N/A: Antes de começar, não posso deixar de explicar que qualquer expeculação apresentada a partir deste capítulo é pura e simplesmente imaginação da minha cabeça, e de uma vontade de interligação de acontecimentos reais à história paralela de Saint Seiya. Tendo isto bem assente, boa continuação!
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02. O Vale dos mortos
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O vale dos mortos, situado a norte da aldeia de Lednik, era conhecido por ser uma área de difícil acesso que carregava as cicatrizes de vários séculos de cataclismos sucessivos que derrubaram grande parte da sua cobertura florestal. O quadro de um entrelaçar de massa solida de pântanos e zonas de taiga quase intransitáveis, era conhecido pelos habitantes locais pelos seus fenómenos estranhos e doenças que podiam levar à morte dos intrépidos que se aventuravam por ali.
Tinha voltado a nevar naquela manhã, e os dois vultos mal se distinguiam por entre os flocos que caiam sem descanso. Saga ajeitou o colarinho do sobretudo de modo a proteger-se do vento e sentiu as luvas de pele crisparem-se com os movimentos.
O breu constante que se tinha instalado naquela zona dificultava seriamente o reconhecimento do vale, mas estava fora de cogitação o uso de qualquer instrumento de luz que indicasse a sua presença. Felizmente a grande capacidade de adaptação dos cavaleiros de Atena mostravam-se como fruto dos anos de treino espartano ao qual eram sujeitos desde pequenos.
Apesar das suas capacidades, reconhecia em Camus uma mais valia naquela situação. O grego seguia disciplinarmente os passos do companheiro, mantendo-o sempre a uma distância segura.
- Tem a certeza que seguimos na direcção certa?
Camus assentiu e esperou que o parceiro o alcançasse - Segundo as indicações de Nicolai, não devemos estar longe – indicou o chão coberto de neve no qual se conseguiam distinguir alguns vestígios – veja as pegadas de animais, elas afastam-se da zona florestal. Nenhum animal prefere passar o Inverno num descampado à mercê das intempéries, em vez de resguardado no bosque. A menos que…
- Tenham sido obrigados a fugir – concluiu Saga, baixando-se para vistoriar melhor o rasto – algo me diz que esta fuga tem uma estreita ligação com os mistérios relatados por Nicolai.
- Sou da mesma opinião.
Após a breve inspecção, os dois homens retomaram o caminho pelo desfiladeiro, tentando alcançar a parte mais alta. Avançaram por entre a neve com passos cuidadosos, sabendo-se a descoberto caso houvesse mais gente nas redondezas. Ao alcançar o ponto mais alto com uma vista completa sobre o vale, pararam de imediato e Camus sentiu o seu braço ser puxado para baixo, fazendo-o ajoelhar-se sobre a neve.
- Alto – ouviu a voz sussurrada do companheiro ao seu ouvido, e a mão firme agarrando-lhe o braço – disse-me que o vale é desabitado?
O francês anuiu, analisando o desfiladeiro na procura de movimentos suspeitos – as únicas estruturas conhecidas por aqui são…
- Os domos misteriosos que Nicolai mencionou – concluiu o grego, apontando para dois pontos na parte mais baixa, consideravelmente distanciados um do outro.
Camus fitou as estruturas no horizonte durante longos segundos, visivelmente surpreendido pela sua existência. A memória da conversa com o russo na noite anterior ainda se mantinha fresca na sua cabeça, sobre a qual tinha conseguido extrair tópicos lógicos dos acontecimentos estranhos que tinham sido descritos. Mas quando a conversa tinha passado a especulações sobre o vale dos mortos, Camus tinha começado a duvidar da coerência da história.
Mas contra todas as expectativas, em pleno reconhecimento do lugar, viu-se perante a fatídica realidade da existência dos 'domos metálicos' descritos na noite anterior.
Conseguia distinguir, ao longe, duas estruturas curvilíneas e metalizadas que quase se disfarçavam na neve. Surgiam parcialmente do chão, mas davam a indicar a presença do resto da estrutura enterrada na terra gelada.
