Personagens de Stephenie Meyer. História de Sarah McLean.


CAPÍTULO DEZ

.

"Incrível. Não achei que fosse uma covarde."

.


Bella ficou de pé na beirada do camarote de Rivington, no Teatro Real, incapaz de conter o sorriso satisfeito enquanto passava os olhos pelo restante do público, percebendo as toneladas de binóculos apontados na direção da Srta. Rosalie Fiori.

Se a atenção era algum indicativo, com título ou sem, filha de uma marquesa de má reputação ou não, Rosalie faria uma estreia notável.

A ópera ainda nem havia começado e o camarote já estava lotado de visitantes, pilares da alta-roda que apareciam, ostensivamente, para visitar a duquesa-viúva e, deste modo, conhecerem casualmente a adorável e jovem Rosalie, e rapazes da alta sociedade que eram menos discretos a respeito do motivo para sua aparição no camarote – chegando e prontamente se atropelando para conseguir uma apresentação.

A noite não poderia ter sido mais perfeitamente orquestrada, e Bella estava assumindo toda a responsabilidade por seu sucesso.

Rosalie chegara na carruagem dos Swan e, para o deleite de Bella, a jovem havia apeado com graça e aprumo, como se ser posta em exibição para o julgamento da aristocracia de Londres fosse a coisa mais natural do mundo. Depois que estava dentro do teatro, removeu a capa para revelar seu deslumbrante vestido de noite de cetim, que fora entregue na Casa Cullen em perfeitas condições naquela manhã. Madame Hebert havia se superado na confecção do vestido, que fora costurado com fios dourados e, sem nenhuma sombra de dúvida seria motivo de inveja profunda a todas as outras mulheres no teatro.

E então fora acompanhada, na noite mais importante da temporada de teatro londrina, ao camarote particular do duque de Rivington, onde seria a convidada pessoal da duquesa-viúva, da futura duquesa e do próprio duque. Nesta noite, o camarote dos Swan permaneceria vazio: o conde e a condessa-viúva de Swan e Bella assistiriam à ópera do camarote de Rivington – mostrando ao mundo que Rosalie era aceita por duas das famílias mais poderosas da Inglaterra.

E, como se tudo isso não fosse o suficiente, Edward e Anthony estavam presentes – dando às alcoviteiras da alta-roda ainda mais material para fofoca.

Os esquivos irmãos gêmeos quase nunca eram vistos em eventos tão descaradamente sociais como este, muito menos juntos. Bella voltou a atenção para eles, montando sentinela lado a lado vários metros atrás da irmã, absolutamente intimidantes pela altura e beleza idênticas.

Sentiu o pulso acelerar conforme estudava Edward. Estava muito elegante, renunciando aos coletes de cores vivas preferidos pelos empertigados da alta sociedade em favor de calças pretas perfeitamente cortadas e casaca sobre um colete branco clássico sem um único vinco. A gravata estava magistralmente engomada e as botas reluziam, como se ele tivesse chegado por uma estrada mágica diferente das ruas lamacentas de Londres. Estava impecável. Isto é, até se perceber a tensão represada em seus ombros, as mãos fechadas em punho ao lado do corpo, o músculo minúsculo que se flexionava em seu maxilar enquanto observava a irmã navegar pelas danças intrincadas do cenário social londrino.

Estava claro que viera preparado para lutar para garantir a aceitação da irmã.

Como se sentindo sua atenção, Edward virou a cabeça para fitá-la. Bella inspirou fundo quando seus olhares se encontraram, presa pelos brilhantes olhos verdes dele, intensos e indecifráveis. Ele inclinou a cabeça, quase imperceptivelmente. Ela entendeu o significado implícito. Obrigado. E retribuiu o ato.

Sem confiar em si mesma para disfarçar as emoções, virou de costas para olhar, desatenta, a multidão se formando no teatro, impaciente para que a ópera começasse e a distraísse da presença dele no camarote.

O espetáculo deveria ter começado meia hora antes, mas, infelizmente, a sociedade raramente comparecia ao Teatro Real pela ópera... certamente não na noite de estreia da temporada. Não, ia-se à ópera para ver e ser visto, e os donos do teatro sabiam muito bem como manter a clientela feliz.

Bella voltou o olhar para Rosalie, observando-a com orgulho enquanto ela falava graciosamente com a duquesa-viúva e, bem à vista de toda a sociedade de Londres, fazia a mulher mais velha rir. Perfeito.

