Capítulo VII ~ Dores, desculpas e perdão.

Aquela noite tinha sido diferente. Triste, assustadora e ao mesmo tempo... Perfeita! Depois do fim daquela dor insistente, graças a grande ajuda do remédio, Dean dormiu ali mesmo no sofá e Sam teve de carregá-lo até seu quarto. Mas assim que o mais velho fora posto na cama, acordou de sobressalto, amedrontado. Viu o outro ali e segurou-lhe o pulso, impedindo-o de ir embora, pedindo para que dormisse ali aquela noite. Ver o irmão assustado daquela forma, deixava o coração do moreno em pedaços e acabou cedendo, acatando o pedido do outro e dormindo ali aquela noite, abraçado junto à ele.

Na manhã seguinte, o jovem acordou cedo. A cabeça do outro estava deitada sobre um de seus braços e seu cabelo roçava em sua pele, causando uma certa coceira. Mas mesmo assim, aquilo não deixava de ser bom. Sorriu sozinho e levantou da cama com o maior cuidado, apoiando a cabeça do irmão em seu travesseiro, com medo de acordá-lo, deixando um beijo carinhoso em sua têmpora. Saiu do quarto e espreguiçou-se, logo indo na direção da cozinha, para preparar o café da manhã. Torradas feitas na hora com achocolatado bem gelado para o mais velho e café, também com torradas para ele. Terminou de preparar tudo e nem precisou chamar o outro. Ele já havia se levantado e olhava o moreno, com um olhar que expressava uma curiosidade extremamente infantil, escondido atrás da porta da cozinha. O jovem já o tinha visto ali e sorriu para ele, recebendo um sorriso tímido em resposta. O loiro foi na direção da mesa e sentou-se em uma cadeira, balançando as pernas, enquanto seu achocolatado e torradas eram postos à sua frente pelo mais novo.

E assim correu o dia. Calmo, normal, sem mais dores de cabeça. Pelo menos até o momento em que Sam levou Dean até aquela mesma lanchonete. Foi lá com a intenção de almoçar com o outro e também de perguntar às garçonetes o que havia acontecido na noite anterior. O loiro relutou um pouco, mas acabou indo, desta vez, abraçado com seu mascote de pelúcia. Parte do acordo que fizera com Sam para ir até aquele lugar de novo. A outra parte do acordo, era de não ficar sozinho de novo. O moreno ainda não entendia por que ele não gostava de ficar só, mas acatou suas condições.

Chegando lá, o mais velho sentou-se no mesmo lugar do outro dia. Na última mesa do canto, ao lado de seu irmão. Era o lugar mais reservado e também vazio da lanchonete. O jovem pediu o prato do dia: arroz, feijão e lasanha quatro queijos. Dean adorou. Colocou seu mascote no colo, como se o protegesse e comeu tudo. Assim que o moreno terminou de comer, vendo que seu irmão já havia terminado alguns minutos antes, pediu um sunday de chocolate com castanhas para ele, como sobremesa. Levantou-se dali, prometendo ao loiro de que não sairia do alcance de sua visão e foi conversar com as garçonetes, deixando o irmão ali, sentado apenas com seu mascote no colo e sorvete na mesa. Ficou de costas para o loiro e de frente para o balcão, enquanto perguntava à moça ali presente, o que acontecera na noite anterior. Ficou sabendo que aqueles homens haviam ido para o hospital com hemorragia interna, graças à golpes desferidos em pontos sensíveis do corpo, mas que não haviam morrido. Sam franziu a testa. Não foi Dean quem fez aquilo. Ele havia pensado nessa hipótese. Na verdade, pensou nela até finalmente ser vencido pelo sono. Tinha esperanças de que o irmão ainda estivesse ''vivo'' ali dentro daquela mente infantil. Mas as perdeu naquele momento. Pelo menos grande parte delas. Ele não conhecia aqueles tipos de golpes. Assim que a garçonete fez menção em tocar no assunto de quem fizera aquilo, Dean voltou a sentir dores de cabeça. A moça se distraiu, olhando o loiro e o viu olhar de volta, em seus olhos. Tinha um olhar ameaçador e debochado ao mesmo tempo que colocava o dedo indicador à frente dos próprios lábios, ordenando silêncio. A moça congelou e quando Sam olhou para o mais velho, o viu comendo seu sunday, com a mão em sua têmpora. Provavelmente estava sentindo aquela dor de novo. O jovem não entendeu. A moça desconversou e disse não saber de nada. O moreno apenas aceitou a resposta e voltou para sua mesa, desconfiado.

