CURANDO KYOKO
CAPÍTULO 1 – DESCOBERTA
Grandes descobertas não precisam vir com pompa. Não precisam ser anunciadas nem arduamente elaboradas. Às vezes elas simplesmente estão ali, ao alcance do discernimento, como respostas apenas esperando pelas perguntas certas para surgirem. Kyoko nunca fez muitas perguntas, e menos ainda em voz alta. Educada para obedecer, ser cortês, aceitar polidamente o que lhe era oferecido pela vida e pelas pessoas, pois esta era a postura adequada a uma okami. Mais do que tudo, se algo lhe afrontasse ou pusesse em risco, a conduta correta consistia em contornar, como a água, ou dissipar a situação, como o ar, por mais que sua natureza fosse o fogo. Então sim, Kyoko adquiriu o hábito de não desperdiçar energia em eventos desnecessários, considerados como tais tudo aquilo que não dissesse respeito a seu trabalho.
Não era trabalho dela, por exemplo, entender o que se passava entre seu pai/sensei Kuu Hizuri e seu não-falecido-porém-desaparecido filho. Contanto que houvesse uma descrição do garoto e a indicação do que ela deveria fazer, ela faria. E fez. E mesmo após se apaixonar pelo personagem a ponto de continuar se convertendo nele ao menor pretexto, Kyoko ainda não via necessidade em fazer uma simples busca na internet para verificar o que raios aconteceu ao jovem Kuon Hizuri.
Outro detalhe importante sobre as grandes descobertas é que nem sempre elas vêm com empenho. Algumas vezes a mera casualidade, como estar jantando com seus senhorios enquanto a TV permanece ligada, trata de colocar a descoberta bem no seu colo. E foi assim que Kyoko, entusiasmada com o programa que anunciava o especial de aniversário de Kuu Hizuri, contendo um quadro biográfico seguido do filme mais popular do ator no Japão, assistiu perplexa as imagens de Kuu, ainda jovem e no início da carreira, perturbadoramente semelhantes a outro certo autor. Como se não bastasse a inegável semelhança entre eles, a biografia prosseguiu com imagens de Juliena Hizuri e, finalmente, da família Hizuri.
Lá estava, como se a zombar dela, uma foto dos três tirada onze anos após o casamento, por ocasião da penúltima ida de Kuu ao Japão para promoção de um filme, exatamente na época em que Kyoko conhecera Corn.
Subiu os degraus para seu quarto como se a casa estivesse em chamas, ignorando as exclamações preocupadas dos senhorios. "Não, não, não", pensava (ou suplicava?) apressada enquanto tentava manter o celular firme o suficiente nas mãos para digitar as buscas. Pesquisou tudo: Kuu, Juliena, Kuon. Conforme as informações surgiam, relembrava os detalhes de suas interações infantis com Corn, procurando desesperadamente, se fosse sincera consigo mesma, encontrar uma brecha que a possibilitasse manter a convicção de que seu amigo era realmente um príncipe fada.
Como a explicação racional era por demais amarga e a explicação fantástica estava severamente prejudicada, testou o meio-termo de apenas flertar com algumas hipóteses. Corn poderia se chamar, na verdade, Kuon. Erro aceitável, considerando-se a tenra idade de Kyoko à época em que ouvira o nome pela primeira vez. Se Corn/Kuon não fosse uma fada, era certo que seria um humano especial. Mais especial que o único filho de Kuu e Juliena, as personificações de Oberon e Titânia, impossível. Ok, as datas batem, Kuu e Kuon estavam no Japão e pelo calendário de eventos da cidade, precisamente em Kyoto no período em que Kyoko e Corn interagiram. O pai é um rei, a metáfora também confere, com mãos grandes o bastante para impedir o voo de alguém pequeno e frágil. É como dizer que o talento (mãos) de Kuu é tão vasto (grandes), que se Kuon não correspondesse às altas expectativas depositadas nele nunca conseguiria sair da sombra de seu pai (voo).
Por mais que Kyoko tentasse rir de si mesma por estar encontrando validade nessas conjecturas, uma vez que o dique sofre a primeira rachadura é só questão de tempo para a inundação acontecer. E foi assim que, seguindo por esta hipótese de Corn ser Kuon Hizuri, prosseguiu sua busca e descobriu que ele foi criado na América e teve irrisória participação no show business, atuando em papéis inexpressivos e fazendo aparições esporádicas em pequenos desfiles. Depois... nada. Sumiu de qualquer evento por volta dos quinze anos. Pai e mãe deram breves declarações de que o filho estaria estudando no exterior, nada mais.
Insistentemente pulsava, no fundo da mente de Kyoko, o pensamento de que se o jovem Corn não existia, também não existia o Corn adulto. "Lembre-se de Guam", dizia a voz em sua cabeça. E quanto mais tentava não pensar, mais pensava, obviamente. Até que cansou de fingir e resolutamente aprofundou sua busca, desta vez consultando Tsuruga Ren. O início de sua carreira no Japão se deu aos dezesseis anos, o que confere com o sumiço de Kuon. Ren com aqueles irritantes trejeitos americanos e dificuldade com certos kanjis, indicando que ele cresceu no exterior. Ambos com a mesma data de nascimento. Corn em Guam, Ren em Guam. Corn com a mesma voz e dados físicos de Ren.
"Kyoko-chan, você está bem?". Okami-san abre uma fresta da porta do quarto para encontrar Kyoko sentada com as costas na parede, sob a janela do quarto, com os olhos vermelhos e muito inchados. Já passavam de quatro horas da manhã, mas como havia luz no quarto Okami-san resolveu verificar, pela quarta vez, como a garota passava, desta vez sem se contentar com o simples "estou bem, okami-san!" das vezes anteriores. Na mão direita, caída ao lado do corpo, o celular sem bateria. Os olhos entreabertos e inexpressivos. Não fosse pelo vapor que saía de sua boca, culpa do frio que adentrava a janela escancarada, Okami temeria pelo pior. Kyoko parecia em tudo uma boneca quebrada.