– A senhorita parece bastante orgulhosa de si mesma.

Uma palpitação de entusiasmo passou por ela ao ouvir a voz profunda e divertida tão perto do ouvido. Forçando-se a ficar calma, fitou os olhos verdes de Edward e admitiu:

– Com certeza estou, milorde. Sua irmã está se saindo extraordinariamente bem, não acha?

– Acho. A noite não poderia ter sido mais perfeitamente planejada.

– Foi ideia de Alice usar o camarote de Rivington – observou Bella. – Nossas irmãs parecem ter se tornado amigas rápido.

– Devido, em grande parte, à sua intervenção, imagino.

Bella abaixou a cabeça em um reconhecimento silencioso.

– Muito bem.

Ela sufocou um estranho desejo de se envaidecer diante do elogio, conforme o sinal do teatro tocava, sinalizando o início da apresentação. Seguindo a deixa, os visitantes saíram, e Edward ofereceu o braço para Bella.

– Posso acompanhá-la até sua cadeira, lady Isabella?

Bella deslizou a mão pelo braço dele, aceitando sua escolta, tentando ignorar o chiado de consciência que correu por ela quando eles se tocaram. Era a primeira vez que se viam desde a noite na taberna. Na carruagem. A primeira vez que se tocavam desde que estivera em seu enlace.

Depois que ela estava sentada ao lado de Emmett, Edward tomou o assento ao lado dela, a proximidade dominando seus sentidos. Bella foi envolta em seu aroma, uma mistura de sândalo, notas cítricas e algo inteiramente masculino. Resistiu à tentação de se inclinar na direção dele e respirar profundamente. Isso sem dúvida não seria bom.

Procurou uma conversa que a distraísse da proximidade dele.

– Gosta de ópera, milorde?

– Não em especial. – As palavras eram tomadas de indiferença.

– Estou surpresa – comentou ela. – Tinha a impressão de que gostava de música. Afinal de contas, tem um piano...

Parou abruptamente, dando uma olhada rápida pelo camarote para conferir se alguém estivera ouvindo a conversa. Não podia falar sobre o piano dele em público.

Edward ergueu uma sobrancelha diante da declaração, respondendo secamente:

– Certamente, tenho, lady Isabella.

O homem a estava provocando. Não ia morder a isca.

– Bem, é claro que todo mundo tem um piano hoje em dia – continuou, recusando-se a olhar para ele e tagarelando em vez disso: – Ouvi dizer que a apresentação de hoje é incomparável. O Barbeiro de Sevilha é uma ópera adorável. Gosto especialmente de Rossini. E soube que a cantora que interpreta Rosina é um talento nato. Não consigo me lembrar do nome... senhorita...

Deixou a frase morrer, reconfortada por estarem em um tópico de conversação mais seguro.

– Denali. Tanya Denali – respondeu ele.

As palavras caíram sobre ela. Tanya. A compreensão lhe atingiu em cheio.

Não queria tornar isso mais difícil do que precisa ser, Tanya.

Deus do céu. A cantora de ópera era a amante dele. Bella ergueu o olhar para Edward, fitando seus olhos calmos e indecifráveis.

– Ah – disse, de forma quase inaudível, incapaz de conter a sílaba.

Ele permaneceu em silêncio.

O que esperava que ele fizesse? Anunciasse a todos que pudessem ouvir que a meio-soprano era sua amante? A mesma amante com quem a confundira na noite em que chegara indelicadamente a seu quarto?

Não, era melhor que ele não continuasse a conversa, decidiu. Com as bochechas em chamas, inclinou-se para a frente na cadeira e olhou por cima da beirada do camarote, imaginando se sobreviveria a uma tentativa de fuga pela lateral. Provavelmente não, pensou com um suspiro. Virou-se para trás, vendo o olhar agora divertido dele. O marquês estava se deliciando com o constrangimento dela!

– Muito alto para pular, acho – ele falou, em tom conspiratório.

Que homem irritante!

Por sorte, a cortina subiu naquela hora e ela foi salva de ter de responder. Voltou a atenção resolutamente para o palco, forçando-se a parar de pensar em Edward.

