Personagens de Stephenie Meyer. História de Sarah McLean.


CAPÍTULO UM

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"Se quisermos que isso dê certo, temos de nos portar com a mais absoluta discrição."

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Londres, Inglaterra

Abril de 1823

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Ele acordou com o barulho de murros insistentes. Ignorou-os a princípio, o sono turvando a fonte do ruído irritante. Houve uma longa pausa e um silêncio denso recaiu sobre o quarto.

Edward Masen, marquês de Cullen, observou a luz da alvorada banhando o aposento luxuriosamente decorado. Permaneceu imóvel por um instante, assimilando os matizes ricos do quarto adornado com papéis de parede de seda e detalhes dourados, um refúgio extravagante de prazer sensual. Esticando o braço para a mulher exuberante ao seu lado, um meio sorriso brincou em seus lábios, conforme ela moldava o corpo nu e disposto ao toque dele. O calor daquele contato, aliado ao fato de ser ainda tão cedo, o fez voltar a um estado de torpor.

Ficou deitado, os olhos fechados, correndo a ponta dos dedos indolentemente pelo ombro nu da companheira de cama, enquanto uma graciosa mão feminina acariciava a superfície rígida de seu torso, a direção da carícia era uma promessa erótica obscura. O toque dela ficou mais forte e firme, e ele recompensou suas habilidades com um rosnado grave de prazer.

E os murros recomeçaram – altos e constantes na pesada porta de carvalho.

– Já chega!

Edward se ergueu da cama da amante, pronto para aterrorizar o intruso e fazer com que ele o deixasse em paz pelo restante da manhã. Mal havia vestido o roupão de seda, abriu a porta com um palavrão raivoso. Deparou-se com o irmão gêmeo, impecavelmente vestido como se fosse muito normal procurar um parente na casa da amante ao raiar do dia. Atrás de Anthony Masen, um criado gaguejava:

– Milorde, fiz o que pude para impedi-lo de...

Um olhar gélido de Edward deteve as palavras do homem.

– Deixe-nos.

Anthony esperou o lacaio se afastar, com uma sobrancelha arqueada, divertindo-se.

– Tinha me esquecido quão encantador você é pela manhã, Edward.

– O que, em nome de Deus, o traz aqui a esta hora?

– Fui à Casa Cullen primeiro – respondeu Thony. – Como não o encontrei, este pareceu o lugar mais provável. – Ele correu o olhar para além do irmão, pousando-o na mulher sentada no meio da cama enorme. Com um sorriso lânguido, acenou para ela. – Tanya. Minhas desculpas pela intrusão.

A beleza grega se espreguiçou como um gato, sensual e indolente, permitindo que o lençol que segurava em modéstia fingida escorregasse e revelasse um seio voluptuoso. Um sorriso provocante brincou em seus lábios, enquanto dizia:

– Lorde Anthony, garanto que não estou nem um pouco chateada. Talvez queira se juntar a nós... – fez uma pausa sugestiva –... para o café da manhã.

Thony sorriu, agradecido.

– Uma oferta tentadora.

Ignorando a interação, Edward os interrompeu:

– Thony, se está precisando tanto de companhia feminina, tenho certeza de que poderíamos ter lhe arranjado um destino que não perturbasse sumariamente o meu descanso.

Anthony se recostou no vão da porta, permitindo que seu olhar se demorasse em Tanya antes de voltar a atenção para Edward.

– Estava descansando, irmão?

Edward se afastou da porta a passos largos, em direção a uma pia no canto do quarto, bufando enquanto jogava a água revigorante no rosto.

– Está se divertindo, não é?

– Imensamente.

– Tem poucos segundos para me dizer por que está aqui, Thony, antes que eu me canse de ter um irmão mais novo e o expulse.

– Curioso que tenha escolhido essa expressão tão relevante – observou o gêmeo, casualmente. – Na verdade, é pela sua posição como irmão mais velho que estou aqui.

Edward levantou a cabeça para encará-lo, a água escorrendo pelo rosto.

– Sabe, parece que temos uma irmã.

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– Uma meia-irmã.

Edward falava inexpressivamente, fitando o advogado enquanto aguardava que o homem de óculos superasse o nervosismo e explicasse as circunstâncias do anúncio inesperado. O marquês havia aperfeiçoado a tática da intimidação em antros de jogo por toda a Londres e torcia para que não demorasse a fazer o homenzinho falar.

Não demorou.

– Eu... quero dizer, milorde...

Edward o interrompeu, atravessando o gabinete a passos largos para se servir de uma bebida:

– Fale, homem. Não tenho o dia inteiro.

