CAPÍTULO 13 – OKAMI E TAISHO

Na manhã seguinte, Yashiro precisou adiar todos os compromissos de Ren. O agente não iria arriscar colocá-lo diante das câmeras enquanto estivesse com aquele aspecto, como se toda a felicidade tivesse sido sugada de dentro dele. Levou-o, ao invés, ao escritório de Lory, e lá o deixou para que os dois pudessem conversar.

"Você simplesmente a deixou partir?"

"Eu não poderia perguntar o mesmo a você?"

Os dois suspiraram, resignados e pesarosos, até Ruto, de todas as pessoas, intervir. "Ela vai voltar. É apenas uma ovelha desgarrada".

Padrinho e afilhado olhavam o assistente com assombro. "Como você pode ter certeza? Por que afirma isso?", Ren quis logo saber. Lory, por outro lado, apenas observou Ruto por alguns segundos, antes de abrir um largo sorriso, esfregar uma mão na outra e dizer "Bom, isso resolve tudo, então!".

Como Ruto permanecia sem dar explicações e Lory parecia excepcionalmente feliz e satisfeito, Ren olhava de um para outro tentando decifrar qual mensagem haviam transmitido de um para o outro, e ele falhara em captar. "Não se preocupe, rapaz! Se Ruto garante, tudo ficará bem!".

Aquele otimismo de Lory era irritante, mas por outro lado acendia em Ren a esperança de que Kyoko voltaria para casa. "Até lá, tenho uma promessa a cumprir...".

"Boss, tenho um pedido a fazer. É sobre Hamada-san!"

Enquanto isso, no Darumaya...

"Okami-san, se você precisasse encontrar uma resposta muito importante, mas estivesse confusa demais, o que você faria?".

Era mais inusitado que Kyoko estivesse pedindo conselhos a ela, do que o teor do conselho em si. O casal do Darumaya acompanhava com expectativa o quadro geral da garota, que parecia sofrer um abalo atrás do outro desde que sua mãe dissera aqueles absurdos na televisão. A resposta, contudo, foi Taisho quem deu, para surpresa das duas.

"Yamadera"

"Hum?"

"Kyoko-chan, Yamadera é um santuário... querido, você tem certeza?". Como Taisho sinalizou 'sim', Okami sorriu emocionada. E prosseguiu com a explicação.

"Kyoko-chan, Yamadera é o apelido que os habitantes do nosso vilarejo de origem deram ao templo Risshaku-ji, na prefeitura de Yamagata. Foi lá que Taisho e eu nos conhecemos!"

Os olhos da garota brilhavam de expectativa por finalmente aprender um pouco da história do casal, fazendo até mesmo Taisho se sentar com elas para acompanhar a narrativa.

"Nossas famílias eram velhas conhecidas e algumas gerações se entrelaçavam. Por isso não foi estanho que eu fosse prometida ao primo do Taisho logo que nasci".

"Eh? Ao primo dele?"

"Sim, Akio-san. Nós três crescemos inseparáveis! Akio era muito extrovertido e revigorante, por isso as pessoas o amavam! Taisho, por outro lado, sempre foi muito sério e introvertido".

Neste ponto, Okami interrompe o relato. Toma dois longos goles de chá, plenamente absorta em recordações.

"Foi um escândalo quando Taisho e eu fugimos juntos aos dezesseis anos", continuou ela.

"O que?". A voz de Kyoko saiu esganiçada. Por que essa história me parece familiar?

"Sim, Kyoko-chan! Quando eu me confessei a Taisho, a resposta dele foi pegar minha mão e começar a andar. Andamos até o dia escurecer, pegamos um ônibus, depois outro, depois um trem. E Taisho não largou minha mão um único instante. Quando dei por mim, já estávamos em Tóquio, na porta deste restaurante. Taisho nos trouxe para cá, pois era onde vivia o padrinho dele. Longe o suficiente de nossas famílias. Yudi-san nos acolheu e ensinou o ofício, e quando faleceu nos deixou tudo que tinha. Era um homem muito bom, e também muito só".