É claro que isso era impossível, ainda mais quando a ópera começou de verdade e Tanya Denali apareceu. A cantora grega interpretava Rosina, a linda mulher sobre a qual todo o enredo de identidades trocadas e amor à primeira vista se articulava, e era a escolha perfeita para o papel, uma beleza voluptuosa incomparável. Bella não conseguia parar de imaginar a glamorosa mulher nos braços de Edward, não conseguia afastar a visão das mãos bronzeadas dele em sua pele clara e perfeita, nem estancar a inveja cruel que queimava no seu interior enquanto comparava os atributos notáveis da atriz com os seus próprios.

Como se a inacreditável beleza da cantora não fosse suficiente, parecia que também tinha a voz mais magnífica a honrar o palco – provavelmente desde sempre.

Não havia como um homem resistir a este modelo de feminilidade.

O posicionamento do camarote de Rivington era tal que os membros da plateia sentados ali podiam ver as coxias do teatro e, em vários momentos, Bella teve certeza de que Tanya Denali estava olhando para Edward, como se esperando que ele retribuísse a atenção. Seria possível que tivessem retomado a amizade? Bella fechou os olhos para afastar o pensamento, só para abri-los e dar uma espiada no marquês. Tinha que dar a ele o crédito pela discrição; sua concentração não pareceu deixar o palco.

Quando a ária de Tanya no primeiro ato começou, no entanto, ele – e toda a plateia – foi arrebatado pela atenção. Bella não podia deixar de ver a ironia na letra da canção: Sim, Lindoro será meu! Eu juro! Vou consegui-lo! Se for contrariada posso ser uma víbora! Posso usar mil truques para conseguir o que quero.

– Até imagino a víbora que ela pode ser – resmungou Bella baixinho, enquanto a ária parava o espetáculo, fazendo todo o teatro se levantar, clamando:

– Brava! Bravíssima!

Estava decidido. Bella nunca mais ia gostar de ópera.

Quando o primeiro ato acabou e a cortina caiu, sinalizando o intervalo do espetáculo, ela suspirou, desejando estar em qualquer outro lugar e imaginando o quanto seria difícil escapar antes que o segundo ato a torturasse ainda mais.

A risada de Rosalie soou atrás de si, e Bella percebeu que não podia ir embora. Prometera apresentá-la à sociedade com sucesso e faria exatamente isso.

Fortalecendo-se, levantou-se, ansiosa para se lançar em uma conversa que não envolvesse Edward, e por pouco não colidiu com o barão de Oxford, que aparecera dentro do camarote quase imediatamente após o final do primeiro ato.

Perfeitamente asseado, o elegante Oxford ofereceu um de seus sorrisos para o camarote em geral antes de pousar o olhar em Bella. Enquanto andava na direção dela, a moça observou seu sobretudo verde-escuro, um adorável contraste para o colete de cetim brilhante cor de berinjela. Notou imediatamente que seus saltos e o castão da bengala mais uma vez combinavam com o colete e ficou imaginando se ele tinha botas e bengalas de todas as cores. A ideia era tão ridícula que não conseguiu impedir que seus lábios se curvassem em um sorriso.

– Milorde – cumprimentou, escondendo o rosto com uma reverência recatada enquanto ele se curvava profundamente sobre sua mão –, é um prazer vê-lo.

– O prazer é todo meu. – As palavras, ditas ligeiramente perto demais, fizeram Bella corar e dar meio passo deliberado para trás. Ele continuou: – Tomei a liberdade de pedir champanhe. – Fez uma pausa, indicando um lacaio por perto que segurava uma bandeja de taças de espumante. – Para a senhorita... e o restante do seu grupo.

Bella pendeu ligeiramente a cabeça ao ouvir as palavras do barão. Certamente havia entendido errado sua ênfase.

– Obrigada, milorde. – Ficou observando enquanto o lacaio passava o champanhe pelo camarote, insegura sobre como proceder. – Está gostando da apresentação?

– Sem dúvida. Estou particularmente fascinado com a performance da Srta. Denali. Ela é bem impressionante – falou Oxford, com um sorriso largo na direção do palco que Bella não achou inteiramente agradável. Ele esticou a mão para uma taça de champanhe e a estendeu para ela. Quando Bella a pegou, ele passou um dedo pelas costas de sua mão e se aproximou, baixando a voz para um sussurro galante: – Claro que também estou gostando imensamente do intervalo.

Dessa vez, teve certeza de que ele estava embriagado. Só podia estar. Bella retirou a mão do toque inapropriado e pensou em lhe passar um belo sermão.

