Adaptação da obra literária de Sarah McLean. Personagens de Stephenie Meyer.


CAPÍTULO DOIS

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"Você tem razão. Vinte e oito anos de comportamento perfeito é tempo de mais."

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Então, caindo aos prantos, ela correu na direção de Ulisses, jogou os braços em volta de seu pescoço, beijou sua cabeça e falou:

"Eis que tu convences meu coração, inflexível como ele é."

No coração dele despertou ainda mais o desejo de lamentação; e ele chorou, segurando nos braços sua querida e sincera esposa.

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Bella Swan interrompeu a leitura e soltou um suspiro profundo e satisfeito. O som rasgou o silêncio da biblioteca da Casa Swan, para onde havia escapado horas antes à procura de um bom livro. Na opinião de Bella, um bom livro precisava de uma história de amor duradouro, e Homero não deixava a desejar.

Ó, Ulisses, pensou, emocionada, virando uma página amarelada do livro com capa de couro e enxugando uma lágrima fujona. Vinte anos depois, de volta aos braços do seu amor. Um reencontro mais que merecido, talvez o primeiro que li.

Ela recostou a cabeça na poltrona de espaldar alto e, inspirando fundo, inalou o agradável aroma de livros há muito amados e revisitados, imaginando-se a heroína daquela história em particular – a esposa amorosa, o objetivo de uma saga heroica para voltar para casa, a mulher que, por meio do amor, inspirou o marido maravilhosamente imperfeito a lutar contra os ciclopes, resistir às sereias, conquistar tudo por uma única meta – retomar seu lugar ao lado dela.

Como seria estar no lugar de uma mulher assim? Uma mulher cuja beleza ímpar fosse recompensada com o amor do maior herói de seu tempo? Como seria acolher um homem como aquele em seu coração? Em sua vida? Em sua cama? Um sorriso brincou nos lábios de Bella enquanto o pensamento malicioso passava por sua cabeça. Ó, Ulisses.

Deu uma risadinha. Se os outros soubessem que lady Isabella Swan, uma solteirona respeitável e bem comportada, guardava pensamentos profundos e certamente impróprios para uma dama a respeito de heróis fictícios... Suspirou de novo, dessa vez com tristeza. Tinha total consciência de como era boba, sonhando com os protagonistas de seus livros. Era um hábito terrível, e que ela escondia havia tempo de mais.

Começara quando lera Romeu e Julieta pela primeira vez, aos 12 anos, e a seguira por grandes e pequenos heróis – de Beowulf, Hamlet e Tristão aos personagens sombrios e deprimidos dos romances góticos. Não importava a qualidade da escrita – as fantasias de Bella a respeito de seus amores fictícios eram completamente democráticas.

Ela fechou os olhos e transportou-se para longe daquele aposento de pé-direito alto, repleto de livros e documentos reunidos por uma longa linhagem de condes Swans. Imaginou-se não a irmã solteirona do atual conde de Swan, mas como Penélope, tão profundamente apaixonada por seu Ulisses que desprezara todos os pretendentes. Conjurou a visão de seu herói: ela, sentada em frente a um tear e ele, de pé, forte e poderoso no vão da porta do quarto. A aparência física veio fácil – Bella já a usara inúmeras vezes em suas fantasias durante a última década.

Alto, imponente e de ombros largos; cabelos escuros e fartos que deixavam as mulheres doidas para tocá-los; olhos verdes da cor do mesmo mar pelo qual Ulisses navegara por vinte anos. Um maxilar forte, desvirtuado apenas por uma covinha que aparecia quando ele sorria –, um gesto que transmitia a promessa de malícia e de prazer em igual medida. Sim, todos eles eram modelados a partir do único homem com quem já havia sonhado – Edward Masen, o marquês de Cullen. Seria de imaginar que, depois de uma década de fixação, Bella teria desistido da fantasia, mas, para sua desventura, parecia que ela havia se apaixonado perdidamente pelo libertino e estava fadada a passar o resto da vida imaginando-o como o Marco Antônio para sua Cleópatra.

Na mesma hora, riu da comparação. Tirando o fato de que fora batizada em homenagem a uma imperatriz, só um lunático poderia considerar que lady Isabella Swan chegava aos pés de Cleópatra. Para começo de conversa, nunca havia derrotado um homem com sua beleza – uma habilidade extraordinária atribuida a Cleópatra. A rainha do Egito não tinha o cabelo castanho comum e os olhos castanhos comuns de Bella, muito menos podia ser descrita como sem graça. Bella também imaginava que Cleópatra jamais tivesse sido deixada no canto de um salão durante um baile inteiro. E tinha certeza de que não havia nenhum indício de que a rainha tivesse usado uma touca de renda sequer uma vez na vida.

Infelizmente, o mesmo não podia ser dito de Bella.

Mas, ao menos, naquele momento, ela era a bela Penélope e o marquês de Cullen, o devastadoramente lindo Ulisses, que havia construído seu leito nupcial em uma oliveira viva. A pele de Bella foi ficando mais corada à medida que a fantasia se desenvolvia e ele se aproximava dela e daquela cama lendária, levantando devagar a túnica, exibindo o tórax bronzeado por anos ao sol do Egeu – um tórax que poderia ter sido esculpido em mármore grego. Quando ele a alcançou e a pegou em seus braços, Bella imaginou seu calor envolvendo-a, diminuindo-a com seu tamanho. Ele passara anos esperando aquele momento... e ela também.

As mãos dele acariciaram sua pele, deixando rastros de fogo onde a tocavam, e Bella o imaginou inclinando-se para um beijo. Podia sentir o corpo pressionado contra o seu, as mãos em seu rosto, os lábios fortes e sensuais se abrindo a apenas um centímetro de distância dos dela. Logo antes de reivindicar sua boca em um beijo ardente, ele falou em um sussurro grave, as palavras íntimas, o som mal chegando aos seus ouvidos.

