fomos andando na chuva, lado a lado, até que ela parou. O clima em Kaliningrad é mesmo muito estranho!

- Eu não gostei do modo como aquele rapaz magricela falava com você, Ivan.

- Em russo, você quer dizer...

- Não! Não gostei que ele estava dando em cima de você.

- Não estava.

- Estava sim.

- Não estava.

- Estava.

- Estava para mim tanto quanto o cara do hotel estava para você - ele jogou verde.

- Tá vendo! - exclamei sem perceber que ele estava jogando verde.

- Tô vendo...

-... - fiz uma pausa.

A ficha caiu:

- Eita! Nada a ver!

- Tudo a ver.

- Nada a ver.

- Tudo a ver.

- Ele não estava dando em cima de mim, Ivan! - exclamei injuriado.

- Nem um pouco... - ele disse irônico.

- Não estava.

- Estava.

- Ele não estava dando em cima de mim, mas quem estava dando em cima de você, Ivan, era o cara da torta.

- Não, ele não estava.

- Estava!

- Não estava.

- Estava.

- Ele não estava - ele disse parando -, mas se estivesse, Gilbert, o que você faria?

Eu olhei para ele e não disse nada.

- Pff... - ele fez – Não faria nada.

,,O que eu faria?...", divaguei um pouco.

Ivan disparou na frente sem esperar pela minha resposta.

- Eu, o que eu faria? Volte aqui e veja o que eu faria, seu covarde! - gritei para ele.

Como Ivan não parava de andar e nem voltava, tentei acompanhá-lo praticamente correndo.

- Eu vou mostrar a você o que eu faria, eu faria assim AAHHH!

Nesse momento, tropecei em uma coisa macia e grande. Só depois percebi que havia tropeçado em um cidadão que se encontrava dormindo, bêbado na calçada.

O homem acordou-se puto, afinal, não deve ser muito agradável ser acordado por um moleque de 62 kgs caindo em cima de você, não é mesmo?

- Puta merda! - exclamei nervoso – Desculpa, tio!

O homem olhou para mim de uma forma estranha, muito estranha. Quase psicopata. Ele resmungou uma cascata de coisas em russo que, eu espero, tenham sido elogios à minha pobre mãe.

Levantei-me muito rápido. O torpor do álcool sumiu na mesma velocidade em que eu disparei, correndo até o Ivan, que havia visto a cena e estava curvado para frente, segurando a barriga de tanto rir.

- Você. Vai. Me. Matar- ele disse gargalhando -, Krolik.

- É PORQUE NÃO FOI COM VOCÊ!

- Ainda bem que não foi comigo! - ele riu ainda mais.

- Pare.

- Era isso o que você faria, Krolik?

Nova onda de risos.

- Pare, Ivan.

- O pior é que está doendo – eu falei, assoprando as palmas das mãos.

- Ah, deixa de ser frouxo.

- Frouxo uma droga! Não foi você quem caiu de quatro em cima do mendigo e se fudeu todo no cimento! - gritei.

- Nyet, deixa eu ver isso – ele disse tomando uma de minhas mãos.

- Sai! - puxei a mão das dele – Me deixa em paz.

- Deixa eu ver.

- Nein!

- Gilbert! Deixe. Eu. Ver – ele disse sério – Sou praticamente um médico.

Quando ele disse isso, liberei, devagar, as mãos para que ele as examinasse e me desse um diagnóstico.

- Hummm...

- Hummm?

Ele sorriu e plantou um beijo nas minhas mãos.

- Não tem nada aqui, só duas patinhas albinas e desastradas. Na verdade, você é o coelho mais dentuço, prepotente, mal-criado e desastrado que eu já vi!

- Geh' zum Teufel!

Comecei a rir.

Começamos a rir.

A chuva recomeçou a cair, deixando-nos ainda mais molhados.

- Você está todo molhado, parece um são bernardo! - eu disse – Daqueles são bernardos babões e peludos dos filmes.

- Você não está muito melhor... Sua cara parece a de um pastor alemão abandonado – ele disse – daqueles pastores alemães desnutridos e tropeçadores de mendigos dos filmes.

Devia ser perto da meia noite, mas não estava muito escuro graças aos postes de luz.

Chegamos ao hotel encharcados.

Cumprimentamos o segurança que habla español e subimos direto para o quarto. Era quase meia noite.

Peguei a chave coloquei na fechadura e a girei no trinco até ouvir o click, abri a porta empurrando-a.

,,Hein? Como assim não quer abrir?", pensei.

- A porta não abre!

- Nyet, Gil, é porque você está empurrando a porta.

- É, não é? - perguntei o óbvio.

- Não. Aqui na Rússia as portas abrem para fora. Ao invés de empurrar a porta, você deve puxá-la para você.

- … - olhei para ele com incredulidade – Tá brincando? Vocês russos só podem ser alienígenas...