Sem dúvida seria a atitude adequada, mas não podia negar um certo prazer em receber alguma atenção particular, ainda que tivesse que sofrer uma noite inteira vendo a amante de Edward encantar toda a alta sociedade. Lançou um olhar de esguelha na direção do marquês, que estava conversando com o irmão. Ele a fitou nos olhos e ergueu o champanhe em uma saudação silenciosa. Voltando-se para Oxford, ofereceu-lhe um sorriso alegre.

– Também estou gostando do intervalo, milorde.

– Excelente. – Ele deu um grande gole em sua taça e então perguntou, arrastando ligeiramente as palavras: – Gosta de arte?

Um pouco surpresa com a pergunta, Bella respondeu:

– Eu... Ora, sim, milorde.

Jacob Black, o barão de Oxford, trocou a taça vazia por uma cheia e declarou:

– Gostaria de acompanhá-la à Mostra Real de Arte, na semana que vem.

Resistindo ao ímpeto de questionar os motivos do barão, Bella percebeu que não havia uma forma fácil de escapar do convite. Em vez disso, falou:

– Seria adorável, milorde.

– O que seria adorável?

A fala pausada e lânguida indicou a chegada de Edward. Bella recusou-se a morder a isca. Oxford, no entanto, parecia mais do que impaciente em partilhar com o marquês a conversa deles.

– Vou acompanhar lady Isabella à Mostra Real de Arte, na semana que vem – anunciou, e Bella não pode deixar de notar a presunção em seu tom.

– É mesmo? – indagou Edward.

Não precisava soar tão descrente.

– Sem dúvida, milorde. Estou ansiosa para ver a mostra deste ano. – Ela pousou uma das mãos de leve na manga de Oxford. – Terei sorte em contar com um acompanhante como o barão.

– Não tanta sorte quanto eu – emendou Oxford, sem desviar o olhar de Edward.

Antes que Bella pudesse pensar sobre a estranha ênfase, o sinal do teatro tocou, indicando o fim do intervalo. Oxford foi embora, primeiro curvando-se profundamente por cima da mão de Bella e dizendo:

– Boa noite, milady. Vou esperar ansioso pela semana que vem.

– Eu também, barão – respondeu ela, com uma pequena reverência.

Ele então voltou um sorriso largo na direção de Edward, que estava impassível.

– Boa noite, amigo.

Edward não respondeu, apenas permaneceu olhando fixamente para o jovem tão arrumado, que riu da falta de decoro, apontou de leve a bengala para o marquês e saiu do camarote. Bella o observou partir antes de dizer:

– Não precisava ser tão rude com ele.

– Black não tem nada na cabeça além de dentes – devolveu Edward, prosaicamente.

Esquecendo-se de que ela mesma havia dito exatamente as mesmas palavras apenas alguns dias antes, Bella ignorou as dele e retomou seu lugar. Quando Edward tomou seu assento ao lado dela, não olhou para ele, fitando resolutamente o palco e desejando ardentemente que a cortina subisse.

Pelo canto do olho, percebeu a chegada de um lacaio com uma bandeja de prata em cima da qual havia um bilhete dobrado. Edward pegou o bilhete estendido com um aceno de agradecimento para o mensageiro e virou o pergaminho lacrado na mão, deslizando um dedo por debaixo do lacre de cera para abri-lo.

Bella não conseguiu resistir a dar uma espiada no papel enquanto ele lia. Era uma missiva curta, visível apenas por um instante antes de Edward dobrá-la novamente. Mas Bella não poderia ter deixado de entender a mensagem – ou seu significado.

Venha me ver.
T.

Edward e Tanya ainda eram amantes.

Bella engoliu uma arfada, virando-se rapidamente para o outro lado e fingindo estar completamente absorta pela apresentação, que acabara de começar. Sua mente entrou em parafuso. Não devia ficar surpresa, claro. Não devia se lembrar da outra noite – do baile de noivado, de seu enlace na carruagem. Não devia ficar se perguntando por que, se estava envolvido com Tanya, havia cogitado beijá-la.

Mas claro que pensou em tudo isso.

E quanto à irmã dele? Certamente ele não aceitaria o convite. Não esta noite, entre todas as noites. Era o primeiro evento de Rosalie na sociedade! A tristeza e o ultraje se digladiaram dentro dela durante as duas primeiras cenas do segundo ato. Quando, no começo da terceira cena, ele se levantou e saiu abruptamente do camarote, o ultraje venceu.

