N/A: Os Personagens dessa estória não me pertencem. (exceto os originais.) Alguns personagens podem ter mudanças em suas personalidades. A estória a seguir possui cenas de violência e sexo, se não fica confortável lendo esse tipo de conteúdo, por favor não leia.
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Capítulo 32
Vinte e Oito anos antes
Mansão dos Pope, Nova Iorque
Maya sorria de forma plastificada, aprendera com maestria depois de tantos eventos formais com o marido. Ela estava dentro de um lindo vestido esmeralda, sentada ao lado de Eli, no salão de jantar de sua casa. Seu marido conversava animado com os colegas do partido republicano, e ela tentava não se importar com a barriga proeminente que lhe atrapalhava quando o assunto era caber em roupas ou locais, e também quando precisava se locomover.
Ela já tinha escolhido o nome da filha, seria Olivia, ela escolhera junto com Joshua, já que Eli não dera a mínima para sua gravidez, só a usava para demonstrar um lado mais humano de si mesmo em suas campanhas. E era exatamente por esse jeito que ela decidira que fugiria com Joshua naquela mesma noite, logo após aquele jantar estafante e entediante do partido. Sua mãe a ajudara com as preparações para a fuga, aliás, a ideia de fuga, partira de Elizabeth que acreditava que a filha seria muito mais feliz ao lado de Joshua.
Maya já estava com todos os detalhes na cabeça, esperaria Eli deitar e sabia que ele apagaria rapidamente por conta da quantidade de álcool que sempre ingeria, e então escaparia apenas com a roupa do corpo. Joshua a esperaria nos jardins da mansão, aproveitando do fato de que as árvores altas e cheias o esconderia. Além de que Eli nunca ia até os jardins, ele odiava as flores que a esposa cultivava com Elizabeth.
Quando os pés descalços da jovem Maya pousaram na grama verdinha que estava fofinha e molhada naquela noite, fora como se sentisse a brisa libertando-a da dor que guardara no peito por ter escolhido se casar com um péssimo homem. Ela ainda tinha o vestido esmeralda no corpo, esvoaçando a cada passo que a mulher dava contra o vento daquela noite. Ela podia ouvir a própria voz lhe dizendo em sua mente que aquela era a melhor escolha que ela poderia fazer, a voz que ela nunca ousara ouvir lhe gritava para que ela fugisse dali, e que fosse com o homem que amava.
As sapatilhas que segurava nas mãos foram jogadas no chão, e ela logo as calçou, continuando seu caminho, a barriga de cinco meses começara a pesar, mas ela não se deixara vencer pela fadiga que cada passo lhe causava. Ela chegara ao portão do jardim que ela e sua mãe cultivaram, podia sentir o perfume das flores que haviam desabrochado.
Elizabeth adorava flores e passara tudo o que sabia sobre o assunto para a filha. Ela sorria quando entrara naquele lugar que poderia ser considerado mágico, decidiu não acender as luzes que iluminavam o local para que não chamasse a atenção de ninguém, andou pelo caminho entre as altas árvores e os canteiros de flores cultivadas ali, mas algo fizera com que seus passos comedidos cessassem instantaneamente.
— O que é isso? — Ela indagara com sua doce voz.
Diante de seus olhos havia dois enormes homens de terno, seguranças dela e de seu marido. Ela vincou sua testa, confusa pela cena estranha que presenciava ali. Era claro que o marido descobrira, mas ela não entendia todo o teatro.
O que logo fora revelado, fazendo com que ela preferisse não descobrir. Suas mãos pousaram na barriga que crescia, como se aquele pequeno gesto protegesse a criança que morava ali sem saber do mundo cruel que esperava por ela.
— Esperava outra pessoa? — A voz de Eli Pope se fez ser ouvida, e Maya se virou lentamente com os olhos fechados. — Ele não virá, Maya.
— Como? — A mulher abrira os olhos, e as lágrimas que se acumularam ali somente pelo fato de saber que não fugiria com Joshua já escorreram velozes.
— Acha mesmo que fugiria com meu irmão e eu não descobriria? — Eli dissera, dando uma risada debochada em seguida. Ele fizera um sinal com a mão, fazendo com que os dois seguranças se afastassem dali.
— Onde ele está? O que você fez com ele, Eli? — Maya deixara a voz subir o tom ao ser levada pelo desespero.
— Bem longe daqui, se tiver sobrevivido — Eli erguera as sobrancelhas ao ver a expressão de espanto que surgira no rosto da mulher. — Uau! Você se apaixonou mesmo pelo meu irmãozinho.
