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01. Lednik

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Lednik Derevnya, Yakutia, Sibéria Oriental, 1987

As luzes dos faróis rasgavam a noite glacial, prenunciando o veículo que se aproximava. O carro percorreu o carreiro coberto de neve devagar, o rangido do motor estranhamente alto, e abrandou quando chegou perto da aldeia. Imobilizou-se com alguma dificuldade a largos metros de distância, os travões a soltarem um guincho desafinado e o motor a bufar de exaustão.

- My priyekhali! – disse finalmente o motorista, exalando um denso vapor de respiração - Derevnya tolko vperedi!

Camus observou através da janela, definindo o pequeno aglomerado de casas alguns metros mais adiante – Spasibo. – respondeu prontamente com um perfeito sotaque eslavo, e fez um ligeiro sinal com a cabeça ao companheiro que se encontrava no banco de trás.

Saíram do carro batendo com as portas enferrujadas, e observaram–no a dar a volta e afastar-se em direcção à estrada com dificuldade.

As estradas não estavam de todo preparadas para aquelas condições atmosféricas; mas por outro lado era impossível arranjar solução.

- Lednik? – perguntou o companheiro em tom grave, recebendo um sinal afirmativo.

Durante alguns segundos contemplou o sossego que emergia daquele lugar, agora que o carro tinha desaparecido no horizonte. Um manto opaco de silêncio percorria a aldeia, e abateu-se sobre os dois cavaleiros imobilizados naquela planície quieta. Um silêncio tão profundo e vazio que parecia zumbir-lhes aos ouvidos. Por vezes o vento levantava-se e rumorejava baixinho, mas logo se desvanecia.

A aldeia parecia deserta.

Sem demoras mas com algumas dificuldades, os dois homens percorreram os metros que faltavam para chegar à povoação. Os pés enfiavam-se na neve, as botas de pelo soltando ruídos surdos sobre o solo gelado, deixando rasto a cada passo.

Não demoraram a atingir o adro rodeado de casas de madeira que mal pareciam aguentar o frio e a neve daquela zona do planeta.

Ao aproximarem-se, repararam que havia finalmente vida naquele lugar: apesar do frio inóspito, o interior parecia quente e aconchegante, a luz bruxuleante das lareiras acesas em cada um dos compartimentos principais.

A neve tinha sido afastada do pavimento entre as habitações, tornando o caminho bastante mais fácil de percorrer.

- Agora é procurar a taberna onde nos espera o informador…

- É ali – o francês estendeu o dedo indicando a tabuleta que ornamentava uma habitação mais adiante. Apesar da neve que a cobria, conseguia-se ler os caracteres cirílicos cravados na madeira escura.

Saga respirou fundo, de certa forma satisfeito por ter sido emparelhado com o francês naquela missão minuciosa. Não apenas pelas visíveis facilidades que este tinha com a língua, como pelo seu sentido de orientação aguçado naquelas terras geladas. Se não fosse por ele, tudo ali lhe parecia igual e coberto por um manto branco contínuo.

Ao abrir a porta de madeira foram recebidos por um sopro quente e delicioso. Na sala relativamente ampla e com poucas mesas, apenas se escutava o estrepitar nervoso e reconfortante da lareira; as chamas projectavam sombras dançantes pelos cantos e no ar flutuava o aroma quente da lenha a arder.

Os dois cavaleiros fecharam a porta atras de si, mas mantiveram-se parados à entrada enquanto percorriam o recinto com os olhos em busca de vida. A taberna parecia deserta.

- Privet! Lyuboy?*– a voz projectada do francês ecoou pelas paredes de madeira, em suspensão naquele espaço desabitado.

O silêncio voltou a abater-se sobre eles. O farfalhar seco da madeira a queimar continuava, rompendo o mutismo da sala.

Click

Perceberam que alguma arma acabara de ser armada e alguem se preparava para carregar no gatilho. O pequeno ruido despertou os sentidos dos dois homens que se entreolharam automaticamente. Aguardaram um instante, a respiração suspensa e os sentidos em alerta, tentando detectar algum movimento na casa.

Esperaram por alguma tentativa ofensiva, mas tudo permaneceu calmo.

- Kto ty?*

Uma voz grossa e potente irrompeu do segundo piso quebrando o silêncio. Os dois cavaleiros permaneceram quietos, tentando manter-se em terreno neutro nas eventuais guerrilhas que pudessem existir.

