CAPÍTULO 5 – CONFRONTOS (PARTE 1)

Se fosse perguntada, Kyoko responderia que detesta confrontos. Aliás, é a resposta-padrão para a maioria das pessoas. Mas confrontos são muitas vezes cruciais para algo novo surgir, e tratando-se de alguém com uma vida como a dela, Kyoko precisava confrontar várias pessoas e situações até se satisfazer com sua nova realidade. Enquanto esclarecimentos e mudanças de rota não fossem feitos, seria a velha vida para a nova Kyoko, e isto era algo que ela detestava ainda mais.

Então, colocou seu plano de batalha em prática.

"Você trouxe plateia? Mogami-san, o que significa isso?", perguntou irritado o estoico produtor. Até Kyoko podia ver o suor frio em Sawara-san, que já se arrependia por ter cedido às demandas da garota. Yashiro-san parecia a ponto de desmaiar e se amaldiçoava por não ter destinado tempo suficiente a orientar Kyoko sobre o que era esperado dela em qualquer reunião de assinatura de contrato. "Kuresaki-san, eu lhe garanto que não faço ideia do motivo de ter sido chamada aqui", alertou Koenji Erika, ainda em sua cadeira de rodas. Os kyomons se agitavam com a quantidade de energia negativa acumulada e dirigida a Kyoko, que precisava explicar logo o que estava acontecendo antes que Sawara-san e Yashiro-san tivessem uma síncope nervosa.

"Kuresaki-san, Morizumi-san, bom dia. Estou ciente de que esta reunião se refere ao resultado da audição para o papel de Momiji. Também estou ciente de que ambos, produtor e diretor, não solicitariam uma reunião comigo e com o diretor da seção de talentos da LME se não fosse para comunicar minha aprovação ao papel. Contudo, há algumas questões que precisam ser esclarecidas".

"Nããããããããão! Mogami-san, o que você está fazendo?", pensavam simultaneamente Yashiro e Sawara, enquanto o nível de irritação do produtor e do diretor de "Lotus" apenas aumentava. "Questões, Mogami-san? Quais questões?". Apenas a curiosidade impedia Kuresaki-san de sair daquela agência de malucos. Curiosidade e a enorme vontade de ter Kyoko interpretando Momiji.

"Vou direto ao assunto, então. Desde o começo o papel de Momiji não deveria ser meu".

Atônitos. Era possível ver a alma praticamente saindo dos corpos presentes. Sawara-san já estava azulando. Erika ficou feliz, pela primeira vez, por estar sentada naquela cadeira de rodas, pois assim não cairia no chão de tanto assombro.

"Zomba de nós?", perguntou o produtor. "De forma alguma", respondeu. "Meu ingresso na segunda rodada de audições para o papel de Momiji ocorreu em razão de uma solicitação enviada à Seção Love Me. Tratava-se de um pedido dos assistentes de Erika Koenji para investigação do misterioso acidente que a impossibilitou de assumir o papel para o qual fora selecionada na primeira rodada. À época do pedido, toda informação que dispunham dizia respeito ao motivo do acidente: retaliação de uma competidora derrotada e inconformada". Corajosa e acintosamente, Kyoko dirige seu olhar a Morizumi-san, que reage espantado. Se por Kyoko ter descoberto ou se por ter ele próprio se dado conta de que a sobrinha era a responsável, nenhum dos presentes soube dizer.

Kyoko prosseguiu com a explicação. "O pedido dos assistentes foi bastante amplo: descobrir quem e realizar a justiça". Com o olhar suave dirigido a Erika, continuou. "A vontade deles, no entanto, era outra: que Erika recobrasse sua vontade de trabalhar no mundo do entretenimento e, consequentemente, voltasse a andar".

