N/A: Acabei de reparar que este site maravilhoso come uma grande parte de espaços e tracejados... fiz todos os possíveis para que isso não acontecesse, mas se algo passou, peço já as minhas desculpas. Boa leitura!


04. Quimeras de Ivanov


Um céu de chumbo ensombrava o vale dos mortos, cobrindo os domos de uma neblina esbranquiçada e fria, transformando-os em vultos fantasmagóricos que ora emergiam, ora eram engolidos pela névoa inquieta.

Tinham passado dois dias desde o momento em que Camus se tinha infiltrado com sucesso, e apesar das informações que tinha angariado, ainda não havia rasto do Ikhor. Naqueles dois dias não tinha conseguido maleabilidade suficiente para se dedicar a uma busca mais aprofundada, nem reconhecia ninguém que pudesse ter estado em contacto com o Santuário… isso deixava-o inquieto.

Esperava que do seu lado, Saga tivesse com melhor sorte.

- Volodey! - Camus reagiu ao seu nome provisório, tirou a luva e aceitou o cigarro que lhe era oferecido - Blin*! (praguejo) Este frio quase que me tira a vontade de fumar! Mas é como as mulheres… um vício!

Com um clic rápido a chama do isqueiro acendeu-se, enchendo o ar de um cheiro acre de cigarro ateado. Tinha de admitir que, apesar de ter sido obrigado a emparelhar com Nycolayev, este tinha-se revelado uma fonte de informação preciosa. Aos poucos tinha começado a perceber o sistema do Vale dos Mortos: os domos emanavam ondas radioactivas que mantinham longe os animais, mais sensíveis a esse tipo de ocorrência, e alteravam a estrutura da fauna até onde essas radiações alcançavam: a vegetação tornava-se mais exuberante, com folhas de bordas largas.

Para as pessoas, os efeitos nefastos não se apresentavam logo, mas uma exposição prolongada às radiações tinha-se revelado mortal no espaço de uma semana. Os primeiros sintomas, como vertigens, enjoos, labirinte ou mesmo desmaios, apareciam nas primeiras horas de exposição. Seguia-se uma queda repentina do cabelo, aparecimento de pústulas na pele… uma sensação estranha de asfixia, calafrios, cegueira eram apenas o inicio do que as radiações podiam provocar. Todos esses sintomas estranhos tinham influenciados a criação dos mitos em volta daquele espaço, ninguém se tinha aventurado tempo suficiente naquele vale para testar até que ponto aqueles sintomas poderiam chegar.

- Govno*! (Merda!) - impacientou-se Nicolayev - Nunca mais chegam!

Camus olhou o parceiro de soslaio - Tem muito pouca resistência ao frio para um sovetskiy* (soviético). – comentou entre dois bafos de fumo.

Nicolayev retribuíu com um esgar céptico, enquanto tragava um pouco do cigarro numa tentativa de o manter aceso - a minha Rodina-Mat* (Pátria Mãe) é bem mais afável que a sua…

- Disso não tenho dúvidas!

Fez-se um curto silêncio.

- Alguma vez caçou?

O ruivo surpreendeu-se com a pergunta

- Poucas vezes… - respondeu, jogando pelo seguro - Porquê?

- Hum… não há animais aqui. Ajudava a passar o tempo mais depressa…

O francês anuiu - Na Sibéria temos um código muito estrito no que respeita a caça.

- Oh?

- De acordo com a moral siberiana, a caça é um processo depurativo que ajuda uma pessoa a regressar ao nível original. Os Siberianos nunca caçam por prazer, apenas para matar a fome, e só quando vão a zonas profundas do bosque, na Taiga - tirou o cigarro da boca e largou-o na neve que cobria o chão - Nunca em lugares onde é possível arranjar alimento sem matar animais selvagens.

Nicolayev suspirou rendido - Vocês levam essa história de moralidade demasiado a sério. – murmurou por entre a gola do casaco grosso.

- Influências das comunidades criminais que invadiram a Sibéria ao longo dos anos.

Do nada, um zumbido longínquo atraiu a atenção dos dois homens e perceberam um par de clarões circulares na estrada que avançavam com cautelosa lentidão. Calaram-se. O zumbido cresceu e transformou-se num ronco estrepitoso quando já estava suficientemente perto.

