Não consigo esquecê-lo; (Ezra)

Me aprisionarei a ti para todo o sempre; (Jellal)

Libertarei a ti e tua alma desses devaneios. (Gray)

A caricatura de seu rosto iluminou a luz que emanava da Lua. Ela a banhava com um brilho azul esbranquiçado como um manto. Um manto pra cobrir suas lágrimas negras marcadas de mágoas e sentimentos obscuros.

Entre suas mãos apertava o peito que doía, doía e doía, como um ferimento que nunca se cicatrizaria, sempre ficaria marcado por uma cicatriz que uma vez ou outra interromperia o seu sossego com fortes palpitações na carne destroçada. Da mesma forma que sempre acontecia, como agora, que a forte angústia a acometia.

"Isso é real o bastante para você?

Você estava tão confuso
Agora que você decidiu ficar
Nós permaneceremos juntos

Você não pode me abandonar
Você me pertence"

Seu cabelo escarlate caía por sobre seus ombros misturando-se com o lindo enevoar da noite, que embora em meio a floresta, aparentava calma e envolvente, cobrindo seu corpo bem como a proteção de um amigo. Era até gostosa de sentir na pele, assim como Gray. Ele havia velado o seu sono por um bom tempo, porém depois daquilo não conseguiu mais adormecer. Esperou que ele cair no sono e saiu pela mata espessa que os rodeava.

Sua mente viajara o resto da madrugada pelas lembranças do passado, do tempo da Torre Celestial, Etherion e Nirvana.

― Jellal ― O nome foi engolido pela vento, quase inaudível. Seu coração a castigava. Não queria mais lembrar dele, tinha que esquecê-lo.

Havia dois meses que ele tinha sido preso pelo Conselho, talvez até fosse condenado à morte. Mas era impossível de esquecê-lo, não podia esquecê-lo. Era como se ele fizesse parte do seu ser, não sabia, talvez algo dele permanecia cravado em sua pele. Não entendia o quê, só era impossível de fazê-lo.

― Erza... ― Um calafrio a percorreu juntamente com a voz. Um timbre tão conhecido. Seria ele? Seria Jellal?

Ficou esperando que ele aparecesse, que se juntasse a sua noite triste e a fizesse feliz dizendo que nunca mais a deixaria, que a partir desse momento seriam apenas os dois, se amando como deveria ter sido. Deveria... Se ele não tivesse ficado sob o controle do espírito de Zeref e se empertigado para o mal tendo se voltado contra a própria Titania e seus amigos.

"Suspire e incorpore a minha vida à você
Não mais restando eu, apenas você
Não há como escapar de mim, meu amor
Renda-se

Querido, não há sentido em fugir
Você sabe que eu o acharei
Tudo está perfeito agora
Nós podemos viver para sempre"

O calafrio se fora e o que ficou foi apenas o som doce da voz de Jellal, seu eterno amor, pairando sobre seus ouvidos como um zumbido. Talvez não fosse ele, talvez fosse apenas sua imaginação, ou então... Argh! A quem estava querendo enganar? Inevitavelmente não tinha outra explicação. Por mais que tentasse o odiar ou o esquecer seria o maior fracasso. Jellal querendo ou não fazia parte de si. E ela tinha passado a amar essa hipótese. E como amava.

Suas lágrimas cessaram. Era tão esquisito voltar a chorar dos dois olhos, e tudo era culpa dele. Tudo se devia a maldita ambição de Jellal, mas ele esquecera de tudo, merecia redenção, não merecia? Mas ela também já tinha o perdoado.

― Ah, sempre tão confusa, Erza. ― A mesma voz de antes, a que era igual a de Jellal.

Seu olhar voltou-se pra cima, para a lua. E então o viu, viu o dono de toda a sua dor e confusão debruçado sobre uma árvore, olhando-a com aqueles olhos.

― Jellal... ― Estava tão assustada que sua voz falhou. ― O que faz aqui?

