Adaptação da obra literária de Sarah McLean. Personagens de Stephenie Meyer.
CAPÍTULO QUATRO
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"Mal posso esperar por sua próxima visita, milady."
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Bella acordou tarde, com uma sensação instantânea de apreensão nervosa. Por alguns breves momentos, seus pensamentos confusos não conseguiram determinar o motivo da estranha sensação – até os acontecimentos da noite anterior voltarem em uma enxurrada, arremessando-a em uma consciência vívida. Sentou-se na cama com um sobressalto e congelou, os olhos arregalados, torcendo para que a noite inteira tivesse sido só um sonho louco e ridículo.
Não teve sorte.
Onde estava com a cabeça quando resolvera ir até à Casa Cullen no meio da noite? Havia abordado abertamente o marquês de Cullen em seu quarto? Havia mesmo se oferecido ao libertino mais famoso de Londres? Não era possível que tivesse pedido a ele que a beijasse. Lembrando-se de seus atos, corou, sentindo uma onda de calor tomar seu rosto e fazer com que enterrasse a cabeça nas mãos, gemendo com uma vergonha abjeta.
Nunca mais tocaria em uma gota de xerez. Nunca mais.
Seus pensamentos dispararam por alguns breves momentos, até que ergueu a cabeça e falou em voz alta, horrorizada:
– Pedi a ele que me beijasse!
Bella caiu de volta na cama com um suspiro e implorou silenciosamente ao universo que a matasse ou, no mínimo, que a deixasse enferma. Simplesmente não podia arriscar a encarar Edward Masen de novo uma vez que fosse. Não depois daquele beijo.
Mas que beijo fora aquele! Fechou os olhos bem apertados com a lembrança, mas foi incapaz de impedir a enxurrada de imagens que ela provocou. O beijo fora tudo o que sempre imaginara. Fora mais. O marquês fora impressionante, agigantando-se acima dela, o cabelo escuro despenteado, os olhos cintilando à luz suave das velas no quarto, até enfim beijá-la, os lábios quentes, as mão fortes, um homem extraordinário.
Movendo-se por conta própria, as mãos de Bella percorreram o próprio corpo conforme se lembrava da carícia suave de sua língua, a pegada firme de seus braços. Sentiu uma onda de calor ao pensar na forma delicada com que os lábios dele brincaram com os dela, o arrepio de excitação que sentira com o hálito dele em seu pescoço. Ele fora tudo o que ela sempre sonhara.
E quando terminou, Bella tinha sido reduzida a escombros. Ele havia dito que beijos deviam deixá-la querendo mais... mas ela não estava preparada para o vazio que a dominou quando ele se afastou de seu enlace, parecendo tão calmo e controlado como se tivessem acabado de sair da missa de domingo.
Bella ficou querendo mais. Ainda queria.
A experiência toda, por mais constrangedora, tinha sido tão poderosa, libertadora e totalmente diferente de qualquer coisa que tivesse vivenciado antes – exatamente como ela sempre sonhara. E fora com o marquês Cullen! Um beijo para compensar os dez longos anos passados nos cantos dos salões de baile, vendo-o com um fluxo interminável de beldades nos braços, uma década aguçando os ouvidos sempre que ouvia cochichos em salões femininos sobre os últimos casos dele, uma década seguindo sua longa fila de amantes com o que sempre dissera a si mesma ser um interesse casual. Claro que nunca houvera nada de casual a respeito de seu interesse por ele.
Balançou a cabeça. Homens como ele não eram para mulheres como Bella. No mínimo, ela aprendera isso na noite anterior. O marquês de Cullen era todo escuridão, excitação e aventura... e apesar do que a Bella embriagada de xerez possa ter aparentado ser na última noite...
Bem, à luz do dia, não era nenhuma daquelas coisas.
Mas, por um instante, por um momento passageiro, ela fora. E que momento adorável havia sido. Fora ousada, direta e nada passiva – em busca do que sabia que jamais teria caso não agisse daquela forma. E, apesar de a noite anterior poder tê-la ensinado que Cullen não era para ela, certamente não havia motivo para que as demais coisas que ansiava fazer não pudessem ser completamente atingíveis.
