Adaptação da obra literária de Sarah McLean. Personagens de Stephenie Meyer.


CAPÍTULO SEIS

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"E se eu não tiver certeza se quero sair da escuridão?"

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Bella achara que esta noite iria ser diferente.

Estava na expectativa de que o baile de noivado de Alice e Jasper fosse ser perfeito. E estava sendo – o lugar brilhava de tão bem polido, desde o piso e as janelas aos enormes lustres de cristal e às arandelas nas paredes com milhares de velas reluzentes, sem falar nas colunas de mármore perfiladas, sustentando a característica mais impressionante do salão de baile da Casa Swan: um corredor panorâmico elevado que permitia que convidados que precisavam de um descanso o encontrassem sem jamais deixarem o ambiente.

Torcera também para ver a irmã cintilando e não se desapontara – Alice era uma joia faiscante nos braços de Rivington, rodopiando em meio às dezenas de outros casais em uma contradança vibrante. E os outros convidados pareciam concordar com Bella; estavam encantados por encontrarem-se ali, o primeiro evento importante da temporada, para celebrar Alice e seu duque. A alta-roda estava em sua melhor forma, todos vestidos no auge da moda, ansiosos para verem e serem vistos por aqueles de quem haviam sentido saudade enquanto estavam fora de Londres, durante os meses de inverno.

Mas Bella achara que este baile iria ser especial para ambas as irmãs Swan.

E, ainda assim, ali estava ela, na área das solteironas. Como sempre. Devia estar acostumada, claro – acostumada a ser ignorada e descartada com as outras. Na verdade, nos primeiros anos, preferira estar ali. As mulheres a haviam aceitado em seu grupo, graciosamente abrindo lugar para ela em qualquer assento que por acaso tivesse sido arrumado para as do seu tipo. Bella achara muito mais divertido observar a temporada se desenrolar enquanto trocava fofocas com as mais velhas do que ficar constrangida do outro lado da sala, esperando pacientemente que um jovem cavalheiro solteiro a tirasse para dançar.

Após duas temporadas de caçadores de dote e viúvos idosos, recebera com prazer a companhia das solteironas.

E então se transformara em uma delas.

Não estava totalmente certa de quando ou como isso havia acontecido, mas acontecera. E agora tinha muito pouca opção quanto ao assunto. Mas esta noite era o baile de noivado de Alice. O primeiro baile de Isabella desde que começara a riscar os itens de sua lista. E achara de verdade que as coisas poderiam ser diferentes. Afinal de contas, como a escolha óbvia da noiva para madrinha, não merecia um reconhecimento especial em um evento totalmente planejado para celebrar as núpcias pendentes?

Observando os dançarinos, soltou um pequeno suspiro. Evidentemente, não.

– Ah, Isabella. – A Srta. Genevieve Hetherington, uma solteirona de meia-idade com olhos bondosos e total falta de sensibilidade, deu um tapinha de leve em seu joelho com a mão em uma luva de renda. – A senhorita tem que deixar isso para trás, minha querida. Algumas de nós não foram feitas para dançar.

– Com certeza, não.

As palavras foram arrancadas de Bella, que aproveitou a oportunidade para se levantar e pedir licença. O que sem dúvida era melhor do que estrangular uma das solteironas mais adoradas da alta sociedade.

Mantendo a cabeça baixa para limitar o número de pessoas que poderia ter que cumprimentar, abriu caminho até a sala dos petiscos. A apenas alguns metros de seu destino, foi atacada de surpresa pelo barão de Oxford.

– Milady!

Bella estampou um sorriso animado demais no rosto e se virou na direção do barão, que lhe ofereceu o sorriso mais cheio de dentes que ela já vira. Sem ao menos perceber, a moça deu um passinho para longe do homem sorridente.

– Barão de Oxford. Que surpresa.

– Sim, acho que é. – O sorriso dele não se alterou.

Ela fez uma pausa, esperando que ele continuasse. Diante de seu silêncio, comentou:

– Fico feliz em ver que pôde se juntar a nós esta noite.

– Não tão feliz quanto eu por ter sido capaz de rever a senhorita, milady.

