Personagens de Stephenie Meyer. História de Sarah McLean.
CAPÍTULO TRÊS
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"Beijos não devem deixá-la satisfeita. Eles devem deixá-la querendo mais."
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Bella observou a carruagem alugada descendo pela rua escura, deixando-a completamente desamparada.
Deu um pequeno suspiro de desânimo, conforme o barulho dos cascos dos cavalos sumia na distância e era substituído pelo martelar de seu coração e o zumbido em seus ouvidos. Devia ter começado com uísque. E certamente não devia ter bebido tanto xerez.
Se estivesse sóbria, definitivamente não estaria de pé ali, sozinha, na frente da casa de um dos libertinos mais notórios de Londres, no meio da noite. Onde estava com a cabeça?
Nas nuvens, só podia ser.
Pensou, por um instante, em voltar e fazer sinal para a próxima carruagem que passasse, qualquer uma, mas logo em seguida percebeu que sua reputação estaria completamente destruída se alguém a flagrasse ali sem uma acompanhante.
– Vou matar Emmett por isso. – resmungou para si mesma, puxando o capuz de sua capa escura para cobrir mais o rosto. - Alice também.
Mas claro que nem Emmett nem Alice a haviam forçado a entrar em uma carruagem, arriscando sua segurança e seu bom sobrenome. Bella fizera isso sozinha. Respirando fundo, aceitou a verdade: havia se colocado naquela confusão sozinha, sua reputação estava a minutos de ser destroçada e sua melhor chance de sobreviver intacta estava dentro da Casa Cullen. Estremeceu com a ideia.
Casa Cullen. Deus do céu. O que eu fiz?
Precisava entrar. Não tinha escolha. Ficar na rua a noite toda não era um opção. Depois que entrasse, imploraria ao mordomo para leva-la até uma carruagem e, se tudo desse certo, estaria em sua cama em uma hora. O mordomo certamente se sentiria obrigado a protege-la. Era uma dama, afinal de contas. Mesmo que suas ações naquela noite não estivessem exatamente corroborando isso.
E se o marquês Cullen abrisse a porta?
Bella balançou a cabeça diante da possibilidade. Primeiro, marqueses não andavam por aí abrindo as próprias portas. E, segundo, as chances desse marquês em particular estar em casa a esta hora eram quase nulas. Na certa estava por aí com uma amante. Uma imagem lhe passou pela cabeça, ressurgida de uma lembrança de dez anos antes: ele, atracado em um abraço apaixonado com uma mulher impressionantemente linda.
É. Bella havia cometido um erro terrível. A única solução era escapar o mais rápido possível.
Aprumou os ombros e se aproximou da entrada imponente da Casa Cullen. Mal havia largado a aldrava e a grande porta de carvalho se abriu, revelando um criado idoso que não pareceu nem um pouco surpreso em encontrar uma jovem diante da casa do patrão. Dando um passo para o lado, deixou-a entrar, fechando a porta atrás de Bella, enquanto ela observava o saguão caloroso e convidativo da antiga residência londrina dos marqueses de Cullen.
Instintivamente, começou a afastar o capuz do rosto, só para perceber que os acontecimentos que se seguiriam seriam mais fáceis caso mantivesse a identidade protegida. Resistindo ao impulso, virou-se para o criado e falou:
- Obrigado, meu bom senhor.
– Não de quê, milady. – o mordomo fez uma reverência curta e respeitosa e começou a arrastar os pés na direção da larga escadaria que levava ao andar superior da casa. – Pode me acompanhar, por favor?
Acompanhá-lo para onde?
Bella recuperou-se rapidamente da surpresa.
– Ah, não pretendia... – calou-se, sem saber bem como continuar a frase.
Ele parou aos pés da escadaria.
– Certamente que não, milady. Não é trabalho nenhum. Vou só acompanhá-la ao seu destino.
– Ao meu... meu destino? – Bella parou abruptamente, deixando a incompreensão permear a pergunta.
O mordomo pigarreou.
– O andar de cima, milady.
– O andar de cima.
Estava começando a soar como uma idiota até para si mesma.
– É lá que Sua Senhoria está no momento.
