Quinto Ano

Eu me sentei debruçada em um armário de vassouras, respirando levemente com meus olhos apertados. Eu não estava mais chorando - isso tinha parado há mais ou menos uma hora - e agora havia apena uma sensação de vazio dentro de mim. Eu estava tremendo.

Eu nem tinha certeza por quanto tempo estava aqui; eu tinha explodido com Potter cerca de três horas atrás, chorado por causa de Severus logo em seguida, fui para meu dormitório, atirei minhas coisas contra a parede e decidi que era muita coisa para mim e vim até aqui.

Por que eu escolhi um armário de vassouras estava além de mim. Talvez porque eu sabia que ninguém iria me procurar aqui, ou talvez porque era quieto e isolado e então não precisaria falar com ninguém.

Eu abracei meus joelhos com mais força e tentei não reviver tudo novamente. Severus tinha me chamado daquilo. Aquela pequena palavra que significava tão pouco e tanto vindo dele. Eu deveria saber que isso iria acontecer, na verdade, o fato que o preconceito que eu sempre soube que estava construído em sua cabeça iria me atingir um dia. E Potter não ajudou em nada - arrepiando seu cabelo, brincando com seu pomo e parecendo tão malditamente atraente me convidando para sair, mas enquanto isso agindo como um grande idiota.

Não importava. Nada disso importava. Eu estava sozinha, sem amigos e soluçando em um armário de vassouras, uma mistura de raiva e tristeza corroendo meu estômago e lágrimas saltando de meus olhos.

A porta se abriu e ninguém mais nem menos que o próprio Potter entrou, enfiando um pedaço de pergaminho em seu bolso e indo em minha direção.

"Se você veio fazer gracinhas," comecei com a voz trêmula. "Você pode sair daqui agora mesmo, porque eu não estou com humor para isso."

Para minha surpresa, ele se sentou em minha frente. Eu ergui minha cabeça lentamente de meu colo, limpando rapidamente meus olhos com a manga de minhas vestes.

"Eu só vim aqui para me desculpar," disse ele com a voz baixa, me oferecendo um pacote de lenços. Eu hesitei e então aceitei, assoando meu nariz em um deles.

Atração, seu nome é Lily Evans.

"Pelo que?" perguntei. "Você não me chamou se sangue-ruim, chamou?"

Seus olhos se escureceram. "Não, mas eu fui um babaca. Eu não deveria ter feito aqui com o Ranh... quero dizer, Snape, e eu não deveria ter te convidado para sair. Foi rude e desnecessário e eu sinto muito."

"Pedir desculpas não irá deixar as coisas melhores," respondi olhando em seus olhos.

"Não, não irá," ele concordou. "Mas é sempre um bom jeito de começar."

Eu assenti lentamente e observei suas mãos se moverem nervosamente. Eu podia dizer que ele estava se segurando para não correr sua mão pelo seu cabelo, e sua hesitação me fez franzir as sobrancelhas.

Ele quebrou o silêncio. "Eu queria que ele não tivesse dito aquilo."

"O que, Snape?"

"É."

"Ah, bem," disse dobrando meu pescoço, "era meio que inevitável, no fim das contas."

Ele ergueu uma sobrancelha e eu continuei. Minha admissão, de certo modo, não era apenas para ele, mas para mim mesma. "Ele sai com as pessoas erradas. Com os sonserinos das Artes das Trevas - Mulciber, Avery e afins. Eu ouvi ele chamar outras pessoas de sangue-ruim, também, sempre pelas minhas costas, fingindo que nada aconteceu. Eu acho que era apenas questão de tempo até que ele começasse a pensar como eles e então me chamasse da mesma coisa."

Ele suspirou. "Mesmo assim. Eu me senti horrível sabendo que eu tive uma parcela de culpa nisso."

Eu sacudi minha cabeça. "Não foi sua culpa. Mas e culpa sua que você seja tão imbecil."

Seus lábios se curvaram para cima, "Um cafajeste, tirano e arrogante? Pior do que a lula gigante?"

Eu corei, "Todas essas palavras, é."

Nós ficamos em silêncio por um momento, até Potter pergunta. "Você vai perdoá-lo?"

Eu considerei suas palavras. Seria mais fácil perdoar e esquecer. Mas eu já tinha dado a Severus cento e uma segundas chances. Não valia a pena. "Não," suspirei. "Acho que estou melhor sem ele e ele sem mim."

"Certo."

"Não precisa soar tão agradecido, Potter," brinquei, e ele soltou uma pequena risada.

"Eu não acho que ele esteja melhor sem você sabe," disse ele. "Não acho que ninguém estaria."

"Obrigada, Potter."

Ele sorriu para mim, sem o sorriso torto e os cabelos arrepiando, e eu olhei para ele. James Potter estava crescendo, tanto quanto ele me enfurecia.

"James?"

Ele piscou ao uso do seu primeiro nome, "Lily," ele retornou.

"Você… você acha que sangue importa?"

Seu olhar em mim escureceu, a mandíbula ficando firme e seus punhos se apertando ao seu lado. "Não," disse ele em um tom baixo. "Não importa, Evans. Seu sangue é o mesmo que o meu, ou Marlene, ou Sirius, ou qualquer outro." Ele soltou uma respiração pesada, "E não se atreva a pensar ao contrário."

Eu estiquei minha mão e encostei em seu punho. O movimento surpreendeu nós dois e sua mão se soltou. "Obrigada, James."

"Só estou falando a verdade."

Eu deixei minha mão cair de volta ao meu lado e sorri tristemente. "Nós deveríamos voltar."

Ele sorriu e ficou de pé, me oferecendo sua mão. Eu a empurrei e fiquei de pé.

"Eu sinto muito mesmo, Evans," disse ele, e sua mão viajou novamente para sua nunca. Eu podia dizer que ele não estava brincando. Seus olhos percorreram pelo meu rosto, procurando as palavras que eu estava segurando.

Eu suspirei. "Eu também, Potter. Eu também."


N/T: Já estou ouvindo os sinos aqui, e vocês?