– BELLA!

Ela se aprumou na poltrona com um solavanco, deixando cair o livro e sobressaltando-se com o som lancinante do lado de fora da porta da biblioteca.

Pigarreou, o coração martelando, desejando silenciosamente que quem quer que fosse partisse e a deixasse terminar seu devaneio. O pensamento foi fugaz – suprimido com um suspiro. Bella Swan tinha uma educação impecável e nunca rejeitaria de cara alguém que a chamasse. Não importava a sua vontade. A porta da biblioteca se abriu de supetão e sua irmã entrou aos pulos, toda cheia de energia e entusiasmo.

– Bella! Achei você! Procurei em todos os lugares!

Bastou uma olhada no rosto contente e ansioso da irmã mais nova para fazê-la sorrir. Alice sempre fora uma força encantadora e exuberante – conquistava na mesma hora todos que a conheciam. Aos 18 anos, era a bela da temporada, a debutante que cativara a atenção de todos na alta-roda – e o apelido de Beldade Swan.

Hoje, estava banhada pela difusa luz do sol que permeava a biblioteca, trajando um chiffon diáfano e dourado, o sorriso doce e amoroso perfeitamente emoldurado por cachinhos castanhos. Bella entendia muito bem por que a sociedade de Londres adorava sua irmã. Era difícil não amar Alice. Ainda que sua perfeição pudesse ser um tanto penosa para a irmã muito mais velha e muito menos perfeita.

Com um sorriso provocante, Bella perguntou:

– Para que poderia precisar de mim? Acho que se saiu muito bem sozinha hoje, Allie.

Um lindo rubor cor-de-rosa tingiu a pele de porcelana de Alice – um rubor que Bella teria invejado pelo recato e pela perfeição, caso ela mesma não tivesse sido tomada por rubores tão semelhantes aqueles durante toda sua vida.

– Bella! Não posso acreditar! Passei o dia inteiro me beliscando! – Alice voou pelo aposento e se jogou na poltrona de couro na frente da de sua irmã. Em uma voz sonhadora e atordoada, continuou: – Ele pediu a minha mão! Pode acreditar? Não é maravilhoso?

"Ele" era Jasper Hale, o sexto duque de Rivington e o partido mais cobiçado de toda a Inglaterra. Jovem, bonito, rico e nobre, o duque pousara os olhos em Alice em um baile da pré-temporada e ficara completamente apaixonado. Uma corte rápida se seguiu, e o duque viera à Casa Swan naquela manhã para pedir a mão dela em casamento. Bella mal fora capaz de conter seu divertimento com o nervosismo do futuro cunhado. Com todos os seus títulos e sua fortuna, estava obviamente ansioso pela resposta de Alice – um fato que só servira para fazer Bella gostar ainda mais dele.

– Claro que acredito, querida. – Ela riu. – Ele chegou aqui com os olhos brilhando... muito parecidos com os seus neste momento! – Tímida, Alice abaixou a cabeça, enquanto Bella continuava: – Mas você tem que me contar! Como é conquistar um homem que a ama tanto? E um duque, ainda por cima?

– Ah, Bella... – falou Alice, arrebatadamente –, não dou a mínima para o título de Jasper! Só me importo com ele! Não é um homem maravilhoso, um exemplo de ser humano?

– E um duque, ainda por cima!

Ambas se viraram, surpresas com a declaração estridente de entusiasmo mal contido que veio da porta da sala. Bella suspirou ao se lembrar do que a havia feito se esconder mais cedo naquele dia.

Sua mãe.

– Bella! Não é a notícia mais maravilhosa? – Pensando com ironia em quantas vezes teria que responder a essa mesma pergunta naquele dia, Bella abriu a boca para replicar. Mas não foi rápida o bastante. – Ora, Rivington está profundamente apaixonado por Alice! Pode imaginar? Um duque! Apaixonado pela nossa Alice! – Mais uma vez, Bella começou a responder, só para ser cortada. – Tanta coisa a fazer! Um casamento para planejar! A festa de noivado! Os cardápios! Os convites! Sem falar no vestido! E no enxoval! Ah, Alice!

A felicidade absoluta no rosto da condessa-viúva rivalizava apenas com o terror no de Alice. Bella conteve um sorriso e saiu em socorro da irmã.

– Mamãe, Rivington fez o pedido esta manhã. Não acha que deveríamos dar a Alice um tempo para desfrutar dessa ocasião importante? – O riso infiltrou-se em seu tom, enquanto ela prosseguia, oferecendo um olhar sugestivo para a caçula: – Talvez um ou dois dias?

Foi como se não tivesse falado. A condessa-viúva continuou, o volume de sua voz tornando-se cada vez mais ensurdecedor:

– E você, Bella! Vamos ter que pensar cuidadosamente no tipo de vestido que você vai usar!

Ah, não. A condessa-viúva de Swan tinha muitas habilidades, mas vestir a filha mais velha não era uma delas. Se Bella não providenciasse logo uma distração para a mãe, estaria destinada a comparecer ao casamento da irmã em uma monstruosidade emplumada com turbante e tudo.

– Acho que devemos cuidar das coisas mais importantes primeiro, não concorda, mamãe? Por que não oferecer um pequeno jantar comemorativo esta noite?

Ela fez uma pausa, esperando para ver se a mãe morderia a isca.