– Sua mãe...

– Minha mãe, se é que se pode usar tal palavra para a criatura pouco amorosa que nos gerou, partiu da Inglaterra há mais de 25 anos. – Ele girou o líquido âmbar no copo, simulando um ar de tédio. – Como podemos acreditar que essa menina é nossa irmã, e não uma charlatã ansiosa para se aproveitar da nossa boa vontade?

– O pai dela era um mercador veneziano com muito dinheiro e deixou todas as suas posses para a filha. – O advogado fez uma pausa, ajeitando os óculos com cautela e avaliando o marquês, assustado. – Milorde, ele não tinha nenhum motivo para mentir sobre a origem dela. Na verdade, de acordo com todos os relatos que recolhi, parece que teria preferido não os alertar de sua existência.

– Então por que o fez?

– A jovem não possui outro parente conhecido, apesar de terem me dito que havia amigos dispostos a acolhê-la. De acordo com os documentos que foram enviados ao meu escritório, no entanto, isso é obra de sua mãe. Ela pediu que o... – gaguejou, inseguro – marido... mandasse sua... irmã... para cá, caso ele morresse. Sua mãe tinha certeza de que os senhores iriam... – ele pigarreou – ... honrar a família.

O sorriso de Edward não transmitia humor.

– Irônico, não é, que nossa mãe tenha recorrido ao nosso senso de obrigação familiar?

O advogado não fingiu que não havia entendido o comentário:

– Sem dúvida, milorde. Mas, se me permite, a jovem está aqui e é muito dócil. Não sei bem o que fazer com ela.

Ele não prosseguiu, mas sua intenção foi compreendida. Não sei bem se devo deixá-la em suas mãos.

– Claro que ela deve ficar aqui – afirmou Thony, afinal, atraindo a grata atenção do advogado e um olhar irritado do irmão. – Vamos acolhê-la. Ela deve estar em choque, imagino.

– Sem dúvida, milorde – concordou rapidamente o homem, agarrando-se à bondade na expressão de Thony.

– Não sabia que tinha autoridade para tomar tais decisões nesta casa, irmão – comentou Edward, sem desviar o olhar do advogado.

– Só estou encurtando a agonia de Jenkins – respondeu Thony, com um aceno para o advogado. – Sei que não vai rejeitar o próprio sangue.

Anthony estava certo, claro. Edward Masen, sétimo marquês de Cullen, não negaria sua irmã, por mais que o desejasse. Passando uma das mãos pelo cabelo preto, Edward ponderou sobre a raiva que ainda ardia ao pensar na mãe, com quem não falava havia décadas.

Ela se casara jovem – mal havia completado 16 anos – e, em menos de um ano, dera à luz filhos gêmeos. Partira para o continente uma década depois, deixando os filhos e o pai deles desesperados. Fosse qualquer outra mulher, Edward teria sentido empatia, teria entendido o medo e perdoado a deserção. Mas havia testemunhado a tristeza do pai e sentido a dor que a perda de uma mãe pode causar. A raiva substituíra a tristeza. Anos se passaram antes que pudesse falar nela sem que um nó de fúria subisse em sua garganta.

E agora, ao descobrir que ela havia destruído outra família, a ferida fora reaberta. Enfurecia-o o fato de que a mãe tivesse gerado outra criança – uma menina, ainda por cima – e a abandonado. Mas ela tinha razão, claro: Edward honraria a família. Faria o possível para expiar os pecados da mãe. E talvez essa fosse a parte mais irritante da situação toda – o fato de que a mãe ainda o compreendesse. Que ainda pudesse haver uma ligação entre os dois.

Edward pousou os óculos na mesa, retomando seu lugar atrás da larga escrivaninha de mogno.

– Onde está a menina, Jenkins?

– Creio que foi levada até a sala verde, milorde.

– Bem, é melhor irmos buscá-la.

Anthony caminhou até a porta, abriu-a e pediu a um criado que a trouxesse. No pesado silêncio que se seguiu, Jenkins se levantou, alisando, ansioso, o colete.

– Sem dúvida. Se me permite, senhor.

Edward o fitou com um olhar irritado.

– É uma boa menina. Muito doce.

– Sim. Já mencionou isso. Ao contrário de sua óbvia opinião sobre mim, Jenkins, não sou um ogro com predileção por meninas. – Fez uma pausa, lançando um meio sorriso para o advogado. – Pelo menos, não meninas de quem sou parente.

A chegada da irmã impediu Edward de se deleitar com a desaprovação do advogado. Em vez disso, levantou-se assim que a porta se abriu, franzindo a testa diante dos olhos verdes assustadoramente familiares que o fitavam do outro lado do aposento, da mesma altura que os seus.

