A manhã estava calma, até o momento em que um homem pegou o seu sino de cobre e começou a balançá-lo com agilidade.
— Larápios! — ele começou a gritar — Larápios!
As pessoas que passavam pela via principal observavam o vendedor sem entender a sua reação. Tudo parecia normal, exceto por esse detalhe, mas logo algumas mesas foram derrubadas com brutalidade, e um grupo de garotos encapuzados correu pela via lateral, sendo seguidos rapidamente por guardas.
— Larápios! — os gritos do vendedor denunciante ainda soavam, mesmo sem necessidade.
Os responsáveis pelo portão, aparentemente, estavam distraídos demais. Essa distração foi suficiente para que o grupo de quatro garotos corresse em direção ao bosque, sendo perdidos de vista pelos seus perseguidores.
Pararam de correr somente alguns metros distantes do forte. Assim que recuperaram o fôlego, entreolharam-se, antes de começar a gargalhar com vontade.
— Essa foi por pouco! — disse o mais alto deles, abrindo a sacola de couro.
Qualquer furto que ocorresse seria suposto que se tratasse de dinheiro ou joias, mas da pequena sacola apenas alguns grãos que não poderiam ser obtidos pela floresta, ao contrário das frutas, que eram o que eles mais consumiam.
— Quando será o próximo? — perguntou outro, tirando o capuz, os olhos azuis brilhando pela empolgação.
Enquanto ele e o garoto de cabelos arrepiados começaram a conversar, os outros dois mantiveram-se em silêncio.
— É sério isso? — reclamou um deles, sentando-se em um tronco de árvore — O que estamos fazendo não é certo, James!
— Dê um tempo, Remus! — o de cabelos arrepiados retrucou — Você não sente nem um pouco de adrenalina?
Ele olhou para o quarto integrante do grupo, que não tinha pronunciado-se ainda, respirando pesadamente, apoiado a uma árvore. Remus apenas voltou os olhos para os dois, erguendo uma sobrancelha.
— Está bem, se você quer que a gente morra de fome! — o de olhos azuis disse, mordazmente.
— Também não é para tanto, Sirius! — argumentou Remus.
— Da próxima vez vamos só nós dois, então — retrucou James, cansado da discussão — Você e Peter ficam aqui.
— O quê? — Peter pronunciou-se, ainda um pouco ofegante — Quero ir com vocês!
Sirius não pôde evitar lançar um olhar incrédulo para ele, mas resolveu ignorar.
Remus, no entanto, concentrou-se no outro amigo.
— O que é isso no seu bolso? — perguntou, desconfiado.
James recuou um passo, mas Sirius enfiou a mão no bolso de sua calça rapidamente, tirando uma caixinha de lá de dentro.
— Surtaste? — ele gritou, e alguns pássaros voaram, assustados.
— Eu peguei algo que já me pertence! — James argumentou, pegando a caixinha de volta — Eu não a roubei!
Eles ficaram em silêncio, enquanto o amigo empurrava o ferrinho circular para abrir a tampa, dando a visão de um lindo anel de ouro adornado com uma pérola branca. Simples, mas lindo.
— Isso pertenceu à minha mãe — James disse, desnecessariamente.
Ele fechou a tampa, voltando a guardar a caixinha dentro de seu bolso.
— Vai pedi-la hoje? — perguntou Peter, interrompendo o silêncio incômodo.
— É uma boa ideia voltarmos? — Remus expressou sua preocupação — Quero dizer... Ninguém viu nossos rostos?
— Estávamos com capuzes! — argumentou Sirius — E ninguém deixou cair o seu.
— Eles não aumentariam a segurança? — ele insistiu.
Surpreendentemente, Peter resolveu posicionar-se:
— Acho que deveríamos ir hoje.
Todos os olhares foram para ele, que mudou o equilíbrio de uma perna para a outra, parecendo um pouco incômodo pela atenção muda exagerada. Sirius até mesmo mudou de posição, já que estava de costas para ele.
— Vamos só pensar um pouco — Peter limpou a garganta, tentando aparentar confiança — Só Lily sabe sobre o namoro de vocês, um namoro não permitido pelos pais dela. Eles podem, a qualquer momento, noivá-la com outro rapaz.
