Depois de muito tempo, o novo cap.

Desculpem-me a demora. Espero de todo o coração que gostem.

MTree.

:)


Pegamos um trânsito absurdo, Gregor e eu. Talvez a ideia de ter optado pelo táxi e não pelo metrô tenha sido, como se diz em linguagem popular, uma ideia de jerico. Quem, em sã consciência, troca o metrô pelo táxi?

Bem, alguém no calibre de Gregor troca, e seus argumentos foram bastante convincentes.

- Então, a gente vai de táxi, Gil.

- Táxi, Gregor? Mas por que táxi se o metrô é tão melhor?

- O metrô é melhor em dias normais, mas hoje é feriado, não tem muitos carros na rua, além do mais, o taxista é amigo meu e a gente vai voltar com ele, então não tem problema de você deixar as coisas no carro. Melhor do que ficar arrastando mala no show.

- Bom... pensando por esse lado, Du hast ja Recht.

- Claro que eu tenho razão, é uma ideia de gênio! Relaxa e deixa a parte mental comigo – ele disse com seu sorrisinho displicente de sempre.

- Na klar... Por quê eu tenho a péssima impressão de que vou me arrepender de ter concordado com você?

- Porque você é alemão e 99% dos alemães são pessimistas.

- Enfim... Esse taxista vai demorar muito para che...

- Aha! Lá está ele! Vamos, Gil!

Gregor me puxou pelo braço com tanta força que me fez gemer de dor, uma vez que o viking cravou as unhas bem no corte do pulso. De qualquer forma, emburacamos no Mercedes branco do cara, que disparou rumo à casa de show numa velocidade impressionante.

A ideia de gênio de Gregor teria sido realmente de gênio se TODOS em Berlim não tivessem tido a MESMA ideia de ,,vamos aproveitar que tem pouco carro na rua hoje e usar nossos carros". Também teria sido uma ideia de gênio se o prefeito não tivesse tido a mesma ideia de Gregor e dos berlinenses e pensado, ,,Ah! Vou aproveitar que tem pouco carro na rua hoje e vou mandar adiantar a obra de recapeamento das ruas e concentrar todos os meus esforços na Rua Que Levará Gilbert e Gregor ao Show!". Além disso, teria sido uma ideia de gênio, se os manifestantes da oposição não tivessem tido a mesma ideia de Gregor, dos berlinenses e do prefeito e não tivessem pensado que hoje seria um dia bom para manifestações de esquerda, e não tivessem tido a ideia de ,,vamos aproveitar que tem pouco carro na rua hoje e o prefeito vai recapear a Rua Que Levará Gilbert e Gregor ao Show, para concentrar nossas manifestações na Rua que Serviria de Atalho à Rua que Levará Gilbert e Gregor ao Show", ou seja: pegamos um trânsito absurdo.

- Parece que sua ideia de gênio não foi tão de gênio assim, gênio! - eu disse irônico.

- A ideia foi e é de gênio. A única diferença é que todos resolveram imitar a minha genialidade justamente hoje – ele respondeu.

- Aber natürlich...

Ficamos algum momento em silêncio.

- Thomas, bitte a gente vai descer aqui.

- Aqui, Gregor? - perguntou o taxista.

- Sim. O lugar não é muito longe daqui e já estamos em cima da hora. Eu ligo quando o show acabar, valeu? Pago na volta. Tchüss.

Nem bem o homem processou a informação, Gregor e eu zarpamos de dentro do carro e ganhamos a rua congestionada. Dezenas de carros ocupavam a rua numa fila infindável. O ruído estridente de buzinas irritadas enchia o ar, eu e meu amigo corremos no meio dessa muvuca como dois fugitivos até que finalmente conseguimos chegar ao local, ou melhor, à bilheteria do local.

- Como assim bilheteria?! Achei que os tíquetes já tinham sido comprados.

- E foram. O problema é que nessa casa de shows o povo checa a autenticidade deles. Por acaso você trouxe os ingressos, certo?

- Claro que sim! Não sou imprudente feito você. Olha aqui, ó – falei prepotente, passando os bilhetes pelo nariz do meu amigo.

- Tabacudo. Passa esses bilhetes pra cá – ele disse rindo.

Depois de esperarmos alguns minutos na fila quilométrica, finalmente passamos pela maldita catraca borboleta, e, como sempre alguma merda TEM que acontecer comigo, quando chegou minha vez de passar, a jaqueta vermelha que sempre uso enganchou na porcaria da catraca. Um ogro que vinha logo atrás de mim começou a me empurrar e me xingar, como se fosse culpa minha ficar preso.

- Pelo suor do Gigante Ymir, cara! Você não tá vendo que eu fiquei preso nesta porra de catraca e tô tentando me soltar, meu irmão?! - gritei com o homem.

O cara grunhiu algo entre um rosnado e um palavrão e continuou me empurrando.

- Nhinhinhinhi vai logo nhinhinhinhi viadinho nhinhinhi de merda.

,,Vai logo, viadinho de merda?", pensei, ,,É o quê, rapaz? Eu ouvi isso certo?".

