Adaptação da obra literária de Sarah McLean. Personagens de Stephenie Meyer.


PRÓLOGO

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"Se sou uma imperatriz, ele é o único homem digno de ser meu imperador."

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Londres, Inglaterra

Abril de 1813

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Lady Isabella Swan piscou para conter as lágrimas ao fugir do salão de baile da Casa Worthington, o local de seu mais recente e devastador constrangimento. Enquanto descia correndo os largos degraus de mármore, o desespero encurtando seus passos e impulsionando-a para as sombras dos vastos jardins escuros, era envolvida pelo bem-vindo ar da noite, fresco com a promessa da primavera. Uma vez fora de vista, soltou um longo suspiro e diminuiu a velocidade, finalmente a salvo. Sua mãe ficaria lívida se descobrisse a filha mais velha do lado de fora, sem uma acompanhante, mas nada poderia ter mantido Bella dentro daquele salão horrível.

Sua primeira temporada fora um fracasso completo.

Não fazia nem um mês que havia debutado. Filha mais velha do conde e da condessa de Swan, Bella deveria ser, por direito, a bela do baile. Fora criada para essa vida – um mundo de danças graciosas, modos perfeitos e beleza estonteante. Era aí que morava o problema, claro. Bella podia até dançar bem e ter modos impecáveis, mas ser uma beldade? Era pragmática demais para acreditar nisso.

Eu devia ter imaginado que ia ser um desastre, pensou, ao se deixar cair em um banco de mármore logo na entrada do labirinto de sebe dos jardins de Worthington.

Passara três horas no baile e não havia sido tirada para dançar por um pretendente que fosse minimamente pretendível. Após dois convites feitos por célebres caçadores de fortunas, um de um chato absoluto e outro de um barão que não podia ter menos que 70 anos, Bella não conseguira mais fingir alegria. Estava claro que, para a alta-roda, ela não valia muito mais do que seu dote e sua linhagem – e nem isso era suficiente para proporcionar uma dança com um par de quem pudesse gostar. Não, a verdade era que Bella havia passado a maior parte da temporada sendo ignorada pelos solteiros disponíveis, jovens e cobiçados.

Ela suspirou. Esta noite fora a pior. Como se não bastasse ser visível apenas para os chatos e os velhos, nesta noite ela sentira os olhares da alta sociedade.

– Nunca deveria ter deixado minha mãe me colocar no meio desta monstruosidade – resmungou para si mesma, baixando os olhos para o vestido com a cintura apertada demais e o espartilho pequeno além da conta, incapaz de conter seus seios, um pouco maiores do que a moda ditava. Tinha certeza de que nenhuma bela do baile jamais fora coroada em um tom tão vibrante de tangerina ao pôr do sol. Ou com um traje tão horrendo, diga-se de passagem.

O vestido, sua mãe lhe garantira, era o auge da moda. Quando Bella sugerira que não cairia bem em sua silhueta, a condessa afirmara que a filha estava enganada. Bella ficaria deslumbrante, prometera a mãe, enquanto a modista se movia depressa em volta dela, cutucando-a, espetando-a e espremendo-a dentro da roupa. E, ao observar a transformação no espelho da costureira, começara a concordar com as duas. Estava deslumbrante. Deslumbrantemente horrorosa.

Abraçando-se com força para afastar o frio da noite, Bella fechou os olhos, mortificada.

– Não posso voltar. Vou ter que viver aqui para sempre.

Uma risada grave soou das sombras e Bella se levantou com um solavanco, arfando, surpresa. Ela se aprumou e tentou acalmar o coração disparado, distinguindo de relance a silhueta de um homem. Falou antes que pudesse pensar em fugir, deixando que a aversão por toda aquela noite permeasse seu tom.

– O senhor não deveria se aproximar sorrateiramente das pessoas no escuro. Não é próprio de um cavalheiro.

Ele respondeu depressa, envolvendo-a com a voz grave de tenor:

– Peço desculpas. É claro que poderia argumentar que espreitar na escuridão não é exatamente próprio de uma dama.

– Ah. Nisso o senhor está enganado. Não estou espreitando na escuridão. Estou me escondendo nela. Algo inteiramente diferente.

Bella se enfiou de novo nas sombras.

– Não vou entregá-la – prometeu ele, baixinho, lendo sua mente enquanto avançava. – É melhor se revelar. Está completamente encurralada.

À medida que o homem se aproximava, Bella sentiu a sebe espinhosa atrás de si e percebeu que ele tinha razão. Suspirou, irritada. Quão pior esta noite pode ficar? Naquele exato momento, o homem entrou em uma nesga de luar, revelando sua identidade, e ela teve sua resposta. Muito pior. Estava na companhia do marquês de Cullen – charmoso, devastadoramente lindo e um dos mais notórios libertinos de Londres. Sua reputação só era páreo para o sorriso imoral, que estava voltado diretamente para Bella.