James só pareceu perceber o peso de sua decisão naquele momento, colocando a mão novamente no bolso, mas sem tirar a caixinha de lá de dentro.
— A não ser que você decida que é melhor deixá-la... — concluiu Peter, deixando a frase no ar.
— Eu amo a Lily — disse James, firme — E eu sei que ela me ama também.
— Então! — exclamou Sirius, dessa vez, olhando desafiador para Remus — Não podemos tirar isso deles!
O outro apenas suspirou, parecendo exausto de repente.
— Está bem, mas precisamos planejar isso direito — ele disse, sério.
— Primeiro, vamos fazer um brinde ao nosso futuro noivo! — Sirius empolgou-se.
— Sem mais furtos por hoje, por favor — pediu Remus, ainda sério.
— Temos moedas suficientes para comprar uma bebida, pelo menos — disse Peter.
Semana passada, ele tinha encontrado um saco de moedas perdido no meio da estrada de pedras. Depois de esperarem por algumas horas, para ver se alguém buscaria, decidiram ficar com ele, para emergências, já que era impossível encontrarem o dono. Se perguntassem pela vila, todos diriam ser os donos, por pura e simples cobiça. Pelo simples fato de surgirem, explicando que encontraram pela estrada, seria muito suspeito, ninguém que fosse considerado decente morava por entre as árvores da floresta, como eles faziam.
De qualquer forma, um Remus muito sábio argumentou que deveriam guardar o dinheiro para uma emergência. Comprar uma garrafa de bebida alcóolica não gastaria todo o conteúdo ali presente, e era uma necessidade de comemorar, o que eles não podiam fazer geralmente, pois não havia muito o que se comemorar.
— Eu vou até lá! — ofereceu-se Peter, antes que pudessem fazê-lo.
— Tem certeza? Não dará muito na vista? — perguntou Remus, preocupado.
— Não se preocupe! Eu vou sem o capuz! — ele tirou a capa, colocando-a em cima de um galho de árvore — Viu?
— Está bem, tome cuidado — James concordou, antes que Remus pudesse colocar outros obstáculos.
Peter contou o dinheiro e guardou a quantidade necessária para a compra dentro do bolso de sua calça, afastando-se rapidamente pela floresta.
— Você vai que horas? — perguntou Sirius, curioso.
Enquanto os três rapazes planejavam minuciosamente a sua saída noturna, Peter caminhava rapidamente, sem sinais de cansaço, ao contrário de mais cedo. Em contraste, parecia bem concentrado e mesmo empolgado com os seus próprios pensamentos.
Ao chegar de onde tinham vindo recentemente, não mostrou receio, mas uma familiaridade com o local, como se estivesse acostumado a caminhar livremente por aquelas ruelas.
Entrou em um bar mal encarado, que era onde os funcionários do palácio passavam o tempo livre. Aproximou-se da mesa, falou com o barista, comprando a garrafa e deslizou mais umas moedas pela mesa.
— Preciso falar com Severus Snape.
O homem olhou para as moedas, pôs as mãos no amontoado, puxando-o para si e seguiu para o interior do estabelecimento.
Um dos guardas do castelo aproximou-se de onde ele estava, trocando um olhar com o dono.
— O que faz aqui? — Snape perguntou, ligeiramente ríspido.
— Eles voltarão esta noite — informou Peter.
— Outro furto? — ele estranhou.
— Não. Ele virá falar com Lily — ergueu a garrafa de bebida, como se aquilo explicasse tudo.
Snape não modificou sua expressão, mas suas mãos cerraram-se em punhos.
Não disse qualquer coisa do que planejava fazer, Peter só esperava não sair prejudicado. Negociar com a guarda real não era um caminho pelo qual muitos se aventurassem.
Pegou o dinheiro da informação, escondendo-o das vistas de qualquer um de seus companheiros, e empreendeu um caminho de volta para a floresta.
— Como ele se atreve? — Snape permaneceu reclamando.
— Vamos nos livrar facilmente de Potter — Lucius, outro guarda, apoiou-o.