- É o quê, rapaz? Eu ouvi isso certo?! - virei-me pro cara, ainda meio enganchado.

- Nhinhinhinhi, porra, vai logo! - o cara me empurrou com tanta força que rasgou meu moletom vermelho favorito.

- Verdamnt! Meu moletom vermelho favorito! - gritei.

- Hahaha! Nhinhinihi... aprender a andar nhinhinhinhi viadinho nhinhinhi de merda.

Senti o sangue ferver na minha cabeça. Aquela porra daquele moletom tinha sido presente do Ludwig!

- Vai aprender a falar direito, seu troll dos infernos - e aqui, parti para cima do cara na violência, dei-lhe um soco no nariz -, ou vou ter que fazer você precisar de um tradutor?!

- Gilbert, pelo amor de Deus, o que você está fazendo?! - a voz de Gregor veio de algum canto.

- Esse desgraçado rasgou meu casaco vermelho favorito, Gregor! Eu fiquei preso na porra da catraca e esse estrupício chegou me empurrando na boçalidade e...

Foi quando senti um murro na cara que me fez ir pra trás. O troll tinha me socado, pegou-me com a guarda baixa. Não tive dúvidas, parti pra cima do ogro sem medir seu tamanho e nem peso – o dobro dos meus, diga-se de passagem – não obstante as súplicas de Gregor para deixar isso para lá que o show já ia começar.

Senti o sangue escorrendo pelo canto da boca, limpei-o com as costas da mão e olhei no fundo os olhos do meu oponente. Uma sensação muito intensa percorreu pelo meu corpo, uma sensação que há muito tempo eu não sentia e adorava: a sensação de estar prestes a brigar.

- Parece que o Sr. Nhinhinhi realmente quer um tradutor – eu disse com um sorriso malévolo.

O cara parecia desses caras estourados, violentos, irracionais. Desse tipo de cara que faz qualquer coisa para arranjar confusão, ou seja, o cara era uma versão mais alta e maior de mim mesmo. Eu gosto de brigar com tipos assim.

Em pouco tempo, juntou uma roda de arruaceiros que ficavam repetindo ,,briga, briga, briga" em torno de nós. O homem e eu nos encaramos como dois cachorros que disputavam o mesmo pedaço de carne. Um analisando o outro, só esperando uma pequena brecha para avançar.

Foi quando ouvi uma melodia conhecida. Uma melodia apreciada.

Por mais que eu goste de brigar, eu gosto mais de Tactical Sekt.

- Dane-se. Eu vim pelas bandas, não pela briga.

Dei de costas pro cara, abri caminho entre o povo e sumi com Gregor pelo meio da galera em busca de um lugar bom para apreciar o show.

- Você é realmente problemático, Gilbert.

- Como se você não soubesse disso, Gregor, kesesese. Aquele broncossauro teve sorte de eu gostar mais das bandas do que de brigar com ele.

- Hahahaha! Broncossauro? Achei que era bronTossauro.

- Nein! É bronCossauro mesmo. Mistura de ,,bronco" com ,,dinossauro". Acabei de inventar.

- Só você mesmo, Gilbert Beilschmidt, para me chegar com uma dessas!

- … Fazer o quê? Sempre fui uma criança meio... Estranha. Nunca neguei que sou um nerd que deu certo.

- Realmente deu certo?

- Claro! Oresama é awesome!

- Um dia você me mostra como deu certo?

- Um dia eu mostro a você como meu punho cabe certinho na sua boca!

- Wow! Depois EU sou o viking!

- Pois é... Não é à toa que sucumbiram rápido, já nós, nobres prussianos da ordem dos cavaleiros teutônicos, nós subsistimos!

- Não vamos falar de História agora, principalmente porque já não consigo escutar nada do que você está falando.

- É o quê? - gritei.

- Não ouço bem o que você está falando! - ele gritou.

- Como?

- Eu nã... Deixa pra lá!

O show durou umas 2h e foi bom. Sempre gostei de Taktical Sekt e Grendel e pensei se o Ivan iria gostar de estar lá comigo. Na verdade, por mais que eu gostasse de estar com o Gregor, era inevitável pensar no Ivan.

,,Acho que o Ivan iria gostar do show, mas provavelmente faria cara feia porque briguei com o troll da bilheteria", pensei.

Chegamos à casa do Gregor por volta das 3h da madrugada e do jeito que estava, me joguei no sofá. Ainda lembro de ouvir vagamente Gregor me perguntando alguma coisa que não faço ideia do que foi.

Acordei umas 5h depois com o Sol na cara. Aproveitei para tomar banho e escovar os dentes.

Gregor também havia acordado ,,cedo", tomamos café e conversamos um pouco. Não pude me esquivar de suas perguntas inconvenientes, mas eu devia respostas ao meu amigo, então tá.

Voltei para casa antes do almoço, afinal, uma hora eu tinha que aparecer em casa, richtig?

Quem atendeu a porta foi meu irmão, que me deu um abraço tímido e me ajudou com a mala.