Como as mulheres precisavam de um tempo para se recomporem, Taisho adicionou seu próprio ponto de vista.

"Yudi-san me dizia todos os dias que eu havia feito o que ele não tivera coragem de fazer. Ele vivia em Yamadera até se apaixonar por uma mulher prometida a outro, mas partira sozinho no dia do casamento dela".

"Que coisa mais triste! Yudi-san, pobrezinho!".

"Sim, Kyoko-chan, muito triste. Mas da união de Akemi-san com outro homem nasceram quatro crianças saudáveis, que já cresceram e se tornaram os orgulhos do nosso vilarejo. Se não fosse por eles e a revitalização que fizeram no santuário, muitas das nossas tradições já teriam se perdido. E da solidão de Yudi-san nasceu a possibilidade para que Taisho e eu tivéssemos uma chance. Sem ele aqui, o que seria de nós? E o que seria de você, Kyoko-chan? ".

"Sim, o que seria de mim? Talvez tivesse voltado para a segurança de Kyoto, onde nunca teria conhecido Tsuruga-san, Moko-san, Maria-chan, Takarada-san... nunca teria descoberto a atuação, nem retomado contato com minha mãe".

Enquanto a garota refletia sobre as palavras de Okami, Taisho acrescentava sua dose de sabedoria.

"Não sabemos onde nossas ações nos levarão, nem quantas vidas serão afetadas por cada decisão que tomamos. Mas depende de nós se vamos encarar os eventos como maldição ou bênção. O mesmo fim lamentado pode ser também um início celebrado".

Kyoko absorvia cada palavra que ouvia, e cada vez mais concluía que visitar Yamadera não seria uma má ideia, afinal.

"Nós ainda não somos bem-vindos lá. Entenda, nós desafiamos uma tradição importante, e aquele lugar vive de suas tradições. Aos olhos deles, fomos mesquinhos ao colocar nosso amor acima da sobrevivência de nossa cultura. E o fato de eu ter perdido o único filho que concebemos, nossa garotinha, e com ela qualquer possibilidade de engravidar novamente, disseram que estávamos recebendo nossa justa punição".

"Que crueldade!"

"Nossa atitude é contada para as crianças como exemplo de como não agir, e como kami-sama sempre pune os rebeldes. Mas Kyoko-chan, você apareceu!".

Como Okami-san desabava em lágrimas, Taisho explicava a garota a ligação que eles tinham.

"Kyoko, você apareceu em nossa porta se oferecendo para o emprego no exato dia em que descobrimos a gravidez. Você bateu em nossa porta pedindo guarida no mesmo dia em que perdemos nossa filha. E você nasceu no mesmo dia previsto para o nascimento dela. Anos podem separar os acontecimentos, mas seríamos tolos se não víssemos o sinal. Sempre perguntamos a kami-sama se ele realmente nos odiava e queria nos punir, até você aparecer".

Aturdida e emocionada, Kyoko se atirou sobre o casal. Eram pais sem uma filha, e ela uma filha sem pais. Procuravam-se desesperadamente, e perguntavam a kami-sama diariamente se seriam merecedores daquele sofrimento. Encontraram-se em uma cidade estranha para ambos, em um restaurante tradicional e familiar que resistia bravamente à evolução tecnológica de Tóquio, inaugurado por um homem solitário que apenas queria se ocupar enquanto remendava seu coração partido. Quais as probabilidades?

Os três choravam abraçados, Kyoko mais do que todos. A garota percebia que havia amor em toda parte, transbordava das lágrimas que vertiam, das paredes do Darumaya, dos corredores da LME; havia amor nas alegrias e nas tristezas que reuniram aquela pequena família.

Kyoko percebeu que era feita de amor e estava rodeada dele. "Sim, visitar Yamadera não é uma ideia nada má!", decidiu-se.

N/A – Opa, haverá um epílogo! Como sempre, grata pelos reviews! Não temam, tudo ficará esclarecido! Beijos...