O mordomo lançou-lhe um olhar curioso, como se estivesse questionando suas faculdades mentais, antes de se voltar para a escadaria e começar a subir os degraus.
– Sua Senhoria. – Bella ficou observando o mordomo e, conforme a compreensão se abatia sobre ela, seus olhos se arregalaram. Deus do Céus. Ele achava que era uma rameira! A percepção chocante foi logo seguida por outra: o mordomo achava que ela era a rameira do marquês de Cullen. O que significava que ele estava ali. Em casa. – Não, eu não sou...
– É claro que não, milady. – respondeu o mordomo, com absoluto decoro.
Mas Bella teve a distinta sensação de que ele ouvira o mesmo protesto submisso de incontáveis outras mulheres, inúmeras vezes antes. Mulheres que haviam fingido inocência em prol da decência.
Tinha que fugir.
A não ser que...
Não. Espantou a vozinha. Nada de "a não ser que". Sua reputação estava por um fio. Estaria mais segura fazendo sinal para uma carruagem de aluguel sozinha nas ruas escuras de Londres do que seguindo aquele mordomo velho para Deus sabe onde.
Para os aposentos do marquês de Cullen.
Bella quase engasgou com o pensamento. Nunca mais beberia xerez.
– Milady?
A palavra, dita com toda a discrição, escondia uma pergunta tácita. Bella iria segui-lo?
Era a sua chance. Inapropriado ou não, era por isso que estava torcendo quando saíra às escondidas de casa e fizera sinal para uma carruagem. Queria ver o marquês, provar que tinha coragem para aventurar-se. E ali estava, com seu objetivo bem ao alcance.
Esta é a sua chance de provar que não tem nada de passiva.
Bella engoliu em seco, olhando muda para o velho. Tudo bem. Ela o seguiria. E pediria a Cullen para ajudá-la a ir para casa. Seria constrangedor, mas ele viria em seu auxílio. Teria que vir. Ela era irmã de um membro da realeza, e ele, um cavalheiro.
Ao menos Bella esperava que fosse.
Mas talvez não. Um arrepio a percorreu com o pensamento.
Bella o afastou, agradecendo a si mesma por ter pensado em colocar o vestido que mais lhe caía bem antes de sair de casa. Não que o marquês fosse ver a seda cor de lavanda debaixo da capa negra lisa de viagem – não tinha a menor intenção de revelar sua identidade para ele a não ser como último recurso –, mas saber que estava usando seu vestido mais bonito lhe deu um ponto extra de confiança ao levantar as saias e galgar os degraus.
Enquanto subia a escada, Bella detectou um som abafado de música ao longe, que foi ficando mais alto conforme o mordomo a guiava tranquilamente por um corredor comprido e mal iluminado. Ele parou diante de uma grande porta de mogno que nada fazia para conter as notas que se derramavam do aposento. Bella não conseguiu sufocar o lampejo de curiosidade que, por um breve momento, superou seu nervosismo.
O mordomo bateu duas vezes, e um "Entre"forte e claro soou acima do piano. Ele abriu a porta, mas não atravessou o vão. Em vez disso, afastou-se para que Bella entrasse sozinha, o que ela fez, hesitantemente.
A porta se fechou atrás dela. Estava na cova do leão, envolta em um manto de sombras e som. O leão da montanha esguio, um predador nato.
A única fonte de luz do grande aposento eram umas poucas velas espalhadas, conferindo ao espaço um brilho tranquilo e íntimo. Mesmo sem a escuridão envolvente, era o aposento mais masculino que já vira – decorado com itens de madeira pesada e escura, e cores fortes e terrosas. As paredes eram cobertas por uma seda cor de vinho; o chão ostentavam um enorme tapete que só podia ter vindo do Oriente. A mobília era grande e imponente – estantes cobriam duas paredes, ambas absolutamente lotadas; na terceira, havia uma grande cama de mogno panejada com tecidos azul-marinho. Assim que o olhar de Bella recaiu sobre ela, sua mente voltou à fantasia de Ulisses, Penélope e outro leito que não este, mas tão sedutor quanto.
