O rapaz não tirava seus olhos dela. Analisava cada movimento com cautela e minúcia. Havia algo nela que lhe chamava a maldita atenção. Ela não parecia ser dali, também imaginava que a mulher nunca apareceu no lugar pelo modo como se comportava. A loira de óculos agia como se fosse uma estranha no ninho, uma criatura num território hostil, seu território.

Esse homem estava cercado por duas lindas mulheres, ambas morenas e de um corpo desejável, estilo modelo de passarela. Sentados em um sofá, os três saboreavam uma taça de champagne enquanto conversavam sobre assuntos quase ou totalmente íntimos. No meio delas, ele as envolvia em seus braços lançando-lhes sem parar cantadas um pouco maldosas até. Mas quem se importaria? Agir como certinho seria a última coisa que fariam naquele lugar. Nele não haviam regras, tudo era liberado e ninguém sabia de nada.

O rapaz achava ao lado do bom e do melhor que a casa poderia oferecer até que fitou seus olhos na mulher loira. Foi atraído por um feitiço da bruxa mais linda que seu olhar de poucos segundos pôde encontrar. Ele tentou visá-la novamente entre a multidão que passava o tempo todo. Tinha medo de perdê-la para sempre sem ter tido a oportunidade de trocar uma palavra, ou algo mais. Esqueceu-se até das mulheres ao seu lado, das quais uma lhe chamou a atenção.

"Esperem aí amorzinhos, tenho de resolver um negócio." Respondeu ele sem vergonha alguma, aproveitando para beijar a bochecha da mulher à sua esquerda.

Aquela era sua chance de encontrar com a loira misteriosa sem ter que abandonar as outras duas. Estava sendo seu dia de sorte, e se conseguisse algo mais que uma simples conversa seria o melhor dia de sua vida.

"Talvez você tenha se enganado." Daphne disse um para o homem que não via. Sua voz estava claramente num tom decepcionado e cansado.

Ela olhou para o pequeno relógio de ponteiro prateado em seu pulso esquerdo: três e quinze da manhã.

"Eu deveria ter descansado antes..." falou consigo mesma, lançando um sorriso irônico.

Novamente ela se virou para o barman que atendia a outras pessoas. Gritou por ele e sem reservas pediu:

"Me manda qualquer coisa com energético, por favor."

"Senhorita Blake, não sabia que era uma apreciadora de bebida alcoólica."

"Ah, então você ainda está aí."

"Devia maneirar na bebida."

Daphne pegou o copo e bebeu quase metade do conteúdo.

"Não me diga o que fazer, tá bem? Estou cansada e com sono. Não aguento mais ficar nessa po-"

"Você é nova por aqui?" Disse uma voz peculiar.

De repente a mulher se engasgou, afastando o copo de bebida para alguns centímetros.

A moça levou um susto, reagiu surpresa ao sentir um toque em seu ombro esquerdo. Ergueu as sobrancelhas, e virou-se rapidamente para ver o homem ao seu lado. Ele era um pouco baixo, mais ou menos da altura dela, com cabelos pretos curtos, rosto triangular e ombros largos. Não dava para descrever muita coisa, as luzes que piscavam sem parar atrapalhavam sua percepção. Vestia uma camisa escura, jaqueta preta calças jeans e tênis.

"Por que a pergunta?" Indagou sem dar muito crédito.

"Não tinha como deixar de notar uma mulher tão linda no meio de tanta gente e ainda assim estar sozinha." Ele aproveitou que o banco ao lado esquerdo estava vazio e sentou ao seu lado.

"Tem muita gente aqui , e você conseguiu me notar."

"O que posso fazer, quando o destino quer que duas pessoas se encontrem, não há como evitar."

Daphne soltou uma leve risada após balançar a cabeça.

"Admito que não estou acostumada a lugares assim." Ela olhou para os lados, observando toda aquela movimentação.

"Então por que está aqui?" O rapaz deu uma leve risada, pedindo uma vodka para o barman.

Ela o encarou mais atentamente. Ele não tirava os olhos de seu corpo, principalmente de seus seios, e quando Daphne percebia o rapaz logo voltava seu olhar para o rosto. Devia ser mais um pervertido. Resolveu então entrar na onda dele para ver no que daria.

"Quero experimentar coisas novas, fugir um pouco da realidade."

"Fugir?" Ele ergueu as sobrancelhas, expressando surpresa.

"O que, você tem algo diferente para mim?" A mulher perguntou sugestivamente.

"Bem... eu tenho, mas teria que te mostrar num lugar mais... reservado."