– Ótima ideia! – Renée gritou e Bella soltou a respiração devagar, satisfeita com o raciocínio rápido. – Isso mesmo! Só para a família, é claro, porque temos que guardar o anúncio oficial para o baile de noivado. Mas acho que um jantar hoje seria perfeito! Ah! Tanta coisa a mais para fazer! Tenho que enviar convites e falar com a cozinheira! – A condessa-viúva saiu apressada, impulsionada por seu entusiasmo. Na porta da biblioteca, virou-se abruptamente. Incapaz de conter a exuberância, com o rosto vermelho e a respiração pesada, exclamou: – Ah, Alice!

E, com isso, foi embora.

No silêncio que se seguiu à partida da mãe, Alice ficou sentada, aturdida com a cena que havia acabado de presenciar. Isabella não pôde deixar de sorrir.

– Você não achou que seria fácil, não é, Allie? Afinal de contas, mamãe está esperando há 32 anos por um casamento, desde que Emmett nasceu. E agora, graças a você, ela tem um.

– Acho que não vou conseguir sobreviver a isso – respondeu Alice, balançando a cabeça, estupefata. – Quem era aquela mulher?

– Uma mãe com um casamento para organizar.

– Meu Deus! – exclamou a mais jovem, espantada. – Quanto tempo acha que ela vai ficar assim?

– Não tenho certeza, mas acho que no mínimo até o fim da temporada.

– Uma temporada inteira! Tem alguma escapatória?

– Tem uma.

Bella fez uma pausa para efeito dramático, divertindo-se imensamente. Alice inclinou-se-se na direção da irmã.

– Qual?

– Acha que Rivington aceitaria casar às escondidas?

Alice gemeu de angústia, enquanto Bella caía na gargalhada. Esta seria uma temporada extraordinariamente divertida.

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Esta seria a temporada mais dolorosa de sua vida.

Bella estava no canto da sala de estar, onde, depois do jantar e dos rituais pós-refeição de charutos para os homens e fofoca para as mulheres, a família inteira se reunira para oferecer a Alice e seu duque os votos de felicidade. As muitas velas acesas lançavam um brilho suave e encantador sobre os presentes, criando um ambiente íntimo. Em geral, Bella adorava eventos que coubessem na sala de estar, pois eram tipicamente ocasiões aconchegantes e felizes que geravam lembranças afetuosas.

Não era o caso desta noite, no entanto. Nesta noite Bella estava se arrependendo do momento em que havia sugerido, naquela tarde, um jantarzinho íntimo. Nesta noite, até os ancestrais que a observavam dos retratos nas paredes da sala de estar pareciam zombar dela.

Bella engoliu um suspiro e forçou um sorriso, enquanto sua tia Beatrice se aproximava, com os dentes à mostra. Sabia exatamente o que estava por vir. Sabia, também, que era inevitável.

– Não é maravilhoso? Um casal tão feliz! Um par tão bonito.

– Sem dúvida, tia – entoou Bella, voltando o olhar para o casal feliz em questão. Descobrira, durante o curso da noite interminável, que observar Alice e Rivington, exultantes, facilitava um pouco suportar esse tipo de conversa em especial. Só um pouquinho. – É um prazer ver Alice tão feliz.

A tia idosa descansou a mão enrugada no braço de Bella. Lá vem, pensou consigo mesma, cerrando os dentes.

– Tenho certeza de que sua mãe está feliz por finalmente ter um casamento para planejar! – A velha gargalhava, divertida, enquanto falava. – Afinal de contas, entre você e Benedick, houve pouca garantia de que ela veria esse dia chegar!

Com uma risada forçada que saiu um pouco alta demais, Bella lançou um olhar desesperado pelo aposento em busca de alguém, qualquer um, para salvá-la da interminável sucessão de parentes rudes e impertinentes. Nas três horas que haviam transcorrido desde que os convidados haviam chegado para o jantar, Bella tivera alguma variação daquela conversa com uma dúzia de pessoas diferentes. O jantar fora especialmente difícil, considerando-se que ficara imprensada entre a avó arrogante de Jasper e um primo particularmente insensível, ambos os quais pareciam acreditar que sua solteirice era um assunto aceitável para ser debatido. Estava começando a achar que não havia uma única pessoa nas famílias Rivington ou Swan com o mínimo de tato. Eles acreditavam mesmo que ela não ficaria ofendida em ser constantemente lembrada que ainda era uma solteirona? Pelo amor de Deus!

Já que não enxergava uma saída, decidiu acenar para um lacaio com uma bandeja de xerez. Escolhendo um copo para si, virou-se para a tia, perguntando:

– Posso lhe oferecer uma bebida, tia Beatrice?

– Céus, não! Não suporto esse negócio – respondeu a senhora, com um tom de indignação na voz. – Sabe, Isabella, beber vinho em público pode acabar com a sua reputação.

– É, bem, acho que não preciso me preocupar com isso esta noite, não concorda?

– Não, suponho que sua reputação não esteja em risco, Isabella. – Sem se dar conta da própria condescendência, tia Beatrice deu um tapinha no braço da sobrinha. – Uma tragédia, não acha? Quem poderia imaginar? Com o seu dote, ninguém esperaria que nunca se casasse.

O espanto e a raiva diante da insinuação de que Bella só tinha o dote para conquistar um marido turvaram sua consciência. Mas antes que pudesse responder, tia Beatrice continuou:

– E agora, na sua idade, podemos perder as esperanças. É praticamente impossível imaginar alguém pedindo sua mão. A não ser, é claro, que seja um senhor mais velho, à procura de companhia no final da vida. Talvez isso possa acontecer.

Uma visão passou pela mente de Bella, uma fantasia agradável que terminava com tia Beatrice ensopada de xerez. Despertando do devaneio, Bella baixou o copo com cuidado e voltou-se para a velha, que ainda estava especulando sobre sua solteirice.