Bella engoliu em seco nervosamente, evitando fitar o móvel escandaloso, seus olhos pousando no dono da casa, sentado do outro lado do quarto, de costas para a porta, a um piano. Nunca havia imaginado um piano fora de um conservatório ou de um salão de baile – sem dúvida não como uma adição a um quarto. Cullen não desviara a atenção do instrumento apesar da intrusão dela; em vez disso, erguera a mão para deter quaisquer palavras que pudessem interromper sua performance.
A obra que estava tocando era triste e melancólica, e Bella foi imediatamente cativada pela mistura de talento e emoção. Ficou assistindo, fascinada pelos braços levemente bronzeados e musculosos, nus até os cotovelos, onde as mangas da camisa de linho branco haviam sido descuidadamente dobradas; pelas mãos fortes dançando deliberada e instintivamente sobre as teclas; pela curva do pescoço, conforme sua cabeça se abaixava em concentração.
Ao terminar a peça, as últimas três notas pairaram no ar pesado, enquanto o marquês levantava a cabeça e virava na direção da porta, revelando pernas longas e musculosas em calças justas e botas de montaria até os joelhos; a camisa aberta no colarinho, sem gravata ou colete para esconder a nesga de pele ali; os músculos dos ombros se retesando, conforme ele se aprumava no banquinho.
Quando a viu, o único sinal de surpresa foi um ligeiro franzir dos olhos, quase imperceptível, enquanto tentava descobrir sua identidade à luz fraca do aposento. Bella nunca se sentira mais grata pela capa com capuz do que naquele momento. Ele se levantou calmamente cruzou os braços.
Um olhar destreinado poderia supor que a posição que assumira era de descontração, mas após anos observando a sociedade de Londres, sem muita oportunidade para participar dela, Bella desenvolvera um senso apurado. De repente, o marquês lhe parecia rígido, mais tenso, os músculos dos braços retesados com uma força represada. Não estava feliz com a visita. Pelo menos, não com uma visita feminina.
Ela abriu a boca para falar, para pedir desculpas pela intrusão, para fugir, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, as palavras dele atravessaram o aposento:
– Eu deveria ter imaginado que você não iria aceitar que eu terminasse nossa amizade. Apesar de precisar confessar que estou surpreso por ser tão ousada a ponto de me visitar aqui.
A boca de Bella se fechou de surpresa, enquanto ele continuava com o tom firme e as palavras frias:
– Não queria tornar isso mais difícil do que precisar ser, Tanya, mas vejo que você não vai aceitar minha decisão. Acabou.
Deus do céu. Ele achava que ela era uma amante rejeitada! Verdade seja dita, Bella não estava exatamente se apresentando como uma dama, chegando do jeito que chegara – sem ser convidada – na porta da frente, no meio da noite, mas isso era realmente o cúmulo! Tinha que corrigi-lo.
– Nada a dizer, Tanya? Não é do seu feitio, é?
Mas, pensando bem, permanecer calada exigia muito menos coragem do que revelar quem era para aquele homem imponente.
O marquês soltou um suspiro irritado, obviamente encerrando o monólogo.
– Acho que fui mais do que generoso com o fim de nosso acordo, Tanya. Você fica com a casa, as joias, as roupas... Eu lhe dei rédeas mais do que suficientes para controlar seu próximo benfeitor, não dei?
Bella arfou, ultrajada com a forma tão insensível e desdenhosa com que ele estava terminando um romance. A reação dela arrancou uma risada mal-humorada do marquês.
– Não precisa bancar a mocinha assustada. Nós dois sabemos que sua ingenuidade acabou há muito tempo. – O tom dele ao dispensá-la era frio e sem emoção. – Você pode encontrar a porta da rua sozinha.
E voltou a se sentar, dando-lhe as costas e começando a tocar de novo.
Bella nunca imaginara que sentiria pena de uma das cortesãs que se escondiam às margens das altas-rodas como amantes da aristocracia, mas não pôde deixar de se ofender em nome daquela mulher em particular. E pensar que havia considerado Cullen um pilar entre os homens!
Ficou ali de pé, os punhos cerrados de indignação, imaginando o que deveria fazer. Sabia muito bem o que deveria fazer. Deveria sair daquele quarto imediatamente e fugir daquela casa. Deveria voltar para sua vida calma e tranquila e esquecer sua lista boba. Mas não era isso o que queria fazer.
