CAPÍTULO 9 - ANTES DA TEMPESTADE...
Após enfrentar todo o arsenal de Lory, que incluía olhos chorosos e apelos emocionados, Kyoko finalmente o convencera de que partia porque precisava, não porque havia perdido o juízo. Conhecendo a garota e sabendo de sua seriedade, ele percebeu que ela não tomaria tal decisão se não estivesse convicta de que seria o melhor para ela.
Lory também sentia, em sua alma, que alguém com tamanho talento natural não suportaria ficar muito tempo distante do show business. Não depois de provar o doce sabor de exercer um dom. Logo, não seria um adeus, e sim um "até logo". O próprio Lory não fizera o mesmo com Kuon?
O rapaz, apesar do talento, havia "travado", então Lory oferecera a ele a oportunidade de encontrar o que precisava. Kyoko, também, precisava buscar o que lhe faltava antes de prosseguir. A compreensão dela a respeito do amor era tocante: "Realmente me falta um importante sentimento humano. Amor. Não pelos outros, mas por mim mesma! E é isso que vou me concentrar em encontrar. Todo o resto seria apenas distração", explicara Kyoko.
Não seria Lory um hipócrita se não lhe permitisse isso?
"Eu seria um tolo se não reconhecesse uma grande decisão, estando diante de uma. Mogami-san, prometa-me apenas que recorrerá a mim sempre que precisar. Para o que quer que precise! " Foram as últimas palavras do majestoso Lory Takarada, antes de ver sair de seu escritório a notável criatura que invadira sua agência e seu coração. Dali a algumas horas, Kyoko desempenharia seu papel como Bo pela última vez.
Prosseguindo com seu plano de batalha, Kyoko preparava-se para encontrar Ren naquela noite, em seu apartamento, logo após a filmagem de Bridge Rock. Finalmente a estranheza de seu relacionamento com ele começava a transparecer para ela: era uma novata, mas era com ela que Ren conversava sobre atuação; ele a recriminara por ser descuidada com Sho, Reino e Kijima, mas ele próprio ficara a sós com ela várias vezes, em seu próprio apartamento e em quartos de hotel, e várias vezes em condutas que Kyoko só poderia descrever como indecentes. Dera-lhe presentes absurdamente caros, como a princesa rosa e as roupas para Setsu.
Kyoko ainda falhava em perceber que tudo sinalizava para a necessidade de Ren de monopoliza-la: não é que ela não poderia ser casual, aceitar presentes e ficar a sós com homens; é que era só com ele que ela poderia fazer tudo isso.
Talvez não fosse mesmo o momento apropriado para reencontra-lo, mas Ren a pressionava cada dia mais. Ele estava ficando ansioso, pois começava a desconfiar de que algo estava errado desde a internação dela. O presidente o informou simplesmente que fora uma febre e um tombo, e quando Ren ficou sabendo que a doutora Hamada estava atendendo Kyoko, Lory o informou que a mãe de Kyoko a emancipara.
"Emancipada, quer dizer que ela é adulta agora. Você podia me deixar finalmente sair para brincar, pôr um final definitivo na nossa miséria...", provocava-lhe Kuon desde então. "Você é mesmo um animal. Se ela está vendo Hamada-san, algo está errado com ela, e tudo que você consegue pensar é em fazer uso das suas bolas", recriminou Ren.
"Um de nós dois precisa lembrar que as têm. E não, eu não penso apenas em toma-la. Não se esqueça de que eu a amava muito antes de você sequer existir", retrucou Kuon.
Sim, ambos a amavam e sabiam bem disso. O que os diferenciava era apenas o pudor.
Com o pouco que sabia, Ren imaginava que os eventos 'emancipação' e 'psicoterapia' estavam interligados de alguma maneira. Assim, ficou aliviado por Kyoko estar recebendo atendimento de uma especialista, embora ele mesmo tivesse recusado enfaticamente o tratamento da doutora cinco anos antes. Não por desacreditar que lhe faria bem, aliás era o oposto: Kuon não aceitava a ideia de ser cuidado, pois estava fixo no pensamento de que merecia apenas sofrimento.