- Confesso que quando Nicolai mencionou os domos metálicos, teorizando sobre a sua ligação com o mundo dos espíritos ou mesmo extraterrestres, tive sérias dúvidas se estava em plena posse das suas capacidades mentais…
Saga sorriu e remexeu-se desconfortável. Ajoelhados na neve, a roupa tinha começado a ensopar, e o frio que tinha aguentado tornava-se incómodo com a roupa molhada.
- A sua cabeça sempre funcionou pela razão e pela lógica – disse enquanto trocava de joelho de apoio – nunca foi dado a teorias de conspiração.
O ruivo soergueu o sobrolho surpreendido.
- Indique-me um caso de 'teoria da conspiração' que não tenha sido obra de uma imaginação demasiado fértil…
O rosto de Saga abriu-se num sorriso ardiloso – A Área 51, em território Americano?
Fez-se um curto silêncio, ao fim do qual Camus soltou um longo suspiro – Enlouqueceu? Acreditaria mais facilmente na existência de um velho barbudo que todos os anos entrega presentes no dia 25 de Dezembro no seu trenó puxado por oito renas.
- Nove…
- Desculpe?
- São nove renas…
Camus levou a mão às têmporas e suspirou exasperado. Fez menção de se levantar, mas rapidamente voltou a ser puxado pela mão forte do companheiro.
- Não se levante, ou arriscamo-nos a ser descobertos – ouviu o grego murmurar, enquanto os seus olhos não se desviavam do complexo no vale. O ruivo permaneceu agachado, perplexo com as atitudes do geminiano, até que entendeu que este tinha descoberto algo sobre aquela situação misteriosa.
- Quer colocar-me ao corrente do seu momento de epifania? – perguntou monocordicamente, apoiando-se num olhar fixo de quem suspeitava de algo.
Percebendo as desconfianças de Camus e cedendo ao desconforto de sentir o segundo joelho enregelado, Saga soltou um longo suspiro antes de começar a falar.
- Desde o início desta missão, sempre me perguntei o porquê de ter sido destacado para o acompanhar, considerando que havia outros cavaleiros mais indicados para tal. Hyoga, era um exemplo, enquanto seu pupilo e conhecedor destas terras seria melhor enquadrado; ou mesmo Afrodite, um os melhores espiões que o Santuário possui – fez uma pausa, procurando os olhos do companheiro com os seus – mas não. Fui eu o escolhido. E se houve algo que aprendi durante… os meus anos negros, digamos assim… foi que a missão do Patriarca não se limita apenas à protecção do Santuário. Na realidade, os cento e oito cavaleiros da ordem Sagrada fazem parte de um enorme jogo de xadrez, e o Grande Mestre possui uma visão clara e distante sobre o tabuleiro.
Camus ouvia o relato atentamente, não percebendo no entanto onde ele queria chegar.
- Mestre Shion, melhor que ninguém, possui um conhecimento invejável sobre todos nós e sobre os diversos acontecimentos da actualidade. – fez uma pausa, antes de começar a falar mais baixo, quase como se concluísse um raciocínio para si - Parece-me que, ao ser informado dos relatos de Lednik, o Patriarca formou uma ideia muito especifica do que se poderia vir a encontrar aqui. E foi por isso que fui chamado.
- E essa razão seria?
Saga fez uma pausa, e voltou a olhar para os domos misteriosos.
- À pouco, quando mencionei a área 51 – levantou a mão à altura do rosto do companheiro, travando uma tentativa de intervenção do ruivo – não foi ao acaso. Lembre-se que durante muitos anos tive sentado na cadeira do Grande Mestre; e ficaria surpreendido com a quantidade de informação que nos chega todos os dias sobre as mais diversas conspirações em volta do mundo. Essas teorias de são, na sua grande maioria das vezes, boatos lançados pelos próprios governos locais para ocultarem os verdadeiros propósitos de instalações em descoberto. Todas essas informações falsas são enviadas de forma sigilosa para o Santuário, de forma a evitar uma busca desnecessária da parte do Grande Mestre. Afinal, apenas devemos intervir em situações especificas que englobem poderes sobrenaturais.