Maya não estava se importando pelo fato de seu marido ter descoberto a traição, mas sim com o estado de saúde de Joshua. Ela jogara todo o senso na lata de lixo quando a ideia de perdê-lo surgira na sua mente.
— Como ousa machucá-lo? — Maya indagara com a voz esganiçada. — Eu não estou apaixonada, eu o amo. Ele é o único homem que amei de verdade em toda a minha vida!
— Você é uma vadia! Como admite na minha cara que me traía com meu próprio irmão? Como tem essa coragem? — Eli abandonara seu ar debochado após ouvir as palavras da mulher e esbravejara alto, seus olhos se tornaram vermelhos e injetados, e Maya se encolhera quando o homem se aproximara.
— Olhe para mim! — Eli ordenou e segurou com firmeza exagerada no queixo dela, mostrando um pouco do opressor que sempre fora.
— O que você quer? — Maya indagou com sua voz falha perante o choro que a consumia.
— Quero me explique o que pode ter dado errado — Eli parecia estar magoado, pela primeira vez na conversa, demonstrava tristeza verdadeira, mas sua tristeza talvez fosse por motivos errados. — Eu lhe dei tudo, não dei? Uma enorme mansão, carros ao seu dispor, dinheiro sem limites para comprar o que quisesse, viagens dos sonhos e até engulo sua mãe insuportável. Então, me diga, o que fiz para merecer uma apunhalada dessas? Ser traído duplamente é mais do que humilhante.
Maya mantivera-se calada, porque estava visivelmente acuada pelo modo como o homem falava, ele parecia transtornado e temia que ele pudesse lhe causar algum tipo de dano além do mental.
— Eli, você sabe que não queria nada disso. Eu queria algo real, queria amar e sentir amor de verdade — Maya falou, colocando para fora sua maior aflição.
— Fique tranquila. Se era algo real que queria, a realidade acaba de bater à sua porta.
— O que quer dizer com isso?
— Seu amor rendeu-se quando ofereci uma boa quantia de dinheiro — Eli dissera, e seu sorriso de deboche cruel reaparecera no canto dos lábios. — Eu o mandei sumir, perguntei se era dinheiro que ele queria e ele não se mostrou nem mesmo ofendido com a oferta generosa.
— O quê? — Maya disse, erguendo o olhar para o marido e colocando a mão sobre seu próprio peitoral, sentindo o coração retumbando no peito.
— Ele possivelmente está se preparando para partir sem você, minha querida. Lamento informar.
Um sorriso perverso surgira no rosto de Eli, e seu corpo chacoalhou enquanto ele iniciava uma gargalhada assustadora ao ponto que Maya o olhava em choque, a mulher sentia todos os ossos de seu corpo doerem e no lugar onde estava seu coração sentia como se estivessem lhe apertando fortemente.
— É claro que isso é mais uma mentira sua — ela dissera, em uma tentativa de que aquilo se tornasse realmente uma calúnia.
— Eu tenho vivido com você há tanto tempo que sei bem quando está mentindo.
— Você acha que me conhece — Eli tombara a cabeça para o lado. — Se ele sobreviver, ele irá partir sem você. Mas a pessoa que eu mandei acabar com ele, é boa demais para errar.
As íris de Maya cintilavam de um lado para o outro, enquanto ela tentava digerir a confissão que Eli acabara de fazer sobre tentar contra a vida do próprio irmão. Como se aquilo fosse o acontecimento mais normal do mundo.
Os dedos da mulher agarraram-se ao colar cheio de pérolas e ela o arrancara em um rompante. Escutando, em seguida, as bolinhas cintilantes caírem sobre o chão e quicarem pelo caminho que permeava os jardins. Ela ganhara aquele colar como um dos vários presentes de casamento de Eli, e sentia que ele lhe pesava no pescoço de um jeito insuportável naquele momento. Tudo que vinha daquele homem desencadeava em Maya um nojo insuportável naquele exato instante, mais ainda do que já lhe causara antes.
— Eu te odeio! — ela gritara, sentindo a garganta arranhando enquanto a voz saía de sua boca.
— Não tanto quanto eu te odeio nesse momento, Maya — Eli respondera.
— Ele é seu irmão! Como tem coragem? — Maya tampara o rosto com ambas as mãos.
— Lembra-se quando nos conhecemos? Meu pai dissera naquele almoço que nada atrapalharia meu sonho, o mesmo sonho que ele tivera de me ver como um bom político, um homem reconhecido no país. E aqui estou eu, renomado no mundo da política, Maya. E é apenas o começo. Então, imagine só se amanhã aparece nas manchetes dos jornais que minha esposa fugiu com meu próprio irmão? Acabaria com toda a minha reputação e não me restaria nada, nem mesmo minha própria dignidade como homem.
