N/A: Os Personagens dessa estória não me pertencem. (exceto os originais.) Alguns personagens podem ter mudanças em suas personalidades. A estória a seguir possui cenas de violência e sexo, se não fica confortável lendo esse tipo de conteúdo, por favor não leia.

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Capítulo 33

Liv subiu os últimos degraus devagar, ao contrário da rapidez de seu coração naquele momento. Seus passos sobre os degraus entregavam que ela estava temerosa pelo o que aconteceria.

Quando ela emergiu para a biblioteca novamente, aconteceu algo estranho. Seus olhos encontraram os do homem que havia acabado de falar com Fitz, e ela se sentiu conectada com o desconhecido que estava diante dela.

Na verdade, ele não era tão estranho. Liv reconhecera o rosto, os traços de sua feição estavam mais desgastados pelo tempo, mas ela vira uma foto ou duas em que ele estava, aliás, foram as únicas que ela conseguira ver. Ainda assim era estranho ver uma pessoa que ela julgou estar morta a sua vida toda. A ideia de que ele era seu pai de verdade lhe parecera menos ridícula enquanto ela o encarava. Ela podia identificar alguns traços de Joshua, em si mesma.

Os olhos dele eram castanhos como avelãs, e apesar de Joshua estar mais envelhecido, era muito bonito. Seu suposto pai de verdade carregava um ar diferente de Eli, uma aura mais limpa, não tinha nada de carregado ali. Ela entendeu de imediato o motivo pelo qual sua mãe se apaixonara por Joshua.

— Olá, Olivia — Joshua disse, seus olhos marejados por lágrimas prestes a cair.

— Joshua? — Liv indagara, mais como um tom de afirmação do que indagação, e o homem assentira, lançando um sorriso aberto e convidativo, ao mesmo tempo em que suas lágrimas caíam.

Fitz abandonara o baú no chão e se aproximou de Liv.

— Me desculpe por isso — Joshua dissera. — Sou um pouco sentimental às vezes. Pelo visto, encontrou meus segredos. Quase tudo o que tenho da minha história, está aí dentro.

— Nós precisamos conversar — Liv ignorou o que ele havia lhe falado e abaixara sua cabeça por alguns instantes. — Isso é tão surreal. Parece que estou em um filme dentro da minha própria vida.

— Eu sei. Deve ser complicado descobrir tanta coisa de uma vez só.

— Complicado não é a palavra mais indicada para o que estou sentindo no momento — Olivia piscara rapidamente. — Aliás, pelo jeito que fala, parece que queria que eu descobrisse.

— Você não está errada. Eu cansei de esconder essa história e cansei de viver nas sombras com medo do que meu irmão pode fazer contra vocês. Acredito que agora está bem protegida sendo a primeira-dama.

Joshua sorrira e Fitz que apenas assistia a cena enquanto segurava a esposa pelos ombros, como um protetor pronto para atacar se fosse preciso. A ideia de que ninguém era confiável estava latente na mente de ambos.

— Venha se sentar conosco — Fitz dissera de maneira intimidadora, deixando bem claro que participaria daquela conversa.

Os três caminharam alguns passos até os sofás da biblioteca e se sentaram ali. Fitz serviu café para a esposa e entregou, ao se lembrar que ela não tinha comido nada ainda. O presidente observava cada movimento corporal que Joshua fazia e tentava decifrar o que se passava na mente de Olivia.

Já Liv, sentia-se confusa, sentia como se todos os seus sentimentos estivessem embaralhados pela recente descoberta e estava ansiosa pela conversa que se seguiria nos próximos instantes. A verdade estava doendo, mas a verdade doía porque uma mentira lhe foi contada no princípio de tudo.

— Acho que pode começar a contar como chegou aqui — Olivia disse e Joshua assentira.

