N/A: Antes que comecem os impropérios por conta do facto de ter cortado o cabelo ao Camus, fica aqui o aviso. Sim, cortei o cabelo ao cavaleiro de Aquário, simplesmente porque não me permiti licença poética neste caso e optei por uma solução mais realista. Não acredito que uma infiltração neste caso fosse bem sucedida se ele se destacasse assim tanto... além de falarmos de um meio de forças armadas. Estou a ponderar a hipótese de fazer o mesmo para o Saga nos capítulos próximos, então fica aqui já o aviso.

N/A*: Acabei por optar no final por colocar as palavras em Russo com um sinal de asterisco (*) e a tradução à frente, para facilidade de leitura. É realmente um saco ter de ir ao final da página para ler a tradução.

Priyatnogo chteniya*! (Boa leitura)


03. From USSR, with love


O camião ondulava ao seu próprio ritmo, o som abafado das rodas grossas que compactavam a neve num compasso interminável. A dezena de soldados no interior não parava de balouçar sob a cadência monótona da viatura na sua corrida nocturna a caminho do Vale dos Mortos. Todos eles fardados com o uniforme do exército soviético, o número do regimento 344 cosido ao tecido, seguravam as Kalashnikov apoiadas a tiracolo sobre o peito.

Dois olhos atentos percorreram os rostos cansados dos companheiros: todos eles jovens soldados, de pouca ou nenhuma experiência em campo. Nenhum parecia ocultar alguma capacidade excepcional que o destacasse para aquele trabalho de secretismo. Não parecia haver requisitos para a selecção dos recrutados, além da sua juventude e nacionalidade, o que lhe tinha facilitado substancialmente a infiltração.

Percebendo o seu interesse, um dos homens retribuiu o olhar.

De tez morena, a fisionomia típica de um homem do Cáucaso, dispunha de uns olhos negros cintilantes e expressivos. O rosto ruborizado pelo frio acenou-lhe em cumprimento, exalando um denso vapor de respiração ao suspirar.

Camus retribuiu ao gesto, vistoriando o nome Nikolayev escrito no uniforme.

Com sucessivas travagens suaves a viatura finalmente estagnou, sem desligar o motor para impedir que ele congelasse. Os homens entreolharam-se com alguma perplexidade, sobressaltando quando se ouviu um barulho surdo das portas.

- Estação final, Uliuiu Cherkechekh! – disse uma voz grossa sarcasticamente do lado de fora – Tudo na rua!

A ordem gritada para a carga fez o efeito desejado, de imediato os dez homens levantaram-se, abriram as portas e saltaram do veículo.

A neve fofa cedendo sob os seus pés, Camus olhou em redor tentando enquadrar-se. Devido ao cabelo agora curto, sentia o frio entrar-lhe pelo pescoço descoberto. Fazia tantos anos que o mantinha comprido, que já não se recordava daquela sensação estranha.

Atrás de si, os domos de um tom acobreado tinham ganho uma escala completamente diferente vistos de baixo. Agora mais próximo, eles aparentavam ser feitos de ferro, a cor acobreada parecia ferrugem que se acumulava ao longo da carapaça. De estrutura hemisférica e lisa, pareciam ter sido feitas de uma peça só, sem qualquer tipo de elementos de ligação.

- Hey! Ryzhaya* (Ruivo)! Vai perder o pelotão!

A voz rouca do condutor chamou-lhe a atenção, percebendo que começava a ficar para trás. Sempre a seguir o plano de operações, o condutor do camião voltou a sua marcha e arrancou, afastando-se do lugar lentamente.

Camus rapidamente se juntou aos restantes elementos do grupo, e observou o alçapão coberto de neve abrir-se para os deixar passar.

Ao entrar pela galeria, o cavaleiro percebeu rapidamente que o ambiente era quente, muito contrastante com o exterior de temperaturas largamente negativas. Acompanhou o chefe de pelotão, descendo uma escadaria sinuosa, onde apenas conseguia passar uma pessoa de cada vez, e desemborcaram numa primeira antecâmara iluminada com uma cor branca que feria os olhos.

