Sobre o texto: Não sei de onde veio, nem para onde vai...
Nasceu como uma coisa, tornou-se outra e seu desfecho é puro mistério.
O que pretendo aqui nem eu o sei; é só texto, história a ser contada, mas seu enredo não traça linha desenhada.
Em reais sentimentos é baseada... e é, porém, visão unilateral narrada; de baixo de ponto de vista centrada.
Conclusões a parte, só quero escrever, qualquer coisa a meu bel prazer...


Dedicada a meu próprio ser.

Desfecho

Lídia Paula, FELIZ ANIVERSÁRIO!
(ainda que atrasadíssimo)

δύναμη (Força)

Eu procurei pela força. Sempre.
Houve algo que me fez perceber, que me fez buscar, acreditar que eu podia tê-la.
Não me lembro se algum dia acreditei nos contos de fadas. Eu acho que não. De qualquer forma nunca esperei por eles. Eu sempre fui velha demais... (1)

As memórias que tenho me parecem ser aquelas que escolhi ter.
Eu me criei como sou, como eu queria ser, como eu tinha que ser.
Moldei-me usando a dor e o sofrimento; tirando deles a força; cultivando uma saudade de algo que eu nunca conheci...

Sou jovem e me sinto velha.
Fiz-me madura, talvez demais; perceptiva, imaginativa, tomei minhas decisões por mim, por ninguém mais. Foi isso do que eu me convenci. Ninguém olharia por mim se eu mesma não o fizesse.

E foi daí que nasceu minha ânsia; uma necessidade profunda...
De sentir algo que me toque, que me mova, que me faça vibrar...

A brisa se infiltra por meus cabelos cor de fogo; a garoa suave toca minha face; a adrenalina envolve meu corpo; mas permaneço parada, prostrada nessa beirada alta.

Meu coração está normal em seu compasso, mas algo frio, duro, me sobe pelas pernas e agarra, trava-me aqui, fixada como uma estátua marmorizada.

Ainda sim não admito...

Nem me jogo, nem me volto...
Apenas fico. Deixo estar. Curto a sensação.

Ah sim! Sou sádica; criada em meio à dor, é com ela que me alimento, vem dela a minha inspiração extrema e mais perfeita...

Sou águia, ave de rapina certeira. Meus olhos esguios, nem claros ou escuros, traiçoeiros à luz e escuridão; mantenho-os escusos, pois em mim são portas, não janelas, para um poço sem fundo que ninguém deve olhar.

É para esse poço que empurro a dor, e lá nas entranhas da minha negra alma ela metamorfoseia-se em fogo, um ardor que me envolve e me queima... Faz-me querer fugir, gritar, voar, livre, longe, alto, tão distante quanto meu pensamento alcançar.

Minha alma é livre, dominante, rainha; mas às vezes ajo como serva... deixo-me perder, meus desejos esquecer, o que quero ou não quero, o que gosto de sentir, dizer, apenas ser. Deixo-me levar, pela correnteza do vento, carregar; planando sem destino no alto ar. O ambiente torna-se mestre... eu apenas esqueço; escondida, escondo-me de mim mesma.

Se sinto dor... é por agora, acho-me e olho... nem acredito em mim mesma. Sou assim enfim, feito ar. Calma, tranquila por natureza. Mas se existe pressão, força que me move, se existe calor, temperatura que me tenta, então sou tormenta, furacão sem direção.

Desprendida, desmedida, tudo que eu quero é realizar...
Sem solução, sem intenção.

Eu nunca entendi minha própria força. Oh, sempre quis ser tão forte... e eu nunca realmente soube. Eu não tinha como saber. Afinal quem é capaz de definir o que é a verdadeira força?

E foi isso que admirei em ti. Foi o que ouvi, depois o que vi ao longe e por fim pude presenciar. Ser testemunha de uma força real, sem igual, superação, ambição, força por si só pura e inimaginável.

Por isso dói tanto. Contudo, aprendi contigo, não sou manipulada pelo meio, manipulo-o. (2)

O problema é se te vejo. Se te encontro, se interajo. Não entendo tuas palavras ambíguas. Teu jeito muitas vezes é distante, rústico característico, mas teu olhar tem aquele ardor. E eu nunca sei o que pensar. E o que sinto, é algo que prefiro nem imaginar.