Tão previsível...

"Ah, eu ainda não estou tão convicta nisso."

"Vamos!" o rapaz deslizou lentamente sua mão no braço dela "Vai ser legal, eu prometo."

Um breve momento de silêncio entre os dois, cercados pelo massivo som que vinha da balada.

"Que, idiota eu sou, nem me apresentei. Sou Donnie, mas a galera me chama de Big D."

Daphne franziu a testa. Que merda. Era como se o destino tivesse agraciado-a por ter se empenhado tanto na busca por este indivíduo que praticamente se lançou para ela.

A detetive precisava manter a calma, agir como se não estivesse surpresa ou procurando por ele.

"Big D, é? Por que será...?" Ela sorriu maliciosamente, e falou em alto e bom som para que o Banqueiro escutasse. "Catherine, ou Cat para os mais íntimos."

"Eu nunca me engano." Falou o grisalho.

"Ah... Catherine." Quase sussurrou "Venha comigo e descubra." Donnie estendeu sua mão gentilmente para ela.

Daphne não demorou muito e atendeu a seu pedido, segurando-a:

"Que tal você vir comigo?"

"Sei de um bom lugar por aqui mesmo, não vamos nos dar o trabalho de sair, não é?"

"Achei que gostaria de ficar um tempo comigo... a sós, num lugar mais reservado e quieto... assim poderíamos ouvir um ao outro." Contou-lhe sedutoramente. Nem mesmo ela acreditou que pudesse falar assim.

"Ah..." Donnie claramente estava hesitante. Sabia que não podia saber dali por questões de 'trabalho' e segurança.

"Quer saber?" A mulher se levantou "Esqueça. Achei que estivesse interessado em me mostrar algo novo... Azar o seu."

Daphne apostou o 'tudo ou nada'. Se ele a ignorasse, a mulher iria se arrepender pelo resto da vida por não ter escolhido uma abordagem mais persuasiva. Ela contava com o desejo carnal dele e tentou usar para conseguir vantagem.

Três passos depois o cachorrinho voltou.

"Não, não, espera!" ele a segurou pelo braço. Instintivamente Daphne fez um movimento para se livrar dele, sem muita violência. Donnie ergueu as mãos num gesto de desculpas.

"Gata, foi mal, como eu poderia deixar uma garota como você ir embora assim."

"Hum, parece que o bom senso falou mais alto." A mulher cruzou os braços.

Bom senso, até parece.

"Mas então, me diga pra qual lugar você quer me levar." Rapidamente o rapaz ficou atrás dela e começou a acariciar os seus braços, o que a deixo extremamente desconfortável. No pior momento possível a lembrança de Fred veio à mente. Aquilo não era traição, mas de alguma forma, sentia que fosse.

Porém não poderia deixar tudo a perder.

"Estou atrás do prédio, senhorita Blake."

"Isso é um segredo." Afastando-se um pouco dele, a detetive puxou-o pelo braço e levou-o consigo para fora da improvisada boate.

"Não vamos muito longe, ok, eu-"

A mulher o interrompeu virando-se para ele e lançando-lhe um olhar aguçado, como se o mandasse ficar em silêncio.

"Tá bem, eu fico quieto." Ele abriu um largo sorriso "Mas depois quero ouvir você falar bem no meu ouvido."

Aquelas palavras lhe deram calafrios. Ela estava quase lá, não podia perder o foco, não devia.

"Estamos quase lá." Daphne assentiu.

Chegaram, enfim à parte de trás do prédio. Estava escuro como de se esperar. Não se viam muitos carros, movimentação zero de pessoas. Mal iluminado, parecia cenário de filme de terror, o último lugar que alguém gostaria de passar sozinho.

"Por que não me disse que este era o lugar?" ele caminhou uns passos à frente, encostando-se à parede dos fundos do prédio.

"Falei que era um segredo." A mulher seguiu até ficar de frente a frente para ele.

Donnie não esperou e a pegou pela cintura, encarou-a por alguns segundos e começou a beijar seu pescoço.

Desgosto. Era o que sentia no momento. E novamente a imagem de Fred voltava à tona.

"Vamos com calma, garotão." Empurrou-o levemente para se soltar. "Por que você não se vira já que também tenho algo a lhe mostrar."

Donnie ergueu uma sobrancelha, parecia desconfiado.

"Confie em mim." Sorriu, deslizando sua mão direita até chegar ao cinto de sua calça. Vendo aquilo o rapaz não esperou e logo fez o que lhe foi pedido.