- Se não foi Dean que fez aquilo... Então quem foi? - Pensou. – Mano, Estou com dor de cabeça.

O loiro disse, terminando seu sorvete, chamando ao mesmo tempo, a atenção do moreno de volta à realidade.

- Tudo bem, Dean, eu trouxe seu remédio.

Sam respondeu, num tom paciente, ao mesmo tempo que sorria ao irmão e pegava em sua mão carinhosamente, recebendo um sorriso quase que infantil como resposta.

- Vou pedir um pouco de água pra você, e já volto, ok?

Disse o maior num tom carinhoso, enquanto levantava-se da cadeira, indo pedir um copo de água à moça presente atrás daquele balcão comprido da lanchonete. Ela lhe deu o copo e ele agradeceu sorrindo, levando o mesmo até a mesa do irmão. Tirou uma cápsula branca do bolso de seu jeans e entregou o remédio ao loiro, observando-o tomar o mesmo com certa dificuldade. Sam devolveu o copo à garçonete, com um agradecimento e estendeu a mão para o mais velho, chamando-o para irem para casa. O mais novo não sabia cozinhar e sabia que o outro também não poderia. Comiam algumas vezes ali naquela lanchonete, outras vezes pediam pizza. Dean havia perdido a primeira impressão do estabelecimento e agora até gostava de ir lá, sempre pedindo um sunday de chocolate. Sam achava que ele estava começando a ficar viciado naquele sorvete, mas nunca conseguia negar os pedidos do irmão. Mesmo porque, ele nunca negara seus pedidos enquanto crescia. Também não podia trabalhar e muito menos deixar o mais velho sozinho. Ele iria surtar. Até pensou em chamar a enfermeira Olivia, para ajudar, mas imaginou que ela cobrasse caro. Então continuou usando cartões falsos e o dinheiro que tinham até encontrar uma resolução para aquele problema. E assim se passaram os dias e as semanas. Chegando numa contagem final de seis meses.

Frequentavam aquela lanchonete praticamente todo os dias, no mínimo, uma vez por semana. Viraram clientes dali e conheceram até alguns de seus vizinhos. Um dia, enquanto voltavam para casa à noite, aqueles homens, os que o mais velho havia deixado desacordados outro dia na lanchonete, os cercaram na rua. Dean segurou a mão do mais novo e quis estar com seu cãozinho nos braços para apertá-lo naquele momento, mas no dia anterior, ele havia ido para a lavanderia e o loiro só poderia vê-lo de novo na próxima semana. Sam olhou os três homens mais dois, junto á eles, enquanto formavam um círculo em volta dos irmãos.

- Mano, eu estou com medo! - O mais velho sussurrou, enquanto apertava a mão do outro. - Está tudo bem, Dean! Tudo bem! Sam respondeu num tom calmo. Na verdade, também estava com medo. Mas não poderia demonstrar aquilo ao outro. Tinha que ser forte. Tinha que ser o irmão mais velho. Tinha que ser mais ''Dean''.

- O que está acontecendo, cara? Por que está cercando a gente assim? Ninguém te fez nada. Deixa a gente em paz!

O mais novo disse num tom confiante, enquanto soltava a mão do irmão e o passava para trás de seu corpo, protegendo-o do homem que se aproximava pela frente. O homem riu.

