Capítulo V ~ Alta

Já havia se passado um mês que estavam naquele hospital. Sam já era conhecido por quase todos os funcionários do lugar e até mesmo alguns pacientes. Não havia deixado mais aquele lugar desde um dia em que precisou ir pegar as roupas e armas que estavam no hotel em que se hospedaram na cidade. Havia saído enquanto Dean dormia, e quando voltou, este estava chorando e se balançando no chão do quarto, abraçado com o travesseiro. O mais novo levou uma hora inteira para acalmá-lo, fazê-lo parar de chorar e convencê-lo de que nunca o abandonaria ali. Só conseguiu porque uma das enfermeiras, a Olivia, foi pegar um cachorrinho de pelúcia na ala de pediatria para tentar animar o outro. Costumava funcionar com crianças, deveria funcionar com o loiro. E funcionou. Mas desde então, ele nunca mais abandonou aquele bicho de pelúcia, fazendo o mais novo ter que pagar um outro bicho de pelúcia para o hospital.

Sam demorou para se acostumar com as novas condições do irmão. Depois daquela ressonância que o doutor Josh fizera, foi diagnosticado que Dean havia tido realmente algumas sequelas de um pequeno dano no cérebro graças às pancadas que levara. O doutor disse que esse pequeno dano, levou o mais velho à uma regressão de idade mental. Disse que não importa quantos anos ele tenha. Ele sempre terá menos de oito anos em sua mente. Não conseguiram definir uma idade exata, mas era definitivo. Sem contar com a perda de memória. O mais velho não se lembrava de muita coisa da sua vida. Isso deixava Sam um tanto feliz. Já que ele não carregaria mais arrependimentos, culpa ou responsabilidades maiores do que cuidar de um cachorro de pelúcia ou brincar com os cabelos longos do irmão mais novo. Mas quando o mais jovem se acostumou, tudo pareceu mais fácil. Achava que finalmente, teriam uma vida juntos. Não juntos como desejava, mas poder acariciá-lo, beijá-lo, brincar com ele e dormir na mesma cama, sem ser repelido, já era algo gratificante.

- Mano - Ouviu uma voz grossa chamar de longe. - Acorda, mano.

Sentiu algo macio passar por seu rosto. Abriu um dos olhos preguiçosamente e viu o mais velho de frente para a poltrona em que estava, passando a pata daquele já conhecido animalzinho de pelúcia, em seu rosto.

- O que foi, Dean?

- Abriu o outro olho e se espreguiçou, logo puxando o outro para seu colo, fazendo-o se desequilibrar e cair sentado sobre suas pernas, rindo um pouco alto em resposta às cócegas que começara a fazer.

- Aaah! Isso não vale, sabia?

Disse o mais velho, enquanto ria e tentava se esquivar das cócegas.

- Grrrr!

O mais novo Imitou um rosnar e parou as cócegas, beijando carinhosamente o rosto do outro. Olhou o relógio do hospital, preso em uma parede à sua frente, e viu que eram duas da tarde. Já haviam almoçado fazia um tempo e imaginou que Dean quisesse algo.

- Por que me chamou? Está precisando de algo? Está com fome?

Perguntou, enquanto passava o dedo indicador em cima de uma cicatriz razoavelmente pequena que ficara na testa do irmão.

- Não! A Liv me deu uns biscoitinhos ainda pouco.

- Fez uma caretinha enquanto contava. Deitou a cabeça para trás e riu baixinho. - O médico veio enquanto você dormia também. Ele disse que meus últimos echa, exa... mes...

Não sabia porque tinha dificuldades com essa palavra, mas tentou mais uma vez.

- É, exames. Ele disse que estão normais e que logo eu vou poder ir embora!

Riu baixinho, levantando-se do colo do mais novo. Abraçou seu mascote de pelúcia contra o peito e Sam notou, que seus olhos brilhavam. O moreno se levantou da poltrona e caminhou até o outro, abraçando-o carinhosamente.

- Que bom, Dean! Fico tão feliz em ouvir isso!

Disse num tom baixo, enquanto acariciava-lhe os cabelos curtos e se afastou.

- Quando exatamente, poderemos ir embora, o médico falou?

Perguntou Sam, curioso, louco para sair daquele lugar. Fazia um tempo que havia juntado dinheiro em uma poupança para comprar uma casa. Uma casa fixa. Um lugar para morar, um lar. Pretendia pedir a Dean para viver com ele. Claro, quando resolvesse contar. E estava programando para aquela noite. A noite quando tudo começou. Claro que, havia pensado na possibilidade do outro o rejeitar e sentir nojo dele. Neste caso, iria morar só, já que não conseguiria mais se aproximar do mais velho sem se sentir mal. Para falar a verdade, o moreno já havia comprado a casa, alguns meses antes, já que havia programado tudo a muito tempo. Era uma casinha simples de dois quartos, cozinha, banheiro, área de serviço, e claro, tinha uma garagem. Havia pensado até no Impala. Tinha vergonha apenas por pensar nisso, mas não achava que era algo ruim, ser sonhador. Já tinha mobilhado e decorado. Estava pronta para que colocasse seu plano em ação. Então aconteceu. E a casa teve de esperar.

Mas o tempo de espera daquela casinha na pequena cidade de Rockland, no Maine, havia acabado. Sam foi procurar o doutor, já que Dean não sabia responder sua pergunta de quando poderiam ir embora. Assim que o encontrou, este disse que poderiam ir no dia seguinte. O jovem ficou tão feliz por ouvir aquilo que abraçou Josh enquanto ria, expressando sua mais pura felicidade. O médico ria junto, um tanto sem graça, ao mesmo tempo que algumas pessoas passavam e olhavam, mas mesmo assim, não deixou de retribuir o abraço.