A ênfase no honorífico deixou Bela confusa. Será que o barão queria que suas palavras soassem tão sugestivas? Provavelmente não, considerando que Bella não conseguia se lembrar da última vez que falara com aquele vaidoso incurável. Limpou a garganta educadamente.

– Bem. Obrigada.

– Está adorável esta noite.

Jacob Black, barão de Oxford, se aproximou e seu sorriso se alargou. Seria possível o sujeito ter mais dentes do que o normal?

– Ah... – Bella demorou um pouco a se lembrar de abaixar a cabeça e parecer lisonjeada, em vez de inteiramente aturdida. – Obrigada, milorde.

O barão parecia muito orgulhoso de si mesmo.

– Talvez me dê a honra de uma dança. – E como, a princípio, não obteve resposta, ele levou a mão dela aos lábios e baixou o tom de voz, acrescentando: – Passei a noite querendo convidá-la.

A interação inesperada deixou Bella desconcertada. Será que está bêbado?

Enquanto avaliava o convite ansioso, Bella ouviu a orquestra afinando os instrumentos para as primeiras notas hesitantes de uma valsa e ficou imediatamente resistente à ideia de dançar com Oxford. A valsa só chegara à Inglaterra depois que Bella fora rotulada como solteirona, portanto, nunca tivera a chance de dançá-la – pelo menos não com ninguém além de Emmett, na privacidade de seu lar. Certamente não queria que sua primeira valsa em público fosse com Oxford, sorrindo como um tolo. Com uma rápida olhada para dentro da sala dos petiscos, avaliou a melhor rota de fuga.

– Ah. Bem, eu... – hesitou.

– Isabella! Aí está você! – A Srta. Heloise Parkthwaite, na casa dos cinquenta anos e bastante míope, apareceu do nada para agarrar o braço de Bella. – Procurei a senhorita por todos os cantos! Seja gentil e me acompanhe para consertar minha bainha, por favor.

Uma onda de alívio passou por Bella; estava salva.

– É claro, Heloise, querida – respondeu. Puxando a mão das garras de Oxford, ofereceu-lhe um sorriso pesaroso. – Talvez em um outro momento, milorde.

– Sem dúvida! Não permitirei que fuja de mim da próxima vez!

Oxford pontuou a frase com uma gargalhada estrondosa, e ela respondeu com uma risadinha afetada antes de virar de costas para guiar Heloise na direção do salão das damas.

Bella pegou o braço de Heloise e a mais velha começou a tagarelar sobre os corpetes ousados que estavam obviamente na moda este ano. Entre assentir e murmurar de uma maneira que esperava parecer tão curiosa quanto divertida, Bella permitiu que sua mente vagasse – afastando-se da estranha interação com Oxford para se concentrar em sua lista.

Logo decidiu que, se tivesse que sofrer uma noite inteira de conversas estapafúrdias e chá de cadeira com as solteironas, bem que merecia outro gostinho de aventura. Na verdade, estava muito tentada a deixar Heloise em segurança no salão das damas e aproveitar a oportunidade para escapar imediatamente para a lista.

Se, é claro, algum dia chegassem ao salão das damas. Heloise havia parado no meio do caminho e estava franzindo os olhos para a multidão.

– É o marquês de Cullen que estou vendo ali? Que estranho!

O coração de Bella deu um pulo ao ouvir as palavras, e ela virou-se para seguir o olhar de Heloise, mas, por causa da baixa estatura, não conseguiu ver nada por entre a aglomeração de pessoas ao redor delas. Lembrando-se da péssima visão de Heloise, Bella balançou a cabeça, voltando à tarefa de navegar por entre a multidão. Não pode ser ele.

Heloise evidentemente concordava.

– Não, não pode ser ele. O marquês raramente comparece a bailes. Deve ser o irmão.

Bella soltou a respiração, que nem percebera que estava prendendo. Claro. Podia ser lorde Nicholas. Por favor, permita que seja lorde Nicholas.

– Curioso que esteja se aproximando de nós, no entanto.

Incapaz de se conter, Bella virou a cabeça de volta para a multidão bem a tempo de ver o alto e magnífico cavalheiro movendo-se graciosamente na direção delas com olhos azuis determinados.

Não era lorde Nicholas.