O ruivo arqueou as sobrancelhas, sublinhando a pergunta que tinha para fazer.
- E qual a razão para ocultar o verdadeiro propósito de uma base militar, e não ocultar a existência dessa mesma base? É de conhecimento geral que uma base militar serve fins militares.
- A menos que os objectivos militares sejam fachada – disse o grego e apontou na direcção dos domos.
- Pressinto uma teoria da conspiração a nascer daí… - respondeu o ruivo num trejeito de ironia.
O geminiano suspirou. Sabia o quanto aquela ideia podia soar estranha, mas teria de arranjar argumentos lógicos para se fazer aceitar pelo francês.
- Qual a melhor forma de esconder uma verdade, se não lançando boatos completamente excêntricos sobre a sua existência? A ficção científica está no seu auge; aparecimento de seres alienígenas, raptos estranhos e políticas do medo ligados a essas aparições são a melhor fonte de inspiração.
Camus franziu o sobrolho – Está-me a dizer então que a Área 51 foi um desses casos de suspeitas desmascaradas cobertas por teorias conspiratórias?
O olhar de Saga endureceu, demonstrando a imposição e veracidade da acusação.
- A Área 51 faz parte de um conjunto de infra-estruturas laboratoriais concebidas pelo governo Americano, na qual se desenvolve a procura de uma combinação química que permita a transformação do homem em 'super-homem'.
Camus estagnou, a respiração suspensa e os olhos muito abertos, a atenção em alerta. A primeira reacção à revelação foi de surpresa, tentou freneticamente perceber o que tudo aquilo significava. Como todo o bom estudioso, estava a par da ideia de 'Super Homem' ou 'Além-homem' explicado pelo filosofo alemão Friedrich Nietzsche, e sobre o impacto que aquela ideologia tinha tido na medicina laboratorial durante a Segunda Guerra Mundial. Essa ideia perigosa tinha ganho vida através da transvaloração dos valores e consciência individual, e tinha dado origem às mais horríveis experiências feitas em seres humanos alguma vez conhecidas na história da humanidade. Pensar que os horrores dos campos de concentração alemães pudessem ser revividos naquela época era-lhe completamente impensável.
- Os conflitos indirectos entre os Estados Unidos e a União Soviética não se resumem a questões de ordem politica, militar e tecnológica. Estamos em plena Guerra Fria; e não me espantaria se um protocolo semelhante ao da Área 51 tivesse sido concebido pelos Soviéticos.
Camus fechou os olhos, pronunciou num sussurro uma litania imperceptível em francês, respirou fundo e voltou a encarar o cavaleiro de Gémeos, desta feita no perfeito controlo das emoções.
- A busca de um sérum que proporcionasse aos homens poderes supra-humanos – murmurou para si, sendo rapidamente atingido por um raio de lucidez – Merde! Isso significa que…
- Mestre Shion tinha razão e que roubo do Ikhor de Atena tem uma estreita ligação com os acontecimentos estranhos de Lednik… - Saga concluiu, respirando fundo – afinal, qual o melhor sérum para tornar um humano num ser superior que o sangue de um deus?
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A espera naquelas condições atmosféricas parecia-lhe interminável e penosa. Era um tiro no escuro, mas havia uma grande probabilidade daquela ser a base para a qual os homens do KGB tenha seguido após o tiroteio descrito por Nicolai, o que os obrigava a permanecer ali em espera e agachados na neve. Ao fim de uma hora a uma distância segura, os seus sentidos apurados tinham detectado emanações de radiação estranhas vindas dos domos metálicos, mas estavam demasiado longe para perceber se a intensidade lhes era prejudicial.
- Faz quanto tempo que descobriu o que se passa aqui?
Saga despertou bruscamente do torpor silencioso no qual se tinha deixado deslizar. Agora consciente do frio que sentia e da perigosa baixa de temperatura do seu corpo, agitou-se impaciente e forçou-se a abrir os olhos e manter-se em alerta.
- Tive suspeitas ontem após os relatos de Nicolai, mas eram tudo pontas soltas sem qualquer coerência – respondeu, a sua voz soando rouca - Foi quando chegámos aqui e vimos os domos lá em baixo que percebi uma possível associação com a base americana. A partir daí, as peças encaixaram-se rapidamente.