O russo seguiu o exemplo do companheiro momentos antes, e tragou uma ultima vez no cigarro aceso antes de o atirar para o chão e esmagar com a bota.

- Finalmente! – comentou já exasperado pela espera.

Os dois homens aproximaram-se da carrinha. O motor em esforço roncava insistentemente, dificultando a conversa em tom contido.

- Dobroye* (saudação). Viemos efectuar a entrega - disse o motorista mal humorado, exalando pela janela um denso vapor de respiração - Em nome de V. Grekov.

- Da* - Camus respondeu categórico - o professor está à vossa espera. Siga os procedimentos delineados; tem quinze minutos de exposição.

- Spasibo* - o motorista voltou a cabeça para trás - Vamos lá!

Obedecendo ao chamado, as portas abriram-se e dois soldados saltaram da carga do camião, arrastando com eles uma terceira pessoa.

Camus sabia que tinha sido chamado para receber uma "encomenda", e tinha as suas suspeitas do que poderia ser… verificou que as suas presunções estavam corretas.

O aspecto do homem parecia o de um mendigo. A cabeça escondida por uma bolsa de pano, apenas conseguia perceber as roupas meio rotas e conspurcadas de nódoas, demasiado leves para aquela altura do ano. Observou os sapatos, e pela dificuldade em andar percebeu que pareciam uns dois números abaixo do que aquele homem calçava.

As mãos presas atrás das costas, o homem era arrastado pelos dois soldados até ao alçapão.

- Mal'chikov* (rapazes!), deixem-no lá dentro e voltem o mais rápido possível! Não vou ficar aqui exposto a esta merda de radiação muito mais tempo! Davai, davaü*! (Mexam-se)

Camus e Nicolayev seguiram o grupo, accionando o mecanismo. O alçapão abriu-se com um zumbido eléctrico, e os cinco homens apressaram-se a descer pela escada em caracol. Ao chegarem à sala de espera, o russo fez um sinal com a mão e encarou os dois intrusos - Daqui adiante, nós tomamos conta do resto.

- Mas nós temos ordens claras par…

- Nós também - cortou Camus com súbita rispidez, o que suscitou um desconforto palpável no pequeno grupo.

Os dois soldados entreolharam-se confusos, perguntando-se o que deveriam fazer. Tinham ordens específicas para entregar aquele homem directamente ao Professor… por outro lado, tinham deixado o companheiro no carro com pouco tempo de espera... além de já estarem oficialmente dentro das instalações militares.

Um deles deu finalmente de ombros e anuiu para o colega. Com um gesto coordenado, deixaram o mendigo cair de joelhos com um baque seco, e fazendo uma breve continência voltaram a caminhar em direcção da saída. Nycolaiev acompanhou-os, deixando Camus a sós com o homem encapuçado.

Naquele momento, o francês debatia-se com uma duvida moral de dimensões consideráveis: estava à sua disposição a possibilidade de salvar aquele homem, deixando-o fugir e, consequentemente, habilitando-se a ser descoberto…

...ou manter a sua infiltração sigilosa e deixa-lo morrer às mãos daqueles homens.

Ponderou as hipóteses possíveis, mas sem grandes conclusões satisfatórias. Suspirou, rendido à inevitabilidade; não havia volta a dar: toda aquela missão teria de ser considerada como prioritária.

Voltou a olhar o homem ajoelhado no chão, e provou de uma estranha sensação de reconhecimento. O mendigo não tinha soltado um pio desde que tinha sido tirado do carro. Teriam-lhe dado algum sedativo? Para se mostrar tão cooperativo, só podia estar sob efeito de qualquer tipo de narcótico.

O olhar atento vagueou pelas mãos, semicobertas por umas luvas sem dedos: estavam com uma cor azulada, mas não existiam tremores de frio. Apesar do estado esfarrapado das vestimentas, aquele homem parecia estar em boa postura física…

"…demasiado boa para quem mendiga na rua" concluiu.

Ou talvez fosse uma situação tão recente que não tinha ainda provado do terror da vida de sem-abrigo.

Subitamente, nasceu no meio do seu raciocínio lógico uma dúvida demasiado extravagante para a sua racionalidade.

E se aquele homem estivesse ali por iniciativa própria? Se a sua falta de resistência estivesse ligado a uma cooperação de livre vontade e não devido a qualquer substância tranquilizante?

