Desfiladeiro

Por hábito escrevo:

Cansada, alquebrada nessa beirada alta;
Gelada, relegada pela brisa forte e molhada;
Outra vez me posto neste desfiladeiro.
Se minhas asas fossem reais... que paz...

Mas do voo com aquele vento não mais desfruto...
Outros tempos, outras correntes a soprar.
Essa minha postura fria decidida, no fundo,
Sou apenas pássaro a me deixar levar.

E sim, sou águia, ave de rapina certeira
Nunca deixei ou deixarei de ser;
Foste tua vez e passou...
Foste tua escolha e realizou...

Da torrente quente de volteios e entremeios,
Somente a saudade restou.
De nosso futuro incerto, não existente de fato,
Somente algum pensamento perdido ficou.

Sou águia, falcão, ave de rapina certeira…

No farfalhar de meus rubros cabelos,
Ainda existe um ensejo daquele vento.
Mas na nossa jornada, nossa caminhada,
Sentimentos ficaram perdidos no nevoeiro.

Não há ninguém a culpar;
Somos de livre-arbítrio.
Prata águia ou ouro leão,
Foi nossa, e somente nossa, a decisão.

Tu aceitaste tua obrigação:
Mergulhaste no fundo do desfiladeiro.
Eu ainda estou a imaginar:
Uma metáfora de mim no despenhadeiro.

A vida não passa de uma jornada,
Um incessante buscar, sem nunca encontrar.
É no abismo dentro de mim que devo mergulhar,
É a minha máscara que devo abandonar.

Creio que disse mais do que queria dizer.
As palavras um dia serão salvas, renovadas.
Então, quando vir olhos meus, novamente irei escrever.

Continuo mestra em disfarçar…
Me mascarar e deixar a vida me levar...
Mas a mim, ó águia, não consigo mais enganar.

Sou águia, falcão, ave de rapina certeira…
Foi a minha vertigem que o caminho nublou…

Ao léu encetei, mas se errei meu perdão,
Que pena!
Porém, haver de hão outras centenas...

Pois sou águia, ave de rapina certeira,
E sou vento…
E meu caminho sou quem trilharei…


Diana C. Figueiredo

Diana Lua

Escrito em: 06/08/2010 e 13/11/2016 - Publicado 13/11/2016