— Certo — Joshua tomara uma boa dose de ar antes de começar. — Eu adorava viajar pelo mundo, não ficava muito tempo nos Estados Unidos, fugia muito de meu pai que queria me enfiar na política ou em um dos negócios dele. Mas quando minha mãe ficou muito doente, precisei voltar para a América, porque sabia que ela não viveria muito tempo e foi aí que conheci Maya. — Os olhos de Joshua brilharam no instante em que o nome de Maya fora pronunciado. — Eu não pude resistir, e quando me dei conta, eu e sua mãe nos apaixonamos, Olivia. Perdidamente. Eu me encantei pelo jeito doce de Maya, pelas brincadeiras, pelas risadas, eu gostava de cada detalhe dela. O único problema era que ela já estava casada, com meu irmão. Eu sei que foi uma traição do pior tipo, mas Eli nunca a amou de verdade, Maya sempre foi apenas um brinquedo nas mãos dele para uso político. Certo dia eu ouvi sua mãe contando que estava grávida, e que o filho não era do meu irmão e sim meu, e então, pouco tempo depois, decidimos que iríamos fugir. Mas o plano não saiu como combinado.

—A filha era eu — Olivia disse, seu coração doía pela mentira que lhe fora dita por toda a vida.

— Sim — Eli respondera enquanto um sorriso largo abria em sua feição sofrida.

— O que aconteceu que atrapalhou o plano de vocês? — Liv perguntou após tomar um gole do café em sua xícara.

— Eli descobriu sobre o relacionamento entre mim e sua mãe, e descobriu também sobre a fuga que havíamos planejado. Armou uma emboscada para mim, e eu nunca apanhei tanto na vida como naquele dia — Joshua abaixou a cabeça um pouco. Até a própria lembrança parecia lhe ferir. — Eu fui obrigado a escrever uma carta para sua mãe, mentindo que estava indo embora sem ela e depois disso eu fui torturado de maneiras que talvez te chocasse se eu resolvesse contar. Eu acordei no dia seguinte com mais surras, e pedi muito para que Deus acabasse de uma vez com meu sofrimento porque tinha plena certeza da minha morte.

— Isso foi tudo a mando de Eli? — Fitz indagara enquanto segurava firme a mão de Liv.

— Sim — Joshua respondera com tristeza. — Ali eu tive certeza que meu irmão não tinha escrúpulo algum. Algum tempo passou, talvez horas, eu não sei exatamente porque ficava apagado quase o tempo todo de tanta dor que meu corpo tentava suportar, e os homens que foram enviados por Eli me colocaram em um carro, e eu achei que aquele fosse meu fim.

— Para onde eles te levaram? — Olivia estava visivelmente temerosa pelas coisas que ouviria. Saber que o homem que ela havia considerado a vida toda como pai era na verdade um homem sem coração, lhe machucava muito.

— Eu não sei exatamente. Só sei que de repente abriram o porta-malas do carro e me tiraram de lá, ouvi uma pessoa falando que estava tudo bem e então apaguei. Acordei três dias depois aqui nessa casa, no porão em que você estava há alguns minutos.

— A minha avó te trouxe — Olivia não perguntara, mas estava fazendo uma dedução.

— Ela usou de sua influência e dinheiro para que me trouxessem, e montou um hospital lá embaixo para que eu sobrevivesse, não só no porão, mas também no avião. Ela fez de tudo para que eu ficasse bem.

— Então porque não apareceu depois que ficou bem? Tinha medo de Eli?

— Eu sei que talvez deva ser bem difícil saber que Eli é uma pessoa ruim. Imagino que ele seja tolerável, mas imaginar que ele seja um ser humano tão horrendo como o que estou relatando, deve doer muito. Eu sinto tanto por isso. Eu precisava que você crescesse em segurança, e sabia que se ficasse nos bastidores, ganharia muito mais. — Joshua suplicava com os olhos pelo perdão da filha. — As coisas que Eli disse que faria com você e sua mãe, foram as torturas mentais mais absurdas que pude suportar. Liv acreditava que o pai era egoísta, mas era estranho e realmente muito difícil acreditar que Eli fora capaz de atrocidades como as que Joshua estava lhe contando.

— É estranho que o homem que me criou com tanto carinho tenha feito algo do tipo, não estou duvidando de você, Joshua. Por favor, não leve a mal. Mas a ideia de meu pai...de Eli ter feito algo do tipo me deixa um tanto quanto atônita.

— Dentro desse baú tem muitas outras provas de que não é invenção minha, Liv. E existem outras coisas aí que talvez te deixem mais chocada do que já está, mas é preciso que você descubra tudo de uma vez.