- Gilbert ist angekommen – ele gritou para dentro de casa.

- Filho, que bom! Chegou bem na hora – disse meu pai.

Entrei, larguei as coisas em cima do sofá e fomos Ludwig e eu para a cozinha. O cheiro do almoço estava maravilhoso.

,,Ninguém cozinha melhor do que o meu pai", pensei.

- Hallo, Vatti, que cheiro bom, o que é?

- Nada de mais. Apenas um souflair de legumes, carne acebolada, salada de pepino com mostarda e arroz à grega. Nada de mais – ele disse humilde.

- Sei. Nada de mais... - respondi.

Ludwig sorriu concordando comigo.

- A carne eu dispenso, mas o souflair...- comentei guloso, pescando uma azeitona do arroz à grega.

- Onde está Mutti? - perguntei.

- Ela está lá fora. Foi pegar alguma coisa na caixa de correios.

Segundos depois, entra minha mãe.

- Oi filho! Que bom que chegou.

- Oi, mãe.

- É impressionante como que esses políticos lotam a nossa caixa de correios com malas diretas. Um gasto absurdo de papel e eu não votaria nesse escroque nem se fosse o último político da Alemanha!

- De quem você está falando, Schatz? - perguntou meu pai.

- Desse Humbert Rückenschmerzen. - ela disse colocando as malas diretas com a foto do político em cima da mesa.

Assim que meu pai viu a foto do sujeito, largou tudo o que estava fazendo e deu-lle uma dedada. Eu e Ludwig rimos.

- Aquiiiii para você, olha! - fez meu pai.

- O homem é um safado, corrupto, envolveu-se com uma dezena de escândalos de desvio de dinheiro público e ainda tem a cara de pau de se candidatar a prefeito?! Ach! Faça-me o favor! - disse minha mãe, indignada.

- Esse sujeito deveria ser cassado!

- Ou caçado! Com um rifle, kesesese – comentei.

- O mais impressionante disso tudo é que ele está com a maioria das intenções de voto – disse Ludwig.

- Não sei se ,,impressionante" é a palavra certa, - suspirou minha mãe – acho que revoltante se enquadrada melhor.

- É incrível como as pessoas têm a memória fraca para esse tipo de assunto. É como se não fosse o dinheiro delas! - comentou meu pai.

Sentamo-nos todos à mesa para o almoço e, enquanto nos servíamos, o assunto continuou.

- A gente que trabalha no Ministério Público tem que lidar como todo tipo de situação constrangedora – disse Mutti -, imaginem vocês que tive que ficar frente a frente com esse dissimulado no elevador, e parece que quanto mais você quer chegar ao seu andar, mais demora!

- E o que a senhora fez, Mutti? Sorrisinhos amarelos? - perguntou Ludwig.

- Como os franceses dizem, filho, c'est la vie, tive que distribuir sorrisinhos amarelos e ele para mim muito embora a vontade fosse de estrangulá-lo.

- Kesesese, agora eu vejo de onde vem meu ímpeto briguento. É tudo graças ao seu gene, Mutti! - brinquei.

- Que pena que só o gene briguento da Mutti foi para você, groß Bruder, o gene da inteligência que é bom... Nada.

- Desde quando você faz piadas, Ludchen? - perguntei amuado.

- Desde quando não são piadinhas, mas constatações da verdade.

- É, Schatz, não podemos culpar os cidadãos de terem memória curta e serem completamente apolíticos. Veja nossos filhos! - disse meu pai meio em tom de crítica (? ).

Olhei de soslaio para o meu pai.

- Humbert Rückenschmerzen. - comecei a falar enquanto enfiava uma folha de alface inteira e 3 fatias de pepino na boca - Ex- Ministro da Saúde, chomp, chomp, chomp. Omisso quanto ao Escândalo das Chami, -chomp, chomp – chungas, chomp, chomp, chomp, ou Máfia das Auto-macas, chomp, chomp, chomp. - fiz pausa para deglutir.

- Escândalo de corrupção que estourou há 3 anos devido à descoberta de uma quadrilha que tinha como objetivo desviar dinheiro para a compra de ambulâncias. Entre seus principais envolvidos estavam os ex-deputados Thomas Chile e Karl Roderichsohn. O caso daria origem, no mesmo ano, ao Escândalo do... Do... Do Arquivo-que-Contém-Papéis-Relativos-a-Determinado- Assunto – continuei muito rápido, com muita propriedade e movimentando compulsivamente as mãos.

- Escândalo do Dossiê, você quis dizer? - disse Ludwig, completamente sem emoção.

- Isso - respondi.

- Hum... - fez nosso pai – Nada mal. Achei que poderia ser pior.

,,Como assim, velho? Achou que poderia ser pior?! Eu sou o gênio da política e você me diz que, ,,poderia ser pior"?! Pior como?!", pensei.

- É... Acho que a pátria não está assim TÃO perdida afinal – constatou Mutti.