Kyoko, por sua vez, lamentava não ter um território neutro no qual pudesse confrontar Ren. Aliás, não sabia nem se queria confronta-lo, pois todas as vezes que se empenhava em analisar seus sentimentos, sentia-se perdida no turbilhão de emoções. Ensaiara várias abordagens, pensara até em decorar um texto, mas não conseguia pensar nem por onde começar. Sim, sem sombra de dúvidas não estava preparada para estar a sós com ele. Quem quer que ele fosse.
Permitiu-se ceder às dúvidas e adiou o encontro para a noite seguinte, alegando ter surgido um imprevisto. Ren suspirou irritado ao ler a mensagem, mas como lembrou que na noite seguinte ambos terminariam os compromissos mais cedo, teriam ainda mais tempo juntos. Sorriu ao pensar na palavra. Juntos. Passou a encarar o imprevisto como uma bênção. Tantos dias sem vê-la, e ainda por cima com tantas coisas acontecendo na vida dela – a audição de Momiji, a internação, a emancipação – não era à toa que estivesse tão aflito. "A quem você está querendo enganar? Mesmo que nada tivesse acontecido, estaríamos ansiosos para vê-la! ", riu Kuon.
Ren estava bem ciente de que os diálogos em sua cabeça ficavam cada vez mais frequentes. Talvez fosse providencial o reaparecimento da doutora Hamada em sua vida. O homem de cinco anos atrás não estava disposto a receber ajuda, mas aquele homem não tinha Kyoko; aquele homem não estava disposto a se tornar alguém digno dela. Agora sentia que tudo estava diferente, então fez uma anotação mental para conversar sobre isso com o presidente.
Foi para casa ao final do trabalho. Ainda era 21h, cedo para alguém como ele. Sentou-se diante da tv, e após se frustrar por não haver exibição de um programa com Kyoko – qualquer coisa em que Kyoko aparecesse – resolveu buscar por ela na internet. Talvez alguma informação nova, trecho de entrevista ou comentário sobre Natsu aliviassem um pouco a saudade que sentia.
Duas horas antes
Kyoko terminava sua última filmagem como Bo. Foi um show emocionante para ela, e somente após o público ir embora a garota anunciou que não renovaria o contrato, surpreendendo toda a equipe. Enquanto o diretor se desesperava e os Ishibashis, especialmente Hikaru, lamentavam a decisão dela, Kyoko indicava Chiori para o papel. "Ela recentemente se aventurou no mundo da comédia e acredito que será um ótimo Bo!", disse sorrindo.
O diretor somente pôde concordar, pesaroso. Não estimara Kyoko como deveria, e agora a garota não sabia que o Bo dela havia se tornado a alma do programa, mas ao mesmo tempo tinha esperanças de que a indicação de Kyoko lhe traria outra grata surpresa em forma de Bo.
Ao final do show, os irmãos Ishibashi, como de costume, foram convidar Kyoko para fazerem algo divertido na cidade. Usaram o argumento de que seria a despedida dela, sem saberem que nem precisariam: Kyoko estava mesmo buscando alguma distração, algo que a relaxasse e finalmente tirasse da sua cabeça o encontro com Ren, adiado para a noite seguinte. Além do mais, Kyoko estava decidida a viver, e isso incluía ter experiências típicas a pessoas de sua idade, como sair à noite com os amigos.
Kyoko nem precisou avisar os senhorios no Darumaya de que chegaria tarde, pois não havia avisado o casal sobre o cancelamento do compromisso que ela teria para aquela noite, com Ren. Então, foi-se tranquila com os irmãos Ishibashi para o restaurante/bar que os jovens diziam frequentar e ser muito popular entre celebridades, por ser próximo do estúdio e ter um salão reservado a clientes famosos.