Admiro-te. Admiro tua força ainda que não possa dizê-la maior que a minha. Força é aquilo que nasce do coração, da esperança, da verdadeira vontade.
A tua é diferente da minha. A tua eu toco e vejo; a minha existe, mas não percebo.

É como os olhos: através dos meus vejo os teus, verdes profundos, porém nunca posso ver os meus próprios. Deles, restam apenas reflexos... Pois os olhos são transparentes (3), não foram feitos para serem vistos. O destino é dúbio, criados para o mundo ver são a si próprios impossíveis.

Assim também é a minha força...
Não a vejo, nem meço, tão pouco entendo... Não tenho como saber...

Contudo, a tua é a meus olhos atentos. Vejo e percebo detalhe a detalhe, parte a parte, ainda que não seja a mestra ou a mais entendida. Percebo por que te vejo com olhos profundos da alma, eu te conheço.

"Hoje mais do que ontem. Amanhã mais do que hoje. A cada embate se torna mais forte. Tal é a tua força de leão" (4)

E eu sou águia, ave de rapina certeira, minha força vem da liberdade, do vento que alça meu voo, do atrito das minhas asas com o mundo, da minha fome insaciável. Fome de conhecimento, fome de viver a vida, de proteger, de fazer o certo, de ser alguém, ser de verdade.
Sou caçadora, mas não caço por prazer, faço-o por necessidade. Necessidade profunda e avassaladora da alma, incrível, insondável, inexplicável... o mundo é muito grande, é hiper-interessante (3); ainda que todo ele minhas asas não possam abarcar, existe uma vontade de ao menos tudo sobrevoar.

Mas você...
Tu és leão, a força em personificação, és rei, comandante de uma selva inteira, orgulhoso imperioso por natureza.
"Meu destino sou eu quem traço" (4) - é o que está escrito nas profundezas dos teus olhos, nos teus atos, qualquer tolo que com mais atenção ao olhar pode notar. Você tem força, muita e por ela muitos conflitos. Mas a força absoluta nada quer dizer... ela é oca e vazia. São os conflitos que a revelam e modelam, geram, quebram, sugerem, balanceiam os atos para que eles não sejam vazios desmedidos. Você é leão tranqüilo na savana ao sol deitado, sossegado, olhar perdido, quieto, silente.

E quantas vezes assim discreta, quase secreta, pude eu te observar, deliciar, admirar, quase desacreditar. Será que foi assim que aconteceu? Será que foi esse o jeito que me envolveu?

Incrível, indescritível, agora é muito visível e ainda sim não admito.

Olho para o mar, penhasco abaixo, mesmo estando tão alta, sinto as ondas despedaçadas me respingarem. Se não fosse dramático demais a mim, eu diria estar como esses cacos de ondas; ainda que me sinta assim. Foram muitas as coisas pelas quais já passei, se sobrevivi foi por pura teimosia. Sou dura como rocha, séria como céu nebuloso. "Sou assim desde criança, me criei meio sem lar" (5). Mas não admito, não me deixarei despencar, fico aqui apenas a olhar.
Não seria isso, e apenas isso, que me faria afundar. Prefiro resguardar esse ressentimento. Indecisa, sem saber o que fazer, apenas me deixo levar, pois sou águia, ave de rapina certeira.


Diana Lua

Diana C. Figueiredo

Escrito em: Junho e Agosto de 2008 terminado em 15/10/2008 - Publicado 15/10/2008

Ultima alteração: 12/11/2016

Contém 1099 palavras, 5176 caracteres, 6238 toques, 45 parágrafos, 122 linhas


Referências:

(1) – Referência às palavras do Duo Maxwell, capítulo 15 de Lawless Hearts, escrita pela Kraken;

(2) – Referência de um comercial XBox com Chase Armitage;

(3) – Referências a imensa sabedoria de Rubem Alves;

(4) – Falas do manga Saint Seiya, Saga G, Masami Kurumada e Megumu Okada;

(5) – Trecho da Música Garganta de Ana Carolina.