Uma vez habituado à iluminação, distinguiu um vulto que os observava solene, provavelmente esperando que todos estivessem presentes.

- Professor Grekov! – o chefe de pelotão aproximou-se do homem de branco – Tovarishch*! (Camarada - saudação)

- Dobroe* Balandin! - o homem retribuiu, seguindo uma breve conversa.


Passava das onze da manhã quando, a muito custo, chegaram a Yakutsk.

Nicolai esbracejava e gritava o que parecia ser uma torrente de impropérios, como se aquela fosse a forma mais eficaz de abrir caminho na cortina de neve e no lamaçal das ruas, entre carroças, mulas e pessoas encasacadas até aos ossos.

No lugar do pendura, Saga sorriu com um trejeito de reconhecimento. Mudavam-se as cidades, mudava-se a língua e as pessoas, mas as reacções intrínsecas ao ser humano quando se depara com uma situação daquelas resultava sempre no mesmo.

- …PIZDETS*! (Impropério usado quando a situação está brava)

- Tem certeza que estamos no caminho certo? – finalmente perguntou, observando as ruas estreitas e os edifícios amontoados uns em cima dos outros.

- Da*! Se há lugar onde começar a procurar informação, é na Central!

- Central? – indagou o cavaleiro, habituado aos lapsos linguísticos do russo – certeza?

- Da*! Aqui em Yakutsk há um lugar intitulado a Central. Há alguns anos durante a electrificação da cidade, foi construído um poste de cimento para qualquer linha eléctrica que nunca foi acabada – o russo virou o volante numa curva demasiado apertada, fazendo o carro derrapar – Tornou-se um marco da cidade marginal. Um poço de informação, a central de um mundo paralelo.

Saga inclinou a cabeça e virou o rosto para a janela, intrigado, a curiosidade espicaçada. Nicolai servia de informante, assim como milhões numa enorme rede tecida pelo Santuário pelo mundo. Era natural que conhecesse exactamente os lugares chave das redondezas… agora restava saber o quão bem conhecia os sujeitos.

Não demoraram mais de cinco minutos em meio de curvas e contracurvas até chegar ao lugar esperado.

A "Central" ficava no meio de uma praceta, escurecida pelos prédios altos. Um banco de jardim encostado a uma das empenas dispensava o único mobiliário urbano, no qual se tinha juntado cinco homens.

Quando saíram do carro e bateram com as portas, Saga apercebeu-se dos olhares desconfiados na sua direcção.

À medida que se aproximavam do grupo, apenas um dos homens não fez caso, continuando com o olhar perdido num ponto inexistente. Era um homem idoso de óculos redondos e cabelo grisalho, que parecia ter um aspecto franzino apesar do casaco grosso que o cobria.

- Dobry den' *(Bom dia)!

- Dobroe Nicolai… - respondeu um dos homens com aspecto jovem - Kto tvoy drug* (Quem é o teu amigo)?

Um conjunto de olhares desconfiado viraram-se na direcção de Saga, que manteve-se firme ao lado do companheiro. Não percebia o desenrolar da conversa, mas não tinha outra alternativa se não confiar em Nicolai. Entendia que o russo era conhecido pelo grupo, e pressentia que a sua presença não era bem-vinda.

Ouviu com alguma atenção a troca de palavras entre o grupo e Nicolai, tentando decifrar algum som conhecido, mas sem grandes resultados.

- Smotri*! – finalmente um dos homens estendeu o braço na direcção do russo, mostrando o que lhe parecia ser um cinto em mau estado - Priznat' eto?* (Veja, reconhece isto?)

- Da*…

Fez-se um curto e solene silêncio, no qual todos olharam para o objecto.

