CAPÍTULO 12 – CONFRONTOS (PARTE 3)

"Você é a pessoa mais confusa, desesperadora e irritante que eu conheço! Sabe quantas noites de sono eu perdi por sua causa? Como você se atreve a me dizer que eu sou leviana perto de homens, quando você é a maior ameaça de todas! Você ocupou o meu cérebro como se fosse uma... uma... ". Gesticulava comicamente, tentando encontrar as palavras que mais se adequavam. "Uma larva alienígena devoradora de mentes! Uma larva alienígena gigante que veste R'Mandy! ".

Se Ren não estivesse tão atônito pelo fato de que Kyoko estava gritando com ele de cima de um banco, o que deixava os dois na mesma altura, teria rido.

"Você me levou para o seu apartamento milhões de vezes! Você beijou meu rosto como se fosse a coisa mais normal do mundo! Você disse que jamais agiria assim se fosse com qualquer pessoa japonesa, e faz exatamente isso! Por que diabos você deu a Morizumi-san um anel no Dia Branco? Você me faz pensar que sou... alguém para você, mas eu fui a única que você deixou de retribuir! Sabe como eu me senti em relação a isso? Como uma kouhai presunçosa! Isso mesmo! Com você eu estou sempre oscilando entre me sentir especial e um ser humano horrível! Eu não quero pensar que você seja um homem frívolo e cruel, além de um playboy e um mentiroso, mas se você conhece minhas fraquezas, porque não age com o mínimo de cuidado para que eu não entenda tudo errado? ". Neste ponto, Kyoko já estava aos prantos, e Ren não sabia se começava a responder ou se a consolava.

"Sabe como é difícil para mim cogitar coisas ruins sobre você? E como isso faz com que eu pense coisas ruins sobre mim mesma? Sabe quantas vezes eu me senti inadequada só por pensar em você?".

"Pensar em mim? Ela pensa em mim? ".

"Se a lição que você quer que eu aprenda seja sobre meu lugar neste mundo, não precisa mais se dar ao trabalho, Tsuruga-san, porque eu me sinto irrelevante o tempo todo! Entendeu? Eu não preciso de outra pessoa na minha vida me fazendo sentir insignificante, Tsuruga-san! Muito menos de alguém que me faça sentir especial em um momento, para me esquecer logo em seguida! E se é isso o que você quer de mim, diga de uma vez para que eu possa evita-lo, porque pela primeira vez na vida eu quero proteger a mim mesma! Eu cansei de sentimentos confusos, cansei de comportamentos contraditórios e cansei de sempre me apaixonar por um maldito personagem! ".

"O quê? ". O estarrecimento de Ren só aumentava. Kyoko dizia muitas coisas, coisas que ele precisava rever com calma e abordar uma a uma. Ele não fazia ideia de que seus desgovernados sentimentos haviam confundido tanto a garota, a ponto de deixa-la aquela pilha de nervos. Mas uma coisa estava clara: a fagulha de esperança que ele sempre relutou em sentir, por medo de se decepcionar, agora eram labaredas.

Ren sabia que não poderia provocar tal reação em Kyoko se fosse um mero senpai... ou poderia? E ele escutara muito claramente Kyoko dizer estar apaixonada... ou alucinara? Ren era exatamente o "cão faminto que se recusa a comer mesmo após a sineta ser tocada" que Lory descrevera, e fora mais o impulso de seus próprios sentimentos do que a convicção do amor de Kyoko que o fez dar um passo à frente e envolve-la em seus braços.

Enquanto Kyoko chorava com ainda mais força, pensando sobre como pudera distorcer tanto a realidade a ponto de não perceber que aquele abraço e aquele cheiro não poderiam coexistir em duas pessoas diferentes, Ren tentava consola-la o suficiente para conseguir esclarecer os questionamentos que ela fizera.

"Shhhh... Você não é inadequada, Mogami-san. Você é perfeita! ".

Kyoko, por outro lado, ainda não havia terminado, e estar nos braços de Ren/Corn só reavivava sua melancolia.

"Você sempre foi um personagem comigo? Ou alguma vez você foi sincero? Eu não sei quem você é! Agora você é o Corn? "

"Merda!"

"Isso faz com que eu me sinta um pouco traída, sabe? Eu nunca atuei com você fora de um papel predeterminado. Mesmo não sabendo ao certo quem eu sou, eu sempre lhe mostrei o meu eu. O pouco que eu tinha de mim mesma, eu compartilhei com você. E agora eu não sei nem como chama-lo!". Chorava copiosamente, agora, agarrando-se à frente da camisa de Ren a ponto de machuca-lo.

Por ele, tudo bem. Qualquer dor era bem-vinda, pois Ren nunca sentira tanta vontade de se agredir quanto naquele momento. Tentava elaborar uma única frase coerente para consola-la, para se explicar, para pedir perdão; para dar vazão ao seu amor e ao seu arrependimento, e ainda por cima controlar a euforia que sentia desde que a ouvira insinuar que o amava. No atropelo dos seus próprios sentimentos, junto à necessidade dela de desabafar tudo, Ren simplesmente não conseguia interrompe-la.