Fitz olhara para a esposa que chorava copiosamente, e se aproximou dela, depositando um beijo suave no topo de sua cabeça como um afago que lhe atingisse também a alma. Mas nada naquele momento faria com que Liv se sentisse bem de verdade.

— Meu amor, acho melhor que você volte para o seu quarto e descanse um pouco — o presidente dissera e então olhou para Joshua. — Sei que ainda há muito o que dizer e conversar, mas acredito que minha Olivia precisa descansar e absorver tudo o que acabou de descobrir.

O som da lareira crepitando era o único som da biblioteca, Liv tampara seu rosto com ambas as mãos e se rendera ao choro silencioso, cheio de angústia e sofrimento pelas descobertas que tinha feito.

— Eu preciso descobrir todo o resto, Joshua — a voz de Olivia saíra esganiçada pelo choro, mas estava firme.

— Liv, talvez você já tenha tido uma dose grande demais de verdade por hoje.

— Não, Fitz. Eu preciso descobrir tudo de uma vez! Estou cansada de viver mergulhada em mentiras — Olivia dissera em direção ao marido e ele apenas assentira.

— Estou do seu lado seja qual for sua decisão.

— Se quiser abrir o baú e ver as fotos, tenhos muitas fotos de você. Sua avó sempre me mandava várias para que eu pudesse matar a falta que sua presença fazia.

— Eu vi uma foto em que estou eu e minha avó em frente ao jardim daqui dessa casa — Liv falou e Joshua sorrira,a lembrança parecia lhe fazer bem.

— Eu fotografei vocês. Sua avó viera para a Europa, sua mãe também veio, mas estava em Paris com Eli. Sua avó arrumou uma desculpa e te trouxe com ela, e foi a primeira vez que te vi. Pude aproveitar sua presença por três horas, mas foi o suficiente para quem nunca tinha visto a própria filha.

— Minha avó sempre me trazia para cá, e eu nunca me lembro de ter visto você — Liv dissera.

— Eu sempre me disfarçava ou ficava escondido lá no porão. E acredite, por mais que pareça estranho, não era nada difícil. Aquele lugar lá em baixo se tornou o lugar mais seguro para mim durante muito tempo. Eu vivi com trauma psicológico durante bastante tempo antes de ter coragem de começar a conviver com o mundo novamente. Eu sempre achava que Eli me acharia em uma esquina qualquer, e todas as torturas me vinham à mente.

— Parece que você não viveu plenamente por muito tempo, Joshua — Fitz comentou, parecendo se sentir realmente triste pela situação do homem.

Uma batida na porta interrompeu a conversa, e Fitz permitiu a entrada. Um agente do serviço secreto não disse nada, apenas se aproximou de Fitz e falou algo apenas

para ele, um tipo de código secreto que fez Fitz inspirar fundo e fechar os olhos.

— Precisamos ir embora, Olivia

— Como? — Ela questionou e Fitz se aproximou da mulher, falando próximo ao seu ouvido, sem se preocupar se Joshua se sentiria incomodado ou algo assim, pois para o presidente a segurança de Olivia era a base de suas prioridades.

— Eles descobriram que estamos na França — Fitz dissera e Olivia fechou os olhos antes de abrir um sorriso que acalmava o presidente e acariciar seu rosto.

— Estávamos preparados para isso — a doce mulher dissera. — Quando?

— Hoje à noite.

— Então este é mais um motivo para que eu descubra tudo que ainda está sem resolução nessa história toda.

Olivia se levantou e aproximou do baú, arrastou a caixa para perto do sofá e o abriu novamente. Ela retirou outra caixa de papelão dali de dentro, olhou para Joshua e enxugou os vestígios das lágrimas que rolaram por seu rosto.

— Você é delicada, mas forte como sua mãe. Eu espero que esteja preparada porque sairá daqui um pouco confusa e bastante decepcionada com algumas pessoas. Isso, se acreditar em mim, é claro.

Liv ponderou o que ouvia e assentiu, pois sabia e sentia que estava perto da verdade. Ela só esperava que tivesse forças para aguentar tudo o que poderia descobrir nos minutos seguintes.