– Ah, não – murmurou ela, incapaz de afastar o desespero da voz.

Não podia deixar que ele a visse. Não assim, embalada feito um peru de Natal. Um peru de Natal cor de tangerina ao pôr do sol.

– Qual o problema, mocinha?

Ainda que preguiçoso, o tratamento gentil, enquanto a jovem procurava à sua volta por uma rota de fuga, tocou seu coração. O marquês estava perto o bastante para encostar nela, avultando-se acima de Bella, uns bons quinze centímetros mais alto do que ela. Sentiu-se pequena pela primeira vez em muito tempo. Delicada, até. Tinha que fugir.

– Eu... Tenho que ir. Se me encontrarem aqui... com o senhor... – deixou a frase por terminar.

Ele sabia o que iria acontecer.

– Quem é a senhorita? – Os olhos do marquês se franziram na escuridão, analisando os ângulos suaves do jovem rosto. – Espere... – Ela imaginou o brilho de reconhecimento em seu olhar. – É a filha de Swan. Eu a notei mais cedo.

Bella não pôde conter uma resposta sarcástica:

– Não tenho nenhuma dúvida, milorde. Seria realmente muito difícil me ignorar. – E cobriu a boca assim que falou, assustada por seu tom presunçoso.

Ele deu uma risadinha.

– É. Bem, não é dos vestidos mais interessantes.

Bella não conseguiu segurar o riso.

– Que diplomático da sua parte. Pode admitir. Pareço demais com um damasco.

Dessa vez, o marquês soltou uma gargalhada.

– Uma comparação adequada. Mas fico imaginando: será que há um ponto em que alguém se parece o suficiente com um damasco?

Ele fez um gesto para que ela retomasse seu lugar no banco e, após um momento de hesitação, Bella aquiesceu.

– Provavelmente não. – E abriu um largo sorriso, surpresa por não estar nem de perto tão humilhada com a concordância dele quanto seria de imaginar. Na verdade, a sensação foi bastante libertadora. – Minha mãe morre de vontade de ter uma filha que possa vestir como uma boneca de porcelana. Infelizmente, nunca vou ser essa pessoa. Não vejo a hora de minha irmã debutar e desviar a atenção para ela.

Cullen se juntou a Bella no banco e perguntou:

– Quantos anos tem a sua irmã?

– Oito – respondeu ela, pesarosa.

– Ah. Não é o ideal.

– Um belo de um eufemismo. – Bella ergueu os olhos para o céu estrelado. – Não, quando ela finalmente for apresentada à sociedade, vou estar acostumada à solteirice há muito tempo.

– O que a faz ter tanta certeza disso?

Bella lançou uma olhadela enviesada para o marquês.

– Apesar de gostar do seu cavalheirismo, milorde, essa ignorância fingida nos insulta a ambos. – Na ausência de uma resposta, a jovem fitou as mãos e acrescentou: – Minhas opções são um tanto limitadas.

– Como assim?

– Pelo jeito, posso escolher entre os pobres, os velhos e os mortalmente chatos – respondeu ela, marcando as categorias com os dedos ao falar.

Ele deu uma risadinha.

– Acho difícil de acreditar.

– Mas é verdade. Não sou o tipo de moça que os cavalheiros perseguem. Qualquer um que tenha olhos pode ver isso.

– Tenho olhos. E não vejo nada disso.

Ele baixou a voz, adotando um tom suave e macio como veludo, e estendeu a mão para acariciar a bochecha da jovem. A respiração dela falhou e Bella se espantou com quanto estava ciente do próprio corpo naquele momento. Em seguida, inclinou-se para perto da mão dele, incapaz de resistir, enquanto o marquês a movia para segurar seu queixo.

– Qual é o seu nome? – perguntou, baixinho.

Ela estremeceu, sabendo o que viria a seguir.

– Isabella*.

*No original, Calpúrnia (então, vamos fingir que Isabella era o nome da Imperatriz e esposa de Cesar, assim como a personagem da obra de Shakespeare).

Então fechou os olhos por vergonha do nome extravagante; um nome que só uma mãe incorrigivelmente romântica e com uma obsessão doentia por Shakespeare pensaria em dar como fardo para uma criança carregar.

– Isabella. – Ele testou o nome na língua. – Como a esposa de César?

O rubor aumentou enquanto ela assentia. Ele sorriu.

– Devo me assegurar de conhecer melhor os seus pais. Trata-se de um nome, no mínimo, ousado.

– É um nome horrível.

– Bobagem. Isabella foi imperatriz de Roma, era forte, linda e mais inteligente do que os homens à sua volta. Viu o futuro e se manteve firme frente ao assassinato do marido. É um nome maravilhoso – afirmou, ainda segurando firmemente o queixo dela.