Por fim, com um suspiro profundo, Nicolai fitou o grego e falou-lhe no seu típico inglês cerrado – Parecem reticentes em dar informações… a presença de estranhos é sempre um cabo dos trabalhos para esta gente. São muito desconfiados…

- E o cinto?

- Ah! Isso é um sinal… mau, muito mau… - Nicolai voltou a olhar para o objecto agora parcialmente escondido pelo grupo – significa que houve um novo desaparecimento. O cinto está ligado à tradição dos caçadores, nas comunidades Siberianas. Funcionam como uma espécie de… amulet?

Saga assentiu em sinal de compreensão – Amuleto.

- Da*! Caçadores como nós não saem para o meio do bosque sem cinto, faça chuva ou sol. Se um de nós se perde ou acontece alguma coisa, basta prender o cinto ao pescoço do seu cão e mandamo-lo para casa. Dessa forma, quando a comunidade vê voltar o cão, percebe logo que algo aconteceu. Funciona como um pedido de ajuda.

- Um pedido de ajuda – repetiu Saga num tom sereno – e se está aqui, deduzo que não tenham conseguido encontrar o proprietário do cinto.

O russo assentiu. Era o terceiro desaparecimento estranho no Vale dos Mortos, e nunca nenhum tinha sido encontrado. Se vivos ou mortos, só os deuses sabiam. Mas uma coisa era certa: os homens pareciam ter-se evaporado como por magia ou por alguma intervenção divina.

- E qual é a teoria deles em relação aos desaparecimentos? – a atenção de Saga saltou do russo para o grupo, que o olhava apreensivo.

- Como eu disse, não estão muito faladores. Recusam-se a falar sobre o assunto por sua causa. É a desconfiança sabe… estrangeiros no geral não são de confiança…

Saga respirou fundo e voltou a encarar o grupo. Um grupo daqueles era coeso, e extremamente complicado de contornar. Cada grupo marginal tinha um líder, cuja voz de comando deva ser respeitada sem contestar. Deu uma rápida vista de olhos para cada um dos homens tentando de alguma forma entender qual deles seria. O líder seria a pessoa que exercia simultaneamente o poder posicional e pessoal… seria ele a ocupar-se da distribuição de tarefas assim como as medidas a tomar. O alvo a convencer.

Pela postura, percebeu que um dos elementos se destacava dos outros três. O líder era, enquanto agente disciplinador e de manutenção e coesão do grupo, um dos membros mais antigos ou mais velho. E aquele homem aparentava destacar-se pela perspicácia e força.

Claro, se se dirigisse directamente a ele e falha-se o alvo, seria o fim daquela conversa. Estava numa posição complicada… a forma mais eficaz de conseguir informações naquelas situações exigiam tempo e paciência; ganhar aos poucos a confiança daqueles homens. Justamente o que não dispunha naquele momento.

Por outro lado, não podiam permanecer ali parados, perdendo aquele tempo precioso. Os segundos esgotavam-se e precisavam de arranjar informações a todo o custo para sair daquele impasse. Camus contava com ele.

Teria de optar por uma opção menos digna, e talvez quebrar algumas leis regulamentares de missões daquele calibre. Mas os fins justificam os meios…

- Cem rublos por cada informação que disponibilizarem – disse finalmente, a voz num tom categórico.

Os olhos de Nicolai arregalaram-se, virando o rosto na sua direcção. Aquilo era uma exorbitância de dinheiro, além de intromissão clara num grupo marginal anti-estatual. Observou o cavaleiro durante alguns segundos, com uma expressão de surpresa estampada claramente no rosto - Cem… tselkovyi*? - voltou a perguntar, uma vez que o grego permanecia impassível - Tem a certeza?

Saga assentiu – diga-lhes. Cem rublos.

Com alguma relutância, Nicolai acabou por ceder e explicou em russo a proposta. Os quatro homens entreolharam-se, com visível surpresa. Apesar de apelativa, mantiveram-se apreensivos em saltar sobre a oportunidade, mesmo que a quantia citada representasse uma enormidade naqueles tempos.