Almoçamos ainda no calor da discussão política, mas foi bastante divertido. Eu quase me engasguei de tanto rir quando Vatti e Mutti começaram a disputar, de forma velada e competitiva, quem havia denunciado mais corruptos. Ludwig, prevendo uma possível indisposição conjugal, resolveu mudar de assunto e, quando menos nos apercebemos, imaginem, estávamos falando sobre a Igreja Católica Medieval e o vôo impressionante das borboletas- monarca da América do Norte!

Wunderbar!

xxxxxxxxxxxxx

,,Decidi que vou prestar vestibular para Direito, Bär."

,,Ah, é? Achei que você queria ser músico, Krolik."

,,Eu quero ser músico, Bär, mas acho que primeiro tenho que ter uma boa profissão".

,,Músico é uma boa profissão, você não acha?"

,,Nããão..."

,,Não?!"

,,Digo, Sim!"

,,Sim, é uma boa profissão, Bär, mas eu quero trabalhar no Ministério Público e ser procurador igual aos meus pais!"

,,A profissão deles é muito estimulante! Você sabia que meus pais, juntos, foram responsáveis por mais de 100 denúncias de corrupção?! Não é incrível?!", escrevi empolgado.

,,Hum... Legal."

,, ,,Hum... Legal"? ,,Hum... Legal"? Eu passo meia hora escrevendo que me decidi que vou fazer Direito e o porquê de eu ter me decidido em fazer Direito e você me vem com um reles ,,Hum... Legal"?! Porra, Bär! Estimulante que é falar com você...".

,,AH, QUE BOM QUE VOCÊ DECIDIU FAZER DIREITO, KROLIK! WEEE! ESTOU TÃO EMPOLGADO E FELIZ POR VOCÊ ESCOLHER UMA PROFISSÃO ESCROTA QUE PRENDE VOCÊ ÀS LEIS DO SEU PAÍS IMPOSSIBILITANDO, POR CONSEGUINTE, VOCÊ VIR MORAR AQUI EM MOSCOU COMIGO QUE EU ATÉ PODERIA CHORAR DE FELICIDADE!"

,,Melhorou?", ele escreveu.

,,Poxa, Ivan, meus parabéns. Se você pudesse me ver e escutar agora, saberia que estou batendo PALMAS para você. E o troféu Drama Queen deste ano vai para? Ivan Braginski! Nossa musa LÁGRIMAS do ano!"

,,..."

,,Ao menos uma vez na vida você poderia parar de olhar pro seu umbigo e perceber que está sendo mimado e egoísta?", escrevi.

,,Não estou sendo mimado e egoísta! Apenas você disse que seria músico. E a gente combinou que em você sendo músico, eu seria seu médico, ora bolas!"

,,Então você não pode ser meu médico se eu for procurador?!"

,,O que é que você tem contra procuradores?!", continuei.

,,Quer dizer que se um procurador for ao seu consultório, você vai deixar de atendê-lo?"

,,Não é isso", ele escreveu.

,,Daí você vai atender um cara, daí você vê na ficha dele que ele é procurador, daí você vai olhar nos olhos dele, mas olhar bem fundo na ALMA dele e vai dizer:

- Desculpa, Herr... sei lá, Herr Shupinski! Desculpa, Herr Shupinski, mas não vou atendê-lo porque o senhor é PROCURADOR e eu não atendo procuradores."

,,É isso, Ivan, é isso o que você vai fazer? Depois diz que não é preconceituoso!"

,,Mas deixe de firulas, homem! Você sabe muito bem que não estou falando disso, Gilbert! Claro que não tenho preconceito contra ninguém, muito menos contra procuradores!"

,,Se eu sou drama queen, você é um verborréico de primeira, hein?! Distorce tudo o que eu falo, e quando eu digo tudo, é tudo mesmo!"

,,Shupinski? De onde tirou isso de Shupinski?", ele escreveu.

,,Isso nem russo é! Shupin..."

,,... GIIIIIILLLL-BERT!"

Eu ri, eu ri tanto que lágrimas caíam dos meus olhos. Eu PRECISAVA ter visto a cara dele naquela hora.

Ivan passou um tempo me ignorando no MSN.

,,Uau, ele está me ignorando no MSN", pensei.

,,Bär, knock, knock".

,,Bär, knock, knock".

,,Bär, knock, knock".

,,Bär, knock, knock".

,,Bär, knock, knock".

,,Bär, knock, knock".

,,Bär, knock, knock".

,,Bär, knock, knock".

,,Bär, knock, knock".

,,O que é?", ele escreveu.

,,Finalmente!"

,,..."

,,Sabe que é um pouco ridículo você me ignorar no MSN?"

,,..."

,,Enfim. Nada impede o nosso lindo e awesome amor o fato de eu estudar Direito, Bär."

,,Claro que não. Apenas leis diferentes e impossibilidade de você ser procurador na Rússia. Apenas isso."

,,Por que eu teria que ser músico na Rússia e você não poderia ser médico na Alemanha?"

,,Hum, porque não me deixariam ser médico na Alemanha?"

,,Quem disse?"

,,Err... O Conselho Federal de Medicina Alemã?"