Diante do discurso sincero, Bella ficou muda. Antes que tivesse chance de responder, o marquês continuou:

– Agora tenho que ir. E a senhorita, lady Isabella, deve voltar para o salão de baile de cabeça erguida. Acha que pode fazer isso?

Ele deu um tapinha final no queixo dela e ficou de pé, deixando-a decepcionada com sua partida. A jovem se levantou com ele e assentiu, sonhadora.

– Sim, milorde.

– Muito bem. – Então ele se aproximou e sussurrou, o hálito soprando os pelos em sua nuca e aquecendo-a no ar frio da noite de abril: – Lembre-se, é uma imperatriz. Comporte-se como uma e as pessoas não terão opção que não a enxergar como tal. Eu já posso ver... – ele fez uma pausa e Bella prendeu a respiração, esperando –...Vossa Alteza.

E, com isso, partiu, desaparecendo no labirinto e deixando-a com um sorriso bobo no rosto. Bella não pensou duas vezes antes de segui-lo, tão entusiasmada estava para ficar perto dele. Naquele momento, o teria seguido a qualquer lugar, aquele príncipe entre os homens que prestara atenção nela, não em seu dote ou em seu vestido horroroso, mas nela!

Se sou uma imperatriz, ele é o único homem digno de ser meu imperador.

Não teve que ir longe para alcançá-lo. Alguns metros adiante, o labirinto se abria em uma clareira com um grande e cintilante chafariz adornado com querubins. Lá, banhado por um brilho prateado, estava seu príncipe, os ombros largos e as pernas longas. A jovem prendeu a respiração ao vê-lo – primoroso, como se ele próprio fosse esculpido em mármore.

E então percebeu a mulher em seus braços. Bella abriu a boca em um arfar silencioso, levando as mãos aos lábios enquanto arregalava os olhos. Em todos os seus 17 anos, nunca testemunhara algo tão... maravilhosamente escandaloso. O luar envolvia a amante dele em uma luz etérea, o cabelo louro transformado em branco, a gaze de seu vestido clara na escuridão. Bella voltou para as sombras, espiando pela beirada da sebe, quase desejando não o ter seguido, absolutamente incapaz de desviar o olhar daquele enlace. Nossa, como se beijavam.

E, bem no fundo de seu estômago, a surpresa juvenil foi substituída por uma chama lenta de inveja, pois nunca em toda a sua vida quisera tanto ser outra pessoa. Por um momento, permitiu-se imaginar que era ela nos braços do marquês, que os dedos longos e delicados que corriam pelo cabelo escuro e brilhante eram os seus, e que era o seu corpo pequeno que as mãos fortes dele acariciavam e modelavam, e os seus lábios que ele mordiscava, e os seus gemidos que fluíam pelo ar noturno, arrancados por aquelas carícias.

Ao ver os lábios dele descerem pelo longo pescoço da mulher, Bella correu os dedos pelo mesmo caminho no próprio pescoço, levada pela tentação de fingir que o toque leve como pluma era dele. Ficou olhando a mão do marquês subir pelo corselete liso e curvilíneo da amante e agarrar a ponta do decote delicado, puxando-a para baixo e desnudando um seio pequeno e arrebitado. Ao fitar o montinho perfeito, os dentes do marquês brilharam num sorriso malicioso e, com uma única palavra – "Lindo" –, ele levou os lábios até a extremidade escura e enrijecida pelo ar frio e o abraço quente. Sua amante jogou a cabeça para trás em êxtase, perdendo-se no prazer naqueles braços, e Bella não conseguia desviar os olhos do espetáculo, roçando a mão junto ao próprio seio, sentindo a ponta endurecer sob a seda do vestido, imaginando que era a mão dele, a boca dele, nela.

– Cullen...

Sussurrado em meio a um gemido feminino, o nome varou a clareira, despertando Bella de seu devaneio. Atônita, ela abaixou a mão e se afastou com um rodopio da cena na qual havia se intrometido. Correu pelo labirinto, desesperada para escapar, e parou mais uma vez no banco de mármore onde seu passeio pelo jardim havia começado. Ofegando, tentou se recompor, abismada com seu comportamento. Damas não espionavam. E certamente não espionavam daquela maneira.

Além do mais, fantasias não ajudariam em nada.

A jovem afastou uma pontada devastadora de tristeza conforme era dominada pela realidade. Nunca teria o magnífico marquês de Cullen, nem ninguém como ele. Encheu-se de uma certeza absoluta de que as coisas que ele lhe dissera mais cedo não eram verdade, mas sim as mentiras de um sedutor inveterado, escolhidas com cuidado para acalmá-la e dispensá-la casualmente, facilitando o encontro no escuro com sua beldade arrebatadora. O marquês não acreditava em nenhuma palavra do que dissera.

Não, ela não era Isabella, imperatriz de Roma. Era a mesma Bella sem graça que sempre fora. E que sempre seria.


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