Mas aquele vacilo podia ser a hipótese que Saga precisava. Observava-os na espectativa e tornava-se cada vez mais claro que não tinha ainda chagado ao ponto de não retorno. Teria de lhes dar mais qualquer coisa, por pequena que fosse.

Preparava-se complementar a oferta, quando ouviu uma voz grave e levemente rouca abordá-lo.

- Não vai muito longe com esses subornos… - ouviu num grego quase isento de pronúncia eslava – esses homens têm um sentido de comunidade forte e não vão trair o grupo por meia dúzia de tostões. Vão inventar algumas mentiras para receber o dinheiro.

Saga virou o rosto na direcção da voz, descobrindo-se observado por duas íris de um azul profundo.

Era o velho que tinha permanecido quieto até aquele momento. Olhava-o com uma expressão pausada e de certo modo divertida e beatífica. O grego permaneceu atónito durante alguns segundos, sentindo como se tivesse caído nalguma realidade paralela.

O homem trocou então algumas palavras com os jovens que o olharam desconfiados e pouco agradados com aquele corte. Acabaram por se afastar, lançando alguns impropérios, deixando espaço para que os dois intrusos se aproximassem.

- O senhor é jornalista?

Saga rapidamente viu ali a sua chance de retirar alguma informação, mesmo não vindo ela do lugar esperado. Assentiu, aproximando-se do homem.

- Como percebeu a minha nacionalidade? -perguntou

O homem sorriu e ajeitou os óculos sobre o nariz – O meu nome é Sergey Andreevich, professor de letras da Universidade de Moscou. É um prazer conhecê-lo, senhor…

– Saga.

Ao seu lado, Nicolai arqueou as sobrancelhas cerradas, admirado por ver aquela conversa directa numa língua desconhecida. Trocou um olhar carregado de subentendidos com o cavaleiro, que não escapou à atenção de Sergey.

- Molodoi* Saga, priyatno*(Jovem Saga, muito bem) - o homem completou, agora num inglês cerrado – para um professor de letras, seria de esperar algum conhecimento de idiomas diversificados, assim como o estudo da dicção. Percebi por algumas entoações e adjunções que se tratava de uma língua indo-europeia, com raízes helénicas… a sua postura e características antropológicas concluíram o raciocínio.

Saga encontrava-se genuinamente surpreendido com o raciocínio rápido e eficaz daquele homem - e decidiu interpelar-me sem sequer ter a certeza?

O homem meneou a cabeça, o olhar sorridente - por outro lado, se não fosse grego simplesmente não entenderia o que estava a dizer… e provavelmente pensaria que era um velho sem o seu perfeito juízo murmurando conversas desconexas.

Nicolai soltou uma gargalhada, o que desconcertou o grupo marginal mais à frente. Contagiado pelo divertimento, Saga esboçou um sorriso: aquele homem era, se sombra de dúvidas, uma pessoa única que não esperava encontrar naquele ambiente.

- Muito bem senhor Andreevich… - prosseguiu com algum cuidado - aqui entre nós; qual é a sua teoria sobre os desaparecimentos?

- Hum… Molodoi* Saga está aqui em Yakutsk à muito tempo? - o homem perguntou relutante.

- Não, apenas umas horas…

O velho virou então a atenção para Nicolai - mas o senhor vem cá correntemente, presumo… - recebendo um aceno desconfiado como resposta, prosseguiu - e nas suas viagens a Yakutsk, quantos sem-abrigo costuma ver nas ruas?

A pergunta enigmática suscitou o maior dos espantos nos dois homens. Sem-abrigos? O que raio queria o professor dizer com aquela pergunta? Por momentos Saga perguntou-se se era realmente aquela palavra que o homem queria dizer, ou se era mais uma tentativa falhada de tradução. Do seu lado, Alexei pensou que aquela pergunta podia ser o resultado de um delírio febril, o produto indesejado da demência de um velho.