Camus arregalou os olhos horrorizado. Não podia…

Preparava-se para percorrer os poucos passos que o separavam daquele homem para lhe destapar o rosto e certificar-se da veracidade das suas conclusões, quando o regresso repentino de Nicolayev o parou.

- Argh! Maldito frio! - praguejou ao se aproximar, o corpo a tremer consistentemente - maldita a hora em que fui destacado para a cá!

Camus estagnou, forçando uma expressão neutra, e assentiu em concordância. Tinha perdido a sua chance... agora teria de esperar para confirmar as suas suspeitas.

Dirigiu-se à porta e hesitou, dividido entre a mentira, que abriria as portas da morte àquele homem encapuçado; e a verdade que irremediavelmente levaria ao anulamento daquela missão. Acabou por dar por si levantando a mão, e tocar rapidamente nos números para inserir o código de acesso.

Um som monocórdico ecoou, e a porta abriu-se.


- Prinesite yego*! (Tragam-no)

A venda na cabeça impedia-o de ver o que se passava à sua volta, mas sentiu o calor e ouviu o som de novas vozes em ambiente fechado. Percebeu que era arrastado para dentro de um edifício por dois pares de braços poderosos que o puxavam por portas, escadas e corredores, as mãos sempre atadas atrás das costas. O corpo enrijecido pelo frio demorou a aquecer, apesar do calor abafado no interior.

- Syad'te zdes*! (Sentem-no aqui)

Por fim, após muito tropeçar na escuridão, foi empurrado para um compartimento e sentado numa cadeira de madeira. As pessoas à sua volta falavam num tom agitado, apesar de não entender as palavras que eram trocadas.

Pressentiu um dos homens aproximar-se, ouviu um respirar leve e o som quebrado de estalidos de articulação. Era certo que se encontrava alguém ao seu lado, mas passaram-se cinco minutos em silêncio até que lhe arrancaram finalmente a venda da cabeça.

Seguiu-se o árduo exercício de adaptação à luz esbranquiçada que enchia a sala.

Piscou algumas vezes os olhos, conseguindo distinguir quatro vultos na sala com ele. O mais próximo usava uma bata branca que lhe concedia um ar de médico; seguido muito próximo por um homem de uniforme militar. Pela identificação das divisas confirmou que se tratava de uma identidade de alta patente. Os dois homens restantes, fardados, mantinham-se em sentinela dos dois lados da porta.

Um novo silêncio em meio do qual apenas se ouvia o escrevinhar do lápis no papel nas mãos do médico.

- Khorosho* (Muito bem) - manifestou-se finalmente o comandante, num tom contido, como um leão que oculta o rugido feroz por baixo de um ronronar manso - Kak vas zovut?* (Como se chama?)

Manteve-se calado, e o comandante deixou passar uns segundos antes de voltar a fazer a mesma pergunta.

- Kak vas zovut?*

Den katalavaíno rosiká.* (Não entendo russo) - respondeu baixo, na sua língua natal.

Os dois interrogadores não esperavam visivelmente por aquilo. Entreolharam-se desconfiados e trocaram algumas palavras rápidas, antes do oficial se chegar à frente - Shpion? Razve my zakhvatili shpiona?* (um espião? Capturámos um espião?)

O prisioneiro sentiu a mão forte repuxar-lhe o cabelo curto pela nuca, obrigando-o a olhar o interlocutor nos olhos - Um espião? - ouviu num inglês estranho com forte sotaque eslavo - Fala inglês?

- Yes* - murmurou num sibilo, fazendo um esgar de dor e sustentando o olhar gélido do comandante.

- Diga-me o seu nome, e o que estava fazendo em Yakutsk!

Fez-se silêncio na sala, os quatro homens pareciam de repente curiosos em saber algo mais sobre o mendigo que acabara de chegar. A situação tinha dado uma volta de repente, fugindo ao controle do oficial, o que desencadeou uma sucessão de reacções menos contidas.

Era o que mais faltava, capturarem um espião em meio da Sibéria.

- Responda! Nome, e o que estava fazendo em Yakutsk!

- "aquele homem acredita saber alguma coisa, sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber…"

- O quê?

- Platão… "Só sei que nada sei"

Um rubor de irritação cresceu no rosto do oficial.

- SILÊNCIO! - gritou ao seu ouvido direito, de repente fora de si - Não se arme em esperto comigo, não está em posição para tal. O senhor neste momento não existe, não tem direitos. Entendeu?