— Não era necessário acabar com a vida dele... — Maya dissera em meio aos soluços.
— Era sim. Ele ameaçaria contar para todo mundo apenas para arrancar mais dinheiro meu.
— Joshua nunca seria capaz disso!
— Você o defende tanto! Mesmo depois de saber que ele a abandonou por dinheiro — Eli rira, sacudindo a cabeça com incredulidade. — Eu sabia que duvidaria que ele a abandonara e por isso pedi para que ele escrevesse de próprio punho uma carta se despedindo.
Eli enfiara uma de suas mãos no bolso de seu roupão e retirara de lá um papel dobrado, que jogou para a mulher que apesar do choro que a consumia, mantinha-se erguida.
— Faça o que quiser da sua vida, Maya. Mas não me atrapalhe. Nunca. Eu destruirei tudo o que me retirar do caminho que estou trilhando. Nem você e nem essa criança, que eu nem sei se é minha mesmo — Eli virara, e a mulher deixou que seu corpo desabasse sobre o chão frio enquanto o choro tomava forças.
Os dedos trêmulos da mulher passaram pela barriga, na tentativa de acalentar a pequena vida que gerava ali. Seus olhos pousaram no papel que o vento arrastava aos poucos,
Maya erguera o braço e as pontas de seus dedos alcançaram o papel, que ela puxara para perto de si.
Após enxugar a lágrimas que haviam escorrido por seu rosto, abrira o papel com urgência, esperando que aquilo que o marido lhe dissera fosse apenas um blefe, mas a letra redonda e torta de Joshua estava ali. Ela reconheceria aquela letra em qualquer lugar do mundo, aprendera a conhecer a letra do homem após receber inúmeras cartas de amor, em forma de poesia e músicas. Talvez as cartas a entregaram para o marido. Ela não queria pensar naquela fúria que vira nos olhos de Eli, nem na maneira que o homem utilizara para descobrir seus segredos.
Seus olhos correram pelas palavras derramadas no papel, e cada uma delas pareciam pontas de caco de vidro afiadas que feriam sua carne, e dilaceravam sua alma por completo. Joshua se despedia, pedia desculpas em certa parte, mas garantia que seriam ambos felizes se cada um ficasse em seu canto.
Joshua abriria uma galeria de arte na Europa, realizaria seu sonho. Ele não especificava com qual dinheiro faria isso, e mesmo sendo filho de um homem rico, Maya sabia que o pai de Joshua e Eli nunca mais dera um centavo depois que ambos se tornaram maior de idade. Joshua vivia do dinheiro que ganhava em seu ramo artístico, não era muito, mas dava para sua sobrevivência. Maya queria muito acreditar que o que seu marido dissera, era mentira, e que Joshua nunca aceitaria um acordo sujo como aquele, mas se Joshua havia mesmo partido, significava que ele realmente aceitara o dinheiro de Eli.
Após aquela noite, as semanas passaram, e ela ainda acreditava que ele voltaria. Que ele mandaria um sinal de que estava sendo chantageado ou algo assim, porque seu coração acreditava na pureza do homem, mas ele sumira. Então, Maya começou um processo em que chorava todos os dias, acreditando que talvez ele estivesse morto, porque seu coração estava partido, mas sua alma ainda acreditava em Joshua, acreditava que ele só poderia ter morrido para não tentar recuperá-la.
Ele havia lhe dito tantas vezes que a amava. Ele dizia que o significado de seu nome era "Luz" e era isso que ela significava para ele. A cor que iluminava cada tela, cada pintura, cada poesia, cada música. Como poderia ser mentira?
Três meses passaram desde a noite fatídica que o mundo de Maya ruíra diante de seus olhos, uma das empregadas da casa lhe entregou as correspondências e dentre elas, estava um cartão postal da Alemanha, e em poucas palavras Joshua lhe dizia que estava muito feliz, e esperava que ela também fosse. Maya estava prestes a trazer Olivia ao mundo, e um mês antes ela decidira que focaria todas as suas forças na criança que teria, mas aquele cartão fizera que toda a dor que el escondeu em algum canto de seu coração, voltasse. E naquele dia, ela decidira que Joshua continuaria morto para ela, por mais que a dor fosse pungente e insistente.