- Menya zovut Kamyu, I moy sputnik nazyvayetsya Saga. My vykhodim iz Afin i my nadeyalis pogovorit' s Nikolayem.*

Preparados para qualquer eventualidade, tinham-se dado a conhecer esperando que a situação não exigisse o uso da força. Encontravam-se numa aldeia, um ambiente fechado e inóspito no qual todos os habitantes se conheciam e ajudavam; não seria benéfico para aquela missão fazerem daquela tribo seus inimigos.

Um novo silêncio instalou-se na sala, antes de ser quebrado pela voz do desconhecido, desta vez num tom completamente diferente.

- Eu sou Nicolai – respondeu num inglês com um forte sotaque eslavo – E o senhor fala demasiado bem russo para quem se diz grego… - concluiu com alguma desconfiança.

Saga e Camus acompanharam o aparecimento do vulto com o olhar, confirmando o que os seus sentidos tinham definido à entrada: o homem que apareceu na mezanina era alto e corpulento, parecendo um urso, e apontava-lhes uma caçadeira à cabeça. Aparentava os seus quarenta anos, o cabelo farto de um loiro quase banco, uma barba rala grisalha e o olho que mantinha aberto como mira possuía um tom azul glaciar.

- Nicolai Abrosimov? – Camus pediu confirmação, recebendo um "Da" instantaneamente – Muito bem. Como eu lhe disse, sou um enviado de Atenas. Isso não faz necessariamente de mim um grego.

Fez um momento de suspensão, no qual o homem parecia meditar sobre as ultimas palavras com cuidado – E como sei que são as pessoas que espero?

- Senhor Abrosimov – desta vez Saga tinha tomado a iniciativa, retirando lentamente um envelope do bolso interior do casaco grosso, e mostrou o selo justificativo do Santuário – Acredito que tenha recebido instruções sobre a chegada de dois enviados do Santuário de Atenas neste dia. Esta carta contém todas as respostas para as suas desconfianças. Se o senhor é realmente quem clama ser, deve estar igualmente ao corrente das nossas capacidades enquanto cavaleiros da ordem sagrada – continuou mantendo o envelope bem à vista – Dito isto, aconselho-o vivamente a baixar essa arma.

As palavras do geminiano pareciam ter surtido o efeito desejado.

Visivelmente mais descontraído, o homem seguiu o conselho e os músculos relaxaram da tensão anterior. Respirou fundo e abriu muito os olhos, descendo os degraus de forma um pouco atrapalhada.

- Senhor Saga, senhor Camus, desculpem a brutalidade das apresentações, mas os últimos tempos não têm sido fáceis aqui – a voz era agora aveludada por uma nova atitude relativamente aos intrusos – volto a apresentar-me: o meu nome é Nicolai Abrosimov, e estava à vossa espera.

O russo pousou a caçadeira desarmada encostada à parede, e aproximou-se dos dois cavaleiros – entrem, por favor! Sentem-se ali naquela mesa perto da lareira, devem estar gelados!

Os dois homens entreolharam-se, buscando o apoio mútuo e de certa forma divertidos com a ironia das últimas palavras em relação ao aquariano. "Gelado" não era propriamente um problema para quem era conhecido como "mago do gelo". Os eventos tinham tomado rumos imprevisíveis, apesar de se estarem a encaminhar para uma situação esperada.

Sentindo mais à vontade a partir do momento em que a conversa se desenrolava numa língua conhecida, Saga assentiu e seguiu em direcção a uma mesa pequena que se encontrava perto do fogo.

- Querem beber algo? – perguntou o russo e esboçou um sorriso, como se aquelas palavras tivessem um significado secreto – Whisky, konyak… - vez uma pausa sugestiva - vodka…

Saga contemplou as garrafas atrás do balcão – Acho que uma vodka será, talvez, o mais apropriado.

- Duas Okhotnichya – respondeu prontamente o ruivo, entendendo visivelmente mais sobre os costumes locais.

- Oh, DA DA! Vejo que entende disto!

Saga encarou o ruivo com surpresa, as sobrancelhas cerrando-se num ar intrigado enquanto o taberneiro se afastava com os passos imponentes para aceder aos pedidos.

- Okhotn…cha?

- Okhotnichya – corrigiu o francês com o semblante sério – é uma vodka aromatizada com uma mistura de gengibre e cravo-da-índia. É conhecida como a vodka dos caçadores. Achei apropriado considerando o habitat em que estamos.

O russo regressou com uma garrafa âmbar e três copos nas mãos, pousando-os sobre a mesa. Deitou uma quantidade aceitável de vodka nos três copos e pousou a garrafa ao seu lado sem a fechar.