A sua presença naquela missão advinha dos conhecimentos adquiridos enquanto Grande Mestre do Santuário, absorvidos nas piores circunstancias que existiam. Mantinha a reticência em falar naquela época da sua vida, e uma das mais devastadoras no Santuário, e apesar da purga da sua alma mortal após a luta contra Hades, havia muitos nós a desfazer em relação aos companheiros de armas e a si mesmo.
- Saga – de repente, o francês chamou-o e fez um breve aceno de cabeça indicando movimentação no fundo da ravina.
Acompanhando o aquariano, Saga olhou na mesma direcção, e percebeu um camião que se aproximava lentamente de uma das estruturas metálicas. Inteiramente pintado de cinzento provavelmente no intuito de passar despercebido no meio da neve, parecia estar com algumas dificuldades em alcançar o seu objectivo. Quando se achou suficientemente perto do domo travou. Um grupo de homens saltou da carga do camião, todos eles fardados como soldados do KGB e cada um com uma Kalashnikov displicentemente a tiracolo. Àquela distância era complicado perceber com exactidão a identidade daqueles homens, mas teriam de se contentar com uma ideia geral.
Os russos avançaram em grupo até ao complexo e um alçapão abriu-se, permitindo-lhes passagem para o interior. Enquanto isso, o camião inverteu a marcha, e voltou pelo mesmo caminho, da mesma forma penosa e demorada com que tinha chegado.
Os dois cavaleiros permaneceram em silêncio durante uns segundos, imersos nas mesmas conclusões.
- Eureka… - Saga foi o primeiro a manifestar-se, murmurando com um sorriso nos lábios – encontrámos a fonte. Agora sabemos onde procurar…
- Vai ser complicado entrar numa instalação desta ordem. Sobretudo porque não sabemos o que nos espera no interior, e está fora de cogitação o uso do cosmo para tal. Arriscamo-nos a estimular o Ikhor e revelar a nossa presença – Camus fez uma pausa, e olhou para o companheiro – Tem alguma ideia?
Saga estudou o quadro diante deles durante alguns segundos, antes de levantar o rosto com uma expressão divertida e encarar o perplexo ruivo nos olhos.
- Numa escala de 1 a 10, quão fluente considera o seu russo?
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Notas finais do capítulo:
O Vale dos Mortos (ou Vale da Morte) na Sibéria, é um lugar real que se encontra em plena Taiga Siberiana. Um dos grandes mistérios da Sibéria envolve a descoberta de estranhos "sinos" metálicos, aparentemente de ferro, brotando da terra congelada por temperaturas bem negativas. A descoberta destes sinos foi registada em expedições cartográficas e de caça, no seculo passado. Existem inúmeras teorias acerca da existência dessas estruturas, mas nenhuma foi provada até aos dias de hoje. A alta radioactividade no local são a causa de poucas pessoas se aventurarem até ali: contam relatos das diversas fontes que, com a aproximação dos domos, a pessoa é atacada com sintomas estranhos como enjoos, tonturas e desmaios após algumas horas de exposição.
Aos longo dos anos os domos foram-se enterrando como por magia na terra, e hoje a grande maioria deles encontra-se completamente submerso. Existem, no entanto, expedições recentes onde se descobriu a veracidade desses relatos.
A Área 51, é um dos nomes atribuídos à área militar restrita no deserto de Nevada, próxima ao Groom Lake. A sua existência apenas foi admitida pelo governo norte-americano em 1994, e durante décadas foi alvo das mais diversas teorias da conspiração acerca de testes sigilosos que nela se desenrolavam. Algumas dessas teorias especulavam sobre a existência de tecnologia alienígena que eram adaptadas em projectos terrestres, e onde o governo americano mantinha contacto com seres extra-terrestres.
O Ikhor mencionado no texto é o sangue eterno que corre nas veias dos deuses. Ele é mencionado originalmente na Saga Episode G, onde é considerado como uma das maiores relíquias guardadas no Santuário.