– Claro que não ajuda o fato de sua silhueta ser... bem... não exatamente desejável. Afinal de contas, Isabella, a época de Rubens já terminou há muito tempo.

Bella ficou muda de choque. Não era possível que tivesse ouvido direito o que a odiosa mulher acabara de dizer.

– Já pensou em seguir uma dieta de ovos cozidos e repolho? Soube que faz maravilhas. Assim você seria menos... bem, roliça! – Tia Beatrice gargalhou, muito divertida e inteiramente inconsciente da própria grosseria. – Quem sabe assim não poderíamos lhe encontrar um marido?

*Sim, a Bella não é magrelinha. Essa era a moda da época: uma gazela sem peito e sem quadril. E a Bells tem as curvas mais cheias, mas sem ser gorda.

Bella tinha que fugir antes que causasse sérios danos a algum integrante da família ou à própria sanidade. Sem olhar para a tia – não podia garantir que não diria algo bem desagradável à detestável mulher –, pediu licença.

– Com licença, tia, acho que devo ir ver as... cozinhas.

Não importava que a explicação fizesse pouco sentido, afinal havia muito tempo que o jantar terminara; simplesmente tinha que sumir.

Contendo as lágrimas, correu para o escritório do irmão – o aposento mais próximo no qual sabia que não seria incomodada por convidados obstinados. Guiada pelo luar que se derramava das enormes janelas perfiladas em uma das paredes do gabinete, caminhou até o aparador, pegou um copo e uma garrafa de xerez e se dirigiu até uma grande poltrona no canto mais afastado do aposento, que havia muito era um santuário para os homens Swan.

Vai ter que servir para uma mulher Swan esta noite, pensou, soltando um longo e lento suspiro enquanto se servia de uma taça de xerez, pousava a pesada garrafa de cristal no chão e passava as pernas por cima de um dos braços da poltrona, acomodando-se.

– O que a faz suspirar, minha irmã?

Bella teve um ligeiro sobressalto e virou-se na direção da imponente mesa de mogno do outro lado do aposento. Ao ver a silhueta nas sombras atrás da escrivaninha, abriu um largo sorriso na escuridão.

– Que susto!

– É, bem, perdoe-me se não peço desculpas. Foi você quem entrou no meu covil. – Emmett Swan, conde de Swan, levantou-se e atravessou a sala para sentar-se na poltrona na frente da de Bella. – Espero que tenha um bom motivo, ou terei de mandá-la de volta.

– Ah, é? Eu gostaria de ver como faria isso, já que não pode revelar minha escapulida sem chamar atenção para a sua – provocou ela.

– Verdade. – Emmett sorriu. – Bem, então pode ficar.

– Obrigada. – Ela levantou sua taça de xerez em um brinde. – Muito gentil da sua parte.

Emmett girou preguiçosamente seu copo de uísque, enquanto Bella dava um longo gole em sua taça e relaxava o corpo na poltrona, os olhos fechados, apreciando a companhia silenciosa do irmão. Após vários minutos, ele perguntou:

– E então, o que a fez fugir do ritual familiar?

Bella não abriu os olhos.

– Tia Beatrice.

– O que aquela velha coroca fez agora?

– Emmett!

– Vai me dizer que não pensa nela de uma maneira bem semelhante?

– Pensar é uma coisa. Dizer em voz alta é outra bem diferente.

Emmett riu.

– Você é comportada demais para o próprio bem. Então o que a nossa querida, reverenciada e valorizada tia fez para mandá-la em fuga para uma sala escura?

Bella suspirou e encheu a taça de novo.

– Nada que nenhum outro membro das duas famílias representadas naquela sala não tenha feito. Simplesmente o fez de forma mais rude.

– Ah. Casamento.

– Ela chegou a dizer... – Bella fez uma pausa, respirando fundo. – Não. Não vou dar a ela o prazer de repetir.

– Posso imaginar.

– Não, Emm. Não pode. – Bebericou seu xerez. – Juro, se soubesse que era assim que seria a solteirice, teria me casado com o primeiro homem que me pediu a mão.

– O primeiro homem que pediu a sua mão era um vigário idiota.

– Não se deve falar mal do clero.

Emmett deixou escapar uma risada e deu um longo gole no uísque.

– Tudo bem. Eu teria me casado com o segundo homem que me pediu a mão. Geoffrey era bem atraente.

– Se não o tivesse rejeitado, Bella, papai teria. Era um jogador inveterado e um bêbado notório. Morreu em uma casa de jogos, pelo amor de Deus.

– Ah, mas então eu seria uma viúva. Ninguém insulta viúvas.

– É, bem, não tenho certeza de que isso seja verdade, mas se você insiste... – Emmett fez uma pausa. – Queria mesmo ter se casado com um deles?

Bella deu mais um gole, deixando a bebida doce se demorar em sua língua, enquanto pensava na pergunta.

– Não. Não com ninguém que tenha pedido a minha mão – respondeu. – Não gostaria de ser um bem de um homem horrível que se casou comigo só pelo dinheiro, ou pelas terras, ou por uma aliança com o conde... mas não rejeitaria um casamento por amor.

Emmett riu.

– É, bem, casamento por amor é outra história. Não é algo que aconteça todo dia.

– Não – concordou ela. E os dois caíram em silêncio. Após um longo momentos de contemplação, Bella comentou: – Não... o que queria mesmo era ser homem.

– Como disse?

– É verdade! Por exemplo, se lhe dissesse que vai ter que passar os próximos três meses tendo que ouvir comentários insensíveis relacionados ao casamento da Allie, o que diria?

