Um silêncio dominou o quarto. Marlene sustentava em uma mão a frigideira, que era a sua arma de proteção, e em outra mão a tiara que tinha encontrado dentro do saco daquele desconhecido. Enquanto o rapaz olhava desesperado para ela, tendo pedido para ela não abrir o saco onde estava a joia.
— Responda-me! — Marlene ergueu a frigideira, sentindo-se mais nervosa — Você roubou isso?
— Não! Eu não roubei! — ele tentou erguer os seus braços, mas encontrou-os presos por... — O quê?
— Então vai me dizer que isso é seu? — ela debochou, aproximando-se da cadeira.
— E se for?
Sem saber o que responder, Marlene bateu em seu ombro com a frigideira.
— Ai! — ele reclamou, tentando encolher-se.
— Eu faço as perguntas aqui! — ela disse.
— Mas eu levantei uma pergunta pertinente! — reclamou o rapaz — Por que não poderia ser meu?
— Você é um homem.
— É da minha irmã.
— Você não levaria em um saco de couro, ainda mais correndo assim.
— Estava correndo de ladrões.
Marlene levantou as sobrancelhas, espantada com o raciocínio rápido dele.
— Não tinha ninguém atrás de você quando subiu aqui — ela retrucou.
— Que bom! Então eu os despistei — ele sorriu.
Irritada, ela voltou a bater em seu ombro com a frigideira.
— Ai!
Nymphador subiu pelas pernas dele até alcançar o ombro, deitando ali com serenidade. No entanto, isso impedia que Marlene voltasse a batê-lo, correndo o risco de machucar o camaleão.
— Tenho todo o tempo do mundo — disse Marlene, passando a unha pela borda da frigideira, notando que ele encolheu-se com o som agudo.
— Está bem, então. Já que seremos colegas de torre, prazer, meu nome é Sirius Black — ele retrucou.
— Qual é o seu problema?
Como ela podia irritar-se tão fácil com alguém? Arrependia-se de ter pensado que ele era belo.
— Atualmente, estou perdendo a circulação de meus pulsos e tornozelos, além de ter garantida uma boa dor de coluna — Sirius respondeu.
Ela olhou para Nymphador.
Por que sua mãe não tinha inventado uma forma de comunicação entre eles? Tipo conversa mental? Seria tão mais fácil!
O que um camaleão pensaria?
— Será bem mais demorado, eu posso te garantir — ela sentou-se no chão, já que a outra cadeira estava muito longe de seu alcance.
— Você não acha a curiosidade um problema grave? — ele perguntou, parecendo um pouco preocupado ao vê-la mexer na tiara.
— Na realidade, não.
Aproximou-se dele, fazendo com que ele se encolhesse temendo seus próximos passos, mas ela apenas desenrolou uma volta de seu cabelo, dando maior mobilidade para si. Então foi até uma das caixas mais próximas do centro do quarto, pegando um instrumento de metal curioso, que já tinha usado para amassar coisas.
— Não faça isso! — Sirius disse, perdendo a pose de despreocupado.
— Fazer o quê? — Marlene pôs a tiara ao lado.
— Armaram para mim. Colocaram esse saco em um lugar onde eu pudesse pegá-lo sem saber o que era e me deram um falso flagrante. Eu preciso devolver essa tiara intacta — ele disse sem parar para respirar.
Ela deixou a joia ali, voltando para perto dele.
— Onde pudesse pegar? Não tinha dito que a curiosidade era um problema? — não pôde evitar alfinetar.
— Experiência própria — ele respondeu, amargamente.
Aquilo era bem suspeito.
— Então você não veio aqui atrás da minha mãe? — perguntou Marlene.
— Prefiro mulheres mais jovens — Sirius retrucou.
Certo, não era nenhum guarda do reino querendo capturá-la por heresia ou tirar vantagem de Druella sequestrando a filha.
— Se armaram para cima de você, não pode devolver essa tiara. Eles vão mesmo querer que outros descubram da armação? — ela disse.
— Isso é problema meu.
— Eu vou contigo.
— O quê?
Nymphador levantou a cabeça parecendo surpreso, mas de certa forma animado. Supunha que aquele era um bom sinal. Finalmente um pouco de comunicação.
— Se você mora nessa torre tanto tempo quanto não corta o cabelo, então nós temos um problema — Sirius disse.
Apesar de odiá-lo comprido, estufou o peito, sentindo-se ofendida pela menção. Ela podia falar mal, não ele.
— Meu cabelo não está nessa conversa — disse Marlene.
— Seu cabelo está entre nós.
Sentia-se como se estivesse discutindo a relação inexistente.
— Esses são meus termos. Eu levo a tiara junto contigo — ela declarou.