Saga analisou o líquido que bailava no copo com uma expressão relutante. Afinal estavam em missão, e apesar de ser um conhecedor de bebidas alcoólicas um pouco por todo o mundo, um dos dois deveria manter-se sóbrio. Olhou para Camus e decidiu-se no entanto por seguir o convite. Em Roma, sê Romano, pensou.

- Beba tudo de uma vez, à nossa maneira! – concluíu o russo com um sorriso divertido nos lábios – Na zdorovia!

- Na zdorovia! – responderam os dois estrangeiros acompanhando o brinde.

Saga fechou os olhos e antes que perdesse o espirito, engoliu a vodka de uma só vez.

Foi como se um vulcão tivesse irrompido nas suas entranhas, muito diferente do sabor adocicado do Ouzo tradicional a que estava habituado.

- Senhor Abrosimov…

- Nicolai.

- Senhor Nicolai – recomeçou Camus, pouco afectado com a intensidade da bebida – recebemos instruções para investigar o desaparecimento de um artefacto de grande importância para o Santuário, que às últimas informações pode estar estreitamente relacionado com os acontecimentos que têm vindo a acontecer nesta área.

- Da, o aparecimento dos…dos… - o russo pensou alguns segundos, virando-se finalmente na direcção do francês - Nu yo-o-o! Como se diz… Nezhit!

Camus ficou um longo momento calado, quase perplexo – Mortos-vivos? – perguntou finalmente suscitando a curiosidade do companheiro.

- Da! Mortos-vivos!

Os dois homens calaram-se por um momento e fitaram intensamente o taberneiro, a avaliá-lo. Estavam habituados a todo o tipo de aparecimentos estranhos, e eles próprios tinham sido alvos de algumas metamorfoses delicadas durante a grande batalha contra Hades, mas as probabilidades de embriaguez com aquela gente era grande.

- Quem assistiu a esses…episódios?

- Todos! – o loiro retorquiu com uma gargalhada nervosa – Kinski, Pryakhim, Bóris… todos!

- Não estou a perceber… - confessou Saga do outro lado da mesa – talvez devesse começar a história do início…

Nicolai inspirou fundo e remexeu-se no seu lugar, considerando o problema. Havia algum tempo que pensava no assunto sem chegar a nenhuma conclusão que apresentasse alguma logica.

- Como devem ter tido tempo de ver, Lednik é uma comunidade pequena de caçadores e pastores. Na comunidade siberiana, aprendemos a matar desde pequenos. A nossa filosofia de via tem uma estreita relação com a morte e é ensinado às crianças que o perigo e a morte são coisas relacionadas com existência, e portanto tirar a vida a um animal é uma coisa normal para a sobrevivência.

Os emissários ouviram o relato com extrema atenção, tentando arranjar alguma pista para o que os esperava.

- As crianças compreendem valores como respeito, coragem, amizade e dedicação desde muito cedo, e aos cinco anos demonstram uma determinação e uma seriedade invejáveis para um adulto de outras comunidades.

O russo fez uma pausa, deixando o relato suspenso enquanto voltava a encher os copos dos dois convidados.

- O senhor Camus parece muito à vontade com os costumes da terra; posso perguntar onde aprendeu russo?

- Nadezdy,em Madagan Blast, e BlueGard.

O russo mudou de posição no assento, subitamente interessado – BlueGard? Como na lenda da cidade construída em plena Tundra?

- Como "A" cidade construída em plena Tundra – corrigiu o ruivo, inclinando a cabeça – mas teremos muito tempo para discutir esse assunto. Por enquanto tinha começado a explicar os aparecimentos de Lednik.

- Da da! – distribuiu de novo os copos, antes de continuar o relato – o primeiro aparecimento ocorreu à cinco anos, depois de uma caçada bem sucedida. Como sempre acontece depois, um grande grupo junta-se aqui na taverna para festejar. Foi durante os festejos que, de repente, ouviu-se um grande barulho vindo da porta, e um corpo disforme e seminu caiu no chão à minha porta. Ouviram-se vozes a gritar e rajadas de kalashnikov na noite. Eram os ublyudki dos Gosudarstvennoi Bezopasnosti!

- Quem? – o grego perguntou confuso.

- O KGB – esclareceu Camus, antes de voltar a falar para o taberneiro – E o que o faz o KGB aqui?