Eu poderia completar a lista.
O pensamento encorajou-a. Virou-se instintivamente para o elegante criado-mudo em cima do qual pusera a escandalosa folha de papel antes de se deitar na cama. Esticando a mão para pegar a lista, examinou-a, uma sombra de sorriso brincando em seus lábios, enquanto revisava as palavras rabiscadas. Tomando os acontecimentos da noite anterior como base, poderia presumir que iria desfrutar cada minuto completando os demais itens. Aqueles nove desafios eram tudo o que se punha entre Bella e a vida. Só o que tinha que fazer era assumir o risco.
E por que não?
Revigorada, empurrou o cobertor para longe e saiu da cama. Aprumando os ombros, atravessou o quarto até a pequena escrivaninha no canto, pousou a lista, alisou o papel amassado e considerou as palavras mais uma vez, antes de esticar a mão para uma pena e mergulhá-la em um tinteiro. Havia beijado alguém. Apaixonadamente.
Em um movimento único e contínuo, traçou uma linha preta e grossa sobre o primeiro item, e imediatamente um sorriso imenso surgiu em seu rosto. E agora?
Uma batida rápida soou, e, pelo reflexo do espelho, Bella viu a porta se abrir, revelando sua criada. Registrando o olhar severo no rosto da mulher mais velha, o sorriso de Bella sumiu, enquanto a porta se fechava com um clique.
– Bom dia, Sue.
Ela escorregou depressa a lista para debaixo de um livro de poemas de Byron.
– Isabella Swan, o que a senhorita fez? – entoou Sue lentamente.
Os olhos de Bella afastaram-se da mulher, indo parar em um enorme guarda-roupa de mogno.
– Gostaria de me vestir. Tenho um compromisso esta manhã.
– Com o marquês de Cullen?
Os olhos de Bella se arregalaram.
– Como você... O quê?... Não!
– É mesmo? Acho difícil de acreditar, considerando que há um homem da Casa Cullen lá embaixo esperando uma resposta para a mensagem que acabou de chegar para a senhorita.
Bella prendeu a respiração ao distinguir o pedaço de papel nas mãos da criada. Ela se levantou, atravessando o quarto.
– Deixe-me ver.
Sue cruzou os braços por cima dos seios fartos, escondendo a carta.
– Por que o marquês de Cullen está lhe mandando mensagens, Bella?
Ela corou.
– Eu... não sei.
– A senhorita é uma péssima mentirosa. Desde que usava cueiros. – Sue não dava o braço a torcer. – Há anos tem fixação pelo marquês, menina Bella. Por que de repente ele ficou interessado?
– Eu... Ele não ficou! – tentando responder com firmeza, esticando a mão. – Gostaria de ver minha correspondência, Sue.
A criada sorriu antes de perguntar, casualmente:
– Esteve com ele ontem à noite?
Bella ficou petrificada, o calor inundando suas bochechas, antes de responder:
– Claro que não!
A outra lhe deu um olhar sugestivo.
– Bem, a senhorita esteve em algum lugar. Eu a ouvi entrando pela porta de serviço logo antes de o sol nascer.
Bella se dirigiu até o guarda-roupa abrindo as portas com força, para se distrair da conversa.
– Sabe, Sue, só porque cuidou de mim desde que nasci, isso não lhe dá o direito de falar comigo com tanta liberdade.
Sue deu uma risadinha.
– Claro que dá.
A criada aproveitou que Bella havia se afastado da penteadeira, retirou a lista de seu esconderijo e leu. Ao ouvir o arquejo escandalizado de Sue, Bella virou-se e viu o papel na mão da criada.
– Não, me dê isso!
– Bella! O que fez?
– Nada! – ela tentou tomar o papel e parou, assimilando o olhar de descrença de Sue. – Bem, nada sério.
– Este papel não parece ser nada.
– Prefiro não discutir isso.
– Disso eu tenho certeza.
– Não é nada. É só uma lista.
– Uma lista escandalosa. De coisas que moças solteiras não fazem.