— E o que você ganha com isso afinal? — ele retrucou.
— Eu saio dessa torre. Vejo como é o mundo lá fora. Tenho contato com outras pessoas. Agora o que você ganha ficando aqui pela eternidade?
— Comida de graça, um teto e uma garota para conversar.
Marlene precisou conter-se para não gargalhar. Naquele tipo de conversa precisava manter a seriedade para ser respeitada. Não sabia se estava tendo muito sucesso, tanto em ser respeitada quanto em manter a seriedade.
Nymphador levantou as patas, quase que como instigando-a a usar a frigideira de novo. Sirius arregalou os olhos ao notar, ao mesmo tempo que ela.
— Está bem — ele disse — Temos um acordo.
— Espere aí! — ela retrucou — O trato é eu ir contigo devolver a tiara e você me trazer de volta em segurança.
— A parte de segurança não é muito prometida. Vivemos em um mundo perigoso.
Marlene olhou pela janela, lembrando-se dos avisos de Druella, usando aquela mesma palavra: "perigoso". O dicionário dizia que era uma situação em que a pessoa se encontrava sob ameaça. Então ela deveria se sentir mais ameaçada? Pois só conseguia sentir-se cada vez mais curiosa e animada.
— Além do mais, eu te disse que estou sendo procurado — Sirius continuou.
— Eles não me atacariam, eu sou uma garota — ela revirou os olhos.
Nymphador ergueu as patas outra vez.
— E eu tenho uma frigideira — Marlene completou.
Talvez ele pudesse atestar o quão ameaçadora aquela frigideira poderia ser.
— Está bem — Sirius disse — Eu te levo, devolvemos a tiara e te trago de volta.
Apesar de ter dito em voz alta, ele soava inseguro, como se pensasse se aquele era um bom plano. Bem, de qualquer forma, ele teria que concordar. Era o único plano de sair dali que tinha. O mais fácil e rápido de se cumprir, pelo menos.
— Eu vou te soltar agora — disse Marlene, sem encontrar outra solução.
Não podia carregá-lo pelos cabelos durante todo o percurso, não é mesmo?
Aquela frase tinha soado bem estranha.
Começou a andar ao redor da cadeira, como se estivesse brincando de dança das cadeiras, puxando o seu cabelo até conseguir soltá-lo, ficando levemente tonta.
— Menina, eu imagino quanto do seu cabelo cai quando você escova — Sirius disse, começando a esfregar seus pulsos para fazer o sangue circular — Você usa que produto pra manter isso aí?
— Eu não uso nada! Ele é assim — ela respondeu, olhando-o estranhada pelo seu jeito de falar.
— Genética é uma coisa maravilhosa, né.
Lembrou-se de Druella e do quão pouco elas se pareciam. Exceto pela cor dos cabelos. Várias vezes já tinha pensado em perguntar sobre seu pai, mas era tão esquiva quando se tratava do passado de ambas. As conversas sempre acabavam da mesma forma, Druella agindo ríspida e Marlene sentindo-se culpada sem entender bem o porquê.
— Você tem mesmo uma irmã? — ela perguntou.
— Nhá — Sirius levantou-se, ainda apoiado à cadeira, parecendo não confiar muito em seus tornozelos naquele momento — Um irmão. Não o vejo há muito tempo. Na verdade, não vejo a minha família há muito tempo.
— Isso é terrível.
Ele olhou-a de cima a baixo, fazendo uma pergunta muda que ela não conseguiu entender. Nymphador olhou temeroso para a cadeira, que ficava bem afastada com a altura do rapaz. Mesmo assim, arriscou-se a pular para o encosto de madeira. Assim que alcançou, a cadeira pendeu para trás junto com o camaleão.
— Nymphador! — Marlene foi em sua direção.
Sirius caminhou em direção ao saco de couro.
— O camaleão tem um nome? — ele perguntou — E um nome bem ridículo?
Marlene pegou o mascote nas mãos, verificando se ele estava bem, antes de lançar um olhar ríspido para o outro.
— Claro que ele tem um nome. Você tem um nome, por que ele não teria? — retrucou.
— Fui comparado a um animal? — Sirius franziu o cenho.
— Considere como quiser.
Ela começou a caminhar até a janela da torre, olhando com expectativa para fora.
Seu plano tinha que funcionar... Precisava funcionar.
Ou seria obrigada a arrumar um jeito de arrombar a porta.
Parou a poucos centímetros de sua saída. Várias vezes perguntou-se se Druella poderia saber quando ela saísse pela janela. Bem, estava prestes a descobrir.