Mesmo que a ausência de cicatriz não tivesse revelado sua identidade, Bella teria percebido. Os ombros de Nicholas não eram tão largos, o maxilar não era tão forte, os olhos nem de perto tão penetrantes quanto os do irmão. O lorde nunca a fizera prender a respiração, nunca fizera sua pulsação disparar, nunca a fizera ter pensamentos absolutamente impensáveis.

Não, o homem que se aproximava delas definitivamente não era lorde Anthony Masen.

Mas desejou que fosse.

Bella olhou rapidamente de um lado para outro, tentando avaliar a rota de fuga mais rápida e desimpedida que lhe permitiria evitar um encontro com o marquês. Mas os corpos pareciam se fechar em torno delas por todos os lados – exceto na direção da qual ele se aproximava. Notou o olhar perspicaz do marquês ao arquear uma sobrancelha escura e perfeita. Estava encurralada. Encurralada junto com a atabalhoada Heloise, que, seria de imaginar, não era abordada por um belo cavalheiro havia anos.

Não que fosse uma ocorrência comum para a própria Bella.

– Lorde Anthony! – exclamou Heloise, um pouco alto demais. – Que agradável vê-lo!

– Heloise, querida – observou Bella baixinho para a acompanhante. – Este é o marquês de Cullen.

A outra franziu o cenho e pousou um olhar indiscreto na bochecha de Edward, à procura da diferença evidente entre os irmãos.

– Ah! Ora! É claro! Minhas desculpas, marquês. – E fez uma reverência rápida.

– Não precisa se desculpar, Srta. Parkthwaite. – Edward fez uma longa mesura segurando a mão enluvada de Heloise antes de acrescentar: – Eu lhe asseguro, considero isso um grande elogio. Meu irmão é o mais bonito dos dois.

– Ah, não, milorde. – Heloise deu uma risadinha, corando e abanando o leque como um beija-flor embriagado. – Não mesmo!

Edward lançou uma piscadinha para a mulher mais velha, antes de dizer:

– Bem, longe de mim discordar de uma dama.

As palavras fizeram Heloise ter um surto de risinhos, enquanto Edward se virava para Bella, que ofereceu a mão a ele. O marquês se curvou profundamente, causando um arrepio de calor pelo braço de Bella.

– Lady Isabella, esperava reservar sua próxima dança disponível.

Heloise arfou de surpresa, enquanto Bella deixava escapar:

– Perdão?

– A próxima dança – repetiu Edward, olhando de uma mulher para a outra como se ambas fossem ligeiramente loucas. – Admito que não compareço a tantos bailes quanto provavelmente deveria atualmente, mas as pessoas ainda dançam neles, não dançam?

– Ah! Sim, sem dúvida, milorde – interrompeu Heloise, prestativa.

– Neste caso... – Os olhos de Edward brilharam com humor reprimido. – Pode me dar seu cartão de danças, lady Isabella?

– Não tenho cartão. – Dançava tão raramente que não precisava de um.

Fez-se uma pausa, enquanto ele assimilava suas palavras.

– Excelente. Isso facilita muito conseguir uma dança, então, não é? – Edward voltou-se para Heloise. – Incomoda-se se eu roubar sua acompanhante, Srta. Heloise?

Estupefata, Heloise só conseguiu balançar a cabeça e disparar:

– De forma nenhuma!

Bella ficou imóvel, os pés enraizados no chão, recusando-se a ser guiada até a pista de dança. Não podia valsar com o marquês de Cullen. Ele não podia ser sua primeira valsa. Isso definitivamente arruinaria sua reputação para todos os outros.

Homens como o marquês não são para mulheres como você, Bella.

Não. Sem dúvida não eram. Sobretudo quando ameaçavam valsar com ela. Pensando em sua autopreservação, Bella balançou a cabeça com firmeza.

– Ah, eu não poderia, milorde. Veja, prometi a Heloise que a acompanharia ao...

– Bobagem! – interrompeu Heloise, o tom agudo e arfante. – Vou ficar muito bem! A senhorita tem que valsar, lady Isabella.

Ao dizer isso, a mulher mais velha sorriu para Edward, assentindo, entusiasmada.

E a decisão foi tomada.

