Fernley, Nevada, uma hora da manhã.

A madrugada havia começado. Longe da zona residencial, já no meio da estrada situada num campo árido típico da região, um mau planejamento por parte do governo local resultou num conjunto de obras abandonadas; edifícios, galpões e até mesmo um posto de gasolina, deixados por autoridades e responsáveis pela construção. Fadados a serem consumidos pelo tempo.

Entretanto, o que seria um aglomerado de concreto e metal esquecido por todos tornou-se um abrigo para quem buscava fugir da realidade e do mundo a fora. O frio e solidão do deserto à noite davam lugar ao calor e à movimentação. Isolamento no meio da estrada longe de problemas, família e principalmente da polícia, o lugar perfeito para loucos. Qualquer desinformado que passasse por ali pensaria que a área estivesse ativada e a todo o vapor. Bem, na verdade estava, mas não do jeito que se pensasse que estava. Haviam muitos carros estacionados ao redor, afinal, espaço não faltava; de modelos simples até os de luxo lançados recentemente. Dava para estimar uns quarenta carros a vista. Policiamento por ali? Se uma viatura passasse, seria para seguir caminho.

Um carro cinza prateado modelo Ford Hybrid chegou ao local. Eram eles. Daphne e seu novo parceiro. O Banqueiro estacionou a uns vinte metros à direita do velho posto, um pouco próximo de outros carros, obviamente para não chamar atenção.

"Fico satisfeito que seguiu minhas recomendações, senhorita Blake, ou melhor, senhorita Jones."

Ela lançou-lhe um olhar irritado, ainda sabendo que ele queria provocar-lhe. Daphne balançou a cabeça em seguida para deixar aquilo de lado, tinha assuntos mais importantes para se preocupar.

A mulher pegou sua bolsa de mão preta que combinava com seu vestido longuete simples de alça fina, tirou dele um espelhinho e viu seu reflexo. Ela estava loira. Ao sair de casa anteriormente, esta havia decidido ir à farmácia e comprar tintura de cabelo. Além disso, comprou lentes de cor preta e uns óculos com lentes retangulares sem grau. Não era um disfarce tão elaborado, mas a escuridão da noite a ajudava.

"Você já sabe o que fazer, não é?" Perguntou o Banqueiro.

"Sim." a mulher respondeu aparentando estar confiante.

"Faça conforme o plano e tudo dará certo."

Em silêncio, Daphne saiu do veículo atentando ao lugar à sua volta. Era um choque entre o vazio e o cheio; o silêncio e o som; a vida e a morte.

Prepare-se Daphne... Pensou consigo mesma.

O Banqueiro deu a partida no carro novamente e saiu do local, deixando-a sozinha. Nervosismo; era a palavra que mais definia o estado da detetive. Em toda sua vida era a primeira vez que fazia algo como aquilo. Nem mesmo quando estava com seus amigos resolvendo mistérios ela encarou algo tão perigoso como estava prestes a fazer.

"Está me ouvindo?" uma voz falou no ouvido da ruiva. Havia um comunicador dentro de seu ouvido para o contato com o Banqueiro.

"Droga, que susto!" ela respondeu tentando disfarçar para não chamar a atenção de qualquer que pudesse estar observando.

"Não estou ouvindo nada, você ainda não se deslocou?"

"Estava pensando por onde começar, se você tiver um pouquinho de paciência eu agradeço." Retrucou irritada.

"O tempo é curto, senhorita."

"Sei disso!"

Após bufar, a mulher apertou o passo em direção às construções. De longe era possível notar a movimentação mesmo com a má iluminação causada por postes de luz improvisados. Mesmo não sabendo de onde vinha a origem da música, sentia-se como se a caixa de som estivesse ao seu lado; Eram várias batidas e efeitos de som que poderiam incomodar pessoas a uma longa distância. Os que estavam 'curtindo' a festa mal conseguiam perceber o mundo ao seu redor, pois estavam alterados demais, em todos os sentidos.

Ao chegar mais perto das construções inacabadas Daphne começou a se sentir mal. A mistura do som, movimento e odores diversos mexiam com seu corpo e mente de um jeito em que perdia o próprio equilíbrio. É claro que nos seus tempos de juventude ela encarou festas que envolviam música alta e bebida e até mesmo drogas; porém aquilo extrapolava os limites aceitáveis. Daphne imaginava ter saído do mundo real e chegado a uma das cenas de O Congresso Futurista. Logo ao chegar ela observou algumas pessoas sentadas ou deitadas no chão como se estivessem desacordadas. Viu gente fumando o que parecia ser maconha e cigarro; um homem e uma mulher fazendo sexo explicitamente e quase no meio da 'rua'; um rapaz sentado e encostado em uma das paredes das construções com um olhar distante, sendo que era possível notar uma seringa ao seu lado pelo reflexo da luz que emitia.

Drogas, bebidas, sexo. Aquele espaço no meio de uma estrada em Fernley parecia mais uma casa noturna de Vegas. Faltavam apenas os velhos e clássicos jogos.

"E agora, Banqueiro?" ela perguntou com ênfase em seu nome "Como acho esse tal de Big D?"