Olivia abriu a caixa, e dentro dela havia várias fotos. Joshua não mentira quando dissera sobre ter muitas fotos da infância dela, e sua adolescência também não passara batida, pois sua avó fizera questão de fazê-lo se sentir bem próximo. O que fazia Liv estranhar um pouco. Afinal de contas, porque sua avó não havia tomado coragem de desmascarar Eli e ficou escondendo Joshua por tanto tempo? Não parecia do feitio de sua avó esconder de alguém, ter medo de alguma pessoa.

As caixas seguintes eram de fotos também. Não eram poucas, eram tantas que ela acreditava não ter tantas fotografias de si própria, como Joshua tinha. No fundo do baú estavam alguns envelopes pardos e o coração de Olivia acelerou novamente.

— Esses envelopes... — Olivia não finalizou a sentença, mas ela desejava saber se era do interesse dela, e Joshua se mostrou apreensivo. Fitz que olhava as fotos de Olivia com um sorriso enorme no rosto, notou logo que o clima que amenizara por conta das fotos que eles olharam e das lembranças que elas trouxeram, estava se tornando denso e estranho novamente.

— Sim. Essa é a parte que lhe disse que talvez te faça sair daqui confusa e decepcionada, Olivia.

Olivia olhou para Fitz que assentiu, dando força para a mulher prosseguir.

Um agente secreto ficara em pé diante da porta e olhava para a cena com atenção, pois Fitz decidira que não sabia se podia confiar ou não no homem que se intitulava pai de sua esposa. Se ele não confiava nas pessoas que estavam ao seu redor nos Estados Unidos, porque confiaria em um desconhecido?

Liv pegou o envelope que continha uma camada fina de poeira, levou para seu colo e o analisou antes de abri-lo. Havia uma nova leva de cartas de Elizabeth, ela vira a assinatura da avó nas folhas brancas, mas aquelas cartas pareciam mais formais.

— Foram digitadas na máquina de escrever — Olivia reparou. — Faz anos que não vejo uma dessas máquinas.

Liv desfez o laço que segurava as folhas brancas juntas. Não eram muitas, mas aguçara sua curiosidade pela seriedade das

mesmas.

— Leia a carta escrita em punho para que entenda os documentos em sua mão, se preferir pode fazer após a leitura desses documentos, a carta é o que prova a veracidade dos documentos.

Fitz se encostou no sofá, cruzando as pernas de um jeito despojado, antes de coçar a barba e olhar atentamente para os documentos nas mãos de Olivia.

"Caro senhor Joshua Pope,

Acredita-se que saiba a natureza deste documento. Venho através desta para te convocar para se unir aos que não possuem voz, para os que se sentem oprimidos pelo que tem sido feito pela oposição. A cada dia acordamos mais assustados e profundamente temerosos do que se sucederá durante o mesmo, vivemos em profundo abismo, causado pelo medo e pela aflição do futuro que não se

pode ser enxergado. Se acreditar que pode fazer parte dessa união, responda de maneira urgente. Quanto antes começarmos a lutar, mais rápido derrubaremos o leão.

Atenciosamente,

Elizabeth McMillan."

Olivia vincou a testa enquanto lia e olhou para Joshua após a leitura ele apenas lhe pediu para que prosseguisse. Olivia pegou o documento seguinte, e esse parecia menos formal, e mais direcionado para Joshua.

"Caro Joshua,

Como assim se sente temeroso pelo grupo que temos? Criamos vínculos fortes, com pessoas que farão o que mais desejo: A proteção da minha menina. Da nossa menina.

Nada mais me importa no mundo, apenas que ela cresça com saúde, que seja protegida e um dia ela será mais forte do que tudo isso de ruim que a cerca.

Espero que mude de ideia e que se sinta bem-vindo. Mesmo de longe, você tem sido muito útil. Elizabeth McMillan."

Olivia ergueu os olhos para a direção de Joshua. O homem roia o canto do dedo, seus olhos mergulhados na mais profunda aflição que se poderia ver em um homem, atentos a qualquer movimento de Olivia.

— O que é isso? Ela criou um grupo para me proteger? — Liv indagou confusa com aquilo.

— Inicialmente era esse o intuito do grupo.

— Inicialmente? — Olivia apertou os olhos em aparente confusão.

