Las Vegas, dez horas da manhã.

Daphne alugara um apartamento no centro de Las Vegas, visto que a cidade tornara-se um ponto estratégico para ela em vez de ficar em Ohio. Não conseguiu dormir direito, o primeiro encontro com o Banqueiro após tanto tempo a deixou inquieta. Era como se estivesse desenterrando aquele passado que custou a deixá-lo nas profundezas do esquecimento. As palavras ditas por ele horas atrás voltavam a todo o momento, principalmente aquela: 'Não confie no FBI'. O único motivo da situação não ter mudado foi porque se recusaram a agir, estavam tão envolvidos nisso quanto o próprio Banqueiro. Deviam estar trabalhando para Michael, pensou, e como este morreu sem revelar informações as bases da quadrilha não foram abaladas. Seria fácil para eles substituir seu irmão.

Será que não devia mesmo confiar em ninguém do bureau? Ela lembrou-se do agente Morgan, a pessoa que a melhor tratou nos últimos tempos e que vinha lhe dando algumas informações sobre o caso em seu início. Ultimamente não recebeu quaisquer ligações e muito menos era atendida por ele. Não parecia que o homem a qual pouco conheceu, mas aparentava ser honesto, pudesse ser corrupto; apesar de que ela acreditava que Michael era uma boa pessoa.

David Morgan. Não posso acreditar.

Casa de Kenny, Ohio, 14h15min

A campainha tocou. Na tarde ensolarada e um pouco quente do dia, o rapaz lamentou ao ter que sair do conforto da cadeira acolchoada e do ar condicionado de seu 'escritório'. Ao olhar o monitor das câmeras de segurança, a expressão de raiva logo mudou para espanto. Mal acreditava que estava vendo aquela pessoa; então saiu correndo para atendê-la.

Ele notou o rosto cansado com o qual a mulher se apresentava. Mesmo ela tentando disfarçar mostrando um sorriso era notável a fadiga, até mesmo sua postura lhe denunciava.

"E aí, Daphne, tudo bem? O que devo à esta ilustre visita?" Kenny fez um gesto com a mão para que ela entrasse. "Você não estava em Nevada?"

"Sim, estou bem." A ruiva respondeu com uma voz fatigada "E sim, eu estava lá, mas voltei porque preciso muito que me faça um favor."

"Você ao menos parou para descansar?" Ele argumentou, salientando a expressão do rosto dela.

"Do aeroporto só parei em minha casa para deixar a bagagem e vim direto pra cá." Respondeu dando de ombros.

"Céus, do jeito que você está parece que não sabe mais o que é uma cama!"

O rapaz caminhou até a cozinha e abriu a geladeira para pegar duas garrafas pequenas de cerveja. Ele as abriu e entregou uma para a amiga sentando no sofá logo em seguida. Daphne tomou um longo gole e saboreou a bebida que desceu pela sua garganta. Foi um refrigério para seu corpo e um alívio ainda que fosse por alguns segundos. Ela não descansava direito fazia algum tempo, mesmo antes de se encontrar com o Banqueiro. A vontade em resolver os problemas o mais rápido possível tirava seu sono e sua paz.

"Preciso de sua ajuda com o que estou prestes a fazer."

"Que cara é essa?" Kenny ergueu uma sobrancelha, notando a seriedade em seu rosto "Você não vai roubar um banco ou algo do tipo, não é?" disse após beber um gole.

"Por favor, Ken! Não é um trabalho difícil para você." ela retrucou como se não estivesse a fim de discutir.

"Então você vai mesmo roubar um banco? Mas você não é rica?!"

"É claro que não fazer isso, está doido?"

O rapaz deu de ombros, sorrindo nervosamente.

"Bem, eu estou preocupado com você. Tem estado estranha ultimamente."

Kenny era uma pessoa reservada e de poucos amigos, mas tinha Daphne como grande amiga. Parecia não se importar com as pessoas, mas com ela o rapaz fazia numa exceção.

"Eu estou bem, Kenny." Ela insistiu.

"Isso não me convenceu. Você sabe que sou uma pessoa desconfiada."

Os dois trocaram olhares por alguns segundos como se estivessem numa briga interna. A ruiva não teve escolha, respirou fundo e sentou-se ao lado dele.

"Está bem!" Ela se virou para o amigo e começou a contar toda a história. Disse-lhe todos os detalhes possíveis, dos quais faziam Kenny mudar de expressão a todo o momento. Não podia esconder algo dele, já que praticamente estava envolvendo-o nisso, tudo o que lhe restou foi contar a verdade.

"Por Deus, Daphne!" Exclamou Kenny, quase se engasgando com a bebida "Você enlouqueceu? Trabalhar com aquele homem é se arriscar demais!"

"Muita coisa está em jogo, eu... eu não posso ficar parada sem fazer nada. Se as autoridades não estão agindo, alguém precisa."

