Uma única palavra definia os momentos seguintes: caos. Do porto já não se ouvia outros sons se não os de ambulâncias, caminhões do corpo de bombeiros e helicópteros. Uma equipe médica atendia os feridos menos graves, como David, que por sorte ou ironia do destino saiu do galpão momentos antes de explodir. Os bombeiros, com certa dificuldade, terminavam de apagar as chamas que já duravam duas horas. Por causa da força, ao cair no chão o agente Morgan desmaiou e só ficou consciente quando acordou em cima de uma maca.

"Minha cabeça dói..." Disse o agente tentando se levantar, porém incapacitado.

"Tenha calma, você está ferido." a mulher que o atendia o impediu de se mover.

David olhou o espaço ao seu redor. Estava desorientado, tonto, como se tivesse perdido uma briga feia. O lugar se movimentava, ele podia sentir, o que não percebeu era que estava dentro de uma ambulância.

"Onde estou...?" Perguntou quase sem voz.

"Está na ambulância, a caminho do hospital." A socorrista respondeu, verificando a todo o momento seus sinais vitais e se os equipamentos de atendimentos estavam funcionando.

"Ambulância..."

Ambulância... hospital... galpão... explosão.

Suas memórias estavam retornando do pior jeito possível. Aos poucos se lembrava que estava fora do galpão, da ligação que fez ao chefe, que olhou pela última vez à construção intacta, e depois o clarão que o fez perder a consciência. Também se lembrou que ainda havia gente lá dentro.

"Onde estão os outros?! Ah!" Ele gemeu de dor na cabeça após se exaltar.

"Senhor, preocupe-se apenas com sua saúde." Insistiu a mulher de mais ou menos trinta anos, cabelos castanhos presos num rabo de cavalo.

"Tinha gente... naquele galpão, moça." David lamentou ao pensar nos homens que estavam dentro nos momentos antes do acidente.

O fogo tinha sido controlado; foi preciso usar até um barco para os bombeiros apagarem as chamas. Após umas duas horas, que foi o tempo que as equipes levaram para apagar totalmente o fogo, outra equipe de bombeiros e de médicos entraram no galpão, ou o que sobrou dele.

Apartamento Jade, Las Vegas; nove horas da manhã do dia seguinte.

Era uma quarta-feira, Daphne acabara de acordar, mais cansada que antes. A viagem de ida e volta para Las Vegas deixou-a com ânimo zero. Ao menos tudo estava seguindo conforme planejado: conseguiu o apoio de Kenny, além de ter começado uma relação de "parceria" com o Banqueiro. Sabia que construir uma base de confiança seria a parte mais difícil, levaria tempo e cuidado. Ela estava no caminho certo, até recebeu um telefone para manter contato exclusivo com ele. Tudo estava conforme planejado, porém existiam variáveis, como era de se esperar. Fred era uma delas, a pior.

"Fred..." Ela sussurrou enquanto se preparava para levantar. Mesmo o querendo longe de toda essa história não podia conter a angústia de ter o marido longe dos seus braços, beijá-lo, sentir o seu cheiro, aquela fragrância forte amadeirada que permanecia no seu corpo todas as vezes em que ficavam juntos. Já fazia uns três meses desde que ele viajou para Londres a negócios; pouco contato era feito e por isso ela sentia cada vez mais a sua falta. Mas ela tinha de esquecê-lo no momento para seu próprio bem.

Ainda com seu roupão, ela fez uma omelete para si e um suco de laranja; foi até a cozinha e ligou a TV. Procurou o canal de notícias para estar atenta aos últimos acontecimentos, logo deu de cara com a informação de última hora: um helicóptero sobrevoando uma construção queimada e a chamada era: 'Galpão em chamas após operação da polícia'.

"Problema."

Ela deixou no canal esperando saber mais detalhes sobre o ocorrido, porém aos minutos seguintes seu celular tocou. Correu para pegá-lo justamente porque era o aparelho dado pelo Banqueiro que estava tocando.

"Oi, você soube das notícias?" Agitada, ela perguntou, retornando à cozinha.

"Como não poderia saber, senhorita Blake? O caso está repercutindo em todo o território nacional."

"Isso tem a ver com o que estamos... Investigando, tem?"

"Pelo modo como soube, não tenho dúvidas. Tudo foi orquestrado minuciosamente."

"Como assim? Você quer dizer que... aquilo tudo foi uma armação?" Perguntou perplexa, esquecendo-se de como as pessoas poderiam ser tão cruéis a ponto de planejar algo como aquilo.

"Esse tipo de gente adora fazer um show. E quando envolve policiais mortos e a notícia se espalha pelos quatro cantos, melhor ainda."

"Que ótimo..."

A ruiva balançou a cabeça enquanto ainda observava o canal que continuava a dar detalhes do porto.

"Prepare-se, hoje à noite eu e você nos encontraremos. Mandarei os detalhes em breve."

"Está bem."

Ela terminou a ligação e aumentou o volume da TV. Viu a fumaça saindo do que sobrou do galpão e imaginou quem seria capaz de fazer tal ato. Michael seria capaz, porém está morto. O Banqueiro também seria, mas se estava 'trabalhando' com ela justamente para evitar esse tipo de coisa este não seria suspeito, talvez. Daphne estava no escuro, não tinha ideia de onde e por onde começar, por isso o Banqueiro era sua única chance, seu melhor caminho.

Ao terminar de tomar seu café da manhã enquanto assistia à TV, descobriu que o FBI estava envolvido na fatídica operação. Logo o FBI. Algo de se esperar, mas por que ela sentia que isso não estava certo? Se haviam mesmo agentes corruptos dentro do bureau que estavam nessa rede, então por que foram pegos dessa forma?

David Morgan...

Daphne não tinha certeza sobre a pessoa de David, mas sabia que uma hora a verdade chegaria à ela.

A ruiva seguiu para o banheiro, tomou um banho e completou sua higiene. Logo depois ela pôs um vestido creme com cintura marcada, sem mangas e calçou uma sandália rasteira. Pegou uma bolsa tipo carteira, e ao pegar o celular fez uma pausa de cinco segundos, digitando um número em seguida.

'Aqui é Fred Jones, se estiver ouvindo esta mensagem quer dizer que não posso falar no momento; mas deixe seu recado...'

"Fred? Oi... eu liguei para saber como você está..." ela olhou para a TV, agora desligada, refletindo sobre os últimos acontecimentos "você não tem ligado ultimamente... senti sua falta. Queria saber como está. Eu te amo..." Ela desligou e guardou o celular na bolsa, em seguida saiu.

A hora estava chegando e Daphne tinha que estar preparada. Em poucas horas estaria com o Banqueiro para sabe-se lá o que. Ela não sabia o que ele planejava e procurou não fazer perguntas para o bem dessa estranha relação. Seja lá o lugar e o que iriam fazer, a ruiva deveria tomar todo o cuidado já que estava prestes a entrar num ninho de serpentes ao lado de alguém tão peçonhento quanto Michael.