— Sim, mas depois de um ano, ela parecia mais interessada em tomar o poder a todo custo. Queria ajuda financeira, e começou a chamar pessoas que eu não julgava ser de plena confiança. E depois começaram as pessoas influentes na sociedade, pessoas que ela poderia controlar e consequentemente controlar decisões em meios importantes, como a política, por exemplo.

Ela queria tudo, toda a soberania apenas para ela, mesmo que isso custasse vidas.

— Espere um minuto — Olivia respirou fundo e olhou para o homem que estava diante de seus olhos. No completo desconhecido que parecia querer dizer que sua avó não tinha sido a pessoa que ela acreditou na vida inteira. A mulher aguentaria que qualquer pessoa no mundo fosse vilã, mas sua avó já era demais. — Não! — Olivia se levantou em um rompante, sentindo-se um tanto quanto atordoada e ultrajada. — Você está mentindo!

— Liv, eu não mentiria para você, minha querida. De maneira alguma, eu nem tenho motivos para tal atitude. Só acho que seu marido corre sérios riscos, e a culpa é toda dela.

— Eu acho que já ouvi e vi o suficiente por hoje — Olivia dissera com a voz embargada.

— Por favor, minha filha. Não vá embora de Annecy sem ler os outros documentos e a carta que ela escreveu. Talvez você acredite, talvez não. Mas eu ficarei aliviado por ter feito a minha parte.

Olivia vacilou um pouco, se sentiu tentada a voltar e terminar de ler os documentos e a carta, mas Fitz logo guardou tudo, fechou a caixa e o baú, e pediu que o agente secreto levasse o baú e acompanhasse Liv até o quarto. Ela estava atordoada com aquilo, e apenas seguiu o agente secreto, pois ela sabia que precisava ficar sozinha.

Quando o presidente ficou a sós com Joshua, ele lançou um olhar severo para o suposto pai biológico de Olivia. Joshua que havia se levantado no momento em que Olivia se exaltara, sentou-se novamente e deixou uma lágrima escapar.

— Eu não queria que ela se sentisse assim — Joshua dissera, sua voz era puro lamento.

— Então, Joshua — Fitz começou a falar e a porta da biblioteca se abriu novamente e um novo agente secreto entrou, ficando na mesma posição do agente que fora acompanhar Olivia.

— Estamos sozinhos e eu não estou tão abalado assim, a não ser pela reação da minha esposa. Quero que me conte tudo o que sabe sobre esse grupo formado por Elizabeth. Acredito que suas palavras serão melhores do que ler documentos e cartas.

— Sim, senhor. Os documentos e cartas podem fazer o trabalho de contar bem, mas eu vivi tudo o que está escrito ali e posso lhe explicar com mais detalhes.

— Fique à vontade — Fitz falara de forma firme e intimidante, Joshua respirou fundo, como se buscasse forças ocultas em seu ser para falar.

— Elizabeth reuniu um grupo para proteger Olivia, inicialmente eram pessoas de bem, pessoas que eu sabia que poderia confiar. Agentes secretos, embaixadores, era gente importante com o intuito de angariar fundos para fazer o bem e descobrir os podres de pessoas como Eli — Joshua contava como se sua vida dependesse daquilo, e talvez dependesse. — Mas então, ela veio com uma nova premissa, a de que precisávamos proteger Olivia a todo custo. E foi a partir desse momento que ela começou a convidar pessoas que eu nunca confiei para dentro do nosso grupo, pessoas que já tinham uma tendência para a vilania. Pessoas que matavam pelo poder, pessoas que viam na sociedade uma forma de subir e progredir na vida.

— Você pode me dizer quem eram essas pessoas?

— Políticos corruptos, assassinos de aluguel, terroristas — Joshua falava com um tom indignado. — O mais insano foi quando notei que a maioria das pessoas que ela estava convidando, eram as pessoas que ela queria derrubar no começo. Pouco a pouco aquele tipo de gente na qual eu não confiava, se tornaram aliados do nosso grupo. Ela sempre dizia que precisava proteger a flor mais bonita dos jardins que cultivara, ela sempre teve um amor muito grande por flores.

— A flor era Olivia?