Bella voltou-se para o guarda-roupa, enfiando a cabeça bem fundo no móvel, na esperança de encerrar a conversa. Quando puxou um vestido diurno e se virou, Sue ainda estava esperando uma resposta. Com um suspiro, murmurou:
– Bem, talvez moças solteiras devessem aproveitar sua juventude e liberdade e experimentar algumas dessas coisas.
Sue piscou diante das palavras sinceras e então riu.
– A senhorita já completou um dos itens.
– Completei.
Bella corou.
Sue estreitou os olhos para o papel, esforçando-se para ler as palavras obscurecidas. Quando ergueu os olhos, espantada Bella deu-lhe as costas.
– Bem, Isabella Swan. A senhorita não perdeu tempo em conseguir o que passou anos desejando.
Bella não pôde conter o sorrisinho que brincou em seus lábios.
– A senhorita esteve com o marquês ontem à noite!
As bochechas de Bella falaram por si.
– Uma coisa é certa. – constatou Sue, com uma pontada de orgulho na voz. – A senhorita é a única moça que conheci que fez uma lista como esta e realmente a realizou. – Seu tom se alterou – Se não estiver arruinada em uma semana, vou ficar ainda mais surpresa do que agora.
– Vou tomar muito cuidado. – protestou Bella.
Sue balançou a cabeça.
– A não ser que trabalhe para o Ministério da Guerra, Bella do meu coração, não pode fazer metade das coisas nesta lista sem que sua reputação desabe na sarjeta. – Ela fez uma pausa. – A senhorita sabe disso, não sabe?
Bella assentiu de leve.
– É errado eu não estar me importando muito agora?
– É. A senhorita não pode fazer tudo isso, Bella. Jogar? Em um clube para homens? Está louca?
Bella ficou séria.
– Não.
As duas ficaram em silêncio por um longo momento. Por fim, Bella pareceu encontrar as palavras que estava procurando:
– Mas, Sue, foi tão maravilhoso! Foi a aventura mais incrível, mais libertadora. Pode me culpar por querer mais?
– Parece que a senhorita já está conseguindo mais do que pediu. Me dê isto aqui.
Sue pegou a musselina cor de pêssego de Bella e a trocou por um vestido diurno de algodão verde-claro.
– O que havia de errado com o que eu escolhi?
– Ah, pare. Se vamos à Casa Cullen, este é o vestido que vai usar. A senhorita fica linda de verde.
Bella aceitou o vestido, observando enquanto Sue procurava por roupas de baixo.
– Não vamos à Casa Cullen.
Ainda absorta com o conteúdo do guarda-roupa, Sue não respondeu. Em vez disso, empurrou a missiva na direção de Bella. Ignorando as mãos trêmulas, Bella quebrou o lacre de cera, desesperadamente curiosa e mortificada ao mesmo tempo.
Lady Isabella,
Minha irmã estará à sua espera às onze e meia.
C.
Não havia como voltar atrás agora.
– Sue – titubeou Bella, incapaz de desviar os olhos da carta. –, nós vamos à Casa Cullen.
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Um dia depois de sua primeira visita à Casa Cullen, Bella se viu mais uma vez nos degraus da frente da imponente construção – desta vez, muito respeitavelmente, à luz do dia, acompanhada de sua criada –, para ter um encontro com a Srta. Rosalie Fiori, a misteriosa irmã mais nova do marquês.
Bella respirou fundo, enviando uma prece silenciosa ao destino para que Cullen não estivesse em casa, na esperança de que pudesse escapar da inevitável mortificação abjeta. É claro que sabia que interações futuras seriam inevitáveis... havia, afinal de contas, concordado em guiar a irmã dele para entrar na sociedade. No entanto, podia ao menos torcer para não encontrá-lo hoje.
Um lacaio abriu a porta, revelando o mordomo, Wingate, impassível no saguão mais adiante. Por favor, não me reconheça, implorou em silêncio enquanto olhava para o rosto enrugado do mordomo, tentando parecer calma e controlada.
– Lady Isabella Swan, para ver a Srta. Rosalie. – anunciou Bella, aprumando-se para ficar bem ereta e forçando o mais equilibrado dos tons às palavras.
Ofereceu um cartão ao mordomo, que o recebeu com uma reverência.