"Não foi uma lesão que a paralisou?", questionou Sawara. "Foi uma lesão, mas do tipo emocional", explicou Kyoko, fornecendo a deixa perfeita para que Erika contasse aos presentes sobre como seu início no show business fora indigno, recorrendo a conexões e poder financeiro para obter papeis de jovens mais talentosas e esforçadas que ela, numa clara referência a Kanae. "Porém, desde que me arrependi venho conquistando meu espaço com minhas próprias forças, escondendo minha origem e escolhendo papeis que ampliassem meu repertorio de personagens, e não somente protagonistas", acrescentou. "Sim, até ser vítima, pela primeira vez, da mesma artimanha que praticava. Estou enganada?", perguntou Kyoko.

Ao sinal negativo de Erika, Kyoko tomou novamente a palavra. "Eu assumi que o choque por ser a vítima fora tamanho, que Erika não conseguiu erguer-se novamente. Uma coisa é aceitar o desafio de mudar de atitude; outra coisa é provar do veneno que costumava ministrar. Erika não só presenciou uma competidora tentar usar o nome da família para obter privilégios, como ainda foi sabotada ao conseguir o papel de Momiji. Exatamente o que ela costumava fazer".

Pandemônio. Enquanto Erika irrompia no choro, Yashiro lhe fornecia um lenço e Sawara tentava absorver tantas informações, Morizumi batia o punho fechado na mesa e se levantava indignado, bradando que Kyoko estava fazendo presunções inaceitáveis. "Cale-se e sente-se ou saia de uma vez", comandou Kuresaki com voz gélida. "Eu quero ver onde essa história vai chegar". E por ser uma pessoa extremamente curiosa, Morizumi optou por retomar o assento.

"Ao saber que não havia justificativa física para a paralisia de Erika, deduzi que fosse emocional. A descrição que recebi dos eventos também possibilitou que eu traçasse o paralelo entre os acontecimentos. Restava realizar o desejo dos assistentes e fazer Erika se reerguer, o que seria bem mais difícil se o papel de Momiji fosse obtido pela malfeitora. Por isso, dediquei-me a garantir que isso não aconteceria e ingressei na audição. O resto, vocês sabem".

"Fascinante. Então você nos reuniu aqui para bancar a detetive, elucidar o crime e colher os louros?", Morizumi indagou maliciosamente. Com um sorriso indulgente, Kyoko explicou. "Vocês vieram aqui assinar o contrato com a atriz que interpretará Momiji, e é exatamente isso que acontecerá".

Entendimento se fez para a Yashiro. "Kyoko-chan, você não pode estar...".

"Koenji Erika-san é a Momiji original. Se ela não tivesse sido deslealmente atacada, a esta altura já estaria gravando a série", interrompeu Kyoko. "A minha existência pode ser devida à vilania de uma pessoa, e quanto a isso não há nada que eu possa fazer. Mas eu posso não admitir que o trabalho que eu AMO esteja pautado em perversidades", pensou triste e resolutamente, não atinando para o fato de que admitiu amor pela primeira vez desde o fiasco Sho, sem titubear.

"Kyoko-san, o que você está dizendo?", perguntou-lhe Erika, estupefata. "Koenji-san, eu não vou mentir: Momiji já existe dentro de mim e me dói muito abrir mão de interpreta-la", respondeu-lhe com lágrimas já caindo pelo rosto, "mas existe alguém dentro de mim que é ainda mais importante que Momiji, e me comanda a devolver Momiji a você". Erika, entendendo que Kyoko se referia a sua própria pessoa, ou consciência, sentiu-se preencher-se de gratidão pela generosidade que Kyoko demonstrava. E como não conseguiria faze-lo apropriadamente da cadeira de rodas, para coroar o assombro de todos os presentes, plantou os pés no chão, levantou-se, olhou Kyoko nos olhos, deu sua melhor reverência e agradeceu do fundo do coração.

O amor de Mogami Kyoko havia curado Koenji Erika.

N/A - Tive que postar novamente este capítulo, algo deu errado da primeira vez. Mutemuia, obrigada por me avisar!