– Diria "para o inferno com tudo isso" e me esquivaria de qualquer situação em que pudesse ouvir tais comentários.

Bella usou a taça de xerez para apontar na direção dele.

– Exatamente! Porque você é homem!

– Um homem que conseguiu evitar um grande número de eventos que teriam levado a críticas a respeito de sua solteirice.

– Emmett, a única razão por ter conseguido evitar esses eventos é você ser homem. – disse Bella, com franqueza, levantando a cabeça. – Eu, infelizmente, não posso jogar pelas mesmas regras.

– Por que não?

– Porque sou mulher. Não posso simplesmente evitar os bailes, os jantares, os chás, as provas de roupa. Ah, Deus, as provas de roupa. Vou ter que aguentar todos aqueles olhares horríveis de pena de novo enquanto Alice estiver em seu vestido de noiva no ateliê de uma modista. Ah, Deus. – Bella cobriu os olhos para se proteger da imagem.

– Ainda não consigo entender por que você não pode apenas evitar esses eventos terríveis. Concordo que tenha de estar no baile de anúncio do noivado. E no casamento. Mas recuse todo o resto.

– Não posso fazer isso!

– Mais uma vez pergunto: por que não?

– Mulheres decentes não recusam eventos desse tipo, assim como não arrumam amantes. Tenho uma reputação a zelar!

Emmett deixou escapar outra risada.

– Que bobagem, Isabella. Você tem 28 anos.

– Não é muito cavalheiresco da sua parte falar da minha idade. E você sabe que odeio quando me chama de Isabella.

– Você vai sobreviver. Tem 28 anos, é solteira e tem, muito provavelmente, a reputação mais ilibada entre os membros da alta sociedade, independente de sexo ou de idade. Pelo amor de Deus, quando foi a última vez que foi a algum lugar sem essa touca de renda?

Bella olhou fixamente para o irmão.

– Minha reputação é tudo o que tenho. É isso que estou tentando lhe dizer, Emmett. – Ela baixou a mão para se servir outra taça de xerez.

– Tem razão. É tudo o que tem agora. Mas poderia ter mais. Por que não?

– Está me encorajando a macular o nosso bom nome? – perguntou Bella, incrédula, segurando, imóvel, a garrafa em uma das mãos, a taça na outra. Emmett ergueu uma das sobrancelhas. Bella baixou a garrafa. – Percebe que se eu fizer isso, você, como conde, provavelmente vai sofrer com a repercussão?

– Não estou sugerindo que arrume um amante, Bella. Nem que cause um escândalo. Só estou dizendo que você se preocupa demais para, bem, para alguém que não precisa se preocupar tanto com uma ligeira mácula na reputação. Eu lhe garanto, faltar aos eventos odiosos do casamento não vai afetar a casa condal.

– Já que é assim, por que também não posso beber uísque e fumar um charuto?

– Por que não?

– Você não pode estar falando sério.

– Bella, tenho certeza de que a casa não vai desmoronar à nossa volta se você tomar um drinque. Embora não ache que você vá gostar. – Ele deixou o silêncio se prolongar por vários minutos antes de continuar: – O que mais gostaria de fazer?

Ela pensou cuidadosamente na resposta para aquela pergunta. E se não houvesse repercussões? O que faria?

– Não sei. Nunca me permiti considerar tais coisas.

– Bem, permita-se agora. O que faria?

– O máximo que pudesse. – A resposta veio rápida, surpreendendo os dois, mas depois que as palavras foram ditas, Bella percebeu a verdade nelas. – Não quero ter modos impecáveis. Você tem razão. Vinte e oito anos de comportamento perfeito é tempo de mais.

Ela riu ao se ouvir dizendo aquilo. Emmett incitou a irmã:

– E então? O que faria?

– Jogaria a touca de renda fora.

– Seria o mínimo, espero – zombou ele. – Vamos lá, Isabella. Você pode ser mais criativa do que isso. Sem repercussões, e você escolhe três coisas que poderia fazer dentro de casa.

Bella sorriu, aconchegando-se mais profundamente na poltrona, aquecendo-se para o jogo.

– Aprenderia a esgrimir.

– Agora sim! – comemorou o irmão, encorajando-a. – O que mais?

– Assistiria a um duelo!

– Por que parar aí? Use suas novas habilidades na esgrima para lutar em um. – observou, pragmático.

Bella torceu o nariz.

– Acho que não gostaria de machucar alguém.

– Ah. – comentou ele, sério – Então encontramos o limite que não quer ultrapassar.

– Um deles, ao que parece. Mas gostaria de disparar uma pistola, acho. Apenas não em outra pessoa.

– Muitos gostam desse tipo de atividade – concedeu Emmett. – O que mais?

Bella fitou o teto, pensativa.

– Aprenderia a montar com as pernas abertas.

– Sério?

Ela assentiu.

– Sério. Montar com as pernas para o lado parece tão... afetado.

Emmett riu do desdém da irmã.

– Eu... – Bella se deteve diante do que passou por sua cabeça. Beijaria alguém. Bem. Não podia dizer isso em voz alta para o irmão. – Faria todas as coisas que os homens presumem serem direitos seus. E mais! Iria jogar! Em um clube para cavalheiros!

– Uau! E como faria isso?

Bella pensou por um instante.

– Acho que teria que me disfarçar de homem.

Ele balançou a cabeça, divertindo-se.

– Ah... o fascínio de mamãe por Shakespeare finalmente transpareceria em nossas vidas. – ela riu, enquanto o irmão continuava: – Acho que esse seria o meu limite. Os condes de Swan poderiam perder seus privilégios no White's se você tentasse isso.

– Bem, para sua sorte, não estou prestes a tentar entrar escondida no White's. Ou a fazer nenhuma dessas outras coisas.