Ela estava em seu quarto, lendo e relendo, chorando a cada palavra. Dessa vez o cartão tinha letras escritas a maquina, mas àquela altura da história, ela nem reparara mais. Maya descera as escadas da enorme mansão e seguira em busca do marido.
— Você estava certo — Maya dissera para Eli assim que entrara no escritório dele.
Eli erguera seus olhos dos papéis em suas mãos, e olhou para o cartão que e a mulher jogara em sua mesa, antes de segurá-lo entre os dedos e passar os olhos pelo papel cartonado.
— Que bom você resolveu retornar a razão, Maya. Fico feliz que tenha decidido voltar a falar comigo — Eli dissera antes de jogar o cartão-postal sobre sua imponente mesa de trabalho. Maya apenas respondia as perguntas de Eli, e falava com ele em eventos, fora isso, não falava mais com o homem.
— Lembra-se de quando questionou sobre a paternidade de Olivia?
— Maya indagou e o homem unira as mãos entrelaçadas debaixo do queixo enquanto ouvia a mulher. — Ela é sua filha, e esse foi um dos motivos pelo qual eu quis fugir, porque sabia que a tomaria de mim na primeira chance que tivesse.
Maya mentira, porque o amor que sentia pela garotinha que teria em questão de semanas, era mais importante do que sua felicidade, do que sua própria vida. Ela estava entregando qualquer chance de felicidade para que sua filha crescesse de maneira segura, porque sabia que o homem diante de si seria capaz de qualquer coisa caso ela tentasse se rebelar e o abandonar, inclusive afastá-la de Olivia. Ela nunca contaria que o sangue que corria nas veias de sua menina, pertencia ao outro irmão da família Pope.
Eli Pope fora bem claro quando dissera que destruiria tudo o que se colocasse no caminho dele e Maya descobrira de uma maneira dolorosa demais que o homem não mentira.
— Eu fico feliz com essa revelação. Eu posso parecer um monstro, mas aguardo ansioso pelo nascimento de nossa menina — Eli dissera, e Maya sorrira seu sorriso mais falso. Quando ela ia saindo do escritório, ela se virou e seu olhar curioso chamou a atenção de Eli.
— Posso saber por que desistiu de acabar com Joshua? — Ela indagou e ele ergueu as sobrancelhas surpreso por ela talvez estar demonstrando algum interesse no fato dele estar vivo e
Maya tratou de consertar. — Parecia determinado demais naquela noite.
— Eu estava de cabeça quente, minha querida. Uma morte acabaria comigo, caso fosse descoberta — Eli respondera e Maya assentira. — Nunca teria coragem de matar meu próprio irmão estando em sã consciência.
A mulher saíra do escritório com uma decisão, a de que tudo aquilo que vivera com Joshua ficaria no passado, ela nunca mais tocaria no nome dele. Isso porque ela não acreditava no que o marido lhe dissera, Maya sabia que Eli teria muita coragem de matar o próprio irmão. Ela vira nos olhos do homem uma ira tão grande, que nunca mais se esqueceria. Mas ela estava determinada. Faria tudo pela filha que nasceria.
Maya morreria por Olivia. Mas também mataria. Dentro do escritório, Eli alcançou o telefone de fio e apertou algumas teclas antes de ouvir o telefone chamando do outro lado, até que alguém o atendera com a voz séria e profunda.
— Missão cumprida. Ela recebeu o cartão, acha que Joshua está vivo e que realmente a abandonou — Eli dissera com satisfação pela conclusão de seu plano.
— E o que faremos a seguir, senhor Pope? — O homem do outro lado da linha indagou.
— Agora daremos um tempo, antes de contar que meu irmão morreu. Forjamos alguma coisa, e diremos que o corpo sumiu, já que você foi um idiota e não sabe ao certo onde enfiou o corpo de Joshua.
— Seu pai confia em mim, ele não acredita que Joshua esteja vivo e quer que eu investigue — o homem dissera e Eli sacudira a cabeça. — Quer saber se o filho foi morto por algum inimigo do partido como forma de retaliação.
— O velho está ficando sentimental, tem sentido saudades do filho que sempre negligenciou— Eli recostara em sua grande cadeira de couro marrom. — Finja que está trabalhando para ele, e dê informações desencontradas até que possamos falar que Joshua está morto. Pretendo fazer isso depois de um ou dois meses do nascimento de Olivia. Todos estarão contentes demais com o nascimento da minha filha, para sentirem a dor da perda dele.
Eli desligou e abriu um sorriso perverso que fora seguido de um suspiro. Sentia-se poderoso, acreditava que nunca seria descoberto e que seu problema estava resolvido. Esquecera que quando criança, sua mãe lhe dissera que a mentira tem perna curta.