Ele a levou para o centro do salão para sua primeira valsa. Enquanto a guiava, Bella notou a mãe do outro lado do aposento, de pé com uma sorridente Alice, observando-os. A condessa-viúva parecia completamente atônita. Bella lhe ofereceu um pequeno aceno de reconhecimento, fazendo o máximo para comportar-se como se belos marqueses a abordassem em todos os bailes aos quais comparecia.

Desesperada para aliviar o clima – por seu próprio bem –, Bella comentou, séria:

– O senhor certamente deu a todos algo sobre o que falar esta noite, milorde.

– Suponho que esteja se referindo à minha presença. Bem, pensei que, com Rosalie prestes a debutar, seria melhor começar a cair nas boas graças da alta-roda. – Após uma longa pausa, acrescentou: – Por que a senhorita não costuma dançar?

Bella pensou sobre a pergunta por um instante antes de responder:

– Eu costumava, durante vários anos. E aí... parei.

Insatisfeito com a resposta, ele insistiu:

– Por quê?

Ela deu um sorrisinho autodepreciativo.

– Os parceiros não eram nem um pouco ideais. Os que não eram caçadores de dotes eram velhos, ou chatos, ou... simplesmente desagradáveis. Tornou-se mais fácil evitar os convites como um todo do que aturar a companhia deles.

– Espero que não me considere tão desagradável.

Bella se permitiu encarar o olhar divertido do marquês. Não. Ele não era desagradável. Nem de longe.

– Não, milorde – respondeu, a suavidade de seu tom traindo os pensamentos, e acrescentou: – E parece que a Srta. Heloise concorda comigo. Ficou bastante encantada com o senhor.

– Deve-se usar os talentos que se tem, lady Isabella.

– Algo que estou certa de que faz muito bem.

A voz dele ficou mais grave.

– Eu lhe asseguro que sim.

Recusando-se a ficar agitada, completou:

– A sua reputação o precede, milorde.

Mas só percebeu o duplo sentido das palavras após terem saído de sua boca.

Edward ergueu uma sobrancelha.

– É mesmo?

Bella sentiu as bochechas queimarem enquanto baixava os olhos para a gravata elaborada dele, desejando ser tão erudita e sedutora quanto as mulheres com quem estava acostumado a dançar. Elas, é claro, saberiam exatamente como agir nesse jogo de flerte.

– Vamos lá, lady Isabella – provocou, baixinho –, a que atos nefastos do meu passado está se referindo?

Ela o fitou nos olhos de novo, percebendo o brilho de desafio.

– Ah, um grande número deles, milorde – devolveu, despreocupada, divertindo-se. – É verdade que uma vez pulou da sacada de uma condessa, caindo, por infortúnio, em um arbusto de azevinho que havia embaixo?

Edward arregalou os olhos de leve diante da pergunta tranquila, antes de demonstrar divertimento.

– Um cavalheiro não confirmaria nem negaria uma ocorrência como essa.

Bella riu.

– Pelo contrário, milorde. Um cavalheiro certamente negaria uma ocorrência como essa.

Ele sorriu, um sorriso libertino, e Bella ficou grata pelo silêncio amigável que se estabeleceu entre os dois, pois não tinha certeza de que poderia encontrar palavras diante daquele raro sorriso. Perdeu-se na dança, no som da música, no balanço de seus corpos. Se esta fosse ser sua primeira e única valsa, queria se lembrar de todos os momentos. Fechou os olhos, permitindo que Edward a guiasse pelo salão, e ficou profundamente consciente da mão enluvada dele tocando de leve sua cintura, o roçar de suas pernas longas e musculosas contra as dela, enquanto rodopiavam. Após vários instantes, ficou desorientada e abriu os olhos, sem saber se a fonte de sua tontura era o movimento ou o homem. Fitando os olhos verdes de Edward, aceitou a verdade.

É claro que era o homem.

– Esperava que pudéssemos falar de Rosalie.

Bella engoliu a decepção. Apesar de ter visitado Rosalie três vezes naquela semana, não o vira durante as visitas – um fato que provavelmente devia ser comemorado, considerando-se que se transformava quase em uma idiota quando ele estava por perto.