O russo arregalou os olhos azuis, como se finalmente tivesse encontrado alguém que pensava como ele – EXACTO! – respondeu exaltado, estendendo a mão – Aqueles cães do gosudarstvennoi não têm nenhuma divisão aqui perto, muitos deles demasiado fracos para aguentar a rigidez do clima siberiano. Mas a verdade é que eles apareceram; e não foi uma vez nem duas, mas tornou-se constante após a chegada dos… mortos-vivos!

Saga balançou o copo enquanto os olhos se fixavam no liquido transparente – Muito curioso, sim senhor… - disse emitindo um som apreciativo.

- Cada vez que acontecem situações estranhas, o Grupo Alfa da 17° Directoriaaparece para resolver à boa maneira deles. Da ultima vez foi de tal ordem que o corpo ficou completamente desfeito e espalhado pela neve – fez uma pausa dramática – um bando de assassinos!

Camus endireitou-se no seu lugar e permaneceu pensativo uns segundos. Ainda não tinha uma ideia certa do que realmente estava a acontecer, mas as peças começavam a fazer algum sentido na sua cabeça.

- Quando fala de um grupo Alfa da 17° Directoria, não estará enganado? – perguntou tentando confirmar as suas suspeitas.

- Niet! Eu VI o fardamento, e considerando a situação, não é coisa fácil de esquecer… o emblema tinha o desenho de uma águia de duas cabeças e dizia 17°Directoria!

- Estou a ver… - murmurou, e calou-se em seguida pensativo.

Observando o discurso dos dois homens, Saga levou o copo aos lábios e bebeu um gole enquanto observava as feições do companheiro. Era difícil interceptar alguma expressividade no rosto do francês, mas ele sabia por onde começar. Apesar de um controle constante sobre si, Camus não se apercebia da expressividade que um simples olhar pode ter, dando algumas indicações sobre o que se passava na sua cabeça.

E tudo lhe indicava que o aquariano começava a ter uma ideia do que se passava naquela aldeia.

- Quais são as operações responsáveis pela 17° Directoria? - perguntou calmamente, encarando o francês curioso.

Camus que se remetera ao silêncio depois de ouvir as ultimas divulgações, pareceu acordar de um transe – essa é justamente a pergunta que me faço… - murmurou e encarou o companheiro perplexo – O KGB resume-se a 16 directorias, sendo a última a responsável pelos meios de comunicação. Existe efectivamente um mito acerca de uma unidade Extra de intervenções especiais, mas que nunca passou de um mito urbano. Até agora…

- Acha que seria possível que o Kremlin tenha ocultado a existência de uma unidade especial nos serviços secretos?

- No espirito de espionagem/contra-espionagem em que estamos… já nada me surpreende… mas por outro lado, não acredito que nos tivessem fornecido vistos diplomáticos sabendo do nosso destino e que iriamos encontrar esta situação estranha - concluiu – não consigo arranjar resposta para a razão da existência desse grupo, e a relação com o nosso verdadeiro objectivo.

Fez-se uma pausa.

- Os "mortos-vivos" – o grego respondeu, completando parte do raciocínio – algo me diz que se descobrirmos o que se passa realmente por trás desses "mortos-vivos", como lhes chamam, chegaremos a alguma conclusão.

O francês franziu a testa, e voltou a encarar o russo - Consegue descrever esses "mortos-vivos", com o máximo de pormenor possível?

Nicolai abriu a boca e arregalou os olhos com o choque inicial daquele pedido. À falta de informação iconográfica, teriam que se contentar com a sua memória… mas o tempo que tinha demorado apagar aquelas imagens horrorosas, agora pediam que as reavivasse e com todos os pormenores macabros.

Observou a garrafa de vodka, cedendo àquele catalisador reconfortante. Virou um copo cheio de uma vez, e expirou fundo antes de começar o relato lúgubre.

- Bem o único que vi, foi o que me caiu morto à porta, enquanto estávamos todos juntos… - fechou os olhos numa tentativa de relembrar melhor os acontecimentos dessa noite – lembro-me de ter demorado algum tempo a perceber o que acontecera. Estávamos todos juntos festejando uma boa caçada, com muita bebida e comida, quando todos ouvimos um estrondo vindo da porta. Inicialmente pensei que pudesse ser o Bóris, pois aquele sozdaniye gosta muito de ser extravagante e barulhento, e ainda não estava presente.

Respirou fundo, preparando-se para relatar o fundo da questão sobre os olhares atentos dos enviados do Santuário.