– Deus do céu! – As palavras de Anthony espelhavam os pensamentos de Edward.

Não havia dúvidas de que a moça era irmã deles. Além dos olhos, do mesmo tom profundo de verde que o dos gêmeos, tinha também o maxilar forte deles e o cabelo, que apesar de louro, também era liso. Era a imagem da mãe – alta, graciosa, encantadora e com um fogo inquestionável no olhar. Edward praguejou baixinho.

Thony recobrou a compostura primeiro, curvando-se em uma reverência demorada.

– Encantado, Srta. Rosalie. Sou seu irmão, Anthony Masen. E esse... – fez um gesto na direção do marquês – É o nosso irmão, Edward, marquês de Cullen.

A jovem fez uma mesura graciosa, depois indicou a si mesma com um gesto delicado.

– Sou Rosalie Fiori. Confesso que não estava esperando... – ela fez uma pausa, procurando o termo –... gemelli. Minhas desculpas. Não sei a palavra no seu idioma.

Thony sorriu.

– Gêmeos. Pois é, imagino que nossa mãe também não esperava gemelli.

A covinha na bochecha de Rosalie era igualzinha à de Thony.

– De fato, é bastante impressionante – comentou ela.

– Bem... – Jenkins pigarreou, chamando a atenção dos demais. – Se meus senhores não precisam mais de mim, devo partir.

O homenzinho olhou de Anthony para Edward, ansioso para ser liberado.

– Pode ir, Jenkins – disse o marquês, num tom gélido. – Na verdade, estou ansioso por isso.

O advogado saiu, fazendo uma reverência rápida, como se temesse nunca escapar caso permanecesse por tempo de mais. Depois que ele havia deixado o aposento, Thony consolou Rosalie:

– Não se deixe enganar por Edward. Não é tão perverso quanto parece. Só que às vezes gosta de dar uma de chefe da família.

– Creio que sou o chefe da família, Anthony. – observou Edward, secamente.

Thony piscou para a irmã.

– Quatro minutos mais velho e não consegue não jogar na minha cara.

Rosalie ofereceu um sorrisinho a Thony antes de voltar os olhos verde-claros para o irmão mais velho.

– Milorde, gostaria de ir.

Edward assentiu.

– É compreensível. Vou mandar que suas coisas sejam levadas para um dos quartos no andar de cima. Deve estar cansada de suas viagens.

– Não. O senhor não entendeu. Gostaria de ir embora da Inglaterra. Voltar a Veneza. – Diante do silêncio dos irmãos, ela continuou, movendo as mãos no ritmo de suas palavras, o sotaque aumentando conforme a emoção se infiltrava em seu discurso. – Garanto-lhes que não compreendo por que meu pai insistiu que eu viesse para cá. Tenho amigos na Itália que ficariam mais do que satisfeitos em me acolher...

Edward a interrompeu com firmeza:

– A senhorita vai ficar aqui.

Mi scusi, milorde. Preferiria não ficar.

– Temo que não tenha escolha.

– Não pode me manter aqui. Não é o meu lugar. Não com os senhores... Não na... Inglaterra. – Ela cuspiu a palavra como se tivesse um gosto ruim.

– Esquece-se de que é metade inglesa, Rosalie – comentou Thony, divertido.

– De jeito nenhum! Sou italiana! – Seus olhos verdes faiscaram.

– E sua personalidade confirma isso, mocinha – comentou Edward. – Mas é o retrato de nossa mãe.

Rosalie olhou para as paredes.

– Retrato? De nossa mãe? Onde?

Thony deu uma risadinha, encantado com o equívoco.

– Não. Não vai encontrar nenhum retrato dela aqui. O que Edward estava dizendo é que se parece com a nossa mãe. É exatamente como ela, na verdade. Uma semelhança impressionante.

Rosalie golpeou o ar com uma das mãos.

– Nunca mais me diga uma coisa dessas. Nossa mãe era uma... – a jovem se conteve, o silêncio no aposento pesado com a palavra não dita.

Os lábios de Edward se contorceram em um sorriso enviesado.

– Vejo que concordamos em algo.

– Não pode me forçar a ficar.

– Sinto muito, mas posso. Já assinei os documentos. Está sob minha proteção até se casar.

Os olhos dela se arregalaram.

– Impossível. Meu pai nunca teria exigido tal coisa. Sabia que não tenho intenção de me casar.

– Por que não? – perguntou Thony.

Rosalie voltou-se para ele.

– Pensei que entenderiam melhor do que a maioria. Não vou repetir os pecados de minha mãe.