,,Você já ouviu falar em Prova e Permissão de Trabalho?"

,,Você já ouviu falar em Permissão Negada?"

,,Você já ouviu falar em tentar?"

,,Hein? ,,Você já ouvir falar em tentar"?!"

,,Você já ouviu?"

,,Não é isso que estou falando! Estou questionando o tentar"

,,Err... Tentar, verbo regular da 1ª conjugação (-ar). Tentar, transitivo. Do infinitivo latino, tentare. Sinônimo: Experimentar. Também pode ser: provocar desejo, mas aqui me refiro à primeira definição."

,,Eu sei o que significa tentar, Gilbert, eu não sou imbecil."

,,Então o que tem de mais em tentar?"

,,Deixa para lá."

,,Deixa para lá nada! Qual é o problema? Eu não valho você tentar ser médico aqui não?"

,,Claro que vale."

,,Então qual é o problema em você vir para cá? Você não gosta da Alemanha, é isso?"

,,Claro que não!"

,,Poxa, quanta sinceridade."

,,Claro que não é isso que eu não gosto da Alemanha. Eu gosto da Alemanha. Você está na Alemanha."

,,Sei..."

,,O problema é que... Está bem, eu vou procurar saber o que eu tenho que fazer para ir atrás de você."

,,Eba."

,,Mas pode ser que leve tempo."

,,E?"

,,Pode ser que leve uns sete anos."

,,E?"

,,Você me esperaria por sete anos, Krolik?"

,,Você me esperaria por sete anos, Bär?"

,,Eu... Eu não sei, Krolik."

,,Então como espera que eu espere?!"

,,Eu posso ter esperança de que você me esperaria?"

,,Se você me prometer que o seu objetivo sou eu e que você vai tentar vir para cá, então eu espero por você, e até tolero a sua insegurança. Mas se você não sabe ao certo o que quer, não sou eu quem vai ou pode querer por você."

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- Impressão minha ou o tempo tem passado mais depressa do que de costume?

- Acho que é impressão sua, Gil.

- Já estamos acabando o colegial, Gregor, mês que vem já vamos prestar nossas provas de vestibular!

- É...

- Você vai mesmo fazer Direito, Gil?

- Vou sim, Tóris.

- Seremos colegas de profissão!

- Ja.

- E quanto a você, Gregor?

- Engenharia Química.

- Nossa, que bom!

- O Gregor aqui é uma espécie de gênio da química, Tóris – eu disse dando um empurrão com o ombro no meu amigo.

Sim, estávamos os três, eu, Gregor e Tóris num raro e inusitado momento ,,amigos". Decidimos, de última hora, matar a aula de Matemática e vadiar pela cidade.

Tinha sido a última aula de uma sexta-feira cinzenta, chuvosa e fria e nos permitimos não ir à aula. Optamos pelo Café Nero, como sempre.

- Opa, Herr Ober, sempre acerta o meu capuccino!- exclamei.

- Uma vez VIP, sempre VIP – comentou Gregor.

- Mas você vai fazer vestibular só para Berlim, Gregor? Não vai tentar a Universidade de Copenhague? - perguntou Tóris – Obrigada pelo cafè macchiatto, Herr Ober.

- Talvez, mas meu objetivo é ficar na Alemanha. Minha família já mora aqui há tantos anos, minha irmã nasceu aqui e todos os meus amigos são daqui. Gosto de minha terra Natal, sempre vou lá nas férias, mas eu realmente gosto de Berlim.

- Claro que não vai voltar para a Dinamarca! - exclamei – EU estou aqui. E você não pode, não deve e não vai se separar de mim.

- Sim senhora – Gregor disse sorrindo –. Está vendo só, Tóris? Nem se eu quisesse, poderia sair daqui. Não poderia VIVER, sem esse prussiano marrento.

Gregor me abraçou e ficamos de bobeira, como sempre fazíamos. Notei uma expressão em Tóris que não pude decifrar se era reprovação ou ciúmes. Não sei.

Depois do café, tomamos o metrô. Tóris desceu primeiro, já que sua estação era mais próxima, ainda fiquei uns 10 minutos com o Gregor, depois, separamo-nos. Minha estação era a última.

Matutei no trem vazio por mais 10 minutos. Senti falta de Ivan, por isso, mandei um SMS:

,,Saudades."

Alguns segundos depois, meu celular vibra e toca: uma nova mensagem.

,,Saudades também."

Sorri idiotamente para a tela do celular. Parecia que estava tudo bem entre o Ivan e eu, digo, ao menos, há semanas não brigávamos. Em compensação, quando cheguei à casa meu pais estavam discutindo. Meu pai falava alto e gesticulava muito com as mãos, minha mãe, ao contrário, mantinha-se calada e ignorava meu pai. Típico.

Respirei profundamente, tirei os sapatos, guardei-os no armário e subi as escadas rumo ao meu quarto. No caminho, encontrei Ludwig, que estava sentado em um dos degraus, escondido atrás do corrimão da escada.

