CAPÍTULO 7 – CONFRONTOS (PARTE 2)

Kyoko não sabia que havia uma antiga ligação entre Lory e a mulher sentada diante de si. Hamada Shizuka e a finada esposa de Lory eram inseparáveis até o excêntrico magnata, à época um empresário em ascensão, aparecer em suas vidas e monopolizar sua querida amiga. Shizuka bem sabia que a animosidade que sentia em relação a Lory não passava de ciúme, mas saber a causa não impedia que ele lhe aborrecesse sobremaneira. E saber que provavelmente Lory conhecia (e respeitava) sua fraqueza só piorava.

Profissionalmente falando, Shizuka se incomodava com certas tendências de Lory em achar que tudo no mundo se resolveria com amor. Não que ela tivesse algo contra o sentimento, como Kyoko, ou fosse uma iniciante nele, como Ren, mas Shizuka pensava em si mesma como uma cientista. Como tal, reservava as experiências aos laboratórios, onde as variáveis poderiam ser controladas. Ao consultório ela reservava a verificação de limites, permitindo-se ir apenas até onde seu paciente permitisse. Na vida real a história era outra.

"Inaceitável, simplesmente inaceitável", foi o que ela pensou quando Kyoko lhe contou sobre a Seção Love Me. "Basicamente, um lugar específico para concentrar pessoas com um transtorno afetivo. Se ele é tão bom em identifica-las, porque não contratar um especialista permanente para a LME, ao invés de colocar tais pessoas em exposição? Não só o nome da seção escancara ao mundo a fraqueza delas, como ele ainda as obriga a circular em público com um uniforme que grita ao mundo como elas são vulneráveis".

Lory não era mal-intencionado, muito pelo contrário. Suas intenções eram tão boas que ele às vezes se perdia em seus esforços para ajudar os outros. "A diferença entre a cura e o veneno é a dose. Amar e saber amar são coisas distintas", disse-lhe Shizuka em seu escritório, quando acabou a consulta de Kyoko. Estava furiosa, havia tanto que queria criticar que sequer lembrou de agendar uma reunião antes, mas o fato de que ele aceitara recebe-la (e o fizera vestido de Elvis Presley, de quem ela era secreta fã) aplacou sua fúria inicial. Não deixou, contudo, de enumerar cada limite ético que ele havia ultrapassado e apontar, com precisão, como tanto a falta como o excesso de zelo são prejudiciais.

"O seu problema, Lory, é ser o chefe absoluto. Antes, ela era a chefe de fato, indicando quando você começava a se exceder e corrigindo sua rota, mas ela morreu e agora você está sem rédeas, fazendo o que bem entende. Quando foi a última vez que alguém realmente o contrariou, Lory? Quando foi a última vez que alguém disse que você estava errado?", perguntou exasperada. "Você está fazendo isso agora", murmurou Lory como se fosse uma criança contrariada. Não que ele não estivesse absorvendo as palavras de Shizuka com seriedade; apenas era difícil admitir que ela tinha razão.

"E aquela ideia ridícula dos pontos? Meu Deus, sabia que somente quando eu perguntei ela se deu conta de não saber quantos pontos eram necessários para se graduar da Seção Love Me? Sabia que ela já tem um caderno completo de pontos, e o segundo tem dois – não um, Lory, DOIS! – carimbos de pontuação infinita? Diga-me, pelo que há de sagrado, quantos 'infinitos' ela precisa obter para você considera-la apta?". "Hoje ela está com carga total. Sorte a minha!", pensou ironicamente. Lory recebia a surra verbal resignadamente. Seu coração sabia que havia feito o melhor e dado tudo de si, mas até sua razão embriagada de amor concordava que lhe faltava senso comum.

Não queria ser freado em seus impulsos criativos, afinal era de criatividade que se construía um império no show business, mas quando o assunto era a vida privada de seus funcionários ele tendia a se exceder e este excesso poderia colocar muito a perder. Não queria que Kyoko o visse como um chefe manipulador, que a constrange publicamente e a trata como mão-de-obra barata enquanto adia indefinidamente sua estreia impondo condições inatingíveis, como Shizuka tão claramente lhe disse que era o que ele parecia estar fazendo. "Se não o conhecesse e soubesse o idiota lovemon que você é, já o teria denunciado às autoridades por assédio moral!".

Lory ficou atônito. Ele, magoando Kyoko? Não, isso nunca. A mera possibilidade o apavorou.

Apelou aos próprios instintos, já que foram eles que o fizeram chegar ao topo. "É por isso que eu preciso que você trabalhe para mim", propôs imediatamente. Realmente lhe faltava alguém para lhe contrariar. "Como é?", perguntou Shizuka com certa incredulidade. "Trabalhe para mim. Preciso ter um igual, como você disse. Alguém cuja opinião possa dosar meus arroubos e não consigo pensar em ninguém melhor que você para me contrariar".

Shizuka riu. "Então é bom mudar o discurso: se você quer 'um igual', trabalharei com você, e não para você", disse-lhe satisfeita enquanto estendia a mão para selar o acordo. Foi a primeira vez que eles concordaram em algo. Da parceria, surgiriam muitas discordâncias, algumas concordâncias (para espanto de ambos) e várias criações conjuntas, sendo estes os projetos mais bem-sucedidos que jamais tiveram, pois jamais existiriam sem a contribuição do outro.

Do paraíso, o objeto do afeto de ambos assistia satisfeita velhos conhecidos tornarem-se excelentes amigos, exatamente como ela sempre quis que acontecesse. Poderia finalmente descansar tranquila, sabendo que um cuidaria muito bem do outro. E que se reencontrariam, no seu devido tempo.

Foi assim que o amor por Kyoko curou Lory Takarada.

N/A – Dois capítulos de uma vez! Mais uma vez, obrigada pelo apoio. É muito bom saber que há alguém apreciando a minha fic. Apenas esclarecendo, adoro o Lory! Este capítulo não significa que ele será um personagem menos excêntrico nesta fic, apenas que ele terá alguma orientação quando o assunto forem as dificuldades íntimas de seus funcionários. É isto o que a "cura" dele quer dizer: ele aceitou que às vezes erra na dosagem quando age por amor, ou nas palavras de Shizuka, "amar e saber amar são coisas distintas".