Dias atuais
Annecy, França
Olivia sentia-se como em um filme de suspense e a cada passo que dava para aquele local subterrâneo, ela podia sentir o cheiro de poeira do local, delatando que o lugar estivera fechado por muito tempo. Havia uma sala, três sofás dispostos nos cantos, e várias estantes vazias. Olivia começava a acreditar que sua avó fizera um cantinho secreto para si. Seus olhos correram pelo lugar mais uma vez, as paredes eram creme, e apesar de ser no porão, lhe parecia aconchegante, como se alguém tivesse passado bons momentos ali dentro. Ela continuou olhando ao redor, até que uma caixa de madeira no canto do local, capturou sua atenção.
— Fitz? — Olivia chamara o homem, que olhava ao redor com intensa curiosidade, e ele se virou para ela que apontou para a caixa de madeira.
O homem não precisou de palavras, sabia que ela queria que ele abrisse o grande baú de madeira. Olivia sentia medo pelo que poderia encontrar dentro daquela caixa. Era como se sua intuição lhe dissesse que quando ela a abrisse, seria algo sem retorno.
Fitzgerald se aproximou da caixa, e abaixou para olhar de perto. Havia um cadeado, ele olhou para Olivia que cruzava os braços com se aquilo fosse protegê-la de qualquer coisa que surgisse ali.
— Tem um cadeado aqui — Fitz dissera. — Preciso de um martelo ou algo do tipo.
— Onde vou arrumar isso? — Liv indagou.
— Você tem certeza de quer abrir essa caixa? — Fitz perguntara, deixando Liv em dúvida. — Talvez seja do novo dono, e estamos invadindo a privacidade dele.
— Só saberemos se abrirmos — ela respondera rapidamente. — Eu vou tentar achar algo.
— Não podemos pedir alguém da casa porque soaria bem estranho.
— Você é o presidente, ninguém vai questionar os seus motivos.
— Exatamente por eu ser o presidente que acharão estranho eu querer usar um martelo.
— Certo — Liv ia saindo do local quando olhou para o chão e viu alguns castiçais no chão. Ela se abaixou e pegou um deles, notando que era bem pesado. — Meu amor?
— Sim? — Fitzgerald se virou para a mulher que segurava o castiçal.
— Acha que consegue abrir com isso? — Olivia dissera e Fitz sorrira de canto.
— Talvez. Me dê aqui. Os exercícios que faço há tanto tempo devem servir para alguma coisa — Fitz estendeu a mão para a esposa que entregara o castiçal. Olivia concordava que os músculos de Fitz serviam para muitas coisas, e com certeza os ajudaria naquele momento.
O homem não precisou fazer muita força, após forçar o metal pesado do castiçal sobre o cadeado três vezes, o mesmo quebrou e fora aberto. O que levava a conclusão de que quem quer que tenha colocada aquele cadeado ali, não estava realmente preocupado em esconder o que havia dentro daquela caixa, afinal, porque usaria uma método de proteção tão falho como aquele?
Parecia que queriam que aquela caixa fosse encontrada. E isso fez com que Liv se sentisse ainda mais curiosa pelo que colocaria os olhos nos minutos seguintes. Fitz pegou o baú nos braços, e a colocou sobre uma mesinha que estava no outro canto do local.
— Toda sua — Fitz dissera, enquanto livrava sua roupa dos pequenos rastros de poeira.
Olivia assentira, e então se aproximara daquele baú rústico de tamanho médio. Suas mãos alisaram a madeira com cautela, sentindo cada deformidade do material no qual ela fora feita. Fitz estava parado ao seu lado, com os braços cruzados e com a feição séria, como se estivesse atento ao que poderia conter ali dentro. Liv segurou na borda da tampa, e abriu vagarosamente. Ela não ficou surpresa quando viu outras caixas de papelão ali dentro. Ela retirou uma branca e destampou com a mesma cautela que abrira o baú.
Havia vários envelopes pardos ali, cada um continha uma numeração diferente. Não havia remetente, apenas destinatário para aquela casa. Ela pegou um dos envelopes, o de numeração 01 e o abriu com cuidado, o papel guardado dentro dele estava bastante amarelado.
Olivia desdobrou a folha, e correu os olhos famintos e curiosos pelas letras escritas ali.