– Claro, milady. A Srta. Rosalie está à sua espera. Por favor, queira me acompanhar.
Assim que Wingate virou de costas, Bella soltou um longo e silencioso suspiro de alívio. Seguiu-o até uma porta aberta que se abria para o corredor principal de mármore e lhe ofereceu um aceno régio, quando ele deu um passo para o lado para deixá-la entrar em uma adorável sala de recepção verde.
Bella admirou a sala verde-clara que forrava as paredes, o divã e as cadeiras trabalhadas, todas lindamente feitas de mogno e estofadas em tecido da melhor qualidade. A luminosidade do aposento era complementada por uma deslumbrante estátua de mármore em uma das extremidades – uma silhueta feminina alta e esguia, esculpida como se estivesse segurando acima da cabeça uma larga tira de tecido que ondulava atrás de si. Bella prendeu a respiração diante da beleza da estátua; foi incapaz de resistir a andar em sua direção, atraída pelo sorriso calmo e misterioso que adornava o rosto encantador da deusa e pelo movimento fluído do mármore. Estava admirando o caimento do vestido da escultura, esticando a mão para tocar as pregas do tecido, quase que esperando sentir o calor da fazenda, em vez da frieza da pedra, quando uma voz soou do vão da porta:
– Linda, não é?
Bella rodopiou na direção do som com um pequeno arquejo. No vão da porta estava o marquês Cullen, exibindo um sorriso jovial, como se estivesse se divertindo com o desconforto dela.
Não... não era o marquês.
O homem no vão da porta era lorde Anthony Masen, alto e de ombros largos, o maxilar bem definido e os olhos verdes cintilantes. Idêntico ao marquês em tudo, exceto em um detalhe. A bochecha direita do lorde era marcada por uma cicatriz grotesca, uma longa linha branca e fina que cortava a pele levemente bronzeada em nítido contraste com o resto do homem, um cavalheiro impecável. Mas, embora a cicatriz devesse ter dado a lorde Masen um semblante perigoso, na verdade o tornava mais atraente. Bella já presenciara mulheres respeitáveis da alta-roda virarem bobas quando estavam perto dele – algo que ele parecia não perceber.
– Lorde Anthony – cumprimentou ela com um sorriso, oferecendo uma reverência breve com a cabeça, enquanto ele atravessava a sala para pegar sua mão e se curvar profundamente.
– Lady Isabella. – ele sorriu calorosamente. – Vejo que descobriu a minha amada. – disse, indicando a estátua.
– Sem dúvida, descobri. – Bella voltou a atenção para o mármore. – É deslumbrante. Quem é o escultor?
O lorde balançou a cabeça, um brilho nos olhos traindo seu orgulho.
– Desconhecido. Encontrei na costa sul da Grécia há vários anos. Passei sete meses coletando peças em mármore por lá, voltei para casa com obras de mais e doei essa beleza para o melhoramento da Casa Cullen, na condição de que meu irmão lhe desse um lar adequado. – Ele fez um pausa, hipnotizado pela estátua. – Creio que é Selene, deusa da lua.
– Parece tão satisfeita.
– A senhorita soou surpresa.
– Bem... – começou Bella, hesitantemente. – A história de Selene não é das mais felizes. Afinal de contas, está fadada a amar um mortal em sonho eterno.
Anthony virou-se ao ouvir as palavras, obviamente impressionado.
– Culpa dela própria. Devia saber que não se pede favores à Zeus. Eles nunca acabam bem.
– Uma verdade da qual Selene provavelmente estava muito consciente quando recebeu seu favor. Presumo que esta estátua represente uma Selene feliz antes de Zeus se intrometer.
– A senhorita se esquece – ponderou o lorde, um brilho provocante nos olhos. – de que ela e Endimião tiveram vinte filhos apesar da sonolência dele, então Selene não podia estar assim tão infeliz com toda a situação.
– Com todo o respeito, milorde. Mas gestar e criar vinte crianças sozinha não parece a mais feliz das circunstâncias. Acho difícil acreditar que esta estátua pareceria tão descansada se fosse um retrato da felicidade maternal.
Anthony riu alto.