— Exatamente. Inicialmente a ideia de proteger minha garotinha era fantástica aos meus olhos, era tudo o que precisava. Mas quando essas pessoas de índole duvidosa começaram a se unir à Elizabeth, eu comecei a me afastar. Mandei uma carta para ela falando que não queria continuar fazendo parte daquele grupo, sendo que ele era constituído de quarenta por cento de pessoas que não prestavam.

— E esse novo grupo queria apenas proteger Olivia ou tinha algum outro tipo de intuito?

— O grupo começou a focar em ganhar dinheiro, se fazer conhecida entre as sociedades secretas, e conseguir aliados fortes. Pessoas que influenciavam o país, inclusive presidentes dos Estados Unidos e de alguns outros países.

— Espere — Fitzgerald vincou a testa se lembrando de que recebera uma estranha proposta quando tomara posse de seu cargo. — Eu recebi um convite logo que assumi o cargo de presidência. Não era nada demais, um cartão de felicitações e logo abaixo estava o convite que eu ignorei, sempre achei essas coisas de sociedade secreta estúpidas.

— Se tinha algum símbolo de Flor de Lis, é essa mesmo.

— Flor de Lis? — Fitzgerald perguntou ficando sem ar de tão estupefato de como as coisas estavam ligando bem diante de seus olhos. — Agora que você está falando, me fez pensar. Eu não me lembro, mas todas as cartas e cartões que recebo são catalogados para casos como esse de que eu precise investigar — Fitz lembrou-se da caixinha de anel que Liv recebera com a ameaça de que se ela se casasse com ele, correria risco de morte. — Por acaso, Elizabeth usava algum tipo de codinome? Afinal, era uma sociedade secreta.

— Sim, ela usava. Na verdade fui eu quem a ajudou a escolher, senhor presidente. O codinome usado por Elizabeth era de umas de suas flores preferidas — Joshua deu uma pausa dramática então prosseguiu, causando arrepios de surpresa e desespero em Fitz. — As Dálias.

Olivia estava sentada na beira da enorme cama de casal, abraçava o próprio corpo e olhava para o baú que fora depositado aos seus pés. Ela pensou alguns instantes antes de abrir novamente a caixa de madeira e captar o envelope pardo com os documentos e a carta que Joshua lhe dissera para ler. Ela segurou um dos documentos na mão, era o único que ela não tinha lido ainda.

"Senhoras e senhores de nossa sociedade,

Espero que estejam cientes da escolha que fizeram ao aceitar se unir a mim nessa jornada. Eu, como chefe do grupo, peço que se lembrem da promessa de nunca, em hipótese alguma, revelar meu nome.

Vocês sabem que escolhi um codinome. Vocês não precisam disso, podem usar as iniciais de seus nomes, e estarão em segurança. Aliás, sobre a segurança de vocês, devo alertá-los que serão protegidos por mim, não importa o que aconteça. Só aviso que caso eu perceba que alguma cláusula esteja sendo quebrada, tomarei medidas para que seja sanada a questão.

Peço que nunca desobedeçam as ordens dadas dentro de nossas reuniões e que depositem o dinheiro sem atrasos para que possamos fluir com o andamento das questões que serão resolvidas.

Nós ainda estamos começando uma batalha grande, e precisamos de novos aliados. Quando souberem de novos membros, por favor, não hesite em nos falar. E lembrem-se que a nossa prioridade são os cargos mais importantes. O presidente está do nosso lado, mas daqui a alguns anos teremos um novo presidente e cabe a nós conseguir com que o tenhamos do nosso lado. Meu codinome fora escolhido por um grande amigo, e eu achei bem pertinente. Espero que se agradem, eu o revelarei durante nossa reunião secreta.

E. M."

Olivia estava chocada, aquela dali não parecia nem um pouco com a sua avó doce e delicada, que apesar de se mostrar durona, nunca gritara ou se exaltara por motivo algum. A mulher do documento parecia gananciosa e em busca implacável pelo poder. Ela abriu o envelope e retirou a carta, eram duas folhas juntas.