- O que houve aqui? - perguntei baixo.

- Merda. Como sempre – ele respondeu.

- Desta vez, de quem foi a culpa?

- Do Vatti.

- Para variar, não é? Eu quero é novidade.

- Ja. Ele ficou implicando porque Mutti emprestou dinheiro para Tante Birke.

- Denovo? Tante Birke não já tinha pego dinheiro com Mutti mês passado? Não que eu esteja controlando o dinheiro de Mutti, claro.

- Ja, o problema é que Tante Birke está passando por uma situação complicada.

- Entendo. Vatti deveria entender. Vatti é tão intransigente.

- Se não fosse intransigente, não seria o Vatti.

- Ja. Mas você – eu disse colocando uma mão no topo da cabeça do meu irmão -, tente não se envolver com isso, richtig? Você sempre fica muito ligado nos dois e acaba sofrendo.

Meu irmão ficou em silêncio.

Subi para o meu quarto, larguei as coisas na cama, abri o guarda-roupa, peguei roupas confortáveis e fui tomar banho enquanto o computador ligava e iniciava.

Findo o banho, acessei meu MSN. Ivan estava lá.

,,Sua mensagem me fez tão bem hoje, Krolik", ele escreveu.

,,Huhuhuhuhu. Eu sei."

,,Prepotente."

,,Um pouco."

,,Então, como foi seu dia hoje?"

,,Foi bom. Matei a última aula para vadiar no Café Nero. Eu, Gregor e Tóris."

,,Huhuhuhu. Só não fico bolado com você porque foi Matemática."

,,Bär, você viu como que você pode fazer para vir morar aqui?"

,,Honestamente, Krolik, eu não vi. Desculpa."

,,Ah."

Eu fiquei um pouco decepcionado.

,,Estou em semana pré-provas finais, coelhinho, minha vida anda meio louca."

,,Entendo."

,,Mas eu vou olhar! Já separei todos os sites e informações de formulários do Governo."

,,Legal."

,,... Está tudo bem com você, Krolik?"

,,Aham. Tá."

,,Tem certeza? Estou achando você meio... Sei lá... Triste?"

,,Não é nada, Bär. Só estou meio cansado. Daqui a menos de um mês, vou prestar o Vestibular."

,,Eu sei. Você deveria ir descansar agora, Gil. Amanhã tem aula?"

,,Não. Hoje foi o último dia."

,,Ah é! Você havia me contado."

,,Yep."

,,Antes que você saia, quero mandar uma música para você. Uma música para você, sei lá, dormir com os anjinhos e, quem sabe, pensar em mim?"

,,Kesesese. Cadê essa música?"

,,[Flood of Tears – Diary of Dreams] ~ [DOWNLOAD]"

,,Wow!", exclamei comigo mesmo, ,,Parece que ele realmente adivinha quando estou me sentindo desanimado."

,,Wow! Que título bonito para uma música."

,,Huhuhu. Sim. Mais bonita ainda é a música. Inclusive, a banda é alemã. Espero que goste."

,,Eu sempre gosto, Bär, dificilmente eu desgosto de algo vindo de você, kesese."

,,..."

,,...?"

,,Nada, Krolik,, é só que me deu MUITA saudade de você. Quero abraçá-lo."

,,Eu também, Bär."

Poucos minutos depois, a música chegou, mas eu não percebi. Fiquei ainda enrolando com o Ivan até que fiquei com muito sono. Despedi-me de Ivan, que acabou esquecendo-se da música também. Desconectei a internet, fechei as janelas e quando estava para desligar o computador, vi a janela minimizada do download concluído.

Cliquei no ícone e a música começou a tocar.

Linda.

,,Essa deve ser uma das músicas mais bonitas que já ouvi", pensei comigo mesmo, ,,hora de ela ir para o meu MP3".

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Finalmente, o dia da prova; na verdade OS dias da prova. Duas etapas, dois dias de prova.

Prestei vestibular para três universidades diferentes, mas em todas optei por Direito.

Meus pais estavam orgulhosos de mim, muito embora minha mãe, frenquentemente dizia que eu nunca estava estudando o bastante.

Fiquei um pouco ansioso no dia da primeira fase. Dormi mal na noite anterior, mas não me impediu de acordar cedo no outro dia e chegar ao local de provas em tempo hábil.

Meu local de provas foi na Universidade Católica de Berlim, minha segunda opção caso não passasse na Estadual.

A Universidade era grande, mas não tão grande quanto a Estadual.

Conversei com um pessoal enquanto esperava a abertura dos portões.

,,Onde será que está o Gregor?", pensei, ,,Só faltam quinze minutos para a abertura dos portões".

Mal acabei de pensar, ouço alguém gritando o meu nome:

- Giiiiiiilbert!

Era Gregor. Ele estava a uns vinte metros de onde eu estava e acenava para mim.

- Greeeeeegs! - acenei de volta.

- Espera por mim lá dentro, ok?

- Tááá.