– Excepcionalmente bem colocado, lady Isabella. A julgar por esta conversa, a estreia de Rosalie na sociedade vai ser muito divertida... ao menos para mim.
– E, é claro, a sua diversão é da maior importância, Anthony.
Bella enrijeceu conforme as palavras irritadas cruzavam o aposento, sombrias e ameaçadoras, fazendo seu coração disparar. Tentou manter a ilusão de calma, mas soube antes de se virar que o marquês havia se juntado a eles.
Parecendo sentir seu nervosismo, Anthony piscou para ela antes de abrir um sorriso largo na direção do irmão e dizer:
– Claro que é.
A carranca de Edward aumentou. Ele se virou para Bella, trespassando-a com um olhar verde perfurante. Um rubor vivo coloriu suas bochechas e ela desviou os olhos, fixando-os em outro lugar qualquer. Thony percebeu seu desconforto e foi em seu auxílio.
– Não precisa ser grosseiro, Edward. Estava só mantendo lady Isabella ocupada enquanto esperamos Rosalie chegar. Onde ela está?
– Impedi que Wingate a chamasse. Gostaria de conversar com lady Isabella antes que elas se conhecessem. – Ele fez uma pausa. – A sós, por favor, Thony.
O coração de Bella começou a martelar rapidamente. O que teria para dizer a ela que seu irmão não poderia ouvir?
Segurando sua mão, Thony fez uma profunda reverência e acrescentou:
– Mal posso esperar por sua próxima visita, milady. – E se aprumou, oferecendo a Bella um sorriso brilhante e outra piscadela tranquilizadora.
Ela não pôde deixar de sorrir de volta.
– Igualmente, milorde.
Edward esperou que a porta da sala se fechasse antes de acenar para que ela se sentasse em uma das cadeiras próximas, ocupando outra na sua frente. Bella tentou ignorar o modo como ele fazia a mobília – e o próprio aposento – parecer menor, como se toda a casa fosse projetada para uma criatura inferior. Baixou a cabeça, fingindo estar encantada pelo estofado da cadeira na qual estava sentada – ansiosa para transparecer indiferença. Era em vão. O marquês não era um homem que passava despercebido facilmente.
– Quero falar sobre Rosalie antes que a senhorita a conheça.
Bella suprimiu uma pontada de decepção. Ele tinha que ser tão superficial? Não ergueu os olhos. Em vez disso, voltou a atenção para as mãos enluvadas, apertadas uma conta a outra em seu colo, tentando desesperadamente esquecer que havia poucas horas essas mesmas mãos haviam tocado o marquês com tanta intimidade. Mas como podia esquecer? A pele quente, o cabelo macio, os braços fortes e musculosos... havia tocado tudo isso. E ele parecia inteiramente impassível.
Pigarreou de leve e assentiu:
– Certamente, milorde.
– Acho que é melhor a senhorita vir à Casa Cullen para trabalhar com Rosalie. Ela precisa de uma orientação significativa, e eu não gostaria que desse um passo em falso na frente da condessa de Swan.
Bella arregalou os olhos ao erguer a cabeça para ele.
– Minha mãe jamais trairia o sigilo das lições de sua irmã.
– Mesmo assim, as paredes têm ouvidos.
– Não as paredes da Casa Swan.
Ele se inclinou para a frente em sua cadeira, chegando perto o bastante para tocá-la, os músculos tensos com uma força represada.
– Deixe-me ser claro. Não vou ceder neste ponto. Rosalie está resistindo a entrar para a sociedade e ansiosa para voltar à Itália. Ela provavelmente vai causar alguns estragos antes de aceitar que este é o seu novo lar. Sua mãe e as amigas dela são pilares da alta sociedade, mulheres para as quais a linhagem e a reputação são supremas e, apesar de Rosalie não ter uma árvore genealógica que possa ser traçada até Guilherme, o Conquistador, e muito provavelmente ser conspurcada pela reputação maculada de nossa mãe, vai conhecer a aristocracia de Londres. E vai encontrar um bom pretendente. Não vou pôr essa oportunidade em risco.