Percebendo a má interpretação, o professor apressou-se a desmistificar - Acredito que a pergunta possa parecer estranha, mas ela tem um propósito.

Rendido, o russo fez um ar pensativo, como se vasculhasse os arquivos da memória - Oh… estranhamente, nenhum! Mas realmente nunca prestei grande atenção a esse pormenor… não é coisa que se veja muito em comunidades pequenas como Lednik.

O velho largou um pesado suspiro - pois bem, tudo começou quando enviaram a brigada especial do Kremlin…


O homem de bata branca lançou um olhar furtivo ao grupo, antes de se dirigir à única porta disponível. Ouviu-se um bip quando digitou o código de acesso, convidando o grupo a entrar.

Camus seguiu atentamente o homem com o olhar, enquanto caminhava em parada entre dois militares através dos longos corredores iluminados com lâmpadas que lhes feriam os olhos. Activava naquele momento a sua capacidade mnemónica de forma a gravar no único lugar possível a enchente de informação que esperava arrancar dali: Professor Grekov era um nome que não lhe soava estranho, mas naquele momento não tinha tempo para vasculhar nas suas memórias por esclarecimentos.

As sucessão de salas e corredores percorriam por baixo de terra toda a extensão dos domos. Todas de um insípido tom laboratorial, pairava no ar um vago odor asséptico a álcool e a formol, que parecia emprenhar-se na roupa, pele, cabelo…

À sua volta, os companheiros pareciam acomodados com aquele estado, dando a entender que aquele ambiente seria sempre assim.

"Quero deixar bem claro que nenhum de nós tem nada a ver com este assunto!"

Camus conseguia ouvir parte da conversa do médico grande de sobrancelhas carregadas e do chefe de pelotão. Ambos viravam o rosto para falar, o que facilitava a leitura do restante nos lábios dos dois homens.

"Da* Grekov, essa parte do trabalho cabe-nos a nós resolver."

O grupo cruzou o átrio e meteram-se por um grande corredor com paredes de vidro, para lá das quais se espalhavam vários laboratórios. Uma legião de técnicos de bata branca afadigava-se em volta de tubos de ensaio, microscópios e outros diversos materiais, evidentemente a proceder a experiências.

"- Isto é um laboratório de Pesquisa Genética, Grigorii… não uma morgue! É impossível trabalhar nestas condições!

-São as ordens, Grekov. Nenhum paciente deve ser encontrado."

- Hey, Ryzhaya*! - Camus estagnou - você fica comigo.

Ao perceber que fora interpelado, o cavaleiro estagnou como se regressasse à realidade. Era Nicolayev, o rapaz daquela manhã que o interpelava.

- Hum… - ainda hesitou, recuperando a concentração. Não queria afastar-se do grupo, mas não podia simplesmente ignorar as suas atribuições. Ao postar-se em sentido ao lado do homem, percebeu aos poucos o grupo de soldados se tinha dispersado, e juntavam-se aos pares em sentinela à frente de algumas das portas do corredor. Apenas um pequeno grupo seguia os dois homens, provavelmente designados para as restantes salas de laboratório.

Já que não iria acontecer muita coisa durante as próximas horas, regressou à charada que lhe surgira momentos antes. Voltou a concentrar as atenções no nome Grekov, soando-lhe estranhamente familiar. O homem em questão, cientista num laboratório ligado a genética; refugiado nos domos do vale dos mortos, localizado na Sibéria profunda. Estaria num campo secreto criado pelo governo soviético, como Saga previra? Tinha de dar crédito à licença poética do alto comando: o aparecimento de 'mortos-vivos' vindos de um lugar chamado vale dos mortos tinha o seu toque de requinte. O caso podia ter bem passado por um mito local, se não fosse o pequeno incidente que o levara como Saga naquela missão.

O desaparecimento do Ikhor da deusa Atena.