O homem permaneceu calado.

- Entendeu? - o militar gritou mais alto, a boca colada ao seu ouvido.

- Yes*…

- Ainda bem – completou o algoz, soltando-lhe o cabelo - Então faça o favor de responder agora às minhas perguntas - Fez uma pausa para recuperar a compostura e retomou o interrogatório num tom mais calmo - Quem é você e o que estava fazendo em Yakutsk?

- "Só sei que nad…"

Uma violenta pancada foi desferida no lado direito da cabeça, quase levando-o ao chão. Com um sibilar de dor, fechou os olhos com força e contorceu-se na cadeira.

- RESPOSTA ERRADA! - gritou o oficial da KGB, agarrando-o pelo colarinho - ouça bem, seu svin'ya* (porco), não se arme em esperto comigo se não quiser acabar com um balázio na testa, estamos entendidos?

O interrogado anuiu, e os dois braços fortes atiraram-no de volta para o banco.

- Vou repetir a pergunta. O seu nome e o que fazia em Yakutsk.

Manteve-se calado.

- Responda!

Silêncio.

A paciência tinha esgotado. O comandante preparava-se para desferir um novo golpe violento; muito provavelmente o primeiro de muitos, quando uma voz firme abortou o balanço.

- Dostatochno Grigorii!* (Grigorii Basta!)

Durante alguns segundos o tempo pareceu suspender-se, nos quais manteve os olhos fechados e suspendeu a respiração na perspectiva de um novo golpe.

Quando percebeu que este não veio, levantou o rosto reticente e abriu os olhos. Até agora calado, o homem de bata branca tinha finalmente apelado, cortando aquela onda de violência gratuita.

Observou atentamente os dois homens se aproximarem e começarem uma conversa enérgica, visivelmente discutindo sobre algo. Muito provavelmente estariam a ponderar o que fazer com ele… talvez alimentar a ideia do espião não tivesse sido a melhor, mas não havia muito por onde escapar considerando a falta de opções. Apesar de tudo, no meio daquela confusão, tinha tido alguma sorte se considerasse as quatro pessoas fechadas naquela sala.

Tentou perceber o que era dito por algum tempo, mas sem resultado. Por mais que tentasse, não conseguiu discernir nenhuma palavra que o ajudasse a entender o teor da conversa. Fechou os olhos de forma a aguçar a atenção, mas não ajudou.

Alguns minutos se passaram, até que uma decisão parecia ter sido tomada.

Sentiu de imediato movimento em redor, e preparou-se para o pior.


- Algum de vocês fala inglês?

Os dois sentinelas que até então tinham permanecido em pano de fundo, cruzaram olhares desentendidos.

- Eu, meu comandante! - acabou por responder Nycolayev, fazendo uma breve aceno respeitoso.

O oficial fez uma pausa, como se ponderasse a resposta. Olhou o subordinado de relance, antes de o ignorar e focar a sua atenção no companheiro.

Camus permaneceu em sentido, o olhar gélido focado num ponto no fundo da sala. Era inegável que a presença daquele homem tinha um impacto tremendo, mesmo para ele que, em altura normal, estaria em posição equivalente.

- E você? Entende alguma coisa de Inglês?

- Niet, moy komandir*! (não, meu comandante) - respondeu em tom solene.

- Hum… nada de nada?

- Niet, moy komandir! - confirmou.

O oficial pareceu satisfeito.

- Muito bem! - continuou, indicando o ruivo com o dedo - Você fica aqui de guarda. Se este homem tentar alguma coisa, abata-o. Se se levantar, abata-o. Se tentar falar consigo, abata-o. Entendido? Neste momento a única coisa que lhe é permitido é respirar!

Nycolayev pareceu surpreendido pela escolha do superior, mas seguiu prontamente os dois homens quando estes se dirigiram à porta. Se o objectivo retirar informação, de que servia um homem que não entendia o que o prisioneiro dizia?

Do seu lado, após anuir, Camus permaneceu imóvel no mesmo lugar. Era naqueles momentos que, o conhecimento do modus operandi daquelas situações se mostrava vantajosa. Tinha sido uma jogada com alguma probabilidade de falhanço, mas tinha-se mostrado extremamente certeira. Era de esperar que escolhessem alguém que fizesse o seu trabalho sem trocas de informações com o prisioneiro.