Não. Ela não iria permitir que ele arruinasse a primeira noite de sua irmã. Não depois de tudo o que Rosalie fizera para garantir seu sucesso. Não depois de tudo o que Bella fizera para garantir seu sucesso. Sem falar nos outros que haviam dado apoio à sua irmã. Como ousava arriscar tudo? E pelo quê? A raiva dela ferveu. Aprumou os ombros. Alguém tinha que pensar em Rose.

Virando-se para Emmett, sussurrou:

– O champanhe parece ter subido à minha cabeça. Vou descansar no salão das damas.

Seu irmão se inclinou para a frente, percebendo o desaparecimento de Edward. Fitando-a nos olhos, disse baixinho:

– Sem aventuras, Bella.

Ela forçou um sorriso.

– Sem aventuras.

E saiu do camarote.

Andando depressa pelos corredores mal iluminados do teatro, sua mente disparou, imaginando se encontraria Edward antes que ele destruísse as chances de sucesso de Rosalie. Bella podia apostar a própria Casa Swan que ele havia escapado para encontrar a amante neste mesmo teatro mais de uma vez no passado, e provavelmente conhecia o caminho mais curto até o camarim da Srta. Denali. Não pôde conter a pequena exclamação de desgosto que veio com o pensamento.

Virou correndo uma esquina que levava à colunata superior e o viu se dirigindo para a larga e grandiosa escadaria. Uma olhada em volta revelou que o espaço estava vazio, e Bella não conseguiu se conter e chamou por ele:

– Cullen! Pare!

O marquês congelou no degrau superior, lançando um olhar incrédulo para a galeria, por onde ela vinha correndo para alcançá-lo. Quando entendeu seu objetivo, o espanto transformou-se em fúria, e ele voltou até ficar frente a frente com ela.

Antes que Bella tivesse a chance de falar, agarrou seu braço e a puxou para um corredor escuro. Com a voz cheia de raiva, sussurrou:

– Está louca?

Respirando ofegante tanto pelo esforço quanto pela irritação, Bella puxou o braço e sussurrou de volta:

– Eu poderia lhe perguntar exatamente a mesma coisa!

Ele ignorou suas palavras.

– O que está fazendo aqui fora? Se for descoberta...

– Ah, por favor – interrompeu ela. – É um teatro público. O que acha que aconteceria se eu fosse descoberta? Alguém me indicaria a direção para o salão das damas e eu seguiria o meu caminho. Mas e se o senhor fosse descoberto?

Edward a fitou como se tivesse enlouquecido.

– Do que está falando?

– O senhor não é muito discreto, lorde Cullen. – Bella cuspiu o nome dele. – Para alguém que está muito preocupado com a reputação da irmã, seria de imaginar que teria mais cuidado com ela. – E cutucou o ombro dele com um único dedo enluvado. – Eu vi o bilhete! Sei que está indo encontrar a sua... a sua...

– A minha...? – incitou ele.

– A sua... a sua amante!

A cada palavra ela o cutucava com mais força.

Cullen agarrou o dedo e o empurrou para longe de si. Seus olhos verdes faiscaram perigosamente.

– Como ousa ralhar comigo? Como ousa questionar meu comportamento? Quem pensa que é?

– A mulher que o senhor escolheu para guiar sua irmã na entrada da alta sociedade. Não vou permitir que arruine as chances dela por uma noite de...

– A senhorita não vai me permitir? Não era a senhorita quem estava flertando descaradamente com um bêbado na frente de toda a Londres?

Bella ficou boquiaberta.

– Eu definitivamente não estava!

– Bem, foi o que pareceu, milady.

– Como ousa? – disse ela, furiosa. – Como ousa me falar de flertes descarados! Não era eu quem estava flertando com uma atriz no meio de uma apresentação!

– Já chega – advertiu ele, o tom quase descompensado.

– Não, eu não acho que já chega! – continuou Bella, incapaz de se controlar. As comportas tinham sido abertas. – Não sou eu quem está correndo para um encontro marcado com a minha... amante maquiada... enquanto minha irmã encara o desafio mais difícil da vida! Tem ideia do que a aristocracia vai fazer com ela se o senhor for descoberto, seu... insensível? – A última palavra saiu estridente.

Edward fechou os olhos, o rosto se transformando em pedra. Com os punhos cerrados junto do corpo, ele falou, e seu tom traiu a ira quase incontida:

– Se já terminou, lady Isabella, creio que esta conversa acabou. Acho que não preciso mais da sua ajuda com a minha irmã.

