Nota de autor: Este capítulo é grande e uma confusão mas tinha de ser feito.
Desculpas pela nota final quase tão grande como o capítulo em si. Como um bónus extra, há o logótipo dos Rat Nation que fiz há uns meses mas que esperei por um capítulo em que falassem da banda para partilhar.
Avisos: relembrar ainda mais o passado, codependência, conversas entre um adulto e uma adolescente sobre sexo e relacionamentos que pode ser desconfortável e/ou fofinho em diferentes momentos tendo em conta que são pai e filha.
Nota pt-pt para pt-br:
- Só para relembrar que 'rapariga' é o mesmo que moça. Nada de segundos significados.
- "estar teso" é um calão para dizer que não se tem dinheiro nenhum.
- "gozar" é o mesmo que 'troçar'.
- "esquadra" é o mesmo que "delegacia".
- "fixe" é o mesmo que "legal"
- "gira" é o mesmo que "bonita", mas diferente de "gata"
.
.
- Oh, brutal! - disse Jinx ao olhar para a capa da LoudMess de Maio de 2000, uma foto de estúdio contra um fundo preto dos Rat Nation com o título "Dos Subúrbios para o Mundo - A Primeira Entrevista da Próxima Grande Banda de Death Metal". Folheou as páginas até chegar ao artigo completo, onde mais fotos ilustravam as sete páginas dedicadas. Tinham todos recebido fotografias individuais, mas a Mãe tinha particular destaque e fez Jinx resfolegar; claro que os metaleiros precisavam de lavar as vistas, especialmente nos anos 2000.
Uma das perguntas ao lado dela era: "Como é ter uma guitarrista mulher?", ao que as respostas eram:
Benzo: "Não sei, como é que te sentes, Ava?
Ava of Death: "Muito bem, obrigada."
Plague: "Se a primeira coisa que pensam quando a ouvem tocar é que ela é uma gaja, deviam ouvir a música de novo."
LM: "Pois, o que quero dizer é, não é comum ter uma mulher na banda sem ser a vocalista."
Ava of Death: "Não iam querer ouvir-me cantar (risos) Espero que mais pessoas se vão acostumando a ver mulheres a tocar metal. Eu pelo menos não vou a lado nenhum."
Shark: "E àqueles que não percebem, vão pela sombra."
Hound: '"Para responder à tua pergunta, ter a Ava como guitarrista é óptimo."
LM: '"Óptimo! Então, Death, a canção "Wounds" foi escrita por ti, e vocês os dois exibem mesmo os vossos dotes nos riffs..."
- A Mãe tinha de lidar com muitas merdas por ser uma rapariga? - perguntou Jinx a Silco sobre o ombro.
Estavam sentados no chão, Jinx de pernas cruzadas em torno de uma caixa cheia de traquitanas e memorabilia que não achava que Silco fosse coleccionar mas de facto devia ter pensado melhor, dado como ele era a viagens pelo passado. Silco estava sentado um pouco mais atrás dela, um cinzeiro, uma cigarreira e um copo de uísque ao seu lado e ao lado do sumo de Jinx, das suas bolachas e chocolate, uma escova na mão e total dedicação à tarefa de desemaranhar o cabelo de Jinx. Ainda tinha um longo caminho pela frente, mas saboreou o momento; era a sua forma de terapia, o seu momento de descompressão. O telemóvel estava desligado e ainda não tinha comprado um novo para Jinx. Toda a sua tarde tinha sido uma pequena bolha de pausa, longe do mundo e das preocupações, só eles os dois a terem um bom momento a ouvir os velhos vinis de Silco e a comer chocolate. Precisava que ela tivesse aquilo, uma menina com uma caixa de presentes e histórias felizes, durante mais algum tempo. Se fosse só por ele, Silco nunca se teria incomodado com nada disto; distrair a mente depois do trauma. Mas era ela. Não queria tirar-lho ainda.
- A cena do metal não gostava particularmente de ter mulheres por perto, especialmente nos círculos mais pesados, por isso ela teve de lidar com alguns incómodos. Haviam grandes nomes que eram indiscutivelmente excelentes e ajudavam a quebrar o estigma, no entanto, eram quase todas vocalistas. A tua mãe era particularmente especial por ser guitarrista, e a maioria das bandas eram compostas por homens com uma mulher na frente.
- Pois, eles dizem isso aqui.
- Esse jornalista era um bom tipo. Foi a nossa primeira entrevista para uma revista e ele tratou-nos como profissionais, não como um bando de metaleiros do bairro de lata que só faziam barulho por diversão, como a maior parte achava a princípio. Depois disso tivemos vezes em que lidámos com o fundo da estupidez. A tua mãe tinha lábia para lidar com eles e aqueles idiotas nem percebiam, e eram expostos como os porcos misóginos que eram.
- Assim é que é, Mãe!