Seria aquilo decepção em sua voz?

O silêncio caiu novamente no aposento, os dois irmãos ficaram perdidos nos próprios pensamentos. Emmett levou o copo aos lábios para terminar sua bebida, mas, antes de fazê-lo, parou e estendeu o braço na direção da irmã, em um oferecimento silencioso. Por um momento fugaz, Bella considerou a possibilidade, em plena consciência de que a oferta de Emmett significava muito mais do que o dedo de uísque que sobrara no copo de cristal.

Por fim, balançou a cabeça e o momento passou. Emmett engoliu o líquido.

– Sinto muito por isso. – disse, levantando-se da poltrona. – Ficaria feliz em saber que se arriscou uma ou duas vezes, irmã.

O comentário, dito descuidadamente enquanto ele se retirava, caiu pesado nos ouvidos de Bella. Ela mal ouviu as perguntas secas que se seguiram:

– Acha que estou a salvo saindo desta sala? Ou vamos ter que nos esconder até o casamento?

Ela balançou a cabeça de forma distraída e respondeu:

– Acho que você está a salvo. Tome cuidado.

– Vem comigo?

– Não, obrigada. Acho que vou ficar aqui e meditar sobre uma vida de aventura.

Ele abriu um largo sorriso para a irmã.

– Ótimo. Avise-me se decidir navegar para o Oriente amanhã.

Bella retribuiu o sorriso.

– Você vai ser o primeiro a saber.

Então, Emmett saiu, deixando-a com seus pensamentos.

Bella ficou sentada por muito tempo, escutando os sons da casa diminuírem, os convidados partindo, a família se retirando para dormir, os criados arrumando os aposentos usados para o evento, o tempo inteiro repassando sem parar os últimos momentos com Emmett e se perguntando, E se? E se pudesse ter outra história que não o arremedo sóbrio e chato de vida que possuía agora? E se pudesse fazer todas as coisas que já sonhara? O que a impedia de dar esse salto?

Aos 28 anos, ninguém tinha nada a dizer dela. Sua reputação sempre fora impecável – durante todo o período em que era importante manter um nome tão imaculado. De qualquer forma, não era como se estivesse prestes a arruinar completamente essa reputação. Não ia fazer nada que um homem da alta-roda não fizesse em qualquer dia sem pensar duas vezes. E, se os homens podiam, por que ela não deveria poder?

Levou as mãos à cabeça e retirou os grampos que prendiam a touca de renda. Quando a peça se soltou de suas amarras, Bella a arrancou, fazendo com que vários cachos compridos caíssem livres, e a segurou, virando-a de um lado para outro enquanto pensava em seu próximo passo. Quando havia se tornado o tipo de mulher que usava toucas de renda? Quando abandonara as esperanças de estar na moda? Quando havia se tornado alguém que permitia que a maldade de tia Beatrice a levasse a se esconder?

Levantou-se, ligeiramente cambaleante, e andou devagar até a lareira, torcendo a touca nas mãos, a combinação inebriante do xerez com sua conversa com Emmett intensificando a sensação de poder. Observou as brasas morrendo, o silvo dos carvões cor de laranja provocando-a.

O que faria se pudesse mudar tudo?

Sem pestanejar, jogou a touca na lareira. Por alguns longos momentos, nada aconteceu; o disco redondo de pano só ficou ali, a brancura imaculada em forte contraste com a madeira quente e carbonizada. Quando Bella estava começando a pensar se devia esticar a mão e recuperar o acessório agora arruinado, ele irrompeu em chamas. Ela arfou, recuando um passinho frente ao raivoso fogo cor de laranja que engolfou o pequeno pedaço de renda, mas foi incapaz de não se agachar e observar o tecido finamente trabalhado ganhar vida própria, enrolando-se e colorindo-se até cada centímetro dele estar em chamas.

Então Bella começou a rir, sentindo-se ao mesmo tempo escandalosa e fantástica – como se pudesse fazer qualquer coisa com que já tivesse sonhado. Dando meia-volta, marchou pela sala até a escrivaninha do conde. Depois de acender um toco de vela, abriu a gaveta de cima e pegou uma folha de papel em branco. Alisando-a com uma das mãos, avaliou a extensão vasta e parda antes de assentir enfaticamente, abrir o tinteiro prateado e pegar uma pena.

Mergulhou a ponta da pena na tinta preta e pensou na lista de coisas que faria... se tivesse coragem.

O primeiro item era óbvio e, apesar de não o ter partilhado com Emmett, sabia que deveria ser honesta consigo mesma e botá-lo no papel. Afinal de contas, era o único no qual podia pensar que realmente odiaria nunca chegar a concretizar. Encostando a pena no pergaminho, escreveu, numa caligrafia forte e segura:

Beijar alguém

Assim que terminou de escrever as palavras, ergueu o olhar, meio com medo de ser descoberta redigindo algo tão escandaloso. Mas, ao voltar a atenção para o papel, inclinou a cabeça para o lado. Não parecia suficiente, parecia? "Beijar alguém" não traduzia exatamente o que queria dizer. Mordendo o lábio inferior, acrescentou um complemento.

Beijar alguém... apaixonadamente

Bella soltou longamente a respiração – nem havia se dado conta de que estava prendendo o fôlego. Nada de voltar atrás agora, pensou, já escrevi a coisa mais escandalosa. Os itens seguintes vieram fácil, nascidos da conversa com Emmett:

Fumar charuto e beber uísque

Montar com as pernas abertas

Esgrimir

Assistir a um duelo

Disparar uma pistola

Jogar (em um clube para cavalheiros)

Uma brisa fez Bella erguer a cabeça e se recostar, olhando para o que havia escrito. Um ligeiro sorriso brincou em seus lábios, enquanto considerava cada item, imaginando-se sentada em uma sala enfumaçada no White's, um copo de uísque em uma das mãos, cartas de baralho na outra, um sabre aos pés, falando sobre o duelo ao qual assistiria na manhã seguinte. A imagem lhe fez gargalhar.