Alheio aos seus pensamentos, o marquês continuou:

– Estou imaginando quando a senhorita acha que minha irmã estará pronta para frequentar os salões de baile de Londres.

– Acho que daqui a uma semana, no máximo. Rosalie é uma aluna maravilhosa, milorde. Muito ansiosa para agradar tanto ao senhor quanto ao seu irmão.

Ele assentiu, satisfeito com a resposta.

– Gostaria que a levasse para fazer compras. Vai precisar de vestidos novos.

A surpresa de Bella era óbvia.

– Não sei bem se sou a companhia apropriada para comprar vestidos, milorde.

– Pois me parece bem apropriada.

Ela tentou outra tática:

– Deveria mandar alguém no auge da moda para acompanhá-la.

Quero a senhorita. – As palavras eram francas e imperativas.

Bella sabia que não ia ganhar. Após uma pausa, assentiu.

– Terei que dar uma olhada em seu guarda-roupa atual, para avaliar suas necessidades.

– Não. Ela precisa de tudo. Quero-a completamente equipada. A melhor e mais atual das modas. – O tom não encorajava discussão. – Não quero que se sinta deslocada.

– Considerando que ela ficará aqui apenas por dois meses...

– A senhorita não pode acreditar sinceramente que eu permitiria que ela voltasse para a Itália.

– Eu... – Bella percebeu a resolução firme no tom dele. – Não. Suponho que não. Mas, milorde... – ponderou com delicadeza, sem saber bem como salientar os gastos de um pedido tão extravagante.

– Dinheiro não é problema. Rosalie deve ter o melhor.

– Certo. – Bella aquiesceu em silêncio, decidindo que preferia muito mais dançar a discutir a questão.

Ele lhe concedeu alguns momentos de movimento silencioso antes de prosseguir:

– Também gostaria de discutir as exigências necessárias para garantir a entrada dela no Almack's.

Os olhos de Bella se arregalaram diante das palavras. Escolhendo cuidadosamente a resposta, ela objetou:

– O Almack's pode não ser o melhor lugar para apresentar Rosalie para a sociedade, milorde.

– Por que não? Ser aceita lá facilita muito a entrada junto aos outros membros da alta-roda, não?

– Sem dúvida – concordou Bella. – No entanto, as patronas não liberam o acesso à vontade. Há obstáculos consideráveis a serem superados.

Os olhos de Edward se estreitaram.

– Está dizendo que não acredita que Rosalie terá acesso?

Bella refletiu um pouco antes de falar:

– Acho que as damas do Almack's vão considerar os modos de sua irmã impecáveis...

– Ah, mas modos impecáveis não são suficientes, não é, lady Isabella?

Ela o fitou diretamente nos olhos.

– Não, milorde.

– Sou eu? Ou minha mãe?

– Este realmente não é o lugar para discutir...

– Bobagem. Estamos em sociedade. Todos os assuntos de importância não são discutidos em salões de baile?

O tom dele era cheio de sarcasmo. Se Bella não estivesse tão profundamente consciente da frustração de Edward com a situação, teria ficado ofendida com a insolência. O marquês desviou o olhar, fitando o nada por cima da cabeça de Bella, os olhos cegos. Ela fez uma pausa, julgando a reação dele antes de ponderar com cuidado.

– Se Rosalie tivesse um título... ou se não estivesse morando na Casa Cullen... – Resolveu mudar de tática. – Pode ser mais fácil conseguir a aceitação dela se evitarmos completamente o Almack's.

Ele ficou em silêncio, mas Bella pôde sentir a mudança nele. Os braços que a seguravam estavam duros com a tensão represada. Após vários momentos, voltou os olhos para ela.

– Não quero que ela se magoe.

– Nem eu. – E estava sendo sincera.

Edward ficou quieto a princípio, como se pudesse ler seus pensamentos.

– Isso vai funcionar?

– Farei o melhor que puder. – Era verdade.

Um dos cantos da boca de Edward subiu brevemente. – Se Callie não estivesse tão concentrada nele, talvez não tivesse percebido.

– Tão segura de si...

– Não se passa a vida nos cantos dos salões sem aprender exatamente o que é preciso para ser a bela do baile, milorde.