Puxei a porta para mim e, de fato, ela abriu. Entrei, Ivan entrou e tranquei a porta, mal virei, Ivan me abraçou e começou a me beijar. Retribuí. Ele me empurrou contra a porta, colocou um joelho entre minhas pernas e me suspendeu um pouco.

Joguei meus braços por cima dos ombros dele, inclinei a cabeça para o lado esquerdo e deixei aprofundar nosso beijo. Sua língua quente e úmida na minha boca, era mesmo muito bom. Suas mãos começaram a passear pelo meu corpo até que seus dedos resolveram que iriam trilhar caminhos mais desconhecidos de mim, se é que me entendem...

Estávamos um entregue ao outro, quando sem querer, o cotovelo de Ivan bateu em um dos meus joelhos.

- Ai! - exclamei.

- O que foi? - ele pareceu surpreso.

- Seu cotovelo bateu no meu joelho.

- Err... Desculpa? - ele pareceu meio frustrado.

- Sem problema, mas agora que você encostou ali, parece que meus joelhos estão ardendo.

- Hein?

Ivan me colocou no chão, então percebemos que meus joelhos estavam sangrando.

- Krolik, que cortes feios!

Senti um frio na coluna. Eu sei que ele estava se referindo às feridas por conta do meu tombo, mas foi como se ele tivesse descoberto meu segredinho vexatório.

- É melhor eu cuidar de você. Vamos tomar banho juntos! - ele disse com um olhar muito, muito suspeito.

- M-melhor não, Ivan – recusei pensando nos meus pulsos.

- Ah, vamos tomar banho juntos, Krolik, eu aproveito e cuido do seu ferimento.

- Nein, por favor. Se você quiser, depois do banho eu deixo você cuidar de mim.

- Por que tão pudico?

- Coisa minha – dispensei-o e me tranquei no banheiro.

Tomei um banho demorado e lavei bem os joelhos. Talvez o fato da minha bermuda ser pouca coisa acima deles e o fato de a calçada ser de cimento grosseiro tenha machucado mais. Enfim, nada de mais.

Na pressa de fugir de Ivan, acabei esquecendo de pegar roupas limpas, por isso, saí enrolado na toalha mesmo.

,,Não duvido nada que ele me ataque já que estou vulnerável", pensei rindo comigo mesmo.

Para minha surpresa, ele não me atacou, resumiu-se a passar a mão nos meus cabelos e sumir-se para dentro do banheiro. Parecia meio tristonho ou, pelo menos, foi essa a impressão que tive.

Coloquei um bermudão folgado e velho que eu usava para dormir e vesti uma blusa de manga comprida branca, meio velha também. Tentei secar os cabelos da melhor forma possível e fiquei esperando Ivan sair do banheiro enquanto lia um livro que eu havia trazido: Bismarck: A Life.

Algum tempo depois, me aparece um Ivan metido no ,,pijama'' mais hipster que eu já vi na vida! Uma bermuda xadrez verde escura e amarelo bem claro, quase cor de areia e uma camiseta vermelho-bombeiro escrito ,,Bazinga!".

- Conheço esse show! - exclamei apontando para a camiseta dele.

Ele sorriu.

- É meu seriado favorito.

- Meu também!

- Apesar de odiar séries – dissemos ao mesmo tempo.

Olhamos um para o outro e rimos.

- Pensamos igual – Ivan disse.

- Ja – concordei.

Ivan foi até sua mala e tirou de dentro uma bolsa pequena.

- Kit de primeiros-socorros – ele disse -, nunca saia de casa sem um!

Dirigiu-se até onde eu estava sentado, na cama e abaixou-se. Ele pegou um chumaço de algodão e embebeu-o num líquido incolor com um cheiro forte e acético e, pacientemente, passou nos meus joelhos.

- Isso é para esterilizar a área, agora, vou passar um pouco desse spray amarelinho que é para facilitar na cicatrização, da? - ele disse como se eu tivesse 12 anos.

- Arde! - reclamei.

Ele sorriu.

- Só um pouquinho.

- Nghnnn... - fiz uma careta de dor - Sopra, Ivan, sopra!

- Que mimado! - ele reclamou, mas acabou soprando.

- Beeeem melhor – eu disse rindo.

- Melhor ainda se eu der um beijinho para sarar.

Dizendo isso, ele beijou meu joelho um depois o outro. Em seguida, cuidadosamente, ele afastou meus joelhos e começou a beijar a parte interna da minha coxa e automaticamente senti as bochechas ficarem vermelhas.

- O-oi... Ivan...

- Da, da, eu sei – ele disse, levantando-se um pouco e vindo em minha direção -, meus lábios nos seus.

Deixei que ele me beijasse. Era bom. E eu não ia ,,negar fogo", não pela segunda vez.