"Caro Joshua,

Me sinto lisonjeada pelas doces palavras que usou na última carta. Falar que eu poderia ser a "Acácia Branca", devido à elegância. Ou que talvez pudesse ser comparada à "Sempre-Viva" por ter esse desejo de declarar guerra contra tudo que é sujo nesse mundo. No entanto, quando você menciona que as Dálias Rosadas significam delicadeza, e as Dálias Vermelhas significam força, sinto que as Dálias combinem comigo.

A partir de hoje meu codinome será Dália. Sabe, sinto que estamos apenas começando. Olivia tem apenas cinco anos, por enquanto, quero ensinar muitas coisas para minha Fleur, para que ela esteja preparada para assumir a liderança desse grupo que está aprendendo. Temos um longo caminho pela frente e reunirei o maior número possível de pessoas para que possamos ter muito poder e destruir todos os que não aceitem as nossas ideias. Para isso, reunirei pessoas com mais dinheiro, afinal, esse é o motor para retermos o poder sobre tudo. Espero que goste das pessoas que entraram.

Segue a lista de nomes na outra folha. Nele também contém os nomes de alguns homens que são de minha confiança os homens que sei que resolvem qualquer problema que eu possa ter e acima de tudo, vigiarão Olivia a cada passo que ela der, para que caso aconteça algo, possa socorrê-la.

O primeiro que escolhi para a função, se chama Robert, mas prefiro usar um apelido do que um nome, por isso eu o chamarei Rob. Espero que se sinta bem com tudo isso e principalmente com os novos convidados para a sociedade de Dália.

Um forte abraço da sua amiga,

Dália."

Olivia soltara um grunhido alto e agudo, que arranhara sua garganta de forma dolorosa, mas nada se comparava a dor que estava consumindo seu coração. Ela jogou a carta no chão e levou as mãos trêmulas até os lábios entreabertos, deixando que o choro escorresse por sua face livremente.

Ela lembrou-se dos atentados, lembrou-se de Alícia, lembrou-se de Edison, seu melhor amigo que também fora atraído para as garras da mulher que Liv acreditara ser a melhor pessoa do mundo. A sua avó era na verdade um monstro. Tentara contra a vida de seu grande amor, do presidente. E por mais insano que aquilo parecesse, até a própria protegida da sociedade secreta, já que Olivia recebera um ameaça para que ela se separasse de Fitz.

Ela não entendia o motivo daquilo tudo. Aliás, ela sabia que era a ganância pelo poder que estava falando ali naquelas linhas, ou em todos os documentos que seguiram aquelas cartas. Joshua saíra da sociedade ao perceber que o intuito de Elizabeth mudara. A mulher percebera que ela não conseguiria ter todas as respostas naquele momento, e na verdade, estava mentalmente exausta. Queria uma maneira de anestesiar sua mente, e esquecer daquilo tudo para que depois pudesse pensar naquilo tudo novamente.

Mas não era possível. As palavras nas cartas e documentos estavam ali em sua cabeça, dançando como lembranças e assombros com força total. As mentiras de Maya, as mentiras de Eli, as mentiras de Elizabeth.

Em quem poderia confiar no fim das contas? Olivia enxugara as lágrimas, e descera as escadas em disparada indo até a biblioteca, na qual entrara em um impulso de seu corpo que reverberava a dor e a adrenalina que a verdade causara.

Ela queria respostas, mas ainda mais do que isso, ela queria justiça. Fitz e Joshua se levantaram e olharam para Olivia que enxugou com força exacerbada, uma lágrima teimosa que escorrera pelo seu rosto. Seus lábios tremiam que sua voz agoniada falou o que seu coração relutava em acreditar.

— Eu descobri tudo — ela dissera e os homens nem piscavam, esperando pelo que ela diria em seguida. — Fitz, minha avó, Elizabeth Mcmillan, é Dália. A mulher que tem tentado contra a sua vida e assassinado as pessoas que estão ao nosso redor é a mulher que eu mais confiava no mundo.

Olivia se deixou cair sobre o carpete da biblioteca, encolhendo-se sob a dor que latejava em sua alma e tornava aquele momento insuportável. O botão mudo fora acionado para Olivia, que viu Fitz vindo em sua direção, sentando-se ao seu lado e abraçando-a.

Mas nada que lhe dissessem naquele momento, blindaria a tortura e a angústia que sua consciência causava ao seu coração.