– Se há alguém que pode ajudar Rosalie a navegar por essas águas infestadas de tubarões, acho que muito possivelmente é a senhorita, lady Isabella.

As palavras, cheias de respeito, fizeram um calor se espalhar por Bella, o qual ela tentou, sem sucesso, ignorar. Conforme a valsa chegou ao fim e suas saias rodopiaram de volta para o lugar, ela se arriscou a perguntar:

– Posso sugerir que me acompanhe até minha mãe?

Edward reconheceu imediatamente a lógica por trás do convite.

– Acha que uma única conversa com sua mãe irá convencer a todos de que estou recuperado?

– Mal não fará. – Ela sorriu enquanto caminhavam pela borda do salão. – Está se esquecendo de um dos mais importantes princípios da sociedade londrina.

– Que é?

– Marqueses ricos e solteiros são sempre bem-vindos de volta à luz.

Ele fez uma pausa, deixando o polegar acariciar lentamente os nós dos dedos dela, e, baixinho, lançou um desafiou junto ao seu ouvido:

– E se eu não tiver certeza se quero sair da escuridão?

Ao ouvir aquelas palavras, mais sussurradas do que ditas, um arrepio percorreu a espinha de Bella. Ela limpou a garganta delicadamente e anunciou:

– Temo que seja tarde demais.

– Lorde Cullen! – exclamou sua mãe, a voz aguda e entusiasmada, à medida que eles se aproximavam dela e de Alice, que parecia ter observado a valsa inteira, esperando por esse momento em particular. – Que sorte a nossa por tê-lo conosco esta noite.

Edward fez uma reverência profunda.

– A sorte é toda minha, milady, por ter sido convidado. Lady Alice, a senhorita está radiante. Posso lhe oferecer meus melhores votos para o casamento vindouro?

Alice sorriu calorosamente diante da lisonja do marquês, oferecendo-lhe a mão.

– Obrigada, milorde. E posso dizer que estou bastante ansiosa para conhecer sua irmã? Bella tem dito coisas maravilhosas sobre ela.

– Lady Isabella tem sido uma boa amiga para Rosalie desde sua chegada. – Ele virou-se para Bella e acrescentou: – Sou da opinião de que, em toda a cidade, não há ninguém melhor para garantir o sucesso de minha irmã.

– Está absolutamente correto, milorde – concordou lady Swan. – A reputação de Bella é impecável. E, considerando-se sua idade e situação, sua tutela é a ideal para a Srta. Rosalie.

Bella se encolheu por dentro diante das palavras da mãe, as quais – intencionais ou não – chamavam a atenção para sua posição de solteirona intocável. O verdadeiro significado da declaração de lady Swan não poderia ter sido mais óbvio nem se ela tivesse anunciado que Bella fizera votos para se tornar freira.

Lady Swan foi em frente:

– Posso perguntar, milorde, como o senhor e Bella chegaram a tal acordo em relação à apresentação de sua irmã à sociedade?

O olhar de Bella voou para o marquês, seu coração na garganta. Como ele iria evitar a verdade? Ele respondeu calmamente:

– Confesso, lady Swan, que o acordo foi ideia inteiramente minha. Tive uma sorte extraordinária por lady Isabella por acaso estar no local certo no momento certo, como dizem. Não sei como vou retribuir a ela a oferta tão generosa.

Os olhos de Bella se arregalaram diante da resposta. Era sarcasmo que estava detectando em suas palavras? Voltou a atenção para a mãe, que parecia inteiramente apaziguada com a réplica do marquês, como se fosse muito normal que libertinos requisitassem a companhia de sua filha solteira para propósitos não inteiramente claros.

Tinha que pôr um fim a esse constrangimento. Agora. Antes que sua mãe fizesse algo mortificante. Como se já não fosse suficiente ela estar trajando um vestido de seda cintilante cor de berinjela adornado com penas de pavão. Muitas penas de pavão.

– Mamãe, lorde Cullen concordou em me acompanhar à sala dos petiscos – falou, evitando o olhar de Edward enquanto tentava mentir tão lindamente quanto ele parecia fazer. – Podemos trazer alguma coisa para a senhora?