Os olhos de Edward se estreitaram.

– Não há absolutamente nenhum motivo para que a senhorita seja de qualquer maneira como...

– Perdoe-me se não estou disposta a assumir tal risco, milorde. Certamente podemos chegar a um acordo.

Naquele momento, Edward tomou sua decisão.

– A senhorita não conheceu nossa mãe?

Rosalie manteve-se perfeitamente ereta e orgulhosa, fitando-o nos olhos, sem pestanejar.

– Faz quase dez anos que ela nos deixou. Creio que fez o mesmo com sua família, não?

Edward assentiu.

– Não tínhamos nem 10 anos.

– Então imagino que nenhum de nós morra de amores por ela.

– Não mesmo.

Ficaram assim por um longo momento, cada um testando a verdade das palavras do outro. Edward falou primeiro:

– Vou lhe oferecer um acordo. – Rosalie balançou a cabeça em uma negativa imediata, antes de Edward erguer a mão e detê-la. – Isto não é uma negociação. A senhorita vai ficar por dois meses. Se, depois desse tempo, decidir que prefere voltar para a Itália, faço os arranjos.

Rosalie inclinou a cabeça para o lado como se estivesse considerando a oferta e as possibilidades de fuga. Por fim, assentiu com um único gesto.

– Dois meses. Nem um dia a mais.

– Pode escolher um dos quartos no andar de cima, irmãzinha.

Ela se abaixou em uma reverência exagerada.

Grazie, milorde.

Em seguida, virou-se na direção da porta do gabinete, mas foi detida pela curiosidade de Anthony.

– Quantos anos tem?

– Vinte.

Thony lançou um olhar fugaz para o irmão antes de continuar:

– Vai precisar ser apresentada à sociedade de Londres.

– Acho que não será necessário, já que só vou ficar por oito semanas. – Era impossível ignorar a ênfase nas últimas palavras.

– Discutiremos isso quando estiver acomodada. – Edward encerrou a conversa e a acompanhou pelo aposento, abrindo a porta do gabinete e chamando o mordomo. – Wingate, por favor, acompanhe a Srta. Rosalie ao andar de cima e mande alguém ajudar sua criada a desfazer as malas. – E voltando-se para a irmã: – Tem uma criada, não tem?

– Tenho – respondeu ela, o divertimento cruzando seus lábios. – Devo lembrá-lo de que foram os romanos que trouxeram a civilização para o seu país?

Edward ergueu uma das sobrancelhas.

– A senhorita planeja ser um desafio, não é?

Rosalie sorriu angelicalmente.

– Concordei em ficar, milorde. Não em ficar calada.

O marquês voltou-se para Wingate.

– Ela vai ficar conosco daqui por diante.

Rosalie balançou a cabeça, fitando o irmão nos olhos.

– Por dois meses.

Com um aceno de cabeça, ele corrigiu a declaração:

– Ela vai ficar conosco por enquanto.

O mordomo nem piscou diante do surpreendente anúncio, apenas disse calmamente:

– Entendido, milorde.

Em seguida, mandou depressa vários lacaios para carregarem os baús de até o andar de cima, antes de conduzi-la para fora do aposento. Satisfeito de que seria obedecido, Edward fechou a porta do gabinete e voltou-se para Thony, que estava recostado no aparador, ostentando um sorriso indolente.

– Bom trabalho, irmão – comentou Thony. – Se a alta-roda soubesse que tem um senso tão profundo de obrigação familiar... sua reputação de anjo caído estaria arruinada.

– Melhor parar de falar.

– Sério, é tocante. O marquês de Cullen, em toda a sua perversidade. Derrotado por uma criança.

Edward deu as costas para o irmão e atravessou a sala a passos largos até a escrivaninha.

– Thony, não tem uma estátua em algum lugar precisando de uma limpeza? Uma senhora idosa de Bath com um mármore carecendo desesperadamente de identificação?

Anthony esticou as pernas e cruzou uma bota brilhante por cima da outra, recusando-se a morder a isca do irmão.

– Para falar a verdade, tem, sim. No entanto, ela e todas as minhas legiões de fãs vão ter que esperar. Prefiro passar a tarde com você.

– Não se prenda por minha causa.

Thony ficou sério.

– O que vai acontecer quando tiverem se passado dois meses? Quando ela ainda quiser ir embora e você não puder permitir? – Diante do silêncio do irmão e da ausência de resposta, Thony pressionou: – Não tem sido fácil para ela. Abandonada pela mãe em uma idade tão tenra... E depois perdeu o pai também.

