CAPÍTULO 11 – EXPLICAÇÕES

Alguns minutos antes...

Enquanto Ren descobria as fotos comprometedoras, Hikaru lia para Kyoko a mensagem informando que Shinichi passara mal no banheiro e Yuusei o levara para casa. Por mais que Hikaru fosse um tanto ingênuo, imediatamente compreendeu a chance que os irmãos estavam lhe dando. E após algumas doses de saquê, ele se sentia mais do que pronto para se confessar a Kyoko.

Na teoria.

"Que pena! Será que é grave? ", especulava Kyoko, e quando olhou para o amigo reparou que ele estava muito corado e parecia se retorcer. "Hikaru-san, você está bem? Não me diga que também está passando mal! ", preocupou-se.

"Ah... não, Kyoko-chan, veja bem... há algo que eu quero lhe contar, mas está muito difícil... ". E percebendo que conforme o tempo passava, mais nervoso ele ficava, Kyoko deu-lhe a ideia, com a melhor das intenções. "Ajudaria se estivéssemos em um lugar mais reservado? ".

E foi assim que os dois foram parar em uma das salas de reunião do restaurante. Como Kyoko nunca havia recebido uma confissão na vida, nem mesmo atuara uma, jamais imaginou que Hikaru simplesmente dispararia "por favor, saia comigo!" na direção dela, tão logo a porta se fechou atrás deles.

"Desculpe, o quê?"

"Saia comigo!"

"Hum... por quê?". Os neurônios de Kyoko não estavam conversando entre si, apesar dela estar rapidamente recobrando a sobriedade.

Hikaru começava a perder a pouca coragem que reunira ao ver-se sozinho com ela. "Por que eu gosto de você? ". Não era para ser uma pergunta, mas àquela altura o rapaz já não sabia o que precisava dizer para fazer Kyoko compreender. Nada com ela parecia ser normal. "E se no planeta dela as confissões forem diferentes? ", perguntou-se.

Não eram. Às palavras de Hikaru, Kyoko lembrou-se das palavras da doutora: "há amor à sua volta! ". "Lamento, Hikaru-san, mas eu amo outra pessoa", uma Kyoko muito assombrada murmurou, antes de se dar conta do que estava fazendo.

Quando deu, já estava chorando. Hikaru se viu na bizarra situação de ser rejeitado, mas ter que consolar a outra pessoa. Desajeitadamente, levou Kyoko até um banco, sentou-se com ela e deu tapinhas consoladores em suas costas, repetindo "pronto, pronto, tudo vai ficar bem". Alguns minutos assim, e Kyoko estava suficientemente recuperada para enxugar as lágrimas e agradecer toda a gentileza de Hikaru com uma bela reverência. Ele estava comentando sobre chamar um taxi para leva-los para casa e abrindo a porta quando Kyoko reergueu o corpo, vindo a dar de cara com Ren.

Momento atual

Três pessoas, três impressões. Hikaru notou de imediato a reação de Kyoko ao homem parado diante da porta, e não foi difícil, após ouvir a garota mencionar estar apaixonada, concluir que ela estava se referindo a Ren. Kyoko notou o que somente ela perceberia: uma falha enorme na postura elegante e semblante pacífico de Ren prenunciava uma tempestade. Ren notou que, apesar de terem ficado sozinhos, nada nos dois lhe dizia que estivessem engajados em atos românticos. Respirou aliviado. Até perceber os olhos inchados de Kyoko. "Ele a fez chorar!", Kuon bradava indignado.

A garota percebeu imediatamente que o rei demônio estava para fazer sua ilustre aparição, significando que ou ela, ou Hikaru, ou ambos estariam em apuros, e pensava freneticamente como dissolver aquela tensão, quando inesperadamente Hikaru intervém e surpreende a todos.

"Tsuruga-kun, que bom vê-lo! Eu estava mesmo me perguntando sobre como não deixar Kyoko-chan sozinha, quando você apareceu! Kyoko-chan, deixo você em boas mãos. Tsuruga-kun, boa noite!".

E com isso, Hikaru praticamente puxou Ren, estupefato, para dentro da sala e passou pela porta, fechando os dois lá dentro. Foi embora satisfeito por ao menos ter se declarado e tentando se lembrar onde havia lido a respeito de passar boas ações adiante. "Meus irmãos me ajudaram, agora ajudo você. Ganbatte, Kyoko-chan! ".

Ren não entendia muito do que estava acontecendo, e Kyoko não estava em situação melhor, mas pelo menos ele conseguiu concluir que, se fossem um casal, Hikaru jamais iria embora tão casualmente, deixando Kyoko com ele.

"O que você está fazendo aqui? ", perguntaram simultaneamente. Os dois ficaram em silêncio, esperando que o outro respondesse primeiro. Na verdade, avaliavam-se. Ren não entendia como Kyoko poderia ter deixado de ser o livro aberto que era poucos dias antes, e Kyoko havia descartado tudo que ela julgava conhecer sobre ele.

Talvez por ser uma estratégia conhecida (e eficaz), Ren optou pela postura usual de senpai preocupado, apostando obter, com isso, uma resposta também usual de Kyoko. Ledo engano.

"Mogami-san, você realmente não presta atenção aos seus arredores! Você saiu com colegas de trabalho e baixou sua guarda porque os conhecia, mas uma jovem nunca deve ficar sozinha com um homem, porque ele pode deixar a situação leva-lo a tomar liberdades que a jovem não espera! E se tal acontecimento cair nas mãos de uma pessoa inescrupulosa, logo seu nome estará nos tabloides e sua imagem ficará manchada! ".

Conforme Ren falava, Kyoko apenas ouvia com a cabeça baixa, sem sequer se dar conta de que ele havia acabado de revelar saber que ela era Bo, o que o deixou mais inflamado. Começou a andar de um lado para o outro, como leão enjaulado.

"Já seria de se esperar que você fosse mais cuidadosa, após o que aconteceu com aquele vocalista, aquele moleque arrogante e até mesmo Kijima, e eu entendo que Hikaru-san é o mais inofensivo dos quatro, mas mesmo o mais inofensivo dos predadores ainda é um predador! ".

"E o que isso faz de você, Tsuruga-san? ", perguntou com a voz fria, surpreendendo Ren. Levantou a cabeça e olhou-o nos olhos, gesto que nunca fazia quando ele a repreendia. Se Kyoko rebatesse com um comentário coquete, como fizera na festa de encerramento de Dark Moon, ele poderia novamente desestrutura-la com um comentário sensual; se ela fosse simplesmente rude, como quando ingressou na LME, ele poderia provoca-la com um sorriso falso. Mas frieza era uma atitude completamente nova.

Kyoko, por sua vez, estava cansada daquela montanha-russa emocional. De ter gasto tantas horas tentando planejar aquele exato momento, para agora ver tudo ocorrer à base do improviso. "Que seja, então! ". Olhando-o, sentiu sua irritação crescer pela diferença de estatura. "Por que ele tinha que ser tão alto? ". Ela queria não se sentir tão pequena, especialmente enquanto estivesse sentindo tanta coisa ao mesmo tempo. Decidiu, portanto, ficar do tamanho dos seus sentimentos: pegou o mesmo banco no qual Hikaru a sentara apenas momentos antes, subiu nele, olhou irritada para Ren, abriu a boca e deixou fluir.