– Ah, não, obrigada. – A condessa-viúva brandiu seu leque no ar, desconsiderando a ideia, antes de colocar a mão no braço de Edward e olhar diretamente em seus olhos. – Lorde Cullen, espero conhecer sua irmã muito em breve. Que tal no almoço? – Não era uma pergunta.

Edward inclinou a cabeça graciosamente, aceitando a oferta de apoio da condessa e dizendo:

– Tenho certeza de que Rosalie vai adorar, lady Swan.

A mãe de Bella assentiu com firmeza.

– Excelente.

Dito isso, lady Renée Swan se retirou, levando a pobre Alice a reboque, para cumprimentar mais convidados. Edward ofereceu o braço a Bella.

– Gostaria muito de acompanhá-la à sala dos petiscos, lady Isabella – anunciou, com ironia.

Ela tomou seu braço.

– Peço desculpas pela inverdade.

– Não é necessário. – Eles andaram em silêncio por vários instantes antes de Edward acrescentar: – Obrigado.

Reconhecia quão importantes a interação com a família dela e o convite de sua mãe seriam para garantir a aceitação de Rosalie na sociedade.

Ela não respondeu de imediato, pensando em vez disso nos acontecimentos surpreendentes da noite. Profundamente consciente do calor do braço dele sob sua mão e dos olhares dos melhores e mais inteligentes cidadãos acompanhando seu caminho ao redor do salão de baile, Bella não pôde deixar de pensar, admirada, em como esta noite em particular tinha ficado diferente.

– Não me agradeça tão rápido, milorde – começou, hesitante. – Afinal de contas, como declarou com tanto tato, ainda não pedi meu pagamento.

Cullen baixou os olhos para ela.

– Percebi. Suponho que não vá revelá-lo agora, para podermos acabar com isso?

– Temo que não. Mas tenho uma pergunta um tanto estranha, no entanto, se não se importar.

– De forma nenhuma. Ficarei feliz em responder.

Bella engoliu em seco. Reunindo coragem e tentando soar o mais casual possível, perguntou:

– Pode recomendar uma boa taberna na cidade?

No que dizia respeito a perguntas, esta não era nem a mais hábil nem a mais delicada; Bella, no entanto, estava ansiosa demais pela resposta dele para tentar qualquer outra coisa que não a abordagem direta. A favor de Edward, pode-se dizer que ele não demonstrou a surpresa que deve ter sentido. Na verdade, à exceção de uma rápida olhada na direção dela, continuou a navegar habilmente por entre os casais em seu caminho, sem qualquer interrupção.

– Como disse? Uma taberna?

– Sim. Um bar – disse ela, oferecendo-lhe um sorriso, torcendo para que ele não a pressionasse.

– Para quê?

Bella de fato deveria ter previsto a curiosidade. Tentou arrumar uma explicação.

– Veja... milorde – balbuciou, pensando. – Meu irmão, Emmett?... – Ela esperou pelo aceno de reconhecimento de Edward antes de continuar. – Bem... Emmett está procurando um novo local, e achei que o senhor poderia ter uma solução para o seu problema.

– Tenho certeza de que posso recomendar algum lugar. Vou discutir isso com ele.

Não!

Uma sobrancelha se arqueou diante da resposta veemente.

– Não?

Ela pigarreou.

– Não, milorde. – Fez uma pausa, procurando inspiração. – Veja... meu irmão... ele não gostaria que eu discutisse sobre tabernas com o senhor.

– Não deveria mesmo.

– Exato. – Bella tentou parecer adequadamente constrangida. – Então, sabe, talvez seja melhor sugerir um local apropriado... para um cavalheiro, claro... e farei a recomendação com discrição. Quando o momento apropriado se apresentar.

Estava tão concentrada em construir sua fábula que não tinha percebido que haviam parado de andar. Edward a guiara até uma das alcovas do outro lado do salão de baile, fora do caminho das multidões de convidados.

Virando-se para encará-la, observou:

– A senhorita é uma péssima mentirosa.

Os olhos de Bella se arregalaram. Não teve que fingir espanto.

– Milorde?

– As suas mentirinhas. Mesmo que suas palavras tivessem soado verdadeiras, o que não foi o caso, a senhorita esconde mal seus pensamentos.