Permitindo-se escapar à realidade que o rodeava, mergulhou plenamente no fio de pensamentos que lhe enchia a mente. Questionava-se quanto à ligação do desaparecimento do Ikhor e aquele lugar. Estariam a usá-lo para alcançar o soldado perfeito, ou para outro tipo de indicação? Presumindo logicamente que os homens que apareceram em Lednik se encontravam com uma qualquer doença degenerativa e não mortos-vivos como dizia Nicolai; e supondo que alguém naquele recinto tivesse algum conhecimento sobre o Santuário e o seu mundo… estariam a pensar usar o sangue de um deus para curar os enfermos? Seria aquele laboratório na realidade um espaço hospitalar onde tentavam recuperar agentes afectados por alguma doença estranha?

Mas havia a unidade especial do KGB…

Aquela patrulha que tinha infiltrado não passava de uma solução temporária. Não lhes tinham dado qualquer indicação de onde iam, o contexto no qual se enquadravam… apenas lhes tinham sido dirigidas as poucas palavras "sigam ordens".

Camus remexia o enigma em todos os sentidos, buscava soluções lógicas para aquelas perguntas, mas todas as incógnitas o levavam sempre à mesma conclusão.

- Hey, Ryzhaya*!

O ruivo respirou fundo, afastando uma pontinha de irritação por ter sido interrompido no seu raciocínio, e encarou o companheiro com voz monocórdica - Volodey… Michail Volodey…

O homem olhou-o de relance, parecia quase surpreendido por o ruivo se lhe dirigir - Uh?

- O meu nome é Michail Volodey, não Ryzhaya.

- Oh claro! - o homem soltou a arma com a mão direita, tirou a luva que a cobria e estendendo-a na direcção de Camus - Dimitri Nicolayev.

O cavaleiro apertou a mão que lhe era estendida, ao mesmo tempo que fazia um breve aceno com a cabeça.

- De onde vem?

O ruivo respirou fundo. Tinha-lhe calhado um falador… ele que apenas esperava ficar tranquilamente nos seus pensamentos - Nadezdy, Madagan Blast.

- Oh oh! Dizem que as mulheres mais bonitas são as siberianas orientais… é verdade?

- Não tenho razão de queixa… - respondeu simplesmente, optando por não entrar em detalhes desnecessários. Já que teria de suportar aquela conversa fiada, trataria de lhe retirar as informações que aquele homem sabia. Todo aquele secretismo, mesmo em relação aos soldados, não deixava prever nada de bom.

Preparava-se para aproveitar a conversa para retirar algumas informações, quando algo o deteve.

Um grito.

O som estridente trovejou pela direita, algures do fundo do corredor; emitido por uma voz rouca, gutural, mas suficientemente clara para perceberem naquele mesmo instante acontecia algo aterrador.

Camus preparava-se para sair do seu posto e acudir, quando sentiu uma mão forte agarrar-lhe no braço.

- Fique quieto… - a voz de Nicolayev chamava-lhe a atenção, obrigando-o a parar no embalo - ou ainda vai-nos trazer problemas.

Apesar da reticencia, o ruivo seguiu o pedido. Não devia chamar muito a atenção sobre si, e pelos vistos aquelas eram as consignas habituais. Olhou na direcção do companheiro, e percebeu a mudança nas suas feições. O rosto tinha endurecido e os olhos escuros tinham-se tornado frios… e pela falta de reacção, aquela não era a primeira vez que surgia aquela situação.

Seguiu-se um longo silêncio.

Foi Nicolayev o primeiro a rompê-lo.

- Ouça, sendo novo aqui dou-lhe um conselho para a sua sobrevivência: nunca se meta nessas situações. Seja cego, surdo e mudo, a menos que Komandir* (Comandante) lhe dê ordem directa para agir.

Nicolayev calou-se um instante, considerando a melhor maneira de reformular a questão, mas Camus foi mais rápido.

- Acontece muitas vezes? - perguntou percebendo o desconforto nas feições do russo - Parece habituado com este tipo de situação.