O grupo saiu da sala e trancou a porta. Um silêncio pesado pairou no ar entre os dois homens, apenas violado pelo som dos passos a afastar-se e dissipando-se no corredor.

Somente quando se deu por satisfeito com a percentagem de segurança, o francês decidiu romper o mutismo.

- Confortável? - perguntou em grego, descontraindo-se e pousando o mancho da kalashnikov no chão.

O mendigo torceu os lábios finos, esboçando o que parecia ser o vestígio de um sorriso.

- Não me posso queixar.

Camus observou o interlocutor agora com maior atenção. Viu um homem de feições másculas, a barba rala e o cabelo forte e curto, que outrora mantinha tão longo quanto o seu, a cair-lhe agora desordenadamente sobre a testa. As mãos continuavam disciplinarmente amarradas atrás das costas, apesar conseguir libertar-se com facilidade.

Respirou fundo.

- Algo me escapou… não me lembro de termos combinado uma infiltração conjunta.

O prisioneiro riu-se — achava que o ia deixar fazer a festa sozinho? Não me parece… - travou Camus com um gesto de cabeça quando este se começou a aproximar - eles podem estar de vigia. Não temos muito tempo, estarão de volta a qualquer momento.

Camus assentiu. Pelo que tinha ouvido, os dois homens apenas tinham ido concluir algumas formalidades antes de regressar e continuar o interrogatório.

- Como desconfiávamos, Saga - fez uma pausa, inconscientemente tentando associar o nome à pessoa sentada à sua frente - estamos num centro de investigação não governamental, apesar de usufruírem da protecção de um grupo de forças especial chamado Grupo Alfa da 17º directoria fantasma do KGB. Aqui são feitas experiências com base nos estudos de Ivanov…

- Ivanov? - o grego indagou visivelmente desconcertado - 'O' Ivanov da hibridação interespecífica? Julguei que tinham abortado as experiências depois dos constantes fracassos!

- Um exército de super-soldados incapazes de sentir medo, com força e resistência sobre-humanas; que seguiriam todas as ordens sem pestanejar, que comeriam qualquer coisa, e que ignorariam dor e sofrimento… - Camus encostou-se à parede, meditando sobre o tema - Ilya Ivanov passou grande parte da sua carreira trabalhando nesse projecto megalómano para Stalin, antes de ser contestado e acusado de usar de forma imprópria os recursos do estado soviético, e preso num gulag onde morreu. Claro que a relação do estado com as experiências de Ivanov nunca foi legitimada e o caso caiu em esquecimento… mas acho que podemos dizer com alguma certeza que essas experiências não foram descontinuadas.

- Apenas não continuaram a ser feitas nos mesmos moldes… - concluiu o grego, recostando-se na cadeira e deixando a cabeça pendendo para trás - em vez de fertilizarem mulheres com sémen de primatas, arranjaram outras formas de alcançar os mesmos objectivos. Mas que confusão!

- Concordo. A estação de pesquisa de Ivanov foi fechada, mas a investigação foi continuada no maior sigilo… e confesso que não tenho boas notícias para si… - o ruivo considerou - já que vai ser usado como cobaia para a próxima experiência…

- Hum… eu sei… - o grego contorceu-se na cadeira, não parecendo muito surpreendido - é por isso que estou aqui. Durante a investigação com Nicolayev, descobrimos que os sem-abrigo e pedintes eram levados e usados como cobaias por um grupo de intervenção especial. Daí mendigos serem praticamente inexistentes em Yaktrusk. Juntei dois mais dois e… aqui estou.

O francês contraiu o rosto surpreendido.

- Ah! Inteligente! - concluiu pensativo - utilizam pessoas 'descartáveis' e com pouca presença, de forma a que ninguém se dê conta do seu desaparecimento…

Seguiu-se um silêncio, no qual ambos tentavam assimilar as informações. Naquele tempo de perigo de guerra iminente, todos os golpes eram bons para melhorar as forças militares.

- O que nos deixa com uma tarefa complicada… - Saga concluiu - descobrir se alguém dentro do Santuário deixou vazar informações cá para fora, o que leva à pena capital; ou se foi o próprio governo Russo que infiltrou um agente no Santuário, ciente do que isso acartaria.

