Ainda sobre o texto: Ainda que já dito... repito:
Conclusões a parte, só quero escrever, qualquer coisa a meu bel prazer...
Com sua vida própria esse desfecho escolheu seu caminho... não eu...
Definindo-se como mergulho profundo e real.
É a alma dela desnuda, confusa, desarmada...
Desfecho
Dedicada a meu próprio ser.
Ίλιγγος (Vertigem)
Meus olhos são portas, não janelas.
Portas sem trancas, sem maçanetas, sem janelinhas, sem detalhes e entalhes.
Não têm dobradiças. Tão pouco, lados certos e errados, entradas ou saídas.
Apenas portas.
Primevas.
Sem apoio, sem batentes; pendentes no vácuo escuro do poço sem fundo da minha alma, a qual ninguém deve olhar.
Muito eu falo e é provável que pouco diga.
Minhas palavras pitorescas volteiam presas por correntes de ar. Os meus olhos que se abrem ao mundo enxergam tudo em delírio.
Será meu voo irregular demais?
Sou eu planando ao léu, sem trajeto, sem roteiro?
É de dentro de mim que vem toda essa confusão?
Ou será apenas mais uma ilusão?
Ser vivo parece ser simples, mas Ser nunca é apenas simples.
Ser é uma busca eterna, por algo que não se vai encontrar, quando nem ao mesmo sabemos o que procurar. Ser é um buscar inconstante.
Minhas pálpebras pesam nessa tarde nebulosa. O clima é quente, mas há brumas sobre meus olhos e não sei definir se há nuvens no céu. Tudo que vejo está em moldura de nevoeiro, tais quais meus pensamentos.
Quereria eu colocar as idéias no lugar, um lugar que é tudo que eu não queria saber [1]. Apenas deixar de pensar.
Quando esse desfecho começou, não pensei que ele iria encetar algo mais. Era fim, mas virou começo. E agora é todo história de entremeio.
Como na tormenta do mar, perdida entre força e sentimentos, luto para um caminho enxergar. Estou tão difusa, que nem em linhas diretas consigo mais dissertar. Não estou certa do que há em meu coração, penso e revolteio, permaneço negando, me enganando. Quem sabe tudo isso é só uma imensa confusão.
Tento me decidir, definir como vou seguir. Parece fácil, mas é apenas por um momento.
Quando o encontro seja com palavras distantes, apenas recados perdidos, olhares inibidos, me perco... distraidamente.
E mais uma vez sou engolida pelo turbilhão.
Eu que sou águia, ave de rapina certeira, não consigo fixar meu olhar.
Meus olhos estão febris cobertos com aquela vertigem.
Minha mente repleta de ventos intermitentes. Nada faz sentido.
Talvez olhaste por minhas portas. E lá dentro? O que viste? Entrastes?
Sim, eu o senti.
Mas não pude nada dizer, tão pouco impedir. Apenas deixei passar silenciosa escondida e tímida. Nessa hora não fui águia, me desvaneci como um ser escondido da escuridão.
Incerta... qual terá sido minha reserva?
De canto encolhido, dir-te-ia que era medo? Não, talvez apenas apreensão. Talvez eu não saiba o que viste; talvez eu não queira saber, ou, talvez, seja apenas fingimento...
Por que sou águia de rapina certeira e meus olhos são de puro mistério.
Se assim sou até pra mim, quem dirá aos outros...
Ainda sim, lhe permiti entrar...
Por que sou densa como mar profundo e em minhas entranhas são pura escuridão.
Escondo-me de mim, e recuso-me a olhar esse abismo profundo. Sei o que há ali, talvez inconsciente, talvez descrente... apenas não quero ver.
Se te permiti...
Mesmo que apenas um vislumbre...
Foi por puro descuido...
Falha de perspicácia na minha caçada.
Mero acaso impensado.
É tudo tão vertiginoso, não sei mais para onde olhar ou o que pensar... não me lembro do que aconteceu, o que foi que me enfraqueceu...
Não foi tua força de leão... isso não... isso apenas me fortaleceu.
Foi algo tão teu que era de fato meu...
Talvez esse mesmo turbilhão de emoção: deixo não deixo, posso não posso, quero e não compreendo... será que se eu deixar apenas um pouco... irá me machucar?
Será o escudo forte suficiente?
Serão as barreiras espessas o bastante...?
Há tanta propagação... não há defesas certeiras contra os sentimentos...
Mesmo que minha pontaria de águia seja tão precisa e afinada, a verdade é que um sentimento é muito mais poderoso que qualquer pensamento. [1]
Não é possível comparar essas escolhas aos tão treinados movimentos de estratégia. Tão pouco é instinto... tão pouco é racional...