Ele falava com certeza absoluta, como se o único caminho verdadeiro para o sucesso de Rosalie fosse o que havia planejado. E, ainda assim, não havia como negar a urgência que permeava sua voz. O marquês tinha razão – Rosalie Fiori precisaria de muito mais do que o apoio de Bella para ser bem-sucedida na alta sociedade. Era filha de uma marquesa que caíra em desgraça e de um mercador italiano – não era da aristocracia, quase nem legítima aos olhos da alta-roda.
Mas Edward Masen, o marquês de Cullen, não permitiria que a história obscura de sua árvore genealógica maculasse o futuro da irmã. O fato de os irmãos Masen Cullen terem se comprometido a apresentar Rosalie à sociedade era uma prova de sua impetuosidade e, sendo ela própria uma irmã orgulhosa e comprometida, Bella respeitava a decisão. Estes não eram homens que fracassavam.
– Estou ansiosa para conhecer sua irmã, milorde.
Uma frase bastante simples, mas que carregava um significado inequívoco. Aceito seus termos.
Edward ficou em silêncio, observando-a com seu jeito penetrante e consciente e, pela primeira vez em uma década, Bella não desviou o olhar. Quando ele falou, instantes depois, foi em um tom mais suave:
– Não pensei que viria hoje.
Uma sugestão de sorriso brincou nos lábios dela.
– Confesso, milorde, que pensei em evitar a visita.
– E, ainda assim, aqui está.
Suas faces enrubesceram e Bella baixou a cabeça timidamente.
– Temos um acordo.
Quando ele respondeu, sua voz soou mais baixa, mais pensativa:
– Sem dúvida. Nós temos.
O timbre aprofundado de tenor produziu uma enxurrada de calor pelo corpo de Bella e ela pigarreou, aflita, virando-se com afetação para um relógio em uma mesa próxima.
– Está ficando tarde, milorde. Acho que está na hora de eu conhecer a Srta. Rosalie. Não acha?
Ele sustentou seu olhar por um longo momento, como se estivesse lendo seus pensamentos mais íntimos. Acabou parecendo satisfeito com o que via. Sem falar, levantou-se e mandou buscarem sua irmã.
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A primeira coisa que se notava em Rosalie Fiori não era a beleza, embora, sem dúvida, fosse uma menina linda – dona de olhos verdes impressionantes, pele de porcelana e uma abundância de cachos de um louro intenso pela qual a maioria das mulheres cometeria sérios pecados. Também não eram seus traços delicados ou a voz cadenciada pelo sotaque de seu italiano natal. Nem a altura, apesar de ser bem mais alta do que Bella, e provavelmente do que muitas outras mulheres.
Não, a primeira coisa que se notava em Rosalie Fiori era sua franqueza.
– Que tolice termos que levar em conta se quem vem primeiro é o leite ou o chá, quando servimos uma xícara.
Bella engoliu uma risada.
– Suponho que não deem tanto valor a esta cerimônia em Veneza.
– Não. É líquido. É quente. Não é café. Para que se preocupar?
O sorriso de Rosalie se acendeu, revelando uma covinha em sua bochecha.
– Realmente, para quê? – respondeu Bella, imaginando, brevemente, se os irmãos da moça possuíam esse traço tão encantador.
– Mas não se preocupe. – Rosalie ergueu uma das mãos, dramaticamente. – Vou me esforçar para lembrar quanto o chá é sagrado neste país. Odiaria causar outra guerra entre a Inglaterra e o restante da Europa.
Bella riu, aceitando uma xícara de chá perfeitamente servida da mulher mais jovem.
– Tenho certeza de que o Parlamento irá lhe agradecer imensamente por sua diplomacia.
As duas sorriram, antes de Rosalie continuar:
– Certo. Se eu fosse conhecer um duque ou uma duquesa... – comentou Rosalie, enquanto servia cuidadosamente um pedaço de bolo em um pratinho para Bella.
– O que certamente fará – observou Bella.
– Allora, quando conhecer um duque ou uma duquesa, devo me referir a ambos como "Vossa Alteza". Os outros todos posso chamar de "milorde" ou "milady".
– Correto. Pelo menos os que possuem algum título ou os que receberam títulos de cortesia por causa de seu parentesco.
