Perdida, enclausurada e desprezível;
Sou eu quem bate na sua porta;
Sou o amigo que te traz a vida...
Antes
Uma prisão. Era o aquele orfanato parecia, uma prisão. As paredes sujas da entrada não eram nem um pouco convidativas, ainda mais com o limo preso nos cantos da portaria.
Um arrepio subiu pela espinha da pequena garota. Seus cabelos da nuca se eriçaram ao ver o homem com a cara de morte, ele aparentava ser o porteiro daquele limbo(1), o carrasco. Outras duas meninas a acompanhava para dentro do recinto escabroso. Elas estavam mais medrosas que ela própria, ao menos por fora. Não podia negar o medo crescente no fundo do seu âmago.
O carrasco as mediu de cima abaixo e soltou uma risada, que mais parecia um ronco de um javali selvagem. O olhar dele era doentio com apenas um olho funcionando direito, o outro era branco, mas movia-se misteriosamente. A carranca que era o rosto do carrasco se pressionava ao falar com a voz de javali. Ele citou os nomes de cada uma das outras garotas medrosas, e quando chegou no nome da pequena ruiva, ele abriu mais aquele sorriso de Cheshire(2) e sibilou seu nome de uma forma amedrontadora.
Ele abriu os grandes portões de ferro enferrujados fazendo um enorme barulho. Lá dentro era pior que a portaria. Desprendiam cascas de tinta das paredes do enorme prédio. As janelas quase todas eram cheias de grades. Ervas daninhas brotavam por entre as rachaduras da calçada. Aquele lugar era horrível.
Os portões fecharam com o mesmo barulho de antes. A íris negra refletia a imagem do portão já fechado. Somente uma coisa lhe veio à cabeça naquele momento. Presa.
Um sentimento sombrio a percorreu. Estava presa naquele lugar como um pássaro na gaiola, um rato na ratoeira. O fato de estar trancafiada naquele lugar já era o suficiente pra deixá-la alerta e com medo do pior.
Alguém veio por trás e deu-lhe um empurrão brusco que quase caiu de encontro ao concreto imundo. Ela olhou para a pessoa que tinha lhe dando aquele impulso e viu uma mulher gorda e alta com um bigode, ela parecia com o homem javali, deveriam ser parentes ou algo assim. Tinham o mesmo porte e o mesmo sorriso de Cheshire.
"Vamos lá, meninas. Não tenho o dia todo." Ah, a voz de javali também era igual. Com certeza eram parentes, se duvidar, até mesmo irmãos.
A ruiva ultrapassou o térreo praticamente abandonado, nenhuma alma viva vagueava por ali, exceto por ela, a mulher javali e as outras duas garotas. Dali era possível notar várias portas e se olhasse para cima você veria o teto do prédio. A impressão que a pequena teve foi a de que o teto desabaria a qualquer hora sob suas cabeças.
Elas entraram dentro de um banheiro que não era de todo mal, não parecia tão sujo assim como as paredes da entrada.
"Tirem as roupas. Vamos revista-las pra ver se não tem alguma mancha ou algo que acuse doença. Depois irão tomar banho." A mulher javali gritou fazendo os ouvidos delas doerem. "Agora!" Mandou quando viu que nenhum havia começado a se despir.
A garotinha ruiva viu as outras fazerem o que lhe mandaram. Cada uma delas começaram a se despir temerosas. A blusa, depois a saia e por último a calcinha. Ficaram completamente nuas. Por que aquilo tudo? Se tivessem alguma doença ou mancha pra onde as mandariam? As jogariam no calabouço desse prédio horrendo?
Algo forte e quente bateu contra o rosto da ruiva. Foi a mulher javali, ela lhe deu um tapa no rosto que a fez bater contra a parede que as tinham colocado de frente. A ruiva sabia o porquê disso, ela não tinha tirado a roupa como as outras, não aceitara se submeter a tal acontecimento humilhante e constrangedor.
"Faça!" Ela mandou outra vez com mais brutalidade na voz.
Sua cabeça moveu-se mais uma vez para o lado com outro tapa de encontro com a sua face branca. A javali fêmea agarrou-a pelo braço direito bruscamente pronta para arremessa-la na parede, e então viu a marca, desenhada perfeitamente no ombro dela. A marca queimava na pele, deixando o corpo inteiro da pequena infanta febril.
Os olhos da pequena estavam cheios de lágrimas prontas para desabarem em um rio de lágrimas assim que a mulher javali a arremessasse contra o concreto da parede do banheiro. Seu rosto só demonstrava surpresa quando ela não fez, os olhos de morcego estavam vidrados em seu braço onde quase tinha esmagado a alguns minutos atrás.
"Nabu, volte aqui!" O homem javali veio correndo com o chamado da sua suposta irmã. "Coloque-a junto com os outros." Mandou ainda petrificada com a marca no membro superior direito da ruiva. "Ela tem uma marca." Apontou para o lugar perto de onde segurava – esmagava – antes.