— Venha até aqui — Marlene disse, colocando Nymphador em um avental que tinha costurado em seu vestido, já que odiava o fato de não ter bolsos e colocar um na parte da frente dava melhor acesso a ela do que nas laterais.
— Você não vai me jogar daqui de cima, não é? — ele perguntou.
— Assassinato não está em meus planos.
Ela aproximou suas mãos da barreira invisível, quase que podendo senti-la.
— Coloque suas mãos aqui — disse.
Sirius, sem entender, imitou seu movimento.
Marlene revirou os olhos, apontando para o batente da janela.
— Tem certeza de que não vai me empurrar?
Nymphador pôs a cabeça para fora do avental, erguendo as patas.
— Está bem, eu já entendi! — Sirius disse, antes que ela pudesse falar mais alguma coisa.
Então, ele pôs as mãos no batente da janela sem dificuldades, como fez quando subiu até lá. Marlene, um pouco afobada demais, o seguiu, quase caindo para a frente, se Sirius não tivesse segurado-a.
— Oh! Calma! — ele riu — Não precisa ser tão apressada!
Marlene virou o rosto para o outro lado, percebendo o quão próximos estavam, e fez um barulho com a garganta, até que ele tirou suas mãos de sua cintura.
— Vamos de novo, então — ela disse, evitando olhá-lo.
Sirius passou uma de suas pernas para o outro lado da janela, olhando para baixo.
— É, escalar para cima é mais fácil do que para baixo — concluiu.
— Única forma de sair — disse Marlene, enrolando seu cabelo no estranho gancho apoiado do lado de fora da janela.
Só esperava que seus fios não enroscassem naquela coisa.
Sirius olhou para trás, na direção da porta lacrada, e levantou uma sobrancelha, como que questionando-a sobre isso.
— Se eu pudesse sair pela porta, eu não estaria me jogando da janela — ela retrucou.
Antes que ele continuasse a irritá-la, Marlene pôs seus pés no batente da janela, abaixando-se para não bater na extremidade superior. Suas mãos rodearam uma das extremidades do seu cabelo e ela respirou fundo.
— Não, espere! — Sirius tentou segurá-la, mas ela jogou-se.
Um grito ficou preso em sua garganta enquanto foi aproximando-se do chão. Fechou os olhos, encolhendo-se, perguntando-se se o cabelo ainda estava lá em cima. Uma hora, a queda parou e ela estava a centímetros do chão. Soltou-se, encostando seus pés na grama e olhou para cima.
— Pode soltar? — pediu.
Sirius fechou a boca, que estava aberta, desenrolando o seu cabelo do gancho facilmente. E então virou de costas, os seus pés apoiados nas pedras sobressalentes. Marlene observou temerosa todo o caminho que ele fez do alto da torre até lá embaixo.
— Ai, caramba, eu esqueci da tiara — ela pensou em voz alta, quando ele aproximou-se dela.
Sirius, então, revirou os olhos, mostrando o saco de couro que tinha enrolado no seu cinto.
— Eu fico com isso! — Marlene pegou o saco dele, colocando dentro do avental.
Nymphador pôs a cabeça para fora, reclamando por possivelmente ter sido esmagado pelo peso.
Virando as costas para ele, que voltava a revirar os olhos, ela começou a observar todo aquele ambiente que só conseguia observar pela janela. Sentou-se na grama, sentindo-a pinicar cada parte exposta de sua pele. Respirou fundo, sentindo aquela mistura de cheiros que jamais sentiria no seu quarto. Encostou o dedo nas pétalas de uma das flores, bem diferentes daquelas arrancadas e mortas que Druella a entregava quando pedia.
Nymphador escapou de seu avental, mas ela não prestou atenção, observando algumas formigas caminharem por meio das folhas caídas da árvore até perderem-se de vista.
— Isso vai demorar, né? — Sirius resmungou para o camaleão, que apenas mudou a cor de sua pele, camuflando-se com a grama.
Sem poder evitar, Marlene gargalhou, ao escutá-lo. E embora não pudesse ver, já que estava de costas para ele, Sirius sorriu com a visão, não parecendo realmente incomodado por perder o seu tempo ali.
Alice observou o amontoado de guardas gargalhando e conversando em tons altos. Todo aquele ambiente a enojava. Não tinha dúvidas de que ser obrigada a servi-los era a pior parte de seu trabalho no palácio. Se pelo menos fosse do grupo de serviçais que ficava apenas na cozinha, estaria bem satisfeita por sua colocação.
— A bonitinha voltou!
Ela seguiu caminhando por entre as mesas carregando as travessas, ignorando os assédios. Estava quase alcançando as portas que davam para as cozinhas quando fui surpreendida com um tapa em seu traseiro, que a fez derrubar e quebrar a travessa vidro logo em cima da pilha. Mordeu o interior da bochecha para não chorar, sabendo que denunciariam o seu acidente e ela pagaria por isso.