"Meu querido,
Sinto muito pelo ocorrido. Imagino o quão doloroso seja ter que se afastar de quem você ama por puro capricho daquele homem sem alma. Eu aceito seus agradecimentos, mas saiba que faço isso porque gosto de você como um filho. Fique tranquilo, eu cuidarem bem delas na sua ausência. E falando sobre ausência, temo em lhe dizer que não poderá voltar tão cedo. Eu sei que você concorda comigo quando se trata sobre seu irmão, ele é mais perigoso do que se pode imaginar.
Sinto que nem eu terei muita segurança daqui para frente. Terei que andar com os olhos bem abertos. Espero que recupere sua saúde em breve. Sinceramente,
E. Mcmillan."
O ar dos pulmões de Olivia sumiram de forma repentina. Estava diante de uma carta que a sua avó escrevera, a assinatura era inconfundível. Mas ela não conseguia entender o motivo daquela carta estar ali, naquele porão. Não entendia as palavras daquela carta. Sabia que sua avó ajudara muitas pessoas, mas não imaginava o significado por trás daquela em particular e por algum motivo desejara compreendê-la melhor. Por isso suas mãos ávidas seguiram para a próxima carta, desta vez não temera ao abrir o envelope 02.
"Meu caro,
Soube da sua recuperação através do seu recado para meu informante, e isso me alegra de forma grandiosa. Só não receio não ter boas notícias.
Ele mentira de maneira repugnante, disse que você a abandonou, inclusive entregou a carta em que você relata isso para ela e que acredito ter sido escrita de maneira forçada. Ela não poderia estar mais arrasada, sinto muito por não poder contar a ela a verdade. Acredite que ainda faremos justiça."
Não tinha assinatura, mas Liv sabia que era a avó quem escrevera. Não havia dúvidas, seu coração não estava batendo fortemente em seu peito por nada. As lágrimas brotavam em seus olhos por pura saudades da avó.
— Tudo bem, minha querida? — Fitz indagou e ela assentiu.
— Sim — Olivia respondera. — Leia, Fitz. Talvez você consiga ter mais clareza dos fatos do que eu.
Fitz começara a ler as cartas que sua esposa já havia lido, e Olivia se concentrara na próxima. Ela podia perceber que havia algo muito pesado por trás daquelas palavras, um segredo ardiloso que talvez a machucasse.
"Meu caro,
Ela acredita que você a abandonou. Sinto muito pela demora em respondê-lo. As coisas andam um pouco turbulentas por aqui. Ela dará a luz em breve, e decidiu que não contará sobre a paternidade da doce criança que nascerá. Prefere proteger a filha a contar, pois sabe que pode perdê-la.
Espero que não sofra muito com essa notícia, mas ela decidiu seguir em frente após receber um cartão postal com sua letra e assinatura, obviamente forjado pelo repugnante marido dela. Adoraria que você pudesse reaparecer e confrontá-lo, porém sei que correria grande risco caso voltasse agora.
Saiba que estou aqui para ajudá-lo em tudo. Talvez em algum ponto do futuro possamos nos livrar dele para que possa voltar."
Olivia sentia vontade de descobrir quem era a criança, queria muito descobrir a verdade e por isso devorava as cartas, uma atrás da outra. As cartas não tinham datas, mas ela sabia que eram antigas, mas independente disso, queria saber quem a sua avó tanto protegera.
"Meu caro,
Ela nasceu! Temos uma linda garotinha. Ela é tão linda, possui os olhos expressivos da mãe, mas seu rosto é todo formado por traços seus. Minhas meninas passam bem. E não se preocupe, você verá sua menininha muitas vezes. Lhe mandarei mais notícias em breve."
As palavras "minhas meninas" prenderam seus olhos. Sua avó sempre se referia a ela e Maya como suas meninas. Mas aquilo era impossível, afinal ela era filha de Eli e não havia motivos para que sua avó se comunicasse com ele através de cartas. Talvez fosse outras pessoas muito amigas de sua avó. Talvez fosse… Não poderia ser.
Fitz lia as cartas em silêncio, olhava para a esposa temendo que ela pudesse estar se sentindo mal ou algo do tipo. Fitz partilhava dos sentimentos confusos de Olivia, parecia conectar as coisas da mesma maneira que a mulher.
"Meu querido,
Lamento ter que lhe trazer essa notícia, mas ele forjou sua morte. Segundo ele, você morreu em um acidente de carro na Alemanha, o carro explodiu de forma que não restou nada de seu corpo para que pudesse ser ao menos enterrado. Uma bela manobra de seu irmão. Eu temo cada dia mais pelas nossas meninas, pela segurança delas. E por isso, espero que não se importe se eu sumir por algum tempo. Os caminhos estão se estreitando e se tornando tortuosos, e preciso ter muita cautela para que não haja um banho de sangue. Infelizmente cheguei ao ponto em me sinto como se estivesse sendo vigiada o tempo todo. Logo eu, uma mulher que nunca temera nada, estou começando a tremer por inteira com a possibilidade de descobrirem que tenho te protegido.