"Sabe, Catherine, eu mal conheço você, mas gosto muito desse seu jeito." Tentando parecer provocativo, ele encostou as duas mãos na parede.

"Que bom, Donnie, assim vai facilitar bastante o meu trabalho."

Click. Um som bastante conhecido. O famoso barulho ocorrido antes do momento fatal.

Havia uma arma apontada para o pescoço de Big D, mais precisamente um revólver calibre 38. Ele não percebeu que ao virar-se de costas, Daphne teve tempo de se afastar, abrir sua bolsa e retirar a pequena arma que estava carregada, a propósito.

"Epa, epa, epa, o que tá acontecendo?" perguntou ele, tentando se virar.

"É melhor ficar parado." Alertou a mulher não demonstrando hesitação.

"Vadia." Donnie cuspiu no chão. "Eu devia ter desconfiado quando me trouxe pra cá." "Eu devia-"

"Devia o quê, Big D?" A detetive aproximou a arma para mais perto dele, havia raiva em sua voz "Me ensinar uma lição? Quer bater em mim pra me castigar? É isso, Donnie?!"

Ele não respondeu, tentou segurar a voz.

"Fala seu desgraçado!" Então pressionou o cano da arma em sua nuca. Donnie pode sentir o frio do metal tocando em sua pelo o que deu calafrios.

"Não."

Uma voz diferente surgiu, o que fez a loira mudar rapidamente de posição e olhar para trás.

"Você..." Ela balançou a cabeça.

"Bom trabalho em trazê-lo aqui. Admito que estou impressionado com sua estratégia." Comentou ao observar o estado do homem à sua frente.

Banqueiro. Chegou bem na hora.

"Conte outra." Ela baixou a arma.

O grisalho se dirigiu para Donnie que permanecia naquela posição.

"Eu achava que você era mais esperto. Deixou-se levar por uma proposta de sexo com uma desconhecida. Bem típico de gente como você."

"Vai à merda!" Exclamou, sem aparentar medo "Eu já fiquei na mira de arma antes, não é agora que vou arregar pra espertinhos."

Logo ele sentiu a pressão de uma arma em sua cabeça novamente, desta vez uma pistola 9mm.

"Escute aqui, Donald Kempton, não estou num bom humor hoje." Disse naquela fria e rígida voz o Banqueiro "Sei sobre sua vida; onde mora, onde trabalha, sei também de seus ativos recentemente. Você trafica drogas por aqui, é o principal vendedor nesse fim de mundo. O que quero saber é onde tem arranjado essa substância nova que tem distribuído pros riquinhos ficarem doidões." Ele terminou falando ao pé de seu ouvido, como se o ceifeiro estivesse próximo de tomar sua vida.

"Se sabe tanto sobre mim, se vira pra saber onde eu consigo isso, seu puto."

Usando o antebraço, o Banqueiro pressionou a nuca dele contra a parede. Daphne nunca o viu nervoso daquele jeito, até ficou distante daquela cena.

"Pode nos dar licença, senhorita?" Ele virou o rosto para Daphne que assistia-o em silêncio.

O melhor seria não se envolver, deixar que o homem resolvesse a situação. Mesmo que parecesse errado.

Em silêncio ela andou em direção ao carro, que estava um pouco longe do local onde se encontravam. E esperou.

"Ah... céus..." balançou a cabeça e depois encostou no automóvel. Olhou para a mão que carregava a arma e refletiu: até que ponto ela havia chegado? E aquilo era apenas o começo.

Já estava envolvida nisso até o pescoço. Num mar de lama que, se não tivesse cuidado, se afogaria fatalmente.

Uns dez minutos se passaram. Daphne estava ansiosa e apreensiva. Queria voltar ao local para saber o que havia acontecido. Será que o Banqueiro matou Donnie? Se o fez não teria sido com a arma já que ouviria o som. Quebrou seu pescoço? Tirou sua vida sufocando-o?

Se acalme, Daph!, pensou.

Logo o Banqueiro estava de volta e carregando o mesmo sorriso tenebroso de antes. Chegou até a procurar sangue em seu terno e calça social por precaução, porém estavam tão limpos quanto antes.

"O que aconteceu?"

Ele desbloqueou o carro e entrou. Irritada, fez o mesmo em seguida.

"Não vai me falar? Achei que estávamos tentando construir uma relação de confiança!"

O Banqueiro enfiou a chave na ignição e virou-se para ela. Sorriu, mas de um jeito diferente; parecia uma mistura de cansaço e satisfação, como se mostrasse outro rosto.

"Digamos que consegui a informação desejada."