Imagine só!

Quase parou ali, naqueles sete itens que tinham vindo tão depressa. Mas, por mais que a lista fosse um exercício de imaginação, Bella sabia que era mais que isso. Era uma chance de enfim ser honesta consigo mesma. De escrever as coisas que mais desesperadamente gostaria de experimentar. As coisas que nunca admitira para ninguém – nem para si mesma. Com um suspiro sincero, fitou a lista, sabendo que os itens seguintes seriam os mais difíceis de escrever.

– Muito bem, então – falou, determinada, como se preparando para uma luta.

Então, encostou a pena no papel.

Dançar todas as danças de um baile

Seus lábios se retorceram em um sorriso de autodepreciação. Bem, Bella, este item prova que esta é uma lista imaginária. Adorava dançar. Sempre adorara. Quando criança, costumava sair escondida do quarto para espiar os bailes que seus pais ofereciam. Lá, bem acima do salão, girava e girava no ritmo da música, imaginando que sua camisola era um lindo vestido de seda como os que rodopiavam lá embaixo. Dançar era a única coisa pela qual Bella ansiara em sua primeira temporada; mas, conforme envelhecia, os convites foram diminuindo. Não a chamavam para uma contradança há... bem, fazia muito, muito tempo. Tempo de mais.

Ali no escuro, permitiu-se admitir que todos aqueles anos nos cantos dos salões de baile por toda a Londres haviam cobrado seu preço. Detestava tomar chá de cadeira, mas nunca fora capaz de sair daquela posição. E, nos dez anos desde que havia debutado, passara a se sentir tão confortável como uma testemunha da elegância da sociedade que não conseguia realmente se imaginar no centro dela. Mas ela nunca estaria naquela posição, claro. As mulheres nos núcleos das altas-rodas eram lindas. E Bella era sem graça demais, um pouquinho rechonchuda demais, tediosa demais para ser considerada linda. Piscando para conter as lágrimas, rabiscou o item seguinte da lista.

Ser considerada linda. Pelo menos uma vez.

Era o mais improvável. Só conseguia se lembrar de uma vez, um momento fugaz em sua vida em que havia chegado perto de atingir tal objetivo. Mas, pensando retroativamente naquela noite tão distante em que o marquês de Cullen a fizera se sentir bonita, Bella teve certeza de que ele não a vira daquele jeito. Não. Era apenas um homem fazendo o que podia para que uma mocinha se sentisse melhor e ele pudesse escapar para um encontro romântico à meia-noite. Mas, naquele momento, ele a fizera se sentir linda. Uma imperatriz. Como queria ser aquela garota de novo; como queria se sentir uma Isabella de novo.

Claro que aquilo não era possível. Era tudo só um exercício idiota.

Com um suspiro, Bella levantou-se, dobrou o papel com cuidado e enfiou-o no corpete do vestido antes de recolocar o tinteiro e a pena no lugar. Apagando a vela, andou rapidamente na direção da porta. Quando estava prestes a sair e subir para o segundo andar, ouviu um som do lado de fora – baixo e desconhecido. Abriu a porta com cuidado – só uma fresta – e espiou pelo corredor escuro, franzindo os olhos para tentar distinguir qualquer um que pudesse estar ali. A escuridão à frente tornava impossível enxergar, mas não havia dúvida de que não estava sozinha; a porta aberta permitia que uma risadinha suave a alcançasse.

– Você está linda esta noite. Perfeita. A Beldade Swan, sem dúvida.

– Você tem que dizer isso para lisonjear a sua noiva.

– Minha noiva. – A reverência na fala era palpável. – Minha futura duquesa... meu amor...

As palavras foram sumindo em um suspiro feminino, e Bella levou a mão aos lábios para segurar a risada atônita quando percebeu que Alice e Jasper estavam no saguão escuro. Ficou imóvel por um instante, os olhos arregalados, insegura quanto ao próximo passo. Deveria fechar a porta silenciosamente e esperar que fossem embora? Ou deveria sair, dar de cara com eles e impedir o que definitivamente era um encontro de amantes?

Seus pensamentos foram interrompidos por uma pequena arfada:

– Não! Vamos ser pegos!

– E daí? – As palavras saíram com uma risada masculina.

– E daí que teria que se casar comigo, Vossa Alteza.

Bella arregalou os olhos diante da sensualidade gritante no tom da irmã mais nova. Quando Alice se tornou uma devassa? Jasper gemeu na escuridão.

– Qualquer coisa que a leve para a minha cama mais rápido.

Foi a vez de Alice rir, de forma completamente inadequada. E então fez-se silêncio, pontuado apenas pelos sons baixos de lábios na carne e o farfalhar de seda deslizando na pele. O queixo de Bella caiu. Sim, ela definitivamente devia fechar a porta. Então por que não fechava?

Porque não era justo.

Simplesmente não era justo que sua irmãzinha – que a admirara por tanto tempo, que, por tantos anos, havia recorrido a ela para pedir conselhos, orientação e amizade – estivesse agora vivenciando esse notável novo mundo de amor.

Alice debutara com toda a força, a estrela da temporada, e Bella sentira tanto orgulho dela. Quando Allie chamara a atenção de Rivington, o maior partido da alta-roda, Bella havia comemorado com a irmã mais nova. E Bella estava feliz por Alice.