Rosalie inclinou a cabeça, assimilando as palavras de Bella.
– Isso é mais complicado do que chá. – Ela riu. – Acho que é muito bom para meus irmãos que eu só esteja aqui por um breve período. Com certeza vão poder reparar rapidamente qualquer estrago que sua irmã italiana escandalosa possa fazer em apenas dois meses.
Bella ofereceu um sorriso tranquilizador.
– Bobagem. A senhorita vai ser um estouro.
Rosalie pareceu preocupada.
– Estou tão mal assim?
Bella alargou o sorriso, negando com a cabeça.
– É uma expressão. Significa que vai ser um sucesso em sociedade. – E abaixou a voz em um sussurro conspiratório: – Prevejo que os cavalheiros vão clamar para conhecê-la.
– Exatamente como fizeram com a minha mãe, não? – Os olhos verde de Rosalie cintilaram e ela acenou com a mão. – Não. Por favor, pode ir esquecendo essa ideia de casamento. Nunca vou me casar.
– Por que não?
– E se acabar sendo igualzinha a ela? – As palavras baixas fizeram Bella hesitar. Antes que pudesse encontrar a resposta certa, Rosalie continuou: – Sinto muito.
– Não precisa pedir desculpas. – Bella aproximou-se, pousando a mão no braço de Rosalie. – Posso imaginar o quanto deve ser difícil.
A mais jovem fez uma pausa, olhando para o colo.
– Por dez anos, fingi que minha mãe não existia. E agora descubro que a única família que me restou veio dela. E esses homens... meus irmãos... – Sua voz sumiu.
Bella observou-a cuidadosamente antes de dizer:
– Não parecem muito uma família agora, não é?
Um lampejo de culpa atravessou o rosto de Rosalie.
– É tão óbvio assim?
Bella negou com a cabeça.
– Nem um pouco.
– Não acho que gostem de mim.
Bella fez que não com firmeza.
– Impossível. A senhorita é uma moça extremamente simpática. Eu, por exemplo, gosto imensamente da sua companhia.
Rosalie deu um meio sorriso antes de acrescentar:
– Acho que Anthony gostou de mim. Mas Edward... – Ela fitou Bella nos olhos e baixou o tom de voz. – Ele não sorri.
Aproximando-se um pouco mais, Bella tentou tranquilizá-la.
– Não daria muita importância a isso. Creio que posso contar em apenas uma das mãos o número de vezes que o vi sorrir.
E não por falta de observação.
Rosalie voltou sua atenção para onde Bella a estava tocando, olhando fixamente por um breve momento, antes de pôr a própria mão sobre a da outra. Quando ergueu os olhos, sua expressão era cheia de dúvida.
– Sou um problema bem grande para ele, não acha? Um dia, a filha órfã de uma mulher que os abandonou aparece, procurando uma nova família.
Bella sabia que devia encerrar essa conversa inadequada. Afinal de contas, os meandros dos assuntos da família Cullen eram apenas isso – assuntos da família Cullen –, mas não conseguiu resistir.
– Não uma nova família. Uma antiga – corrigiu. – Uma da qual a senhorita sempre fez parte. Simplesmente teve que reivindicar seu lugar nela.
Rosalie discordou com a cabeça.
– Não. Eles não sabem nada de mim. Faço pouco mais do que lembrá-los de nossa mãe. Ela é nossa única ligação. Tenho certeza de que é a única coisa que Edward vê quando olha para mim. Acho que vai ficar feliz quando eu partir, daqui a dois meses.
Apesar da imensa curiosidade a respeito da mãe deles, Bella absteve-se de investigar mais a fundo a mulher que havia abandonado com tanta indiferença três filhos tão notáveis, dizendo, em vez disso:
– Seus irmãos podem não a conhecer, Rosalie, mas irão. E vão amá-la. Acho que já começaram. Estou certa de que, daqui a dois meses, não vão deixá-la partir. E, mesmo que permitam, espero que mude de ideia e fique.
Os olhos verdes de Rosalie se encheram de lágrimas.
– Sete semanas e seis dias.
O coração de Bella ficou apertado de compaixão pela moça. Ela sorriu de leve.