O que queria fazer era dar uma lição naquele homem. E sua raiva a deixava corajosa o bastante para ficar.
Ele não olhou para trás ao dizer:
– Eu lhe imploro, não torne esta situação ainda mais constrangedora do que já é, Tanya.
– Temo que a situação só possa ficar ainda mais constrangedora, milorde.
Com um solavanco, o marquês voltou a cabeça na direção dela ao se levantar de um pulo do assento. Se Bella não estivesse tão irritada, teria se divertido muito.
– Sabe, não sou quem o senhor obviamente acredita que eu seja.
Bella tinha que dar um crédito a ele. Sua surpresa foi quase imediatamente substituída por uma calma contida.
– Sem dúvida não é, senhorita... – Ele fez uma pausa, esperando que ela se identificasse. Então continuou, após um longo silêncio: – Parece que está em vantagem em relação a mim.
– Sem dúvida, parece que sim.
Bella estava admirada com a própria ousadia.
– Posso ajudá-la de alguma maneira?
– Achei que sim. No entanto, depois de testemunhar a forma como se dirige às mulheres em sua vida, acho que prefiro não me juntar a elas.
Diante de tais palavras, ele ergueu uma das sobrancelhas escuras. Bella interpretou isso como sua deixa para escapar. Sem mais uma palavra, virou-se abruptamente e agarrou a maçaneta da porta. Não a abrira nem meio centímetro quando a mão grande e forte de Edward passou por cima de seu ombro e a fechou de novo. Deus do céu... ele é rápido. Puxou a maçaneta com as duas mãos, mas sua força não se comparava à dele; aquele único braço vigoroso manteve a porta firmemente fechada.
– Por favor... Deixe-me ir.
– Fala como se eu a tivesse trazido aqui, milady. Pelo contrário. Foi a senhorita quem invadiu meu território. Não acha que me deve a delicadeza de uma apresentação?
A resposta foi sussurrada junto ao capuz de Bella, fazendo com que um estremecimento de pânico a atravessasse. Seu corpo estava a poucos centímetros do dela; se ele se aproximasse um pouco mais, os dois se tocariam. Parecia que já estavam se tocando, pela maneira com que o calor dele dominava os sentidos dela. Bella ficou olhando o batente da porta, imaginando como escapar de seu destino.
Havia iniciado aquele noite como Isabella. Não podia desistir agora.
– Nós... Já nos encontramos antes, milorde.
– Não pode esperar que eu saiba disso com a senhorita coberta de pano. – Edward puxou a ponta da manga dela, os dedos roçando displicentes as costas de sua mão. Bella prendeu a respiração diante do toque. O tom dele ficou persuasivo: – Vamos lá, acha mesmo que vou permitir que vá embora sem saber sua identidade? A senhorita já foi longe demais agora.
O marquês tinha razão, claro, e Bella era muito pragmática. Respirando fundo, largou a maçaneta e começou a se virar na direção dele. Edward deu um passo para trás, soltando a porta enquanto ela abaixava o capuz e se revelava. Ele inclinou a cabeça de leve ao vê-la, como se tentando ligar a fisionomia à pessoa. Após um breve instante, o reconhecimento despontou e ele deu outro passo para trás, incapaz de esconder a surpresa na voz e no rosto.
– Lady Isabella?
– Em pessoa.
Ela fechou os olhos, as bochechas de arrependimento. Nunca mais sairia de casa. Edward soltou a respiração com uma meia risada mal disfarçada.
– Confesso, se tivessem me dado mil tentativas, nunca teria imaginado que a senhorita seria minha visitante noturna. Está tudo bem?
– Garanto que, ao contrário do que possa parecer, não estou nem um pouco louca, milorde. Pelo menos, não creio que esteja.
– Perdoe-me por perguntar, então, que raios está fazendo aqui? – De repente, ele pareceu perceber onde estavam. – Este não é de maneira nenhuma um local apropriado para uma dama. Recomendo que levemos essa conversa para um local mais... aceitável. – E gesticulou para indicar o quarto como um todo, antes de contorná-la para abrir a porta.