Ele percebeu que eu estava mais passivo e interpretou bem a mensagem. Sua língua experiente já se dirigia aos pontos certos que me faziam me perder a mim e permitir que ele me achasse, enquanto seus dedos ávidos percorriam meu corpo. Num dessas ,,incursões", ele me tocou em regiões que, na projeção de Mercátor, chamamos Países Baixos e eu, automaticamente, tentei me levantar.

- Nyet – ele disse – fica aí.

Lutei mais uma vez para me levantar. As bochechas muito vermelhas.

Mais uma vez ele me empurrou para baixo dele.

Terceira vez tentei levantar, então ele usou de um pouco mais de força e me segurou pelos pulsos com firmeza.

A dor aguda foi algo indescritível.

- Nnnn! - gemi e lágrimas brotaram dos meus olhos.

Não imaginei que os cortes ainda pudessem doer como estava doendo.

- O que foi, Gil? – ele me soltou rapidamente – Machuquei você?

Ele parecia preocupado.

- Nein, nein. Foi... câimbra! - menti.

- No pulso? - perguntou incrédulo.

- Ja.

Ele estava desconfiado.

Como já estava por cima de mim e entre minhas pernas, não foi difícil para ele terminar de me dominar, puxar meus braço, levantar minhas mangas e ver o que eu tentei esconder.

- O-o que foi isso, Gilbert?

-...

- Você... Você andou se cortando?

Virei a cabeça para o lado tentando evitar o olhar reprovador dele, mas foi inútil, pois Ivan segurou minhas mãos com uma mão só e levou a outra ao meu maxilar, voltando meu rosto para ele e pressionando minhas bochechas.

- Não faz mais isso, ouviu? - ele disse com uma expressão muito séria.

Eu não falei nada.

- Não faz, não faz, não faz – repetia baixo mais para si mesmo do que para mim -. Porque se você morrer, eu morro junto.

E aqui ele se deitou por cima de mim, pousando o rosto no espaço entre minha orelha e meu ombro.

- Não, não vou fazer mais, Bär, eu prometo a você – prometi e corri, lentamente, os dedos pelos seus cabelos macios e cheirosos.

- Por que fez isso, Gilbert?

- Porque... - tentei responder – Eu não sei muito bem. É porque eu estava na merda.

- Eu fui um babaca com você naquele dia, Ivan, e achei que nunca mais fosse falar com você e isso me desesperou. Eu juro que não pensei muito, só olhei para o canivete e o canivete olhou para mim e, quando vi, estava assim.

Ele se levantou de cima de mim e sentou-se à minha frente, fiz o mesmo.

Ficamos conversando e contei toda a ,,aventura" daquele dia, ao final, Ivan olhou para meus braços e removeu as bandagens, observando bem os 13 pontos.

Finalmente, ele disse:

- A culpa foi minha, desculpe-me.

- Nein! Não diga isso! - exclamei – A culpa foi minha, que fui covarde, que tomei a decisão mais ,,fácil" ao invés de tomar a responsabilidade. Você não tem culpa de nada, eu que...

- Por favor, prometa que nunca mais na vida você vai fazer isso, da?

- Eu...

- Prometa, Gilbert.

- Prometo, prometo.

- Bom.

Então, ele tomou meus pulsos em suas mãos e beijou-os levemente.

- Bär? - chamei numa voz fraca.

- Da?

Inclinei-me para frente e me apoiei nele.

- Sono.

Ouvi quando ele sorriu.

- Ok, Krolik. Vamos dormir.

Então, ele me segurou firmemente, deitou-se e me puxou de modo a que eu ficasse deitado em cima dele. Colei meu ouvido esquerdo no peito dele.

- Estou ouvindo seu coração. – Falei algo óbvio numa voz de sono – É alto.

- É que ele bate mais forte quando estou com você.

- Huhu... - sorri com os olhos já fechados.

- Eu amo você – ele sussurrou ao meu ouvido.

Dormimos, literalmente, juntos pela primeira vez.


Gato de Cheshire - personagem do livro Alice no País das Maravilhas, de C. S. Lewis e, juntamente com o Mad Hatter, uma paixão particular. Afinal, o Gato de Cheshire é, de longe, o melhor perso. EVER!

Jack Torrence - personagem interpretado por Jack Nicholson no filme ,,O Iluminado", do maravilhoso Stanley Kubrick =33333

,,You see beauty and I see pain, you see sky and I see acid rain" - trecho da música ,,It's me Again" de Korn (tb fiz homenagem ao Korn no título do cap, pq tem tudo a ver com o Guil sendo O Guil denovo! xD

,,Bazinga!" - Frase do Dr. Sheldon Cooper , de TBBT, pq eu AMO TBBT! huhuhuhu

Bom, se deixei passar alguma coisa, eu peço encarecidamente que vocês me avisem para que eu possa emendar aqui no espaço de legendas. =)

Bom Carnaval!

Vemo-nos no cap. 10 o/

MTree.