CAPÍTULO 8 – APARANDO AS ARESTAS
As sessões de psicoterapia ocorriam de vento em popa. Embora não fosse o usual, Kyoko estava agendada por três dias na semana, e cada sessão durava duas horas, totalizando seis horas por semana. A garota não sabia que estava recebendo um tratamento diferenciado, nem que Hamada praticamente abdicara do horário de almoço para conseguir atende-la, apenas que os encontros se tornaram o momento preferido de Kyoko. Por mais sofridos que fossem, ela estava feliz por poder falar abertamente sobre seus medos e suas dores. E não apenas isso, atuava-os!
Inicialmente achara estranha a orientação da terapeuta, mas logo percebeu que encenar a própria vida, atuando não só como a si mesma, mas como todos os personagens envolvidos, ajudava-a a compreender melhor os eventos dolorosos e seus sentimentos em relação a eles. "O psicodrama é uma terapia de grupo, onde cada participante desempenha um papel, mas como sei que você é uma excelente atriz, gostaria de tentar este método com você", explicara.
Fazia apenas uma semana da fatídica descoberta da identidade de Ren, mas para Kyoko parecia que uma vida inteira havia se passado. Finalmente estava oficialmente emancipada. A apresentação do elenco de "Lotus" ocorreria na semana seguinte, mas Kanae já sabia que Erika atuaria Momiji. "Não sei se você é incrivelmente estúpida ou apenas boa demais para este mundo! Uesugi-sensei está furioso com você! Hiou-kun não quer nem ouvir seu nome; ele acha que você fez pouco caso da família dele!", recriminou Kanae. "Eu sei, Moko-san. Já estive no dojo pedindo desculpas", respondeu-lhe Kyoko, chorosa.
É verdade que ela se desculpara e que Hiou estava furioso, mas Kyoko se enganava a respeito do mestre. Kotetsu Uesugi ficou tão desconcertado com a explicação de Kyoko, que virou as costas para a dogeza da garota, dando a si mesmo um tempo para refletir sobre o que estava ouvindo. Kyoko entendeu o gesto como recusa ao pedido de desculpas, mas na verdade o mestre tentava encaixar o fato de que Kyoko fora uma das melhores e mais dedicadas alunas que já tivera, e que tamanho empenho não trabalhava em proveito próprio, mas de outrem. Tal fibra moral cabia a um verdadeiro samurai, capaz de dar a vida em defesa da honra de seu senhor, e alguém como Kotetsu Uesugi estava emocionado por se deparar com isso em pleno século XXI.
Na verdade, tão emocionado, que sempre que ouvia o nome de Kyoko ele precisava se esforçar para se recompor, então todos ao seu redor ficaram com a impressão errada de que ele repudiava a garota, e Hiou-kun, vendo seu avô reagir de tal maneira pela primeira vez, tomara suas dores. Levaria dois anos para o mal-entendido ser esclarecido.
O último ano letivo de Kyoko estava para começar, mas pela primeira vez ela não se sentia empolgada com isso. Gostara da escola mesmo com o bullying e compreendia a importância do diploma, mas agora a frequência às aulas parecia sem propósito diante de seu objetivo maior de descobrir a si mesma. "Do que adianta ter o mundo e não ter a si mesma ?", perguntara a doutora. Segundo Hamada, Kyoko tivera tão poucas oportunidades de experimentar coisas novas, e o que vivenciou era tão doloroso, que não era estranho que fugisse para o mundo dos contos de fadas à menor oportunidade. "Não é difícil prever onde uma pessoa escolherá viver: no imaginário encantador ou na realidade cruel. Mas lembre-se sempre de que o tempo que você consome vivendo lá é o tempo do qual você se priva de viver aqui, e é aqui que você é necessária para fazer mudanças, Kyoko-chan! Sua vida pertence a você, e só você pode decidir qual caminho percorrer".