- Nosso assunto não é com você. É com esse retardado, filho da puta. Ele mandou a gente pro hospital e agora ele vai direto é pro cemitério. Fica longe, moleque!

Disse o homem enquanto se aproximava e Sam deu alguns passos para trás, sempre protegendo o loiro.

– Parece que o único retardado aqui é você. E se você encostar em um fio de cabelo do meu irmão, você...

O moreno parou de falar e virou-se para trás, assim que sentiu o irmão soltar seus braços. O mais velho estava de quatro no chão e gemia sem parar. Sua cabeça estava doendo. Mais do que em todas as vezes que já doeu. Era dez vezes pior do que qualquer dor que sentira antes.

- Mano...

O mais novo abaixou-se, esquecendo dos cinco homens que os cercavam. Segurou em um dos braços do mais velho e o olhou preocupado.

- Dean! Dean! Você está bem? Vou te levar pra casa, está bom? Vou cuidar de você. Aguenta!

Sam dizia, com sua respiração entrecortada. Segurou um dos braços do irmão e o levantou sem muita dificuldade do chão. O loiro se segurou nele com toda a força que tinha, mas nunca parecia suficiente para se manter em pé. Mesmo assim tentou e conseguiu, com muito custo, ficar de pé ao lado do irmão. Sua dor não passava e sua cabeça latejava cada vez mais forte. O mais velho lutava com todas as suas forças contra aquilo, mas parecia piorar à proporção de quanto lutava. Os homens não fizeram nada, apenas olhavam com um sorriso debochado.

- Não pensa que vai escapar tão fácil assim, retardado!

O homem grande, o que parecia ser o líder daquele grupo de homens fortes, disse num tom alto e confiante para Dean enquanto Sam o carregava na direção de casa. O mais velho estacou. O moreno parou junto com ele e o fitou, sem entender muito, mas preocupado que ele tivesse piorado. O loiro olhou para trás e fitou aquele homem nos olhos. Seus olhos estavam brancos. Mas nem por isso menos demoníacos do que os olhos negros ''convencionais''. Ao contrário do que podia parecer, seus olhos eram diferentes, óbvio, mas transpareciam poder. Não só isso. Aquele olhar provocava respeito. Medo. Obediência. Olhou aquele homem por alguns segundos e logo seus olhos voltaram ao normal. O homem não disse nada. Não fez nada. Ficou parado onde estava, com uma expressão amedrontada no rosto. Sam não viu. Apenas tinha olhado o irmão nesse meio tempo. Não viu nem seus olhos, porque ele estava de costas. Não entendeu aquela parada e sem tocar no assunto, o levou para casa. Caminharam por mais uns cinco minutos até chegarem em sua casinha azul. O jovem abriu a porta, ainda carregando o irmão e entrou, deixando a porta como estava, levando-o para se sentar no sofá. Voltou em passos rápidos até a porta e a fechou, trancando-a. Rumou para a cozinha e pegou uma drágea do remédio para dor de cabeça que sempre dava a Dean. Pegou um copo de água gelada e levou até o irmão. Sentou-se ao seu lado no sofá e o viu tomar o remédio. Colocou o copo com um resto de água em cima da mesa de centro e acomodou-se no sofá.

- Vem, deita aqui, Dean!

Disse baixinho, enquanto passava as mãos pelas próprias coxas. O mais velho sorriu e deitou-se devagar no sofá. Estava um pouco tonto pela dor de cabeça e achou que tinha apagado durante o caminho, mas decidiu não tocar no assunto. Deitou a cabeça em cima das pernas do irmão e aconchegou-se ali. Suspirou preguiçosamente e sorriu para ele mesmo, adorando estar daquele jeito com seu mano.

- Sam...

