CAPITULO 2 - DESPERTANDO

Os senhorios conversavam na sala decidindo o que fazer, o que significa que Okami-san tagarelava, encontrando e dispensando alternativas em velocidade alarmante e sem ouvir uma palavra sequer do marido. Não que ele tivesse algo para dizer. Apesar da aparência deplorável Kyoko insistia em ir trabalhar, deixando Taisho dividido entre a admiração pela dedicação e exasperação pela teimosia. O que quer que ela tenha descoberto na noite anterior causou um impacto ainda maior que ouvir a própria mãe negar sua existência em rede nacional, e sem maiores informações ele se sentia incapaz de fornecer qualquer tipo de ajuda.

Na hora em que Okami-san testava a teoria de que seria muito bom se eles tivessem o contato daquele amigo de infância que a visitara das outras vezes, já que talvez ele pudesse ajudar, Kyoko, vestida para mais um dia de trabalho, descia as escadas. Nos últimos degraus, a perda da consciência e a queda. Despertou horas depois no que só poderia ser um hospital, sentindo a boca seca e a pior enxaqueca de sua vida. Okami-san estava a seu lado e explicou a situação: ao que tudo indicava, a janela aberta durante a noite rendeu-lhe uma forte febre, que provocou a perda da consciência e a queda. Poderia ser liberada no dia seguinte, caso o médico ficasse satisfeito tanto com a evolução do tratamento para prevenir o desenvolvimento de uma pneumonia quanto com o resultado do eletroencefalograma.

Como era Kyoko, preocupou-se com o trabalho e procurou freneticamente seu telefone celular. Lembrou-se não só de que não estava com ele, como também de que não o havia carregado. Isso trouxe de volta as lembranças das descobertas da noite anterior e as lágrimas, que voltaram com profusão e acompanhadas de dolorosos soluços. Okami-san não entendia o que estava acontecendo, mas o básico estava evidente: algo partira o coração de Kyoko e ela precisava de ajuda. Ainda que não soubesse os detalhes, abraços e carinhos são universais e confortam a alma, então dedicou-se a demonstrar à garota que estava ali por ela, que se preocupava porque a amava. Não sabia como dizer com palavras, então rezava para que os gestos fossem suficientes.

Em algum momento durante seu segundo desabamento emocional em menos de 24 horas, Kyoko adormeceu, vindo a acordar somente na manhã seguinte. Abriu os olhos para se deparar com um balão rosa berrante flutuando sobre sua cabeça e os dizeres "Melhore logo!" escritos em vermelho. Vagamente perguntou-se se aquela tonalidade seria uma maldição a persegui-la por toda a vida e riu de si mesma. A cabeça já não doía tanto, pelo que ela riu mais. Não sabia definir o motivo, apenas ria. O som acordou Okami-san, que dormia na cadeira dos acompanhantes. Olhou assustada para a garota, que agora ria e chorava simultaneamente. Preocupou-se com ela, parecia ter perdido o juízo. Saiu do quarto apressada, avisando-a de que chamaria alguém do hospital para avalia-la. Quando retornou ao quarto com um médico encontrou a garota na mesma situação em que a deixara minutos antes, rindo e chorando quase convulsivamente.