Só posso crer ser de fato pura vertigem...
Foi a distorção que o atraiu a mim, e eu a você...
Foi miragem, tontura que me confundiu e enfraqueceu... então tudo aconteceu...
Se penso bem... ou tento dentro desse véu de bruma borrada...
Vejo a distorção da minha admiração.
Foi tua força de leão, tua resolução de campeão, teu fundo da coragem que só nasce de quem tem medo e sabe como enfrenta-lo, da tua máscara de solidão e indiferença.
Por debaixo da pele bronzeada, de músculos torneada, quem diria que eu encontraria uma imagem tão precisa de meu próprio delírio. Dentro de teus olhos perscrutadores, esverdeados e enevoados de desejo, havia um reflexo tão idêntico e diferente de mim.
Essa foi a imagem real. Mas eu não pude observa-la de fato, meus sentidos desnorteados perderam-na...
Começamos um jogo; conscientes, vestindo armaduras firmes e reluzentes, jogamos munidos de estratégia resoluta. E sem que notássemos a trama de nosso tabuleiro era vertiginosa...
Havia no meio dele um nevoeiro...
Talvez não o tenhamos percebido, tão fraco de inicio, talvez o tenhamos ignorado, sem imaginar, que tamanho enleio ele poderia provocar...
Talvez tenha sido esse o ponto principal de minha falha...
Fui descuidada...
Sendo guerreira pela vida treinada, cometi tal erro; subestimei meu oponente... pensei ser você, mas na verdade era eu.
Nossa batalha não teve preliminares...
Eu com minha misteriosa escuridão, com minha ânsia excessiva de o mundo sobrevoar, aquela tamanha necessidade de proteger; Você com sua honra de leão, com seu caráter inquebrantável, com sua força e determinação...
Ademais já éramos velhos de mais, vividos demais, marcados demais, por inúmeras batalhas, talvez derrotas, talvez desilusões; ainda que nenhum de nós as admita.
Iniciamos em postura de ataque, como caçadores não percebemos ser também a presa; ambos fomos caçados ao mesmo tempo que caçamos.
Como toda caçada, uma parte do objetivo era a diversão...
E não admito ainda. Talvez jamais o faça...
Prefiro lembrar daquele vapor quente que produzíamos no ar...
Foi um lance de química, de sexo, de libertação.
Tua pele quente, tuas mão firmes, todo o fogo que me acendia e fazia incendiar... Nossos corpos suados, nus, unidos de tantas formas, em tantos lugares, por tantos motivos...
Eu jamais quis enxergar...
Era tanto fogo que eu não conseguia com os olhos reais olhar, me enganei propositalmente, eu jamais quis ver de verdade...
Havia um proposito do qual eu não queria, não me permitiria desviar...
Tal como você...
Tão iguais e tão diferentes, foi isso que me fez cair...
Que me fez chegar até aquela beirada alta, que me fez crer que você também estaria lá se eu já não estivesse... prostrada, congelada...
Em cada momento de vertigem, em cada noite revirada na sua cama, ou na minha, ou debaixo do luar, desconfortável, aventureira... me extasiando, me embebedando do teu jeito felino, da tua delicia de prazer, permitindo que me visse quase toda, por inteiro me entregando...
Então, nesse turvo turbilhão, acontecia um ínfimo instante, uma fagulha de lucidez... um momento em que ao olhar pelos ventos distorcidos eu me encontrava com teu verde olhar.
Foi a certeza, a precisão, o reflexo perfeito em meio a toda essa vastidão revoada que me entorpeceu... Segundos repletos de verdade. O truncamento do meu eu com o teu. Minha falha, a guarda baixa era a chave invisível de abertura da porta... porque tudo tem um preço equivalente, e para te penetrar eu devia te dar o direito de penetração...
Foram esses momentos de reconhecimentos, eu em você e você em mim, um espelho no reflexo de olhar... foi então que essa corrente foi tão firmemente criada... virou um vicio absoluto e devido aquele vertigem... sem perceber, esse elo se tornou uma corda por ambos bem segurada.
Encontros foram inúmeros, prazer foi inacreditável, a vertigem foi absoluta...
E nunca nada foi dito, nada foi admitido... era demais mesmo para você com sua armadura dourada. Fingimos tão bem que enganamos a nós mesmos...
Diana C. Figueiredo
(Diana Lua)
Escrito em: 07/01/2009 e 13/04/2011 - Publicado 13/04/2011
Ultima Alteração: 12/11/2016
Contém: 1313 palavras, 6527 caracteres, 7780 toques, 83 parágrafos e 168 linhas.
Referência:
[1] Escrito com inspiração na música Vertigo do U2