O mais velho chamou. O tom de sua voz era pesado, como se ele sentisse culpado. E se sentia, na verdade. O moreno acariciou-lhe os cabelos curtos e sussurrou em resposta:

- Sim, querido...

Dean suspirou e começou a desabafar, sem mais delongas.

- Eu sei que sou um retardado. Desculpe-me por estar sendo um peso pra você, Sam. Eu nunca te contei, mas existem noites em que eu fico um pouco acordado antes de dormir e eu me lembro de como eu era. Eu não me esqueci de tudo, Sam. Eu me lembro... E... Eu sempre cuidei de você... Hoje nem pra isso sirvo mais. Eu me sinto... Eu me sinto um inútil, sabe?

O mais velho disse em voz baixa, naquele mesmo tom pesado. A cada palavra que o mais novo ouvia, seu coração doía mais.

-[i] Dean, por favor, não diga isso! - disse baixinho, acariciando a cabeça do irmão.

- Não, por favor, me deixa continuar...

O mais velho insistiu e Sam se calou, preparando seu coração.

- Eu era um homem, Sam. Eu não era um garotinho de oito anos. Eu conseguia me defender e te defender. Hoje eu só consigo chorar.

Agora, algumas lágrimas desciam pelo seu rosto, enquanto dizia isso. Sam sentia sua calça jeans umedecer um pouco, mas não se importou e manteve as carícias nos cabelos curtos do irmão.

- Perdoe-me, Sam... Perdoe-me por não ser mais como antes, por não poder ser mais um irmão, um guardião e muito menos o homem que você queria que eu fosse. Eu já ouvi você chorando, antes de dormir. Eu ouvi você conversando com o travesseiro e não te culpo. Eu também ouvi você sussurrar que me ama, que queria que fossemos como um casal, mas tudo o que você pode ser é minha babá. Além do mais, ouvi você dizer que não aguenta... E... Eu também não te culpo por isso. - Sam puxou o irmão pelo ombro para olhá-lo nos olhos:

- Eu estava errado quando disse aquelas coisas. Você sempre foi a minha babá. Sempre. Então eu posso retribuir o favor, não acha? Dean, eu te amo! Se eu não cuidasse de você, só porque não podemos ser um casal, eu seria um monstro, um egoísta. E isso, eu não sou. Não me importo se somos ou não um casal ou irmãos ou babá um do outro. Eu não ligo pra isso porque só me importo com os sentimentos. Eu te amo e você me ama e não me repele quando eu quero ficar perto. Isso é o mais importante pra mim, você me deixar cuidar de você, você me deixar te demonstrar o meu amor.

O mais novo respondeu, arrependido de um dia ter dito aquelas coisas horríveis, mesmo que pra um travesseiro. Dean sorriu e olhou nos olhos do irmão.

- Eu te amo, Sam!

Sussurrou baixinho. Sam assentiu com a cabeça e respondeu, também em voz baixa:

- Também te amo... E pare de pensar nessas coisas, viu?

Fez um cafuné nos cabelos loiros do outro, provocando-lhe um risinho baixo. Este se sentou no sofá. Suas dores já haviam melhorado bastante e conseguia ficar sentado sem problemas, agora. O moreno o fitava com um sorriso e Dean colocou uma de suas mãos no rosto do outro, acariciando-o gentilmente. Delicadamente. O moreno fechou os olhos e pendeu a cabeça para o lado em que seu rosto era acariciado. Suspirou e sorriu feliz por receber aquele carinho. Então o mais velho se aproximou e o beijou carinhosamente nos lábios. O moreno retribuiu e logo o beijo ficou mais calmo, involuntário, simples e apaixonado ao mesmo tempo que era guiado apenas pelo instinto dos dois. As dores passaram. A consciência de Dean não mais o incomodava com aqueles pensamentos de culpa e os irmãos dormiram na mesma cama naquela noite. Não fizeram sexo. Apenas se acariciaram e se beijavam vez e outra, até o momento em que dormiram.

Continua...