Ainda deu para conversar um pouco com meu amigo antes de subirmos para nossas respectivas salas. Também deu para receber mensagens de boa prova do Tóris, do Ivan, da Elizaveta, de meu irmão, meus pais e até do meu primo chato, o Roderich. Também deu para responder as mensagens, mas só. Depois disso, subi a escadaria rumo à minha sala de provas e só saí de lá após 4h.

Não me encontrei com Gregor após a prova, mas ele me ligou no mesmo dia, à noite.

Fiz uma boa prova, poderia ter sido melhor se eu não fosse tão ruim em física e matemática, mas no geral, foi boa.

Alguns dias depois, conferi o gabarito e eu tinha passado para a segunda fase com uma nota boa. Ficamos todos muito felizes em casa.

Gregor, Tóris, Eliza e Roderich também haviam passado.

Ivan me parabenizou pela nota.

Fiz as provas das outras universidades e passei em uma, na Católica. Na outra, não passei, mas também não fiquei triste. Meu objetivo era a Estadual, mas estava feliz por ter garantido a medalha de prata das universidades berlinenses.

A segunda fase chegou e passou com a mesma rapidez, ansiedade e monotonia da primeira fase, mas a espera do gabarito e o resultado final foi mais sofrida.

Fiquei irritável e irritante dentro e fora de casa. Eu estava estressado.

O fatídico dia chegou e me pareceu que a Little Boy e a Fat Man erraram de alvo e resolveram estourar na minha cabeça, ou seja, não passei na Universidade que eu mais queria.

Foram os 2 décimos mais frustrantes de todas as minhas 17 primaveras.

Tóris e Gregor se deram bem, eles passaram e fomos comemorar, os três, mais uma vez, sendo que, para ser sincero, eu não estava tão feliz quanto meus amigos.

O lituano, como era de se esperar, não se demorou muito na comemoração já que vivia em função da Mary Jane, ou seja, ele teve que ir embora mais cedo. Aproveitei o ensejo para ir junto com Tóris, eu não queria comemorar mais nada, só queria o Ivan e a música Flood of Tears agora.

,,Não fica triste, Krolik, no ano que vem você passa, com certeza."

,,Não quero tentar no ano que vem! Quero entrar ESTE ano!"

,,Então faça as inscrições para a Católica, ora! Você não passou? E pelo que eu me lembre, passou numa classificação excelente."

,,Eu sei. Mas eu queria a Estadual, Bär."

,,Eu sei, coelhinho, mas é como você disse, a Católica é a segunda melhor, não é?"

,,É."

,,Então, se você não quer perder mais um ano, então cursa a Católica."

,,Eu sei. Minha mãe disse a mesma coisa. O problema é que eu queria ter passado na Estadual para... Bem, para provar aos meus pais que eu não estava desconcentrado. Minha mãe ficou dizendo que eu não passei pra Estadual porque perdi muito tempo no computador esse ano, ou seja, não quero que ela fique achando que eu não passei por sua causa."

,,No fundo eu tenho um pouco de culpa."

,,Tem nada! Na hora da prova não era você segurando a caneta. Na hora da aula, não era você pensando em manobras radicais e temerárias com a ballisong, tão pouco era você matando aula de matemática poucos dias antes da prova. Mea culpa, mea máxima culpa".

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Resolvi que ia cursar Direito na Católica mesmo. Medalha de prata que fosse, era uma boa Instituição de Ensino Superior e levava o nome ,,Universidade" na frente, o que afastava o estigma das ,,Faculdades" privadas. Não me senti feliz com isso, mas estava conformado.

,,Vou me esforçar para ser o melhor!", pensei, os olhos faiscando de determinação.

A fila da matrícula estava longa, lenta e monótona. Um garoto mais ou menos da minha idade conversava com uma garota em voz tão alta, mas tão alta, que parecia que ele estava na casa da sogra. Aquilo começou a me aborrecer.

- Mutti, POR QUÊ somos obrigados a ouvir a conversa alheia em espaço público? - perguntei em voz alta para que o casal me ouvisse.

Minha mãe resumiu-se a olhar para mim com alguma reprovação e suspirar, mas aparentemente, meu desabafo surtiu algum efeito, pois o casal abaixou o tom.

Uma senhora atrás de mim comentou baixo:

- Também me faço a mesma pergunta, meu filho.

Passado o imbróglio, fiz minha matrícula com tranquilidade, agora era só aproveitar as férias de final de ano e me preparar para uma vida nova; vida de universitário.

Naquele mesmo dia, comentei com Ivan como havia sido meu dia e a minha implicância contra o casal Somos-Namorados-Nos-Amamos-Muito-Presenciem-Nossa-Felicidade fez o Ivan rir.

,,Típico de você, seu implicantezinho de meia pataca!", ele disse.

Também comentei que teria três meses de férias antes de começarem as aulas e, muito seriamente, perguntei se ele não queria vir a Berlim.

Ivan me deu meia dúzia de desculpas frouxas que eu interpretei como sendo timidez da parte dele.

,,Russos são tímidos, Gilbert, você pôde verificar isso quando esteve em Kaliningrad", pensei comigo mesmo.