"E então vai sair por aí como um vigilante, tipo o Batman?!"

"Vou fazer o que melhor sei: investigar."

"Ah..." ele balançou a cabeça duvidoso "eu não sei, isso me parece muito perigoso. Você é uma detetive e atua junto do seu pessoal, mas ainda assim o que quer fazer vai além de resolver mistérios."

"É perigoso, Kenny." Ela fez uma pausa, balançando a cabeça "Mas não tenho escolha."

"Ok..." Ele voltou seus olhos para o chão.

"Vai me ajudar?" ela perguntou esperançosa.

Após alguns segundos, Kenny se levantou, ficou em pé e a encarou seriamente.

"Fred sabe dessa história?"

A ruiva não queria ouvir esse nome tão cedo. Por mais que o amasse e o quisesse bem, para ela quanto menos seu marido soubesse de seu envolvimento, melhor seria.

Ela foi sincera: "Não, ele não sabe." Respondeu em voz baixa.

"Daphne..." lamentou ele "uma hora ele precisará saber. Ou melhor: ele vai saber de alguma forma."

"E enquanto essa hora não chegar, continuarei assim, quieta." Respondeu decididamente.

O rapaz caminhou de um lado para o outro. A esperança dela ter sua ajuda estava quase abalada. Se não tivesse a ajuda dele, dificilmente poderia continuar com seus planos. Velma era uma opção, mas a ruiva optou por não envolvê-la nisso. Kenny já ajudou-a outra vez e por isso tinha certa chance.

"Olha só, eu vou te ajudar, mas você tem que me garantir que vai tomar cuidado extremo. Entrar no campo da máfia e do FBI é mexer com tubarões famintos."

"Tive uma impressão disso ultimamente."

"Vai me prometer?"

Daphne se levantou e o olhou profundamente nos olhos "Sim, tomarei cuidado."

"Está bem, está bem! Vou te ajudar, mas se a situação ficar no limite do limite eu saio, e você também.

"Temos um acordo." A ruiva assentiu.

"Então tá. Sente aí e me diga o que tenho de fazer."

Daphne retirou sua pequena bolsa de couro preto, e abrindo-a, retirou um smartphone branco de cinco polegadas; de vista parecia ser bem caro e moderno. Ela o entregou para Kenny e disse:

"Preciso que acesse todos os dados disponíveis nesse aparelho."

"Ele não é seu pelo visto..." O rapaz pegou o item e começou a analisá-lo superficialmente.

"É de Michael."

"Hã?" Assustado, ele ergueu uma sobrancelha "Como conseguiu isso? O FBI sabe que você tem-"

"Não, o FBI não sabe, Kenny."

"Isso poderia ajudar na investigação do caso. Se esse aparelho tiver informações vitais, quer dizer que você estaria omitindo provas, Daphne!"

"Como posso acreditar que eles estão fazendo alguma coisa? E se eu entregar isso e eles derem um jeito de se livrarem das provas?"

"Isso foi o Banqueiro quem disse. Quem garante que ele não está mentindo para você?"

Era uma possibilidade. Daphne já tinha suas suspeitas em relação àquele homem, mas ainda assim resolveu confiar nele, tudo para conseguir o que queria. Confiança é uma relação de duas vias; não adianta funcionar somente de um lado.

"Combinamos uma condição. Ao primeiro sinal de traição o acordo termina."

"Parece viável." Ele assentiu.

"Entretanto, do jeito que o Banqueiro age, aposto que seria capaz de tentar me matar caso estiver desconfiado."

"Não parece viável."

"Eu não conheço aquele homem, mal sei o nome dele..." Daphne virou a cabeça para o outro lado "Mas de uma coisa eu sei: ele é um homem bastante perigoso, talvez mais do que Michael foi."

"E você ainda consentiu no acordo?"

A mulher balançou a cabeça expressando um semblante conformado, como se dissesse: Não tinha outro jeito.

"Nas vezes em que falei com ele era como se eu estivesse conversando com a morte. O jeito dele falar, de rir... são impactantes."

"Que droga." O amigo balançou a cabeça meio nervoso "ele sabe da existência desse aparelho?"

"Deve saber. Porém não faz ideia que está comigo."

"Ainda bem. Eu não iria querer ele batendo em minha porta." Dito isso, o rapaz levantou-se do sofá "Bem, agora que já ouvi toda essa bobagem, vou fazer esse trabalho sujo. Vai ficar me devendo uma, Blake."

A ruiva abriu um largo sorriso. Não havia alguém melhor para ajudá-la nisso que ele. Nem Velma, nem Fred.

"Obrigada, meu amigo." Ela se levantou e o abraçou forte.

"Não vai ficar?"

Caminhando até a porta e virou-se para Kenny: "Infelizmente ou felizmente não vou ficar por muito tempo em Ohio. Em breve terei um compromisso com o Banqueiro."