- Algumas… - ouviu-se um longo suspiro - felizmente são raras as vezes que somos implicados.

Camus esperou por uma continuação, mas como não vinha, decidiu-se por insistir naquele tema - Não saber o que se passa pode dar asas à imaginação…

- Oh, mas surgiram especulações! - mordendo o isco e subitamente animado pelas teorias de conspiração, o russo continuou - falam de um ultimo e derradeiro campo de trabalhos forçados que permaneceu apesar do desmantelamento dos restantes.

Surpreendido, mas reticente, Camus observou - estas instalações não se parecem com Goulags

- Pois, também me parece uma teoria com demasiados lapsos! Mas considerando que a outra hipótese parece ainda mais escabrosa…

- A outra hipótese?

- Experiências ligadas a modificações genéticas… não percebo muito disso, mas um dos soldados da leva anterior ouviu as palavras "experiência" e "Ivanov", e fez um bicho de sete cabeças. Inventou uma história mirabolante em volta de especulações - voltou a olhá-lo com um sorriso desconfortável, fazendo um gesto com a mão - mas não ligue, são apenas fábulas que não devem ser levadas a sério…

A conversa fora interrompida ao sentirem movimentação no corredor.

Aproximava-se alguém, Camus conseguia ouvir-lhe os passos militares que ecoavam pelos corredores. Automaticamente silenciaram-se, voltando à posição de sentido. Não demorou para que um vulto conhecido aparecesse na esquina.

Era o chefe de pelotão que se aproximava.

- Algum problema, senhores? - o russo de olhar sinistro parou à sua frente e permaneceu um longo momento as mãos atrás das costas, sempre com a atenção presa nele. Impunha uma presença que suscitava desconforto, temor até, pelo visível desconforto de Nicolayev ao seu lado. O francês manteve o rosto fechado, de uma frieza polar, enquanto os olhos contraídos o estudavam, muito provavelmente avaliando-o.

- Niet Komandir*! - Nicolayev respondeu, e Camus percebeu um ligeiro tremor na voz do companheiro apesar da sua projecção.

Ao fim de alguns minutos, que pareciam uma infinidade, o desconhecido de olhos azuis gelados deu-se por satisfeito e, murmurando um "Acho bem!", seguiu caminho para onde tinham entrado.

Camus ouviu um respiro de alívio ao seu lado, o que o levou a virar o rosto na direcção do seu parceiro. Nicolayev tinha um sorriso pálido, algumas gotas de suor brotando no topo da testa. Aquele homem tinha sido visivelmente talhado para o papel de comandante.

Aproveitando o momento de silêncio devido à tensão, a mente de Camus voltou a trabalhar a mil, filtrando e interligando as informações que tinha conseguido.

Descartou a primeira hipótese de Goulag, com base no que se conseguia aperceber do local onde se encontrava. Aquele espaço era claramente mais considerado para algum tipo de laboratório. Tinha a certeza disso, após ter conseguido distinguir perfeitamente as palavras Pesquisa Genética da conversa entre os comandante e o professor.

Depois havia o nome Grekov que não lhe soava estranho, talvez não pelas melhores razões. Se considerasse por momentos o mito que se tinha gerado em volta daquele laboratório como algo com algum fundo de verdade…

Grekov… Experiência… Ivanov…

Experiências genéticas…

Ikhor…

- Skatá!* (Impropério) - deixou escapar em grego, quando caiu em si, dando-se por vencido quanto às suas conclusões. Por alguma razão tinha-se agarrado à esperança de vir a encontrar algo diferente naquelas instalações, e que as deduções de Saga estivessem erradas. Mas à primeira vista, tudo parecia bater certo, e o grego tinha razão.

O governo soviético fazia experiências com o Ikhor afim de alcançar o soldado perfeito, o "super homem" do mito. Mas o que não esperavam, era que o sangue de um deus pudesse ser venenoso e ter efeitos devastadores em simples mortais como eles.