CAPITULO 3 - PARANDO DE SOBREVIVER
O médico somente aceitou dar alta a Kyoko sob o comprometimento enfático do próprio Lory Takarada de que a garota seria avaliada por um psicoterapeuta da LME. "Tal comportamento é preocupante e precisa ser profissionalmente investigado e tratado", afirmou o médico. E diante da evidência, Lory apenas podia concordar: se ele achava que já havia visto um olhar doloroso nela, enganara-se. Evitou, portanto, quaisquer perguntas sobre o ocorrido, respeitando a própria intuição que lhe dizia para deixar o caso nas mãos dos especialistas.
Irrelevante mencionar que o balão rosa berrante fora presente do próprio Lory ao saber da internação da garota. Desnecessário esclarecer que ela recebeu flores de Ren, as quais foram realojadas para o quarto de Kyoko no Darumaya por não poderem permanecer no quarto do hospital. Também não importa que o celular dela estivesse repleto de ligações não atendidas e mensagens de texto de Chiori, Kanae, Yashiro e Ren. Aliás, uma absurda quantidade de ligações e mensagens de Ren, especificamente. Não, o que importava realmente era o e-mail que a mãe de Kyoko lhe mandara, comunicando que fora informada da internação da garota e que o evento lhe alertara para o inconveniente de imprevistos assim interromperem um dia de trabalho perfeitamente normal, o que não ocorria enquanto Kyoko permanecera aos cuidados da família Fuwa. "Então", propunha Saena em seu e-mail, "considerando que sua vida privada já consumiu uma quantidade inestimável do meu tempo de trabalho e que seu retorno para Kyoto me envergonharia ainda mais, ingressei com o pedido de sua emancipação junto ao cartório competente. Dentro de alguns dias entrarei em contato para informa-la da efetivação de sua condição de mulher adulta e independente, já que já posso considera-la financeiramente autossuficiente. Até lá, cuide para que nenhum novo evento reivindique minha disputada atenção".
Kyoko deu-se conta de que sua mãe estava dando um passo definitivo para deixa-la sozinha, completamente sozinha. Embora uma única pessoa não possa ser responsável pela solidão de alguém, e Deus era testemunha de que Saena não poderia ser sequer chamada de companhia, naquele momento Kyoko viu a si mesma como uma pessoa arremessada ao fundo do poço, e ironicamente a vida agora lhe presenteava com uma pá. Uma maldita pá. Como poderia deixar de rir?
Kyoko começava a reconhecer este momento como um marco muito além da emancipação civil. Percebia que há algo libertador em estar completamente só: você passa a depender apenas de si mesmo, e isso não é algo necessariamente ruim. A mensagem de sua mãe removia, de muitas formas, grilhões pesados que Kyoko ainda carregava. "Sua vida agora pertence exclusivamente a você", foi a mensagem que captou. Então não importava que estivesse no fundo de um poço, menos ainda que contasse somente com uma pá. Estava sozinha e triste, nenhuma novidade para ela, mas a pedra Corn, sabia agora, era apenas uma pedra. Poderia sofrer e se lamuriar por isso o quanto quisesse, que nada mudaria. Então, resolveu encarar a situação como o desafio que era e fez o que fazia de melhor: agiu.
"Que seja", disse a si mesma. "Que seja. Talvez eu não devesse ter nascido. Eu sou o resultado da união entre o erro de uma mulher e a maquinação de um homem, então talvez kami-sama apenas me despreze. Mas eu estou aqui e tenho sobrevivido desde o ventre com todas as minhas forças". E este foi o momento em que Kyoko decidiu mudar o rumo da própria vida. Foi quando ela percebeu que desde sempre desempenhou o papel que acreditava ser desejado pelas pessoas, apenas para ser aceita e amada, e não só fracassou todas as vezes como ainda conseguiu perder-se de si mesma. O que queria ela? Foi necessária uma cruel desilusão e o mero acaso para descobrir que amava atuar, mas o que mais? Quantas informações acerca de si mesma ela deixava de perceber apenas por estar sempre mais concentrada em identificar a necessidade alheia do que a própria?
Kyoko tomou uma decisão, e quem a conhece sabe bem que suas decisões devem ser levadas a sério. Kyoko decidiu parar de sobreviver e começar a viver.
N/A - Agradeço imensamente às pessoas que comentaram, favoritaram e seguem esta história. Há muito tempo tenho esse enredo em minha cabeça, mas somente agora tive tempo para escreve-lo. É minha primeira fic, então estou demorando mais do que gostaria para fazer as edições, mas com o tempo vou pegando o jeito. Inicialmente os capítulos são um pouco curtos, e será assim enquanto Kyoko estiver na fase de resoluções, mas depois ficarão mais longos. Meu planejamento é fazer uma trilogia, "Curando Kyoko", "Curando Ren" e "Aprendendo a voar", mas talvez eu decida fundir todas as três nesta aqui. Beijos!