,,E se eu for a Kaliningrad de novo, você iria?"

,,Claro! Vamos, vamos!", ele escreveu.

,,Ok, mas então você volta comigo e vem para Berlim passar uma semana?"

Ele demorou a responder e quando o fez, nova enxurrada de desculpas esfarrapadas.

,,Puta que pariu, Ivan! Arruma umas desculpa melhores por que essas que você está me dando estão péssimas! Se não quiser vir, diga logo de uma vez que não quer vir, ora bolas! Abre o jogo, cara!"

,,Krolik... Aye, não sei por onde começo..."

,,Comece pelo começo. Redundantemente assim, pelo começo."

,,Eu... Eu tô fodido de dinheiro, Gil. Andei gastando mais do que recebo do estágio. Berlim é uma cidade cara e sete dias de hotel vai não só me deixar no vermelho, mas também no negativo."

,,Hum... Então fica aqui em casa."

,,Oh! Mas Gilbert, eu não posso ficar assim, no nada, na sua casa por 7 dias! O que os seus pais vão dizer?! Nem me conhecem!"

,,É uma ótima oportunidade para conhecerem, não acha?"

,,..."

,,Eu acho ótimo que eles conheçam você, porque se tem uma coisa que me magoa bastante é esconder você de meus pais. Não acho certo estar mentindo para eles."

,,Eu também não acho certo, nem gosto, mas o que seus pais vão pensar de seu primogênito com um namorado russo?"

,,Bom, a questão não é o que eles vão pensar, a questão é fazê-los entender o por quê de o primogênito deles ter se apaixonado por um russo tão awesome, não é?", eu sorri comigo mesmo depois de ter enviado essa frase.

,, : )", ele desenhou.

,, ; P", eu desenhei.

Naquela noite, depois que desliguei o computador, senti um friozinho na barriga. Teria que contar aos meus pais que eu estava numa relação virtual e homossexual com um russo à não sei quantos mil quilômetros de distância. Por mais surreal que a história toda parecesse, eu sabia que não seria fácil dobrar os dois procuradores conservadores que eu tinha em casa. Passei a noite em claro bolando estratégias sutis de abordagem, mas todas elas me pareceram horríveis.

Ach, mein Gott!

Na manhã seguinte eu estava destruído. Quando entrei no banheiro e olhei para minha cara refletida no espelho, ponderei que aquele era realmente um espelho de qualidade, caso contrário, minha feiúra teria rachado o pobre ao meio em milhões de caminhos irregulares.

Olheiras de panda, bochecha amassada, cabelo desgrenhado e barba – rala – por fazer. Eu era o retrato fiel do que imaginava existir no Niflheim!

- CREEMDEUSPAI! - exclamou Ludwig com os olhos arregalados de susto – O que é isso, Gilbert?!

Ludwig, meu irmão mais novo, havia entrado sonolento no banheiro, posicionou-se defronte à latrina e não notou minha presença em pé diante do espelho da farmácia até focar a visão na triste figura refletida no mesmo.

- Vá se catar, Ludwig! - estirei-lhe o dedo.

- Você me assustou, porra! Cara feia do caramba! Parece um diabureto velho, bêbado.

- ,,Diabureto" é um cão que tem no inferno! O nome certo é ,,diabrete", seu animal!

- Que seja – ele disse terminando o serviço e dando A balançadinha nas calças -, é o que tá parecendo.

- Ach, Ludwig, não me amole a essa hora da manhã!

Sustos e bons dias carinhosos à parte, decidi tomar um banho e haurir forças para contar aos meus pais a verdade. Eu era um universitário agora, em breve faria 18 anos, era um homem. Havia me divertido bastante com as garotas. Havia gostado, claro. Afinal, ainda tenho tesão com mulheres! Sendo que agora a questão estava pra lá da sexualidade; era amor, caralho. Amor!

Desci para o café da manhã como um boi para o abate, ou como um réu confesso diante do juiz. Beberiquei o leite morno à minha frente, meu estômago deu voltas fenomenais.

- Filho, você está constipado? - perguntou-me minha mãe.

ACH! NEIN!

- Nein Mutti! Que conversa é essa?! - exclamei.

- É que você está com uma cara de sofrimento, e seu intestino... Deu para ouvir daqui!

- Não foi meu intestino, Mutti, é o estômago...

- Você está com dor?

- Neeein! Não é nada disso.

- Então o que é?

Respirei profundamente e, num fôlego só, soltei:

- Vatti, Mutti, eu tenho um namorado russo!

Silêncio na cozinha.

Meu pai, que esteve o tempo todo sentado na cabeceira por trás do jornal bebericando um café, parou com a xícara no ar. Minha mãe, que estava em pé passando manteiga numa torrada, também parou o que estava fazendo. Apenas Ludwig se mexia. Estava colocando leite numa tigela funda com cereais matinais e colocando leite numa tigela funda com cereais matinais continuou.

Minha respiração se deteve por um, dois, três, quatro,...


Impressão minha ou o layout do site ficou diferente? O.o