Mas por quanto tempo mais aguentaria ficar de lado alegremente enquanto a caçula vivia a vida pela qual a própria Bella ansiara? Tudo ia mudar, Alice faria tudo o que Bella nunca fizera. Ela se casaria, teria filhos, comandaria uma casa e envelheceria nos braços do homem que a amava. E Bella permaneceria ali, na Casa Swan, uma solteirona. Até Emmett encontrar uma esposa. E eu ser banida para o campo. Sozinha.

Bella engoliu o ardor das lágrimas, recusando-se a sentir pena de si mesma diante da felicidade da irmã. Moveu-se para fechar a porta do escritório em silêncio e deixar os amantes em paz. Mas, antes que pudesse fazê-lo, Alice falou, arfando:

– Não, Jazz. Não podemos. Minha mãe chicotearia nós dois se estragássemos sua oportunidade de um casamento.

Jasper gemeu baixinho:

– Ela tem dois outros filhos.

– Sim, mas...

Houve uma pausa, e Bella não precisava ver a irmã para ler seus pensamentos. Quais as chances de que um deles se case tão cedo?

– Emmett vai se casar. – argumentou Rivington, bem-humorado. – Só está esperando até o último momento possível.

– Não é com Emmett que me preocupo.

– Allie, já discutimos isso. Ela é bem-vinda em Fox Haven.

O queixo de Bella caiu com ultraje à menção da casa de campo de Rivington. Ela? Estariam se referindo a ela? Haviam discutido o seu destino? Como se ela fosse uma criança órfã que precisava de cuidados? Como se fosse uma solteira sem perspectivas?

O que, é claro, ela era.

Sua boca se fechou.

– Ela vai ser uma tia maravilhosa – acrescentou Rivington.

Excelente. Já está jogando os herdeiros do ducado para cima da tia solteirona.

– Ela teria sido uma mãe maravilhosa... – retrucou Alice, e suas palavras enfáticas trouxeram um sorriso lacrimoso ao rosto de Bella. Tentou ignorar o uso do futuro do pretérito, enquanto a irmã acrescentava: – Só queria que pudesse ter o que nós temos. Bella merece tanto.

Rivington suspirou.

– Merece. Mas acho que só ela pode conseguir uma vida assim para si mesma. Se continuar tão... – ele fez uma pausa, procurando a palavra, e Bella se esforçou para ouvir, seu corpo em um ângulo tão esquisito que se arriscava a cair no chão. – Passiva... nunca terá essas coisas.

Passiva?

Bella imaginou Alice concordando com a cabeça.

– Ela precisa de uma aventura. Mas claro que nunca vai procurar uma.

Aquelas palavras – tão desprovidas de maldade e, ainda assim, tão dolorosas – ecoaram na cabeça de Bella por um longo momento, sufocando-a com o grande peso de seu significado. E, de repente, ela parecia não conseguir recuperar o fôlego ou impedir que as lágrimas brotassem.

– Talvez você queira uma aventura para si mesma, minha bela. – Jasper retomara o tom de sensualidade e a risadinha de Alice em resposta foi mais do que Bella poderia aguentar. Ela fechou a porta silenciosamente, bloqueando o som.

Se ao menos pudesse bloquear a lembrança daquelas palavras.

Passiva. Que expressão horrível. Que sentimento terrível. Passiva, sem graça, alguém que não se aventurava e estava destinada a uma vida tediosa, sóbria e completamente desinteressante. Bella sufocou as lágrimas, descansando a testa na porta fria de mogno e considerando a possibilidade muito real de estar prestes a vomitar. Arfando profundamente, tentou se acalmar, a combinação poderosa de xerez e emoção ameaçando destruí-la.

Não queria ser aquela mulher de quem estavam falando. Nunca planejara aquilo. De alguma forma, no entanto, acontecera. De alguma forma, perdera o rumo e, sem perceber, havia escolhido essa vida sóbria e tediosa em vez de uma existência diferente, mais aventureira. E, agora, sua irmã mais nova estava a poucos metros de distância, à beira da ruína autoinduzida, e Bella nunca nem fora beijada.

Era o suficiente para fazer uma solteirona beber.

Mas ela já fizera isso o suficiente naquela noite.

Era o suficiente para fazer uma solteirona agir.

Enfiando a mão no corpete, retirou a folha dobrada que guardara ali apenas alguns minutos antes. Passando os dedos pelos cantos arredondados do papel, meditou sobre seu próximo passo. Podia ir para a cama, se afogar em xerez e lágrimas e passar o resto da vida não apenas se arrependendo de sua inação, mas – pior – sabendo que todos à sua volta a consideravam passiva.

Ou podia mudar.

Podia completar a lista.

Agora. Esta noite.

Bella afastou um cacho solto do rosto e percebeu a ausência da touca de renda. Esta noite. Começaria com um item que fosse um desafio. Um item que a colocaria diretamente nessa rota nova, ousada e nada típica de Bella. Respirando fundo mais uma vez, abriu a porta do escritório e saiu para o saguão escuro da Casa Swan, não se importando mais se ia dar de cara com Alice e Rivington. Na verdade, mal percebeu que os dois haviam sumido. Não tinha tempo para eles, de qualquer modo, pensou enquanto subia rapidamente a larga escadaria de mármore até seu quarto. Tinha que trocar de vestido.

Lady Isabella ia sair.


Eita, coitada. Como deve ser viver a vida de uma pessoa passiva, com todos ao seu redor especulando e sentindo pena? Foda.

Então... Reviews? O desastre começa já no próximo capítulo. Vamos lá, reviews, minhas queridas :)

AAAAAAHHH! Feliz Páscoa, minhas lindas, muitos chocolates e alegria!