"Por que diabos você inventou que Corn deveria me amar e me beijar? Você pensou muito, antes de simular aqueles truques de mágica, ou foi tudo improvisação? E que coisa estúpida foi aquela de pular da sacada? Você podia ter morrido! Ah, como eu queria odiar você! Seria tão mais fácil! Mas como eu poderia odiar Corn ou Tsuruga-san, se vocês me ajudaram a ser quem eu sou? ".

Antes que Ren pudesse evitar, Kyoko se desvencilha dele e se afasta.

"É tão injusto que você seja logo os dois! Eu lhe disse em Guam, não disse? Corn fez de mim a pessoa resistente que sou hoje". Ao sinal positivo de Ren, Kyoko prosseguiu. "Bom, Tsuruga-san me ajudou a descobrir minha paixão pela atuação. Eu tentei decidir qual dos dois impactou mais a minha vida, mas percebi que era impossível! Os dois colocaram marcas permanentes em mim, então, como você acha que eu fico se Corn é uma mentira e eu nem sei se Tsuruga-san é real? ".

"Mogami-san, por favor, deixe-me explicar!".

"Então explique! Eu não disse que queria ouvir os seus problemas? Se existe uma explicação para tudo isso, eu quero saber! Eu quero saber quem você é!".

E foi aí que Ren congelou de vez. Havia muitas coisas que ele queria e precisava revelar a ela, como seus sentimentos, seu passado violento e a morte de Rick, mas não estava pronto ainda. Kuon não era um assunto superado, pelo contrário, estava apenas escondido dentro de si. Como um esqueleto no armário, mais cedo ou mais tarde seria descoberto, mas como revelar à mulher que ama que seu lado sombrio estava apenas dormente, sempre prestes a acordar e a assusta-la, como tantas vezes acontecera durante a gravação de "Tragic Mark"?

Não se sentia nem merecedor, nem apto. Kyoko estava lhe dizendo muito claramente que ela queria, precisava saber quem ele era, e que estava profundamente magoada pelas ações dele. Como poderia ele, ainda incapaz de abrir mão de Ren e de domar Kuon, revelar-se para ela? Como ousaria ele mentir para ela mais uma vez, quando ela estava tão generosamente se dispondo a ouvir suas explicações? "Seria eu tão generoso, se estivéssemos em posições trocadas?". Riu consigo mesmo. Não estava ele, há poucos minutos, furioso por ela ter escondido ser Bo? "Uma mentira tão ínfima, se comparada às minhas..."

Kyoko, por sua vez, observava as expressões cruas no rosto de Ren. A angústia era óbvia, e a garota lamentou o que parecia ser um terrível dano emocional. "Parece que o maldito Beagle tinha razão, afinal. Parece que os meus problemas são simples se comparados aos de Tsuruga-san", lembrou Kyoko. "Está tudo bem, Tsuruga-san. Não precisa me contar".

À súplica desesperada de Ren, que interpretava a situação como Kyoko desistindo dele, a garota esclareceu que era evidente que ele não estava preparado para falar, e era provável que ela não estivesse pronta para ouvir. "Não quero ouvir algo tão importante quando é tão claro que você se sacrifica para contar. E não quero desperdiçar seu sacrifício com meu estado mental atual. Quando eu ouvir você, de verdade, serei eu, de verdade. Até esse dia chegar... estarei aguardando ansiosamente! ". Ren reconheceu, de imediato, as mesmas palavras que Kyoko usara para encoraja-lo a encontrar seu Katsuki.

Ren também compreendeu, com a mesma rapidez, que Kyoko estava pondo em xeque os sentimentos que nutria por ele. Ela precisava saber quem ele era, realmente, porque se ela estivesse apaixonada apenas pelos traços fictícios dos personagens 'Ren' e 'Corn', e desconhecesse todas as demais características que ele tão arduamente tentava esconder, tal amor estaria fadado à desilusão.

Para Kyoko, era impossível odiar Ren. Ela poderia estar frustrada, magoada e até decepcionada, mas seu nível de maturidade não a permitiria mais esbravejar e jurar vingança como fizera com Sho. Percebera, com as revelações de sua mãe, que julgar era fácil quando não se conhecia a história por trás do ato nem se consideravam as limitações individuais. Não valeria a pena, se ela permitisse a ele 'enfrentar e vencer o monstro', como quando comeram juntos o arroz mazui, e provar a ela que agira imbuído das melhores intenções? Não estava ela disposta a perdoa-lo de todo o coração e a deixar o amor que sentia por ele florescer, caso ele fosse real e não um personagem?

Até o dia decisivo chegar, Ren receberia o benefício da dúvida. Mas até lá, os dois percorreriam um longo caminho, e algo dizia a Ren que percorreriam separados. Tinha um mau presságio quanto a isso.

"Eu posso ao menos leva-la em casa? Por favor? ".

"Como se eu conseguisse dizer não, quando você faz essa expressão", ela pensou.

O percurso foi silencioso e melancólico. Muitos minutos após a garota ter entrado no Darumaya, Ren ainda chorava agarrado ao volante, recordando as últimas palavras de Kyoko.

"Sayonara, Tsuruga-san!".

N/A – Mais uma vez, obrigada pelos reviews! Este capítulo foi o mais difícil de todos, mas finalmente saiu! Só mais um capítulo pequeno para esta fic terminar, e já começarei a sequência "CURANDO REN". Beijos!