Lhe mando uma foto da sua menina junto com essa carta. Espero que goste."
— Não! — Olivia dissera, levando as mãos ao lábios. — Seria muita coincidência.
— O que foi, minha querida? — Fitz perguntara, visivelmente alarmado pela reação da mulher.
— Leia, Fitz! — Ela pediu e o homem pegou o papel das
mãos trêmulas de Olivia.
Fitz leu cada palavra, absorvendo tudo e quando finalizou olhou para Olivia.
— Eu não entendo, Liv. O que isso significa?
— Eu tive um tio, ele se chamava Joshua. Quase nunca falávamos sobre ele, era como um assunto proibido em minha casa, entende? A única coisa que eu sabia era que ele morrera em um acidente de carro na Alemanha, pouco depois que eu havia nascido. Essa última carta fala sobre isso.
— Espere — Fitz abismou-se pelo que sua mente computara.
— Então ela fala...de você? Sua avó diz que uma criança nasceu. Seria você essa criança?
— Não pode ser, Fitz — Olivia dissera baixo. — Isso significaria que...
As palavras ficaram perdidas entre os lábios, mas pairavam no ar que envolvia o casal. Ambos sabiam quais palavras finalizariam aquela sentença. Liv passou as mãos pelo rosto, olhando para as cartas que ainda faltavam serem lidas. Umas quatro ou cinco cartas naquela caixa. Ela não havia nem mesmo aberto as outras caixas de papelão que havia dentro do baú, devido tamanha curiosidade com aquelas cartas, e ela percebeu que sua intuição estivera certa.
— Acho melhor pararmos de ler essas cartas. Pelo menos por enquanto — Fitz dissera, se aproximando da mulher e a abraçando. — Que tal sairmos um pouco e terminarmos quando voltarmos?
— Não — Olivia respondera, sacudindo a cabeça. Seu olhar estava confuso, tão perdido que ela mesma não podia se encontrar. — Eu preciso prosseguir. Agora não posso voltar atrás.
— Tem certeza? — Fitz indagou.
— Eu sou forte. Já aguentei muitas coisas. Acho que posso aguentar mais essa — Olivia mentira, pois sabia que aquela dor seria a mais excruciante de todas.
Ela pegara outra carta, abrira mais devagar, respirando fundo e então lera as que faltavam, cada uma revelava mais alguma coisa que fazia com que tudo se encaixasse. Quando a última carta fora aberta, um machucado também se abriu em seu peito.
"Meu caro,
Sinto muito por ter demorado tanto em lhe enviar essa carta. Muitas coisas aconteceram, e Eli andara bisbilhotando demais a minha vida. Parecia saber que andava tramando contra ele e contra a escória dos políticos que sujam nossa sociedade. Não queria que ele soubesse que você está vivo, quando na verdade, está morto na imaginação dele. A minha doce Maya tenta disfarçar, mas nesse ano que se passou sentiu muito a sua falta. Eu a peguei chorando no dia em você completaria mais um ano de vida. Espero que possamos nos falar pelo telefone, pedi para que meus empregados instalassem um aí na França. Facilitará nosso contato e acho que Eli não se preocupará tanto comigo nos próximos tempos, já que pretende se aliar ao Murray e sair como candidato à vice-presidência. Estou estudando uma maneira de levar Liv até a França, afinal um pai precisa conhecer sua filha querida. Imagino que esteja cansado das fotos que lhe enviei. Mas receio não ser possível levá-la nesse momento, e peço que continue sendo paciente.
E, por favor, acredite quando lhe digo que estou do seu lado, te tenho como um filho e esse é o começo de uma grande amizade, Josh. Sinceramente,
E. Mcmillan"
Liv sentira as pernas vacilando, e levara uma mão até os lábios entreabertos. Aquela era a revelação que precisava, ver seu nome estampado no papel para que enfim acreditasse no que seus olhos viam. Fitz se aproximou, segurando a mulher pelos ombros com carinho, tentado confortar a mulher. Olivia se deixou encolher ao sentir que o homem a abraçara, e a tristeza por aquela verdade lhe atingira. Ela não queria chorar, mas pelo que havia lido, seu pai não era seu pai, e fingira ser enquanto forjara a morte do próprio tio, que na verdade era seu pai biológico.