Camus inclinou-se para a frente, como se assim pudesse apreender melhor tudo o que era dito. Quando tinha lido as ordens do Santuário, simples e concisas, não esperava que as raízes o levassem a uma profundidade tão grande. Deparavam-se com uma das restrições dos poderes do Santuário… a falta de informação que englobava aquela missão partia do sigilo do governo soviético. Quanto menos saísse, menos poderia cair nas mãos dos americanos.

"Daí ter sido destacado para ela juntamente com Saga", pensou. Não estavam ali para recuperar simplesmente o Ikhor, mas igualmente para acumular informação sobre o que se passava nos bastidores do governo soviético.

- Talvez com o seu 'estatuto'; tenha mais sucesso em descobrir essa toupeira e reaver o Ikhor. - comentou finalmente, encarando o companheiro com alguma ansiedade - Até para nós, as áreas de laboratório são restritas.

Saga levantou o rosto encarando o francês que o olhava expectante, apesar da quase impassividade no rosto.

- Oh? Está preocupado comigo? - perguntou num tom jocoso, esboçando um sorriso.

Camus manteve-se imperturbável, apesar da provocação. Claro que temia pela integridade física do companheiro, ainda mais considerando que aquelas exames eram feitos sem quaisquer amarras de consciência, o que podia levar às mais estranhas e desumanas experiências. E Saga estava ciente disso também.

- Não se preocupe… - a voz calma do grego voltou a soar na sala - se apanharmos o culpado a tempo, não chegarão a injectar-me nada de esquisitices no corpo. Apenas serei alvo de uns maus tratos do seu amigo Boris.

Camus suspirou exasperado com a piada.

- Andamos muito espirituosos… - comentou finalmente, dando de ombros - para todo o caso, teremos de conseguir fugir daqui com o Ikhor e o traidor com o maior dos secretismos. Alguma ideia?

Antes que pudesse responder, o grego percebeu o som de passos a aproximarem-se - improvise! - conseguiu murmurar enquanto o companheiro voltava à posição de guarda.

De repente, a porta abriu-se, e o comandante voltou a entrar na sala com expressão de poucos amigos. Ouviram-se ordens em russo, e um dos homens que o seguia arrancou Saga da cadeira e levou-o para outra sala.

- Ele disse alguma coisa? – perguntou a Camus, fazendo sinal para que este o seguisse.

- Niet, moy komandir*!

A sala onde tinham levado o grego era pequena, mas mais parecia um estúdio de identificação. O excesso de claridade, mesmo para ele que estava habituado àquele ambiente de luz branca, parecia afectar a todos. Viu de relance tirarem a corda que prendia as mãos de Saga, e postarem-no de frente para uma máquina fotográfica. O homem atrás da máquina foi dando algumas instruções que o grego apenas percebia pelos sinais, e foram disparadas algumas fotografias de vários ângulos. Tarefa terminada, seguiu-se o registo a tinta das impressões digitais num formulário.

A partir daquele momento, Saga tinha-se oficializado de cobaia 203-20-1.

E foi nesse estatuto que foi levado para o pequeno balneário contíguo àquela mesma sala.

- Tire as roupas! - ordenou o oficial rispidamente em inglês.

Camus deu por si a admirar o prisioneiro despindo-se devagar, até ficar completamente nu. Os músculos bem delineados contraíam-se, a pele de um ligeiro bronze e os pelos eriçavam-se por conta do frio. Saga era um perfeito exemplo de guerreiro, nunca poderia ter passado por mendigo durante muito tempo.

Viu um jacto de água morna caiu-lhe de cima, provavelmente mais para lhe aquecer o corpo do que o limpar. Apenas quando lhe foi estendido pijama branco que mais parecia saído de um hospital, é que Camus se permitiu desviar o olhar.

Tinha sido chamado de novo ao seu posto, e a partir dali sabia que o companheiro seria levado para as alas laboratoriais.

Era ali que os seus caminhos se separariam de novo, almejando objectivos diferentes.


Ilya Ivanovich Ivanov: foi um biólogo russo, especialista em inseminação artificial e hibridação interespecífica de animais. Esteve envolvido em tentativas controversas de criação de um homem-macaco. Como todas as controvérsias, surgiram algumas teorias da conspiração em como foi empregado pelo governo de Stalin de modo a criar um super soldado com base em experiências de hibridação de macacos com mulheres.