Após passar dias (e noites) em profunda reflexão, Kyoko constatou que vivera para fazer os outros felizes; para ser considerada necessária, e assim não ser (novamente) abandonada. Óbvio que não adiantou, não porque ela tivesse falhado em ser "perfeita", mas porque mesmo assim lhe viraram as costas. E será que ela mesma gostaria de ter alguém a seu lado nessas condições? "Eu aprendo a ser quem querem que eu seja, e então o quê? Atuo esse alguém pelo resto da minha vida, sob pena de ser descartada como um objeto que perdeu seu valor? Ou eu quero ser amada a despeito de quem eu sou? Ou melhor: ser amada exatamente por ser quem eu sou? ".
Tais reflexões ressoavam em Kyoko como milhões de sinos. Lembrou-se das várias vezes em que Sho lhe chamara de mulher estúpida que só pensava em amor. Das reclamações dele sobre ela não ter um sonho, ser conformada, simplória. Lembrou-se dos comentários maldosos que ouvira durante toda a sua vida escolar, e de como, nenhuma vez, procurara se defender. Como se ela achasse que merecia ser depreciada. E ficou triste, porque de todas as pessoas erradas que a trataram mal, ela se percebia como seu pior algoz, pois se privara de seu amor-próprio. Tratara a si mesma como uma pessoa indigna de amor, e por isso não era melhor do que todos os outros que a desprezaram.
"Como eu faço para me valorizar, Hamada-san? Como uma pessoa que nunca se sentiu amada aprende a se amar?", perguntou em lágrimas. "Não há uma receita para isso, Kyoko-chan. Infelizmente. Contudo, não vejo como é possível uma pessoa se estimar sem se conhecer. E também me pergunto se é mesmo verdade que você nunca foi amada. Talvez você tenha uma visão limitada do que é o amor. O amor não é só 'eu te amo', sorrisos, afagos e elogios. O amor também pode vir em forma de uma reprimenda, de uma refeição especialmente feita para você, de uma pergunta preocupada. Esteja atenta, Kyoko-chan, porque eu estou certa de que há amor à sua volta".
Estas palavras foram as mais marcantes para Kyoko. Sobre elas a garota ainda refletiria por muitos anos no futuro.
Por ora, Kyoko esboçava a segunda etapa do seu plano de batalha. As filmagens de Box-R chegavam ao fim, sendo sua última gravação no dia seguinte. Como os produtores do programa permaneciam indecisos sobre uma segunda temporada, e Lory determinara que Kyoko não assinaria um novo contrato de trabalho enquanto a doutora Hamada não desse seu aval, tudo que Kyoko ainda tinha era o papel de Bo.
Procurou Sawara e descobriu que seu contrato como Bo era precário, para dizer o mínimo. Renovava-se automaticamente a cada mês, se nenhuma das partes decidisse pelo seu término. Kyoko contraiu-se e pensou que isso só poderia ser fruto de seu primeiro dia e da desconfiança do diretor do programa de que ela era uma bomba-relógio, mas Sawara era da opinião de que o contrato era assim por conta da esperada ascensão dela como atriz, pois eventualmente não teria agenda para o papel de mascote.
Ao observa-la, o diretor da seção de talentos se perguntou pela milésima vez se a garota estaria bem, pois era estranho que uma workaholic como ela permanecesse tanto tempo sem trabalho, e ainda mais que ela estivesse agindo como se tudo fosse perfeitamente normal. Como a Seção Love Me estava suspensa até ser reformulada por Hamada-san, Kyoko quase nunca era vista na agência, o que todos começaram a perceber. E a sentir falta, já que a energia dela era contagiante. Em resumo, o ambiente ficara menos alegre e cafés voltaram a ser consumidos com avidez, em clara tentativa de substituição do ânimo que ela fornecia.
Sawara também estava bem ciente de que o semestre letivo ainda não havido começado, então, somando tudo, Kyoko somente estava comprometida com Bo e Natsu, e mesmo esta acabaria no dia seguinte.