Lutando entre a razão e o coração, sua mente encontrava-se inteiramente dividida. Queria correr pra os braços do homem que tanto amara e finalmente declarar que o amava. Mas por outro lado, se ele estava aqui significava que tinha fugido da prisão do Conselho, e além de um criminoso agora era um fugitivo. O que deveria fazer? Não sabia...

"Você não pode me abandonar
Você me pertence

Suspire e incorpore a minha vida à você
Não mais restando eu, apenas você
Não há como escapar de mim, meu amor
Renda-se"

Inútil tentar lutar contra duas Erzas internas que nunca sabiam o que queriam. Entretanto, a quem seguir? A Erza que se deixava levar pelas emoções, ou a Erza que sabia o certo, e que deveria impedi-lo agora mesmo, antes que ele faça mal a alguém? Escolha difícil, mas nunca foi uma mulher que se deixava sucumbir por sentimentos do coração. A escolha era clara, seria a razão. Contudo, Jellal perdeu a memória, provavelmente ele não queria machucar ninguém. Se ele não a havia machucado antes, porquê faria uma coisa dessas agora? E ela a amava... Escolheria o coração?

― Eu te amo, Erza. ― Declarou com os abraços abertos, esperando que a maga da Fairy Tail se comovesse com a afirmação de seus sentimentos serem absolutos iguais aos dela.

Mas nada Erza fez além de arregalar os olhos. Poderia acreditar que realmente ele a amava e que era o verdadeiro Jellal que estava falando isso? Não a importava a resposta, Jellal afirmou o seu amor e só isso a importava, não era?

"Mãos devagar para o alto
Entregue-se

Suspire e incorpore a minha vida à você
Não mais restando eu, apenas você
Não há como escapar de mim, meu amor"

Sua cabeça começou a doer. Uma dor tão forte e latente que assemelhava que iria explodir. Seu coração também latejou, latejou, e sentiu que iria sangrar a qualquer momento. O ar ficou denso, e sua respiração falhou. Não podia fazer nada, estava desprotegida, sem sua habitual armadura. Sentia-se tão fraca, tão vulnerável.

― Segure minha mão, Erza, e prometo que essa angústia acabará.

Ele ainda estava de braços abertos, como uma mão estendia para ela. Seria certo confiar em Jellal? No fundo de seu coração a resposta era inconfundível, e sabia que a resposta era...

- Sim.

Jellal sorriu minimamente e estendeu mais a mão em direção a dela que voava lentamente para segurar a sua. Erza seria dele, se juntariam agora para se torna algo mais profundo e forte. Seriam um só.

"Renda-se, renda-se
Renda-se, renda-se

Você se renderá a mim
Não há como escapar de mim
Eu sei que você quer que isso aconteça
Você deve se render a mim"

(Surrender - Evanescence)

A poucos centímetros de distância de suas mãos se tocarem, lanças de gelo interromperam o ar, separando-os.

Erza sentia-se sem forças, como se sua magia houvesse sido drenada pouco a pouco sem perceber. Ela caiu perto do lago onde Jellal estava e adormeceu com a visão de seu amado desaparecendo e outro entrando em seu campo visual onde jazia a fumaça que um dia fora Jellal.

- Cinza ...

Ele a segurou delicadamente e a pousou em suas costas. O Fullbuster olhou em todas as direções procurando algo, mas não encontrou. Segurou mais firme as pernas de Erza em sua cintura e pôs-se a caminhar, pois jazia ciente que aquela mata não era segura para os sentimentos negros que ambos possuíam.

Apreciou o rosto de Erza pousado em seu ombro pelo canto dos olhos, apenas certificando-se que ela respirava perfeitamente.

Erza.

Agradeceu aos céus por chegar a tempo de encontrar Erza antes que ela fizesse uma besteira. Não sabia se seria capaz de se perdoar se algo tivesse acontecido a ela. Seria sua desgraça. Sua total desgraça.