Sem interesse em estender ainda mais o encontro desastroso, Bella deu um passo para o lado, evitando o braço dele e colocando mais distância entre os dois enquanto falava:
– Tolice, milorde. Não acho que seja necessário continuar de forma nenhuma esta conversa. Encontro-me aqui na Casa Cullen sob circunstâncias um tanto... peculiares, e acho que seria melhor para nós dois esquecer que isso aconteceu um dia. Não deve ser tão difícil, eu acho.
Ela estampou um sorriso caloroso no rosto e brincou com uma borla em sua capa.
O marquês de Cullen absorveu as palavras, permitindo que um silêncio caísse sobre eles. No longo momento que se seguiu, Bella olhou para todos os lugares menos para ele, que ficou a observar seu nervosismo. Sua surpresa e confusão não demoraram a se transformar em curiosidade e o marquês adotou uma postura menos ameaçadora, recostando casualmente na parede ao lado da porta.
– Não tenho tanta certeza disso, milady. Ao contrário do que possa acreditar, não me esqueço tão facilmente das mulheres que visitam meu quarto. – O calor se irradiou para as bochechas de Bella mais uma vez. – O que traz lady Isabella Swan à minha porta no meio da noite? Sinceramente, a senhorita não parece o tipo que faria isso.
Bella gaguejou, tentando encontrar uma resposta:
– E-eu... estava... p-por perto.
– No meio da noite.
– É. Eu me vi... do lado de fora... e... precisando de um transporte para casa.
– Do lado de fora da minha casa.
As palavras soaram secas pela óbvia descrença.
– Isso mesmo.
Talvez, se demonstrasse firmeza, ele não a pressionasse por mais explicações.
– Como veio parar do lado de fora da minha casa precisando de transporte? – o som de sua curiosidade casual a deixou nervosa.
– Prefiro não discutir isso. – retrucou Bella, desviando os olhos e torcendo para que ele deixasse o assunto de lado.
O silêncio se abateu novamente e, por um breve instante, achou que ele pudesse estar satisfeito com sua evasiva.
Estava errada.
Edward cruzou os braços com arrogância enquanto deixava uma descrença divertida se infiltrar em suas palavras.
– E então a senhorita naturalmente decidiu que bater à minha porta era uma atitude mais segura do que fazer sinal para a primeira carruagem que aparecesse.
Quem está na chuva é para se molhar.
– Isso mesmo, milorde. O senhor é um membro da realeza, afinal de contas.
Edward deixou escapar uma risada. Ela lançou um olhar indignado para a expressão zombeteira dele e devolveu:
– Não acredita em mim?
– Nem em uma palavra. – então lançou-lhe um olhar verde penetrante. – Por que não me diz a verdade?
Bella baixou os olhos mais uma vez, desesperada por outra mentira que pudesse contar, alguma coisa, qualquer coisa que a tirasse daquela situação.
Edward pareceu ler sua mente.
– Lady Isabella...
– Preferiria que me chamasse de Bella. – retrucou ela, depressa.
– Não gosta de Isabella? – as palavras eram preguiçosamente curiosas.
Ela fez que não com a cabeça, recusando-se a encará-lo.
– Bella... – concedeu Edward, em um tom profundo que ela tinha certeza de que usava quando queria algo de uma mulher. Bella não se surpreenderia se descobrisse que o truque sempre funcionava. – Por que está aqui?
E então, fosse por coragem, covardia ou xerez demais – jamais saberia –, decidiu responder. Afinal de contas, a noite não podia piorar. Em um sussurro, anunciou:
– Vim pedir que me beijasse.
.::..::..::.
Não era a resposta que Edward estava esperando. Ficou surpreso quando as palavras tímidas quase inaudíveis ressoaram no aposento silencioso. Por um momento fugaz, pensou ter ouvido errado, mas o rubor carmim que tomou o rosto de Bella foi o suficiente para convencê-lo de que, sim, havia acabado de receber uma proposta completamente indecente de lady Isabella Swan.
A noite começara inócua. Tendo recusado todos os convites que recebera, ele jantara com os irmãos, ainda assimilando a recente descoberta de Rosalie, e então se retirara para o quarto, na esperança de que a privacidade de seu santuário e do piano oferecesse uma distração bem-vinda. Acabara funcionando, e ele se perdera em sua música.