– Sinceramente, depois de passar uma tarde com a senhorita, acho que também estou um tanto comprometida com seu futuro. Creio que seremos muito boas amigas.
Rosalie ofereceu a Bella um sorriso lacrimoso. Respirando fundo, a jovem se aprumou e enxugou as lágrimas, decidindo colocar suas inseguranças de lado.
– A senhorita é amiga do meu irmão há muito tempo?
Bella paralisou diante da pergunta.
– Amiga?
– Sì. Está claro que Edward a tem em alta conta e a considera uma amiga. Estava bem impaciente para me informar esta manhã que havia garantido sua concordância em me apadrinhar na sociedade. Se não fossem amigos, por que estaria aqui, arriscando o próprio status para me orientar por todos os meus passos em falso?
Bella sabia que não podia contar a verdade. Sabe, Rosalie, chega um momento na vida de uma mulher em que ela está disposta a fazer qualquer coisa para ser beijada. Ela hesitou, procurando as palavras adequadas. Rosalie interpretou errado o significado do silêncio.
– Ah! – exclamou, um tom cúmplice se infiltrando na única sílaba. – Entendo. A senhorita é mais do que uma amiga, sì?
Os olhos de Bella se arregalaram diante das palavras.
– O que quer dizer?
– A senhorita é a... – Rosalie pensou por um instante, procurando a expressão correta. – A inamorata dele?
– Como disse? – A pergunta terminou em um ganido estrangulado.
– A amante dele, sim?
– Rosalie! – O ultraje a tomou, e Bella se levantou na mais régia das poses, adotando seu melhor tom professoral. – As pessoas não se referem a amantes ou a namoradas ou... qualquer outro assunto privado com convidados!
– Mas a senhorita não é apenas uma convidada! – Rosalie parecia confusa. – É minha amiga, não?
– Claro que sou. No entanto, nem com amigos se fala de assuntos tão particulares!
– Peço desculpas. Não sabia. Achei que se a senhorita e Edward estivessem...
– Não estamos! – As palavras jorraram, a voz de Bella trêmula. – Não somos amantes. Não somos nem amigos! Estou aqui para ajudá-la porque gosto da senhorita. Gosto da sua companhia. O marquês de Cullen não tem nada a ver com isso.
Rosalie fitou Bella diretamente nos olhos, esperando por vários instantes antes de responder:
– Também gosto da sua companhia, lady Isabella, e estou muito feliz em tê-la comigo nesta jornada. – Então inclinou-se para a frente, um canto da boca virado em um sorriso travesso. – No entanto, creio que há mais do que boa vontade no fato de estar aqui. Senão, por que negaria com tanto fervor?
Os olhos de Bella se arregalaram, sua boca se abriu de surpresa e se fechou novamente, sem emitir um som.
– Não se preocupe. Seu segreto está seguro comigo.
Negando com a cabeça, Bella insistiu:
– Mas não há segredo nenhum! Nada o que esconder!
Rosalie abriu mais o sorriso.
– Como quiser. – E inclinou a cabeça pensativamente. – Mesmo assim, vou mantê-lo em segurança.
Bella recostou-se em sua cadeira, franzindo os olhos para a pupila, que sorria como um gato diante de uma tigela cheia de leite. E pensar que ontem mesmo havia considerado o marquês o residente mais astuto da Casa Cullen.
Respondendo às reviews finalmente:
kjessica: Ah, bonita! Então você não aguentou e já se adiantou! hahahaha Gostou da história?
BbCullen: Menina, mais pervertida que eu até. Que medo kkkkkk
RenataMasen: Fico extremamente feliz que esteja gostando. Quando li, adorei do começo ao fim. Acho que vai rir e se emocionar muito também.
Nanny: Pecado eu não sei, mas que é super normal é. Eu sinto isso a todo instante, rs.
Mila: Você viu? Aguarde que já já vem mais kkk
Ktia S: Ah, já pensou? Eu sei que minha boca ficava em carne viva e ainda não seria o suficiente haha.
Duda Makalister: Só beijos? Ah, menina, se fosse só isso... Vai entender já já sobre se atracar hahaha. Adoro!
Até a próxima, meninas. Beijos!