"Repassando: Estamos aqui, pois tenho informações seguras que esse rapaz é conhecido por agir nessa região."

"Eu sei disso, Banqu-"

"Homem de 1,70m com estatura média, moreno, 26 anos. Possível suspeita de que ele esteja carregando cocaína em pó e outra substância não identificada."

"Grande ajuda." Respondeu sarcasticamente.

"Pense, senhorita Blake. Big D estará cercado ou no meio de usuários. Pelo grande número de pessoas presentes, é mais fácil eles irem até o homem."

"Que ótimo..."

"Nunca disse que seria fácil, senhorita Blake."

A ruiva, ou melhor, a loira balançou a cabeça e 'partiu para a luta'. Entrou no primeiro prédio que achou. Uma construção ampla de dois andares, apenas. Viu o que seria um espaço de trabalho se transformar em uma casa noturna refinada, até; luzes coloridas piscando sem parar, um balcão personalizado com estante improvisada repleto de bebidas com direito a barman. Num primeiro momento sentiu-se desconfortável ao esbarrar em tanta gente. Chegou até o bar, observou tudo de incomum ao seu redor. Tudo.

Tentou conversar com alguns que pareciam estar sóbrios, mas estes ou não sabiam de alguma coisa ou se faziam de inocentes. Parecia ironia. Uns trinta minutos depois após checar os dois andares ela foi embora, decepcionada. Ainda havia outros lugares repletos de gente.

"Você deveria estar aqui comigo. Até eu procurar por tudo serão horas! Quando amanhecer ninguém estará em condições de falar alguma coisa e o homem irá embora!"

Daphne não ouviu uma resposta sequer por dois minutos. Pareciam intermináveis, tanto que pensou estar sozinha.

"Tente o prédio mais ao norte. Pelo que percebi há um grande fluxo de pessoas ao redor."

"A meu ver todos os prédios tem um grande fluxo de pessoas, Banqueiro."

"Confie em meu palpite, senhorita Blake. A não ser que gostaria de passar algumas horas conhecendo gente nova."

"Ah..." disse após respirar fundo, "céus."

Então seguiu para o tal prédio falado por ele. Já estava irritada em ficar perto daquela gente, mas aí se lembrava que poderia haver pessoas que precisavam de ajuda, que estavam ali apenas para se livrar, — mesmo que fosse por algumas horas — dos problemas da vida real.

Se não o encontrasse, daria um jeito de terminar essa 'desastrosa' missão e sair dali, com o Banqueiro ou não. Logo de cara já viu que o lugar era bem diferente dos outros, mostrando um aspecto mais 'organizado'. Percebeu isso ao ser barrada por um homem branco que vestia roupas pretas, bem musculoso e um pouco mais alto que ela; o mesmo estereótipo de segurança. Esse era o motivo de tantas pessoas estarem concentradas ali na frente, o prédio abrigava uma festa vip.

"E aí, docinho, cem pratas." Disse o homem revelando os olhos vermelhos e o aparente cansaço.

Essa droga nem ao menos é regularizada!

A mulher não teve escolha. Ela nunca havia ido ao local antes e não queria arranjar encrenca. Abriu sua bolsa e retirou uma única nota de cem dólares. Entregou com muito desgosto, mesmo sendo rica.

"Uau." disse com surpresa. O lugar era digno de Vegas; ambiente climatizado, um jogo de luzes sofisticado e um verdadeiro open bar. Ao encarar aquilo tudo até se sentiu um pouco melhor. Anos atrás poderia ter curtido um pouco com seus amigos. Mas não estava ali para aproveitar, pelo contrário.

Começou sua caçada pelo homem. Presumiu que ele não estaria na pista de dança caso quisesse faturar alguma coisa, então foi para os cantos onde houvesse certo número de pessoas. Tentou puxar conversa com algumas mulheres que pareciam estar nem aí para a loira. Elas dançavam sem parar como se nada mais importasse.

"Ei garotas, vocês conhecem um tal de Big D?" ela perguntou em voz alta por causa da música. Ainda tentou se manter no ritmo enquanto era quase prensada por outros.

Daphne tentou a mesma tática por várias e várias vezes até chegar ao bar com a exaustão latejando em seu corpo e mente. Após tentativas fracassadas de procurá-lo ela parou em um canto e levou a mão à cabeça. Estava quase desistindo de ficar naquele maldito espaço.

"Uísque, por favor." Disse ela ao barman após sentar no banquinho.

Em poucos segundos o homem a serviu e ela tomou num gole só a bebida. Com certeza na manhã seguinte acordaria com uma dor de cabeça mesmo sem estar embriagada.

"Deve ser por isso que essa gente se enche de droga. É impossível ficar sóbrio aqui." Comentou consigo mesma. Depois se virou e pediu mais um drink, mas dessa vez saboreou a bebida, observando as pessoas ao seu redor.

Um pouco mais disposta ela pode ficar mais concentrada nos rostos que eram quase totalmente ofuscados pelas luzes. Com tanto cuidado que tomava para disfarçar e se misturar à multidão, acabou não percebendo que estava sendo observada.