Telepaticamente, Shinichi e Yuusei combinavam de ficar por pouco tempo, enquanto Kyoko baixava a guarda; depois, sairiam discretamente, alegando que iriam ao banheiro, e não voltariam mais. Avisariam Hikaru e Kyoko da partida por celular, justificando que um dos dois estava passando mal e o outro servira de acompanhante. Com sorte, o tímido Hikaru aproveitaria a oportunidade para finalmente se declarar.
A noite transcorria normalmente, com os quatro se divertindo e Kyoko se perguntando por que demorara tanto tempo para aceitar aquele tipo de convite. Tudo ao seu redor era deveras interessante. Aquele ambiente não era estranho para ela, mas ela era cliente, e não funcionária. Não estava trabalhando nem na cozinha, nem como garçonete. Aproveitava a situação para fazer o que Kuu sugerira e observava tudo e todos, tentando adivinhar quem eram, o que faziam e do que gostavam. Brincava e ria com os rapazes, e também se divertia criando histórias de vida e cenários para aqueles desconhecidos que a rodeavam.
Lembrou-se, em algum momento, de que estava emancipada. Não tinha certeza se isso a autorizava a consumir bebida alcoólica, mas resolveu tentar a sorte. A verdade é que Kyoko não era novata no consumo de álcool, tendo crescido em um ryoukan: vários pratos que cozinhava levavam álcool, e ela experimentava todos. Conseguia, inclusive, preparar drinks combinando várias bebidas diferentes, e para chegar a este nível ela precisou experimenta-las muitas vezes.
Então, para espanto dos amigos, ela estendeu um copo vazio ao garçom quando este trouxe a garrafa de saquê, ao que foi prontamente servida. Afinal, como aquele restaurante estava acostumado a servir celebridades, também estava acostumado a não perguntar a idade dos clientes por conta das peculiaridades do mundo do show business. Mais espantados ainda os jovens ficaram quando Kyoko entornou a bebida de um gole só, e sem fazer careta, estendendo novamente o copo ao garçom, que acabava de servir o último dos três irmãos.
Após uma hora assim, divertindo-se e bebendo, Kyoko exibia uma expressão completamente nova no rosto. Se estivesse em melhores condições de continuar observando os presentes, teria percebido os olhares fascinados dos homens presentes. Shinichi e Yuusei esqueceram por um momento que o plano era deixar o casal a sós e se espantavam por Hikaru ter notado aquela joia escondida, sem saber que o próprio Hikaru estava surpreso por Kyoko ser tão cativante quando baixava a guarda.
Não resistiram e pediram para tirar fotos com ela, afinal, aquela era uma visão digna de ser preservada. Após algumas fotos em grupo, Hikaru pediu uma selfie só com ela. Sem fazer caso do pedido, Kyoko apenas aproximou o rosto de Hikaru, sentado à sua direita, e sorriu para a câmera do celular do rapaz, que bateu a foto. Os outros irmãos também tiraram fotos dos dois fazendo a selfie, e Yuseei capturou o momento exato em que, após a selfie, Hikaru olhou para Kyoko e agradeceu, e a garota apenas alargou o sorriso. A foto em si parecia saída de um catálogo, com os dois sentados lado a lado, os rostos ainda muito próximos, olhos nos olhos, Hikaru visivelmente apaixonado e Kyoko lindíssima, com um amplo sorriso, o rosto charmosamente ruborizado e os olhos brilhando.
Imediatamente os irmãos postaram as fotos, com as legendas "despedida de Bo" e "sentiremos sua falta, Kyoko! ".
No momento presente, um certo ator descobria, pelas tags de Shinichi e Yuusei, o segredo que Kyoko guardara dele com tanto afinco. Não sabia o que o deixava mais furioso: se o fato dela ter desmarcado o encontro deles para estar, naquele exato momento, fazendo aquela expressão para outro homem, ou se pelo fato dela ser Bo e ter escondido isso dele durante tanto tempo. Sem conseguir raciocinar, apenas sentir, dirigiu-se ao famoso restaurante, que ele tão facilmente identificara pelo fundo das fotos postadas.