– Não é diferente das nossas próprias circunstâncias. – Edward fingiu desinteresse, enquanto verificava uma pilha de correspondência. – Na verdade, devo lembrá-lo de que perdemos nosso pai junto com nossa mãe.

O olhar de Anthony não vacilou.

– Tínhamos um ao outro, Edward. Ela não tem ninguém. Sabemos melhor do que qualquer um como é estar na posição dela; ser abandonado por todo mundo que você já teve... todo mundo que já amou.

Edward fitou Anthony nos olhos, o ar sombrio diante das lembranças que partilhava com o irmão. Os gêmeos haviam sobrevivido à deserção da mãe, à entrega do pai ao desespero. A infância deles não fora agradável, mas Thony estava certo – tinham tido um ao outro. E isso fizera diferença.

– A única coisa que aprendi com o exemplo de nossos pais é que o amor é supervalorizado. O que importa é a responsabilidade. A honra. Vai ser melhor para Rosalie aprender isso ainda jovem. Ela tem a nós, agora. E provavelmente não considera isso grande coisa. Mas vai ter que ser o suficiente.

Os irmãos ficaram em silêncio, cada um perdido nos próprios pensamentos.

Por fim, Thony acrescentou:

– Vai ser difícil fazer a sociedade a aceitar.

Edward praguejou com veemência, reconhecendo a verdade nas palavras do irmão.

Como a mãe não tivera um divórcio adequado, Rosalie não seria imediatamente aceita na alta-roda. No melhor dos casos, era filha de uma dama exilada da sociedade civilizada e teria que lutar para afastar o pesado manto da reputação maculada da mãe. No pior, era o fruto ilegítimo de uma marquesa desonrada com seu amante plebeu italiano.

Anthony prosseguiu:

– A legitimidade dela será questionada.

Edward pensou por um longo momento.

– Para se casar com o pai dela, nossa mãe deve ter se convertido ao catolicismo quando chegou à Itália. A Igreja católica nunca teria reconhecido seu casamento na Igreja anglicana.

– Ah, então nós que somos ilegítimos. – As palavras de Anthony foram pontuadas com um sorriso enviesado.

– Para os italianos, pelo menos – retrucou Edward. – Por sorte, somos ingleses.

– Excelente. Para nós, está ótimo – concordou Thony –, mas e quanto a Rosalie? Muitos vão se recusar a conviver com ela. Não vão gostar do fato de que é filha de uma mulher desonrada. E católica, ainda por cima.

– Já não aceitariam Rosalie de qualquer forma. Não podemos mudar o fato de que seu pai é um plebeu.

– Talvez devêssemos tentar apresentá-la como uma prima distante, em vez de irmã.

A resposta de Edward foi definitiva:

– De jeito nenhum. Ela é nossa irmã. Iremos apresentá-la como tal e enfrentar as consequências.

– É ela quem vai enfrentar as consequências. – o mais novo fitou o irmão gêmeo nos olhos, enquanto as palavras pairavam no ar, pesadas. – A temporada logo vai estar a todo vapor. Se quisermos que isso dê certo, temos de nos portar com a mais absoluta discrição. Nossa reputação é a dela.

Edward entendeu o recado. Teria que encerrar o envolvimento com Tanya, a cantora de ópera era famosa pela indiscrição.

– Vou falar com Tanya hoje mesmo.

Anthony assentiu, antes de acrescentar:

– E Rosalie vai precisar ser apresentada à sociedade. Por alguém de caráter impecável.

– Pensei a mesma coisa.

– Sempre podemos recorrer à tia Phyllidia. – Thony estremeceu só de se referir à irmã do pai, que, apesar das opiniões enfáticas e do jeito ríspido com que distribuía ordens, era uma duquesa-viúva e um pilar da alta sociedade.

– Não. – A resposta de Edward foi curta e imediata. Phyllidia não seria capaz de lidar com uma situação tão delicada quanto aquela, uma irmã misteriosa e desconhecida batendo à porta da Casa Cullen no início da temporada. – Nenhuma das mulheres da nossa família serve.

– Então, quem?

Os olhares dos gêmeos se fixaram um no outro. Eles se encararam por um tempo. A mesma determinação e o mesmo comprometimento. Mas só um era marquês. E suas palavras não davam margem a perguntas.

– Vou achar alguém.


Hm, não sei exatamente o motivo, mas amo histórias em que o Edward tem um irmão gêmeo. É demais para minha pobre pessoa aguentar, rs.

Estou postando hoje na sexta porque amanhã é minha folga. Aliás, nessas semanas de feriado também os capítulos virão nas quintas-feiras. Até!