Ela abriu a boca para responder, mas não conseguiu pensar em nada e a fechou novamente.

– Como pensei. Não sei por que ou para quem estaria procurando um bar. Parece uma pergunta um tanto estranha, especialmente vinda de uma dama. – Bella abriu a boca de novo, Ele ergueu uma das mãos para impedi-la de falar. – No entanto, estou me sentindo muito magnânimo esta noite... e estou inclinado a fazer a sua vontade.

Bella não pôde conter o sorriso.

– Obrigada, milorde.

– Não me agradeça tão rápido.

Ela estreitou os olhos ao reconhecer suas próprias palavras de poucos instantes atrás.

– O que o senhor quer?

Bella anteviu várias reações possíveis – outro pedido relacionado às aulas de Rosalie, uma recomendação para o Almack's, um convite para jantar feito por sua mãe, feito pela mãe de Rivington, até. Estava preparada para tudo isso. Naquele momento, parecia uma troca justa pelo nome de uma taberna em que pudesse continuar suas aventuras.

Só não estava esperando que ele sorrisse. Então, quando Edward sorriu – um sorriso malicioso e devorador que a sacudiu até a ponta dos pés –, estava completamente despreparada. Uma erupção de calor se espalhou por seu corpo e seu coração começou a martelar. Não conseguia parar de olhar para seus dentes brancos, os lábios largos e macios, a covinha solitária em uma das faces.

Estava mais bonito do que nunca.

Edward se aproveitou do estado indefeso de Bella, aproximando-se dela até suas costas estarem pressionadas contra a parede. Bella percebeu tarde demais que a pequena alcova parecia extraordinariamente silenciosa, considerando-se a quantidade de gente logo ali fora. Ele havia escolhido um lugar quase inteiramente bloqueado por uma gigantesca coluna e um conjunto de samambaias, dando-lhes uma certa privacidade.

Não parecia se importar que a alta-roda estivesse em peso a apenas alguns centímetros de distância.

Ela ficou nervosa.

Edward esticou a mão e correu um dedo pela extensão do braço dela, deixando um rastro de fogo por onde passava. Pegando sua mão enluvada na dele, virou-a, desnudando seu pulso. Então roçou o polegar na pele delicada ali, fazendo coração dela disparar. O mundo inteiro de Bella fora reduzido a este único momento, esta única carícia. Não conseguia tirar os olhos do ponto em que se tocavam. O calor da mão dele, o roçar firme de seu polegar a consumiam tanto quanto ameaçavam sua sanidade.

Não saberia dizer quanto tempo ele a acariciara antes de levar a mão dela até os lábios e pressionar a boca na pele nua de seu pulso. Bella fechou os olhos diante da inundação de sensações que o toque provocou – a maciez dos lábios dele, abertos só o suficiente para dar um beijo quente e úmido antes de roçar os dentes contra o ponto sensível. Ela ouviu sua própria arfada e abriu os olhos bem a tempo de sentir a língua dele acariciando a pele. O marquês fitou-a com ousadia enquanto causava estragos em seus sentidos, e ela foi incapaz de desviar o olhar, consciente de que Edward sabia exatamente o que estava fazendo.

Com um beijo final, Cullen soltou sua mão, mantendo os olhos nos dela enquanto se inclinava em sua direção. Ao falar, suas palavras foram mais ar do que som, roçando de leve sua têmpora.

Dog & Dove.

De início, Bella não entendeu. Apesar de não saber ao certo o que ele iria dizer, não esperara por isso. E então, do fundo da bruma de sensualidade que ele havia criado em torno dos dois, veio a compreensão. Arregalou os olhos. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele havia partido, deixando-a para recuperar a sanidade sozinha.

Ao sair da alcova, com as faces coradas, não ficou surpresa em descobrir que o marquês fora embora. Ele, no entanto, havia lhe dado o nome de uma taberna.


E os estragos começam... HAHAHA. Os dias de postagem continuam sendo aos sábados, mas quando eu vejo que há mais reviews que o normal, eu me sinto inclinada à postar antes da data normal. Então, quando quiserem mais capítulos, lembrem-se de aparecerem sob a luz hahaha.