"O esperado seria que ela estivesse aqui me importunando para encontrar trabalhos para ela. Será que o caso Momiji não foi uma indicação de que ela enlouqueceu de vez?", perguntou-se o diretor de talentos, ainda observando atentamente a garota enquanto ela examinava seu contrato com Bridge Rock. "Sawara-san, como faço para cancelar meu contrato como Bo?", perguntou a garota. "Eeeeeeeeehhhhh? Mogami-san, não! É o único contrato que você ainda tem!".
Kyoko tentava se explicar ao desesperado Sawara, que não vendo alternativas praticamente a arrastou ao escritório de Lory. "Você falará com o presidente, eu não tenho mais condições de lidar com os sustos que você me dá!". E foi-se embora deixando-a ali, na antessala do escritório, murmurando ao longo do caminho sobre garotas voluntariosas e queda de cabelo.
Kyoko pensou que aquela cena caberia muito bem em uma comédia familiar, mais especificamente uma cena entre pai e filha, e imediatamente as palavras de Hamada voltaram a sua mente. "Seria esta uma demonstração de amor?", foi a pergunta que Kyoko se fez, mas não teve muito tempo para pensar sobre isso pois logo Ruto estava a seu lado, indicando que Lory estava disponível para vê-la.
Ficou parada olhando para o assistente, vestido de policial da década de 50, e este apenas se deixou observar, impassível. "Mogami-san? ", perguntou enfim. "Ah, desculpe! Eu estava apenas pensando que não sei seu nome! ", respondeu envergonhada. Ruto sorriu, e foi a primeira vez que Kyoko o viu sorrir. "Eu me chamo Ruto, e pode me chamar assim se quiser, mas se eu puder escolher, prefiro continuar sendo chamado de Sebastian". Kyoko arregalou os olhos e ruborizou. "Ah não, você sabe! Que vergonha! ".
E foi assim que um estupefato Lory, vestido de delegado de polícia dos anos 50, viu adentrar seu escritório uma Kyoko vermelha, tentando esconder o rosto nas mãos, enquanto Ruto a encaminhava para a cadeira que deveria ocupar. Sorrindo! Lory quase sufocou com a fumaça do charuto que tragava. Não fazia ideia de que Ruto conseguia sorrir!
Demorou alguns minutos para Kyoko voltar à cor original e Lory se refazer do assombro, embora seu assistente soubesse que o olhar do chefe lhe dizia "conversaremos sobre isso depois". A verdade é que Ruto tinha uma enorme afeição pela garota, especialmente pela capacidade que ela tinha de afetar positivamente as pessoas que a rodeavam. Nisso, ele e Lory concordavam: se a pessoa fosse difícil, bastava coloca-la por algumas horas com Kyoko e você veria uma transformação acontecer.
Deixando o comportamento inusitado de Ruto para mais tarde, Lory se concentrou no assunto premente que era a presença de Kyoko em seu escritório, e ele estava muito satisfeito em ver que a garota parecia perfeitamente normal. Até ela abrir a boca.
"Takarada-san, Sawara-san me trouxe aqui porque eu quero encerrar meu contrato como Bo e ele parece achar que eu sou voluntariosa. E aparentemente, causo queda de cabelo".
"Hum? Mogami-san, espere um segundo, você não está fazendo sentido. Encerrar o contrato como Bo, você disse?". "Sim". "Mas você sempre me pareceu gostar de atuar como Bo!". "E gosto. " "Então, por quê? ".
Sinais de alerta começaram a soar para Lory. Se estivesse correto, em breve Bo seria o único vínculo da garota com a LME. Revisou mentalmente que o curso de atuação havia acabado; a matrícula no novo ano letivo ainda não fora feita; Box-R não estava renovado. Kyoko não estreara, ele mesmo se certificara disso, então toda ligação que a LME tinha com Kyoko se resumia em ser a intermediária do contrato dela como Bo. "Como pude deixar isso acontecer?", perguntava-se Lory freneticamente.
Kyoko respirou fundo, preparando-se para o que talvez fosse a pior batalha de sua vida. "Porque eu quero deixar a LME".
