Desfecho

Dedicada a meu próprio ser.

Mάσκα (Máscara)

Eu sempre admirei o silêncio; sempre o acreditei intenso.
Séria, silenciosa, eu sempre fui; mas sempre, também, por minha natureza, olhos de águia, vívidos e atentos, tive.
Nunca fui de competir, de convencer, de relutar, insistir.
Cobranças todas somente a mim.
Minha natureza é solitária e livre, liberta de rédeas, de convenções. Isso sempre me fez aceitar todos como quer que fossem, sem questionar, sem intervir.
Isso me fez silente e pouco compreendida.
As pessoas me tomam como estranha, distante, não acreditam que meu ser é livre assim. Explicam-se, replicam, dizem, desdizem, voltas e volteios, torneios de palavras no ar. Acostumada, essas sobrevoo ao planar.

É o meu jeito. É o meu ser. Meu jeito de ser.
Me deixar pela correnteza de vento arrastar.
Sim, ainda assim, sou ave de rapina. Tenho objetivos, ideais e algo importante a buscar.

Conheço meus limites; sei que é fácil estar comigo e, ao mesmo tempo, é impossível. Conheço teus limites também; sei que é delicioso estar contigo e, ao mesmo tempo, é perigoso e imprevisível.

Eu te perdi?
Nem sei se um dia o tive.

Foi decisão: não deixei-me estar. Foi um passo mais a dar. Enfrentei e apenas perdi.

Eu sabia que perderia, não podia existir outro desfecho em nosso destino.
Mas foi, por uma primeira vez, uma real vontade de relutar. Não quis acreditar que ia me deixar, mesmo sabendo de sua obrigação, mesmo sabendo da sua honra de leão.
Se dissesse que não entendo, mentiria.
Se dissesse que aceito, por outro lado, não poderia.

Mas eu creio no silêncio, sentada nele esperarei… [1]
Sem saber exatamente pelo quê.
Não haverá outra chance para nós.

Entretanto não creio no tempo, porém me dispersaria em seu suave passar, cuja ordem não consigo ignorar. Meus pensamentos e sentimentos, vísceras da minha alma, sendo em silêncio dilacerados por tudo aquilo que tenho guardado, firmemente encerrado. [2]

Minha face de sombras é feita, uma máscara sólida e travada. Me escondo agora, e sempre, atrás dela. Sólida, irá suportar os cacos meus que não podem mais a si se sustentar.

O que restou foi saudade, plácida, suavemente alojada.
Delicada, resplandece em suspiros, em olhares longos ao horizonte. Lembranças perdidas em meio a incontáveis degraus de remotas pedras e colunas partidas.

Os são tempos voláteis agora e facilita-me não sentir o calor de sua presença.

Nos teus olhos vi o verde mar profundo, escuro, difuso, como aquele no final do despenhadeiro. Dentro deles, coisas que não soube ler e sequer predizer.

A ti e por ti fui conduzida, enquanto fostes vento...

Fui tua e apenas tua. Teu jeito de moleque maroto e brincalhão, de sorriso largo e espertalhão, alçaram-me ao céu. Não houve nada que me fizesse não te querer.
Com você, meu leão dourado, meu tempo não foi em vão. Me ensinaste sobre força verdadeira, sobre sonhos puros da alma, sobre a resoluta ambição de salvar o mundo.

Foste amante não declarado. Ao me tomar, me transformava de águia em leoa, submissa, ambígua, amiga e amante.
Mas alfim sou águia, ave de rapina certeira, e se errei seu coração... que pena!

Iguais tão diferentes.
Tu és livre, rei supremo, em busca de força, de reconhecimento
Eu sou livre, rainha serena, em busca de entendimento, de algo que não sei explicar.
Pra mim tu sempre serás um leão dourado em uma armadura rachada.
Pra ti sempre serei uma águia prateada em uma máscara marmorizada.

Me contento com segredo daquele sentimento. Não há desfecho. Sou águia, és leão, e ambos tínhamos, temos, uma obrigação.

Mesmo assim, me sinto escura, resoluta.
Um ser quebrado. De coração e alma esmigalhados. São tantos os pedaços...

Como posso dizer que o amo, que o amei, se nem a mim mesmo isso consigo dizer?

Existiu, existe, na minha vida um propósito, algo que eu precisava fazer. Algo pelo qual eu era responsável. Mas eu nunca entendi, nunca fui capaz de contra essa torrente lutar, na verdade o que fiz foi me mascarar, me esconder mesmo sem nada entender.

Houve um dia uma menina de cabelos de fogo.

Talvez inconsciente tomou uma decisão. Com o coração tão cedo partido, dividido, confuso, passou a usar uma máscara tão sólida e tão firme, sem expressão, sem sentimento, com nada que pudesse mostrar qualquer coisa de si.

Não queria que ninguém visse, mas principalmente não queria ver.

Havia ali uma culpa primitiva, não concebida.