Tudo aquilo lhe empurrava para um redemoinho confuso, sua mente entendia tudo, mas se recusava a aceitar os fatos. Ela se lembrou da sua mãe, de como ela sempre parecia estar abatida pelos cantos quando mais nova. Quantas vezes ela vira a mãe chorando? Ela perdera as contas. Nunca houvera uma explicação para todas aquelas lágrimas e aquelas cartas explicavam o motivo de todas elas.
Olivia sempre soubera que sua mãe era forte, mas diante daquelas descobertas, percebera que Maya era mais forte ainda do que imaginava. Como ela conseguira viver com um homem como Eli? Um monstro sem escrúpulos que destruíra sua vida sem pensar no que fazia ou sentir remorso. Olivia sabia que Eli sempre tivera um temperamento forte, e por isso sempre batia de frente com ele, mas não imaginava que ele era alguém tão perverso.
Ela sentiu uma vontade repentina de ligar para sua mãe, conversar com ela e pedir desculpas pelas mazelas que fizera com ela durante a vida, mas sabia que ela precisava vê-la pessoalmente. Aquilo exigia olhos nos olhos.
— Minha mãe se sacrificou por mim, Fitz. Se sacrificou para me proteger, assim como Joshua fizera — Olivia abraçara o corpo másculo do presidente, que acariciou os cabelos dela, tentando acalmá-la.
— Eu imaginei que você fosse se sentir assim.
— Eu precisava descobrir o que aconteceu, Fitz. É a minha história, e ela foi deturpada. Foi tudo uma mentira. Tudo o que vivi.
— Eu sei. Você terá a chance de conversar com a sua mãe — Fitz dissera. — Aliás, a vida dela também foi uma mentira. Não se esqueça de que ela sofreu muito com tudo isso também.
— Eu sei. Não consigo pensar em sentir raiva dela, que fez tanto para me proteger. O meu ódio, é pelo homem que intitulei de pai até alguns minutos atrás.
— Liv...sobre Joshua. Por onde ele está? O envelope das cartas estão sem remetentes, mas o destinatário é essa casa.
— Quem alugou a casa para você, Fitz? — Liv se afastou de Fitz subitamente.
— Eu não sei. Cyrus descobriu tudo sobre a casa, e depois repassou para que outro empregado fizesse o contato, não queria que soubessem que estávamos vindo para cá.
— Nós precisamos encontrá-lo a todo custo.
— Eu sei. Também acho que ele seja Joshua — Fitz dissera, lendo a mente da mulher. — Você quer descansar? Aliás, nem comemos ainda. Vem comer um pouco e tentar se acalmar.
— Eu preciso digerir tudo isso. Não sei se quero comer, mas sei que preciso respirar um pouco.
— Eu preparei um roteiro para nosso dia de hoje. Talvez isso a distraia um pouco.
— Não sei se devíamos fazer isso.
— Vamos. Por favor, meu amor.
— Tudo bem. Vou tomar um banho e já vamos — Olivia se rendera.
— Mas eu gostaria que você levasse o baú para cima, Fitz. Acredito que essa é somente a ponta do iceberg.
Fitz assentira e pegara o baú, carregando-o para cima, Olivia o seguira pela escada enquanto ainda tentava digerir o que acontecera quando uma foto caíra do baú, e ela se abaixara para pegá-la.
Olivia olhou atenta para a imagem, era sua avó, e a garotinha que estava pendurada em seu braço completamente absorta por qualquer outra coisa que não fosse a fotografia, era ela mesma. Estavam diante de um lindo jardim, as flores pareciam vivas e bem cuidadas, assim como as flores que a mãe tanto cultivara.
Aquele jardim era bem ali no vasto quintal daquela casa em que ela estava, reconheceria em qualquer foto ou vídeo. A mulher virou a foto e atentou-se às palavras ali escritas com uma letra torta e ovalada.
"Talvez não sejas a mais famosa entre as flores, mas é a que eu mais admiro. Obrigado, mais uma vez, por trazê-la até a mim mesmo que por algumas horas."
— Quem é você? — A voz firme de Fitz chamara a atenção de Olivia, que parou de olhar para a foto. — Não me diga que é um dos meus empregados porque conheço os que trabalham próximo a mim. Então, me diga, como entrou aqui sem autorização?
— Sou o dono da casa, senhor presidente. Eu vim falar com Liv — A voz masculina respondeu sonoramente alarmada, enquanto Liv subia outro degrau perto de voltar para a biblioteca.