Até a batida à sua porta, anunciando a chegada de uma visita. Ele avaliou abertamente. Não era feia – um tanto sem graça, mas Edward imaginava que fosse mais um resultado da capa negra simples do qualquer outra coisa. Tinha lábios carnudos, a pele perfeita e olhos grandes e adoráveis que faiscavam de emoção. Ficou pensando brevemente de que cor seriam antes de se forçar a voltar ao assunto em questão.
Aquela obviamente era primeira vez que tal dama havia feito algo tão atrevido, tão aventureiro. Se já não conhecesse sua reputação ilibada, teria sido capaz de percebê-la em seu óbvio desconforto. A pequena Isabella Swan, que conhecia apenas por alto, dos anos que ela passara se escondendo nos cantos dos salões de baile e salas de estar, era uma dama recatada da melhor qualidade.
Só não estava sendo muito recatada esta noite, claro.
Edward a observou calmamente, escondendo os pensamentos com os anos de prática. Isabella se recusava a encará-lo, preferindo se concentrar nas próprias mãos entrelaçadas enquanto se voltava de relance para a porta, como se medisse o sucesso potencial de uma tentativa de fuga. O marquês não pôde conter um arroubo de simpatia por aquele bichinho obviamente pego em uma situação muito além de sua experiência.
Poderia se comportar como um cavalheiro – ter pena dela, oferecer-lhe uma saída e se dispor a esquecer que aquela noite acontecera. Mas sentia que, apesar do nervosismo, havia uma parte da moça que queria levar a situação até o fim. Ficou imaginando até onde ela iria.
– Por quê?
Os olhos de Isabella se arregalaram diante da pergunta, voltando-se na direção dos dele por um breve momento, antes de se desviarem de novo.
– M-milorde? – gaguejou.
– Por que esse pedido? Não que não esteja lisonjeado, claro. Mas tem de admitir que é um tanto estranho.
– Eu... eu n-não sei.
Edward balançou a cabeça de leve, um predador caçando.
– Esta, minha querida, é a resposta errada.
– Não devia me chamar assim. É íntimo demais.
Os lábios de Edward curvaram-se num dos cantos, em uma sugestão de sorriso.
– A senhorita está em meu quarto, pedindo-me para beijá-la. Acho que já passamos um tanto dos limites do decoro. Agora, vou perguntar de novo: por quê?
Bella fechou os olhos para conter uma onda de vergonha. Por um instante, achou que ela não responderia. E então, viu-a dar de ombros com um suspiro profundo, e ela disse:
– Nunca fui beijada. Achei que já estava na hora.
As palavras o chocaram – não tinham qualquer nota de autocomiseração ou de súplica. Na verdade, eram tão sinceras e pragmáticas que o marquês não pôde deixar de admirar a coragem da moça. Uma declaração como aquela não podia ser fácil de fazer.
Ele não demonstrou surpresa.
– Por que eu?
A confissão parecia ter fortalecido sua confiança, e Isabella respondeu sem pausa, como se estivesse declarando o óbvio:
– É um libertino famoso. Ouvi os boatos.
– Ah, é? Que boatos?
O calor inundou as bochechas de Bella. Ele insistiu.
– Lady Isabella, a que boatos se refere?
Bella limpou a garganta.
– Eu... posso ter ouvido... que o senhor deixou certa viscondessa seminua no conservatório do marido enquanto pulava pela janela para fugir da ira dele.
– Isso é exagero.
– Dizem que o senhor deixou a camisa. E que ele a queimou simbolicamente.
– Um total exagero.
Bella encarou-o.
– E quanto à filha do vigário que o seguiu por toda Devonshire, na esperança de se perder?
– Onde a senhorita ouviu isso?
– É incrível o que se escuta nos cantos dos salões de baile, milorde. É verdade?
– Digamos apenas que eu tenho muita sorte por ela não ter me alcançado. De qualquer forma, chegou a meus ouvidos a informação de que está muito bem casada e feliz, em Budleigh Salterton. – Isabella riu da resposta, achando-o divertido e quase engasgando a ouvi-lo acrescentar: – Bem, considerando os boatos que ouviu, quem garante que eu pararia depois de começar a beijá-la?