– Como disse? – Estava ultrajada.

– É bem simples, na verdade. Não a quero perto da senhorita. É um risco grande demais.

Os olhos dela se arregalaram de choque.

Eu, um risco? – rebateu, a voz trêmula de fúria. – Ah, eu vou continuar vendo sua irmã, milorde. Não vou assistir enquanto as chances dela são destruídas. E, além do mais – ela levou um dedo ao nariz dele –, não vou receber ordens de um notório, e agora comprovado, devasso e libertino.

Foi então que Edward perdeu a cabeça e, agarrando sua mão, o dedo que ela balançava na frente dele e tudo o mais, puxou-a contra si.

– Se vou ser rotulado como tal, posso muito bem parar de resistir ao papel.

E, dito isso, a beijou.

Bella lutou contra ele, contorcendo-se debaixo da força de seu beijo, mas não importava para que direção se virasse, Edward estava lá, todo braços fortes, músculos firmes e boca rija e obstinada. Os punhos dela bateram brevemente em seus ombros, antes de ele agarrar sua cintura com as duas mãos e a levantar do chão – deixando-a sem opção além de se segurar a ele enquanto era pressionada contra a parede. Bella arfou de surpresa com o movimento súbito, e o marquês aproveitou a oportunidade para invadir sua boca, as duas mãos segurando seu rosto, roubando seu fôlego.

Ela acompanhou os movimentos dele com lábios, língua e dentes, recusando-se a deixar-se dominar, mesmo assim. Carícia por carícia, aonde ele ia, ela seguia. Edward capturou seus suspiros com a boca e ela se deleitou com o sussurro baixo de prazer que ele emitiu. Após uns instantes de intensa batalha sensual, seus lábios ficaram mais suaves, acariciando os dela enquanto a língua afagava a pele macia e sensível do lábio inferior, finalizando o beijo de maneira infinitamente mais suave do que havia começado.

A carícia fez Bella soltar um gemido, e Edward sorriu ao ouvir o som, pressionando um beijo final de leve no canto de sua boca. Ele se afastou uma fração de centímetro e seus olhares se cruzaram. Não havia som nenhum no corredor além de suas respirações ofegantes – lembrando a ambos da intensidade da discussão que havia precedido o beijo.

Edward ergueu uma única sobrancelha em um gesto mudo e vitorioso.

A expressão arrogante renovou a fúria dela. Aprumando-se até ficar totalmente ereta, Bella disse:

– Não sou uma de suas mulheres, para ser atacada em público. Seria bom se lembrar disso.

– Perdoe-me – escarneceu ele –, mas a senhorita não pareceu muito contrária a interpretar o papel.

Bella não conseguiu se conter. Sua mão voou por conta própria, em uma linha direta para o rosto dele. Mesmo enquanto se movia para esbofeteá-lo, teve medo do golpe, incapaz de deter o movimento. Quando ele agarrou a mão com firmeza, a apenas centímetros do rosto, ela arfou de surpresa, fitando-o nos olhos e reconhecendo imediatamente a raiva neles.

Havia passado dos limites. Deus do Céu. Tentara bater nele. O que a havia possuído? Lutou para soltar o braço, só para descobrir que a mão dele era completamente inflexível.

– Eu... me desculpe.

Ele estreitou os olhos, mas permaneceu calado.

– Não devia ter feito...

– Mas fez.

Bella hesitou por um instante e acrescentou:

– Mas não queria.

Edward balançou a cabeça, soltando a mão dela e tirando um momento para endireitar a casaca.

– Não se pode ter a faca e o queijo na mão, lady Isabella. Se planeja tornar um hábito agir sem se importar com as consequências, recomendo que assuma a responsabilidade por seus atos. A senhorita queria me bater. Pelo menos tenha a coragem de admitir. – Ele fez uma pausa, esperando que ela reagisse. Diante do seu silêncio, balançou a cabeça. – Incrível. Não achei que fosse uma covarde.

As palavras a fizeram enrubescer de raiva.

– Fique longe de mim! – exclamou, a voz trêmula de emoção, antes de se afastar, fugindo na direção do saguão iluminado e do camarote de Rivington.

Edward a observou partir, a expressão impassível, sem revelar seus pensamentos.


"Posso muito bem parar de resistir ao papel", isso diz muito hein kkkk

Até sábado que vem, meninas, espero que tenham gostado dos dois capítulos seguidos.