Por cada parte de sua alma se alastrou. A menina fez-se mulher. Mas aquele perdão... aquele perdão desconhecido, nunca dado, ficou muito fundo agarrado. Aquela menina, sofreu uma perda; inocente como criança, quis força, quis vingança. Mas nunca teve perdão. Ela permaneceu agarrada, enrolada, em um canto escuro muito profundo de uma alma toda negra, completamente esquecida.

Como poderia eu amar?
Como poderia enxergar?
Sem antes de tudo me perdoar...

Pelo que fiz... Pelo que deixei de fazer... Por um passado invisível que me assombra e pesa em ombros que deviam ser fortes, que eu treinei para serem fortes.

E eles são, mas não é a força física capaz de suportar. É a força interna, aquela energia que queima. Eu sempre quis fazer o bem, ser o melhor possível, e mesmo assim nunca me senti suficiente, sempre culpada, sempre errada.

Ah sim, nunca deixei de ser ave de rapina certeira.
E eu sempre tentei ser perfeita. Existe algo de instintivo em mim, algo primevo, muito forte que me guia, que me alça, que me faz enxergar... mas tudo isso é só para continuar a caminhar.

Eu me sinto cansada, os ombros da minha alma já não podem mais suportar.

Não foi por ti, meu leão.
Um leão livre, que me serviu e a quem eu servi.
Não foi um elo, nem uma corda...
Se dividimos um sentimento, que não desejo, foi devaneio.

Se a corrente foi quebrada, com o estrondo de uma corda dantes bem segurada, não foi o elo entre nós.
Foi dentro de mim.
Mais uma parte perdida, em pedaços partida.

Eu olho para os cacos, há tempos olho para esses, e outros, cacos e ainda não sei como os remendar.

Mesmo com toda força, com toda resistência que adquiri nessa vida, que não foi nada mais que dura, não me sinto capaz.

Não sei como desfazer o que foi feito. Pedaços partidos ficarão para sempre partidos. Podem ser juntados, talvez encaixados e até colados, mas sempre terão aquela cicatriz veemente visível, palpável jamais reparável.

Para que o esforço então...

Eu realmente não sei se o amei...
Sei o quanto foi bom sentir teu fogo, teu calor, tua força bruta de leão.
Ver tua missão, igual diferente da minha;
Conhecer tua vida, tão rude, tão difícil quanto a minha, teus demônios e tua alma… que não é negra como a minha.

Se nos acalentamos por algum tempo, aquecendo com fogo de paixão os cacos de duas carapaças alquebradas, iluminando nossas almas com fogo vermelho aceso pela chama de teu verde olhar. Foi bom... foi mais que bom... e isso é tudo que me permito falar.

Eu tirei minha máscara pra ti, e o que viste não sei...
Sequer sei se quiseste ou tentaste ver alguma coisa.

Eu quis acreditar que sim.

Acho que eu só queria que alguém visse.
Um grito silencioso por socorro... que eu mesma não consigo olhar.

Só agora...
Só agora percebo o verdadeiro motivo de estar prostrada aqui nessa beirada alta.

Não adiantava que fosse visto ou ouvido.
Sou eu que tenho que ver, eu que tenho que enfrentar.
Essa é a tarefa mais difícil, e não posso delegar.

Se for um perdão... seja lá o que for, sou eu que tenho que decidir.

Mas por uma alma já tão quebrada, será que vale a pena tentar?
Por uma alma tão estragada, mascarada, confusa e ilusa existe algo ainda a aproveitar?

Tenho que me livrar da ilusão. Não é por ti leão, nem por obrigação, nem por mais ninguém. Tem que ser por mim, pela águia que vive dentro de mim.
Se há uma alma despedaçada, serei capaz de deixá-la e simplesmente continuar?
Tenho que decidir enfrentar esse abismo que se estende à minha frente.

Sou águia.
E na beira do desfiladeiro preciso decidir:
Deixo-me estar ou um passo mais a dar…
Serei eu nessa tormenta capaz de voar... ou vou apenas despencar?

Talvez eu tenha apenas que tentar, abrir minhas asas nessa beirada alta.
Mesmo que não sejas mais vento lá a me segurar, pela força das batidas das minhas asas devo ser capaz de voar.

Mas isso, só se dessa máscara eu me livrar…


Diana C. Figueiredo

(Diana Lua)

Escrito em: 14/01/2009, 05/06/2012, 05/09/2015 e 13/11/2016 - Publicado: 13/11/2016

Última alteração: 13/11/2016

Contém: 1495 Palavras


Referencias:

[1] Inspirado no poema Tua alma ou a minha?, de minha autoria.

[2] Inspirado em Confissões, de Santo Agostinho.
"Mas eu me dispersei nos tempos cuja ordem ignoro, e os meus pensamentos, vísceras da minha alma, são dilacerados por tumultuosas vicissitudes, até que eu purificado pelo fogo do teu amor mergulho em ti"