Abaixou-se para tentar pegar os cacos e reunir junto com o resto quando uma mão fez isso por ela. Ergueu-se ao mesmo tempo que o príncipe Ian, que encarava com seriedade um dos guardas atrás dela. Ele pôs os cacos em uma das travessas do topo, antes de contorná-la para seguir seu caminho.
— Senhor Lestrange, estou certo?
Os guardas pareceram silenciar-se todos de uma vez. De cabeça abaixada, Alice empurrou a porta entreaberta com o ombro. Deixou as travessas na pia com tanta falta de cuidado que não sabia como não tinha causado maiores prejuízos materiais.
— Por que estão comemorando? — Emmeline perguntou, desgostosa.
— Eles sempre são uns panacas — Dorcas respondeu, ainda concentrada em sua tarefa de tingir algumas roupas, mexendo com uma colher de pau no enorme balde cheio de água, no qual nada se podia ver — Parece que entrou um novo na equipe.
— Ótimo, mais um idiota — resmungou Alice, sem poder evitar.
Emmeline pegou a cesta de roupas que estava ao chão. Já devia estar na lavanderia, mas aproveitou a falta de vigilância de Augusta para conversar com elas.
— Por isso que eu prefiro mulheres — ela disse, dando uma piscadela para Dorcas.
Ela saiu da cozinha ao mesmo tempo que a mãe de Frank apareceu. Alice olhou para o lado, notando que Dorcas sorria com o rosto corado. A água estava tão quente assim?
— Eu acho que podemos ajeitar isso — Augusta pegou um dos maiores cacos de vidro — Se derreter os pedaços e montar uma nova travessa... Vou mandar isso para Frank.
Ela pegou um pano para enrolar os cacos e não ferir-se.
— Já volto — ela disse, dando uma olhada rígida para Dorcas, que ainda parecia estar lutando contra a vontade de rir de uma piada que Alice não compreendia — Amanhã é dia das mercadorias chegarem. Esvazie os armários.
— Jogar tudo fora? — Alice surpreendeu-se.
— Não o que está bom! De onde acha que tiramos as nossas refeições?
Augusta voltou a apontar para os armários antes de sair. Alice olhou para todos aqueles armários e suspirou, pensando no trabalho que teria.
— Cuidado com o rato — disse Dorcas.
Alice estremeceu, lançando um olhar irritado para ela. Pegou um pedaço de pano que mantinha sempre contigo e abriu a primeira porta, indo para trás rapidamente por precaução.
— Alice, cuidado com o rato! — Dorcas repetiu, dessa vez com mais intensidade.
Então ela soltou um grito, ao olhar para a mesma direção que a outra, e subiu em cima da primeira cadeira que viu, não muito dignamente. E o fato da porta ter se aberto em seguida não ajudou em nada para a construção da sua dignidade.
Ian apenas deu um pulo para o lado, quando o rato correu desesperadamente para o lado de fora. Bem, se soubesse que era só deixar o bicho sair, ela mesma teria o feito. Desceu da cadeira, fingindo naturalidade, enquanto Dorcas engasgava-se às suas costas.
— Em que posso ajudar, Vossa Alteza? — perguntou Alice em um fiapo de voz, tentando soar naturalmente.
O queixo dele estremeceu, mas ele conteve a inconfundível gargalhada, antes de responder:
— Você está bem?
Dorcas deixou o vestido cair de suas mãos direto para o balde quando distraiu-se observando-os.
— Perfeitamente. O senhor? — Alice respondeu rapidamente, querendo acabar com aquela conversa.
— Digo o mesmo.
Ian olhou ao redor, antes de voltar a falar:
— Devo retornar ao castelo. Você não precisa mais preocupar-se com o que acontece no Salão.
Ele virou as costas sem esperar por sua mesura.
— O príncipe não fala com ninguém — comentou Dorcas, parecendo espantada.
— Parece uma vida bem triste — respondeu Alice, tentando não dar importância para aquilo.
Ela começou a tirar os sacos de trigo e separá-los para ver quais eram aproveitáveis e quais não. Quais seriam usados para o pão da realeza e quais seriam usados para o pão deles.
— Tente guardar uns bons, ninguém vai notar — disse Dorcas, mexendo no balde com a colher, lembrando bastante dos contos de bruxas com suas poções.
Augusta voltou para perto delas, resmungando consigo mesma:
— Será que eu tenho que fazer tudo sozinha?
Olhando para todos os sacos de trigo restantes, Alice perguntou-se o que ela fazia, afinal, além de mandar e desmandar em todos.