Javali macho mirou a marca no braço da pequena. Ele não tinha visto aquela marca ali quando a encaminhou para dentro do orfanato. Como aquilo tinha aparecido?
"Desde quando tem essa marca, garota?"
Marca?, pensou sem ainda entender o que acontecia. As outras meninas a olhavam como se ela fosse um animal, seus rostos demonstravam aversão. Por que a estavam olhando assim? Que marca era essa de que tanto falavam?
"Vamos, responda!" Ordenou outra vez.
"Não sei do que está falando." Sua voz saíra impetuosa como sempre.
Nabu mostrou-lhe uma carranca feia. Foi até ela e agarrou-a no mesmo lugar que a javali fêmea. Ele rodou seu braço como se fosse o braço de uma boneca. E sem falar mais nada a colocou em seu ombro como se fosse um saco de batatas e saiu pela porta desaparecendo por outra. Ele desceu lances de escada mal iluminadas. Ratos nos cantos das paredes a olhavam com um olhar esquisito, como se tivessem pena dela.
"A marca do diabo." Algo sussurrou-lhe em seu ouvido antes dela adormecer.
Quando acordou estava em uma sala sem luz do sol, apenas com umas lâmpadas que pendiam do teto, se ficasse em pé ou esticasse na ponta dos dedos, tocaria o objeto quente.
"Pessoal, ela acordou!" Uma voz masculina tocou-lhe os tímpanos. Alguém a ajudou levantar do chão frio. Sua cabeça rodou, e uma água amarelada escorreu por sua boca. Era vômito. Estava doente?
"Deixe-a, Jellal. Não vê que ela é uma desgraçada igual a nós?" Uma outra voz feminina falava ao fundo.
Vários sussurros percorreram no local fechado. Um cheiro de bolor encheu suas narinas fazendo-a ter mais vontade de colocar tudo que tinha em seu estômago já seco pra fora. Vomitou mais uma vez, e outra, até não ter mais nada para vomitar, até seu estômago doer.
"Pare de falar asneiras, Cal, e vá buscar água." A ruiva ouviu passos duros colidirem contra o chão. "Não fique com medo, Cal fala demais."
Ela levantou o rosto para ver quem a defendia da outra garota e a sustentava para que não desabasse no chão. Seus olhos arregalaram-se. Era um garoto de cabelos azuis e olhos negros, iguais aos seus. Ele lhe sorria. Um sorriso quente, confortável e confiante.
"Qual seu nome?" Perguntou com aquele grande sorriso.
Mas a ruiva não conseguiu falar, não sabia por que. Talvez seja pela falta de energia em seu corpo. Talvez seja pelo seu estômago que expelira todo o líquido que continha nele e levara suas palavras junto. Talvez seja por ter um garoto lhe dando tanta atenção quanto alguém já dera.
Jellal ficou esperando a resposta da ruiva, mas ela não respondeu. Parecia muito cansada e sem forças. Qualquer coisa que quisesse saber depois a perguntaria, quando ela estivesse recuperada. Afinal teriam muito tempo pra se conhecerem.
Cal trouxera a água, estava quente, mas mesmo assim a ruiva bebera. Jellal a estudou, era uma linda garota. Ele tocou em uma mecha do cabelo escarlate.
"A cor do seu cabelo... É linda."
o.O.o.O.o.O.o.O
Agora
Algo quente tocava a sua pele. O cheiro de grama molhada lhe trazia um enorme conforto, adorava esse cheiro. Com os olhos semicerrados vislumbrou a noite e enfeitando ela, um garoto estava deitado ao seu lado na grama. Ele tinhas os cabelos pretos azulados como a noite. Nada cobria-lhe o torso. Uma tatuagem da cor de seus cabelos figurava o peito talhado.
Algo quente tocava sua pele. O rosto dele demonstrava serenidade. Será que ele estava dormindo? Não. Ele abriu os olhos para que visse o quanto acordado estava, e que velava seu sono durante toda o dia e um pouco da noite. Ele estivera lhe protegendo, embora não precisasse.
Algo quente tocava a sua pele. Os orbes negros lhe eram familiar, sim, pareciam com os dele. O garoto lhe sorriu, um pequeno sorriso. Um calor vindo de dentro de seu peito percorreu sua face. Isso queria dizer que estava corada. Sempre ficava assim toda vez ele sorria.
Algo quente tocava a sua pele. Seus olhos se prenderam a algo. A mão dele estava sobre a sua.
Algo quente tocava a sua pele. Ele a tocava. Tocava sua mão.
"Gray..." Ela sussurrou um pouco rouca.
"Não quero que tenha mais pesadelos, Erza, me assusta." E assim ele fechou os olhos e sua respiração tornou-se suave como o ar que tocava o rosto de Erza.
Agora toda vez que algo quente tocar sua pele, saberá que é Gray.
o.O.o.O.o.O.o.O