– Ninguém. Mas o senhor pararia.
– Como sabe?
Edward reconheceu o tom de autodepreciação na voz dela, mas ignorou-o.
– Por que agora? Por que não esperar que um homem apareça e... a arrebate?
Bella deu uma risadinha.
– Se o homem de quem o senhor fala algum dia planejou aparecer, milorde, acho que obviamente se perdeu pelo caminho. E, aos 28 anos, percebi que estou cansada de esperar.
– Talvez a senhorita devesse exibir um pouco da personalidade que está mostrando esta noite em um foro mais público. – sugeriu ele. – Admito que parece muito mais intrigante do que já imaginei, milady, e a curiosidade é a centelha do desejo.
As palavras foram direto ao ponto, e ela corou novamente. Edward era incapaz de negar o quanto estava se divertindo com o acontecimento inesperado. Sem dúvida, era exatamente a distração de que ele precisava diante da apresentação de Rosalie à sociedade.
E, na esteira desse pensamento, ocorreu-lhe outra coisa.
Lady Isabella Swan era a solução dos seus problemas. E lhe fora entregue na porta de casa – bem, um pouco mais para dentro do que apenas a porta – no mesmo dia em que sua irmã há muito perdida. Sentiu uma onda de satisfação.
Ele a beijaria. Por um preço.
– Estaria disposta a considerar uma troca?
Isabella pareceu desconfiada.
– Uma troca? – Deu um passo para trás, aumentando a distância entre eles. – Que tipo de troca?
– Nada tão terrível quanto a senhorita obviamente está pensando. Sabe, parece que tenho uma irmã.
Os olhos dela se arregalaram.
– Uma irmã, milorde?
– Sim, também fiquei muito surpreso. – Ele fez uma breve descrição dos acontecimentos do dia: a chegada de Juliana, sua decisão de apresentá-la como irmã em vez de uma parente distante, o compromisso em arrumar-lhe um patrono adequado com uma reputação impecável para facilitar sua entrada na sociedade. – Então, como pode ver, é uma sorte a senhorita estar aqui esta noite. É a solução perfeita. Presumindo, é claro, que não tenha o hábito de visitar cavalheiros solteiros no meio da noite.
Ela deu uma rosadinha constrangida.
– Não, milorde. O senhor é o primeiro.
Ele sabia disso e fez uma anotação mental para descobrir depois o que exatamente havia incitado essa visita noturna.
– E o último, espero, pelo menos até Rosalie ser apresentada com sucesso.
– Ainda não concordei com seu pedido.
– Mas vai concordar. – O tom era de arrogância. – E, como pagamento, terá seu beijo.
– Perdoe-me – retrucou ela, deixando o humor permear a voz –, mas o senhor deve valorizar muito os seus beijos.
Ele assentiu, acatando o argumento.
– Muito bem. Diga seu preço.
Bella fitou o teto, pensativa, antes de responder:
– O beijo basta por enquanto, mas reservo-me o direito a um favor no futuro.
– Devo ficar em débito com a senhorita, então?
Ela sorriu.
– Pense nisso como uma transação de negócios, milorde.
Edward ergueu uma elegante sobrancelha.
– Uma transação de negócios que começa com um beijo?
– Uma transação de negócios única. – ela corou novamente.
– A senhorita parece chocada com a própria ousadia. – comentou.
Bella assentiu.
– Não sei bem o que me deu.
Mais uma vez, a sinceridade da moça o surpreendeu.
– Muito bem, milady, é uma negociadora formidável. Aceito seus termos. – E aproximou-se, a voz assumindo um tom sedutor de tenor. – Vamos selar com um beijo, então?
Bella recuperou o fôlego e se enrijeceu diante da pergunta. Edward sorriu com o óbvio nervosismo da dama. Passou um dedo ao longo da sua testa, junto do cabelo, ajeitando com cuidado um cacho solto atrás da orelha. Ela o encarou com os grandes olhos castanhos e ele sentiu um arroubo de ternura. Inclinou-se para a frente, movendo-se devagar, como se ela pudesse se assustar a qualquer momento, e sua boca firme roçou a dela, parando brevemente, mal tocando, e Bella pulou para trás, uma das mãos voando até os lábios.