- Mas o barulho tinha sido um tombo… um tombo juntamente com uma rajada de balas que não sabíamos de onde vinham. A porta tinha sido aberta com força, e o corpo encontrava-se deitado no chão, o olhar vidrado e os lábios abertos num sorriso… - sentiu um arrepio forte, que não passou despercebido aos dois cavaleiros – era baixo e o rosto estava desfigurado, misturava características de uma pessoa velha de um lado, enquanto do outro tinha as feições de um jovem com os seus poucos vinte anos. Os olhos tinham uma cor acobreada, como se fosse um demónio, tinha uma pele clara, praticamente branca. Tinha vestido um trapo que parecia ter sido uma bata de um hospital, e os pés nus estavam pretos de queimados.

- Por causa a neve… - Saga deduziu, recebendo um aceno de aprovação.

- Não tinha unhas… e tornou-se impossível perceber quais eram as feridas existentes no seu corpo ou quais as que tinham sido impingidas com o tiroteio. Não sei quanto tempo ficámos vidrados naquela criatura, mas lembro-me de terem chegado dois homens fardados da 17° Directoria e agarrado no corpo como se fosse um cedro acabado de ser abatido.

- E levaram-no assim? Sem dizer uma palavra?

- Niet! Atrás deles chegou um general, no qual vimos o emblema que mencionei à pouco: uma águia e duas cabeças sob fundo preto. O homem era directo e pragmático, revelou-nos que aquela… criatura… tinha fugido de uma prisão.

- Prisões aqui perto? Ainda existe o sistema dos Goulags na Sibéria?

Camus negou com a cabeça, respondendo à questão levantada pelo grego. Aquela região era praticamente deserta, e não havia nenhuma possibilidade de existência de um campo suficientemente perto para que um homem tivesse conseguido percorrer a distância até ali, seminu, e em pleno Inverno.

- Alguém conseguiu ver em que direcção e como foram embora esses homens?

O taberneiro assentiu veemente.

- Boris… ele estava a chegar à aldeia quando ouviu os disparos e escondeu-se atrás de uma casa. Segundo ele, enrolaram o corpo num lençol, jogaram para cima de uma carrinha e dirigiram para norte…

- Norte? – desta vez era Camus quem parecia surpreendido – há alguma urbanização a norte daqui?

- Niet… urbanização propriamente dita não…

Os dois homens encararam o russo com uma expressão de incompreensão no rosto.

Nicolai respirou fundo e voltou os olhos para os dois homens, mas quando ia revelar o porquê das suas palavras foi interrompido pelo chiar da porta de madeira.

Era um novo cliente.

Murmurando um volto já, afastou-se da mesa deixando os cavaleiros num momento conspiratório.

- Esta história de mortos-vivos… - Camus retomou a conversa, mudando intuitivamente para o grego – confesso que estou com algumas dificuldades em acreditar que essas visões não fossem fruto do álcool.

- Não eram mortos-vivos.

Camus fitou-o com o cenho franzido – também não acredita então?

- Acredito no relato sim… apenas acho que fizeram uma associação errada em falar de "morto-vivo" – Saga afastou o copo negando-se a beber mais – até porque ninguém aqui melhor que eu ou você para saber ao que se parece um espectro, e a descrição não encaixa.

- Hum… realmente, visto por esse prisma… - o ruivo meditou, assimilando as palavras sábias do companheiro – Mas se não era um espectro...

Saga encolheu os ombros como resposta, percebendo que Nicolai regressava e que teriam de mudar de novo o idioma.

- Izvinite – voltou a sentar-se de frente para os dois – os rapazes começaram a regressar, e daqui a pouco este espaço ficará cheio. Mas onde íamos nós então?

- Não existem urbanizações aqui perto…

- Ah da! – recomeçou o relato, voltando a encher os copos apesar da relutância do grego àquele gesto – Antes de começar, preciso que me respondam a uma questão… o que sabem lá no vosso Santuario sobre o Uliuiu Cherkechekh?

- Uliuiu Cherkechekh?

- Da! – o russo respondeu, fazendo uma pausa em busca de dramatismo – O Vale dos mortos!

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"Privet! Lyuboy" - Boa tarde ! Está alguém ?

"Kto ty" - Quem são vocês ?

"Menya zovut Kamyu, I moy sputnik nazyvayetsya Saga. My vykhodim iz Afin i my nadeyalis pogovorits Nikolayem" - O meu nome é Camus, e o meu companheiro chama-se Saga. Somos enviados de Atenas e queremos falar com Nicolai.