— Como?
Ele apenas ergueu um copo em sua direção.
— Temos todas as informações que necessitamos.
Quando a noite caiu, Lily despediu-se de Narcisa, a noiva de um dos guardas amigo de Snape, o homem que não parava de cortejá-la para o agrado de seus pais.
Eles não entendiam que seu coração pertencia a outro homem?
A família Potter era o mais próximo de amigos da realeza, mas com o sequestro de sua primogênita, a rainha enlouqueceu, acreditando que até mesmo seus amigos estiveram envolvidos, o que causou a desgraça da família, que foi obrigada a partir.
Lily pensou que nunca mais veria James outra vez, mas então ele a salvou daquele cavalo descontrolado na estrada, e eles não pararam mais de se ver.
Não importava-se em "trair" a família real, fugir para morar entre as árvores, só queria ficar junto dele.
Estava admirando a paisagem vista por sua janela, quando escutou um assobio que já era bem familiar a ela. Sorriu abertamente, foi até a porta do quarto e pôs uma cadeira por baixo da maçaneta, já que não havia modo de trancá-la.
Ao mesmo tempo, escutou a porta de entrada abriu-se e sua mãe lhe chamar. Devia ser Snape outra vez, decidiu ignorar, descendo pela janela do quarto, direto aos braços de James.
— Uma dama não deveria cair por aí — ele disse, ajudando-a a manter-se de pé.
— Um cavalheiro não deveria tirar uma dama de seu quarto — ela retrucou — Ele está lá dentro.
Não precisou explicar para que ele entendesse.
— Se prefere que eu seja breve... — James deu de ombros, tirando a caixinha de seu bolso.
Sirius e Remus vigiavam, escondidos pela mata.
— Olhem o que encontrei!
Eles viraram-se para calar a Peter, que quase denunciou sua posição.
— Desculpem-me — ele pediu, arrependido.
Sirius pegou um saco grande que estava nas mãos do amigo.
— O que é isso? — ele perguntou, abrindo-o.
Então, a porta da frente da casa de Lily foi aberta e não foi somente Severus Snape quem surgiu.
— Merda — disse Sirius, ao identificar o objeto dentro do saco.
Não teve tempo para pensar em outra reação, apenas correu para dentro da mata, sabendo que estava sendo seguido.
Conhecia o suficiente dos guardas do castelo para saber que não estavam interessados em fazer justiça exatamente. Ele não seria escutado, só podia fugir para salvar a si mesmo, esperava que os seus amigos tivessem tido a mesma ideia.
A um certo ponto, em uma encruzilhada na floresta, Sirius subiu em uma das árvores para despistar os perseguidores. Apesar de ter obtido sucesso, não reconhecia mais a área em que estava. Resolveu observar novamente o objeto, uma tiara reluzente.
O que estaria fazendo jogada próxima da casa de Lily?
Armação.
Decidiu tentar escapar, descendo da árvore a qual estava apoiado. Aqueles caminhos eram completamente desconhecidos para ele, mas embrenhou-se ainda mais na mata. Não tinha outra escolha.
— Os ladrões fugiram, majestade.
A rainha observou os rostos dos guardas, que demonstravam mais frustração do que seria a recomendada naquele tipo de situação.
Snape parecia furioso, fora de si, como se tivessem roubado algo dele próprio.
— Já é a segunda vez que este palácio demonstra não ter a segurança que pagamos para ter — o rei começou a dizer, mascarando seu abalo emocional em reclamações.
— O que mais houve esta noite, soldados? — a rainha interviu.
— A filha dos Evans foi sequestrada — disse Lucius, rapidamente.
— Há muito tempo viemos dizendo que o filho dos Potter tem trazido problemas para o forte, majestade — disse outro guarda, um pouco mais atrevido.
Susan resolveu deixar que o marido resolvesse os problemas, indo diretamente para o seu refúgio intocado: o quarto de Marlene.
Foi interrompida sentada em frente à janela, observando a paisagem.
— Está tudo bem, mãe?
Ela sorriu cansada para o filho mais novo.
— Está sim, Ian. Não se preocupe.