Ele a fitou com um olhar franco e esperou que ela dissesse alguma coisa. Diante do seu silêncio, pergunto:
– Algum problema?
– N-não! – respondeu Bella, um pouco alto demais. – De jeito nenhum, milorde. Quero dizer... obrigada.
A respiração do marquês saiu quase como um riso.
– Acho que a senhorita entendeu mal a experiência. E fez uma pausa, vendo a incompreensão atravessar o rosto dela. – Sabe, quando concordo em fazer uma coisa, faço-a sem reservas. Este não foi o beijo que veio buscar, mocinha.
Bella franziu a testa diante das palavras e do tratamento com que se referira a ela.
– Não foi?
– Não.
Seu nervosismo aumento e Bella voltou a brincar com a borla da capa.
– Ora bem. Foi bastante agradável. Acho que estou muito satisfeita pelo senhor ter cumprido sua parte no acordo.
– Bastante agradável não deveria ser o que está procurando. – argumentou ele, pegando as mãos inquietas dela e imprimindo um tom mais grave à voz. – Nem o beijo deveria deixa-la satisfeita.
Ela puxou as mãos brevemente, desistindo ao perceber que, em vez de largá-las, ele a puxou mais para perto, colocando-as nos ombros dele. Ele correu os dedos ao longo de seu pescoço, deixando-a sem ar, a voz apenas um chiado, quando respondeu:
– Como ele deveria me deixar?
Edward então a beijou. De verdade.
Puxou-a contra si e pressionou a boca na dela, possuindo-a, tomando-a de uma forma que Bella nunca poderia ter imaginado. Os lábios firmes e quentes brincaram junto aos dela, tentando-a até fazê-la arfar por ar. Ele capturou o som em sua boca, tirando vantagem dos lábios entreabertos para enfiar a língua, provando-a de leve até Bella não aguentar mais a provocação. Foi como se ele lesse seus pensamentos e, quando ela não podia aguentar nem mais um instante, abraçou-a mais apertado e aprofundou o beijo, mudando a pressão. E sondou mais fundo, afagando com mais firmeza.
E ela se perdeu.
Bella se consumiu, desesperada para equiparar os movimentos aos dele. Suas mãos pareciam se mover por vontade própria, correndo pelos ombros largos de envolvendo seu pescoço. Hesitante, encontrou a língua de Edward com a sua e foi recompensada com um som satisfeito vindo do fundo da garganta dele, enquanto ele apertava-a junto de si, enviando outra onda de calor através dela. Ele retrocedeu, e Bella o imitou copiando seus movimentos até os lábios dele se fecharem escandalosamente em volta da língua dela e chuparem de leve – a sensação a abalou até o âmago. De repente, estava em chamas.
O marquês tinha razão. Este era o beijo pelo qual tinha vindo.
Então ele o interrompeu, passando os lábios pelo bochecha dela e levando-os até sua orelha. Pegando o lóbulo macio entre os dentes, mordeu de leve, enviando ondas de prazer por seu corpo. De muito longe, Bella ouviu um ganido... e, tardiamente, percebeu que vinha dela mesma.
Quando falou, seus lábios se curvaram junto à orelha dela, a respiração áspera transformando as palavras mais em um afago do que um som.
– Beijos não devem deixá-la satisfeita.
E retornou aos lábios de Bella, tomando sua boca novamente, roubando-a de todos os pensamentos com uma carícia profunda e inebriante. Só o que queria era ficar mais próxima dele, ser abraçada com mais firmeza. E, como se pudesse ouvir seus pensamentos, ele a puxou mais para perto, aprofundando o beijo. O calor a consumia. Aqueles lábios macios e provocantes pareciam conhecer todos os seus segredos.
Quando ele se afastou, Bella havia perdido todas as forças. As próximas palavras do marquês alcançaram-na em meio a uma bruma sensual.
– Eles devem deixá-la querendo mais.
Ok, eu pirei a primeira vez que li. Surtei mesmo.
Adorei tanto essa história pelo simples fato de ela ser muito objetiva, os personagens não tem o costume de tentar se enganar, eles sabem o que desejam e se atracam a todo momento, rs.
Até a próxima e bom feriado para vocês! Beijos.