- Também usávamos isso para proveito próprio, claro. Se as pessoas queriam ver uma mulher a tocar guitarra, melhor para nós. A tua mãe costumava dizer "venham pela miúda gira, fiquem pela boa música". Era quem vendia mais fotos autografadas, mais do que o teu pai. Também havia procura pelas do Vander, porque ele tirava sempre fotos em tronco nu para mostrar as tatuagens e quer os homens quer as mulheres gostavam disso. Uma vez pegámos na ideia e fizemos uma sessão pin-up, nós os cinco, onde fizemos todas as poses sexy que pediram à tua mãe para fazer. - Silco resfolegou. - Foi divertido.
- O quê? ? Por favor, diz-me que tens isso aqui.
- Provavelmente.
Jinx enterrou-se na caixa à procura dessa obra prima da existência humana, escavando por entre bilhetes de concertos, fotografias autografadas de uma data de bandas diferentes, a maioria das quais ela reconheceu, uma panóplia de pins e patches, mais duas revistas com a banda na capa, e achou várias pequenas cassetes, um carregador e uma máquina de filmar no fundo.
- Não vou achar sex tapes aqui, pois não? - perguntou Jinx ao pegar na câmara e ao mostrá-la.
- Em princípio não. Algum conteúdo questionável, mas não sexo explícito. - Isso estava noutra caixa. Jinx haveria de a achar de uma maneira ou de outra.
Espreitou os nomes das cassetes, ficando mais e mais intrigada ao ler; "Ensaios 1999", "Hotel Sunnyside, Eat Them tour 2001", "Pipocas 2001, Casamento Benzo", "Anos Violet, Fim do Ano 2002/2003", "Festa de Zaun 2000, amassos Plague e Death (ou seja, amassos do Pai e da Mãe), "Tour EUA 2004", "Summer Fest, Tour europeia 2003", "Anos Powder, lanche 2006," Uma caixa vazia dizia "Promenade, 1999". Ligou a máquina, vendo que tinha bateria suficiente e estudando o fóssil por um momento antes de carregar play na cassete que estava lá dentro. Começou de imediato a reproduzir no meio de um grito estridente.
- " -uta! Argh, cabrões!" - Era a Mãe, a levantar-se ensopada do meio de uma fonte pública com água acima do joelho para onde fora claramente atirada. Os rapazes riam como galinhas esganiçadas, Benzo e o Pai os vitoriosos autores a desfrutar da sua façanha. - "Vou-vos matar!"
- "Banho dos guitarristas," - disse alguém fora da câmara, e a imagem guinou loucamente quando se ouviu um ganido. De repente um par de Dr Marten a espernear acima do chão eram tudo o que Jinx conseguia ver no pequeno ecrã.
- "Não, não, meu, cuidado com a máquina! Filho da puta, larga-me!" - Jinx reconheceu a voz de Silco após um momento e durante alguns segundos tudo o que havia na gravação eram protestos tolos e uma série de abanões entre candeeiros de rua e o chão enquanto a custódia da câmara era disputada e conquistada por um Pai muito contente, que a virou a tempo de apanhar os grandes braços de Vander a carregar sem dificuldade um Silco mais novo com um - "Não te atrevas, cabrão-!" - e lá foi ele a voar para a fonte ao lado da Mãe com um grande chapinhar. Os urros de alegria eram ainda mais altos agora que o Pai estava tão perto da câmara.
- É aquela vez na fonte? - perguntou Silco, as mãos travando por um momento antes de ele se aperceber, forçando-se a ultrapassar o indesejado aperto no coração. Odiava que as memórias se tivessem contaminado umas às outras.
- Parece que sim.
- Estávamos muito bêbedos. - O Benzo mais novo a tropeçar no rebordo da fonte e a cair para a água perante gargalhadas histéricas era uma boa pista disso. - Tive a ideia de arranjarmos uma máquina de filmar para um dia termos material para pôr num DVD. Valeu a pena.
- Fixe! O Vander e o Benzo nunca me mostraram cenas destas - disse Jinx enquanto a palermice continuou durante mais um pouco (era estranho ouvir Silco a dizer tantos palavrões, não costumava fazer isso agora a menos que estivesse super zangado ou super preocupado) antes de o grupo ter de fugir por alguém ameaçar chamar a polícia. - Mas vi algumas coisas no youtube. Como quando vocês encheram as camas de hotel com chantily e jogaram bowling com garrafas de cerveja numa das vossas tours.
- Quando começámos a tocar na casa do Vander, nunca pensámos que íamos ser uma banda grande - disse-lhe Silco, focando as mãos de volta à tarefa e a mente em outras memórias. - Queríamos, claro, eu tinha os meus grandes planos, mas era difícil e não achávamos que fossemos conseguir. Tocámos em todo o lado que nos aceitasse de borla, íamos a festivais para tentar espalhar a palavra, gravámos centenas de cassetes com a nossa demo e o nosso primeiro álbum e distribuíamos pelo pessoal. Pode não parecer muito, mas nós éramos completamente tesos na altura.
- Meu, tu és mesmo velho - gozou Jinx. - Uma demo em cassete! C'um caraças.
- Já tivemos esta conversa, minha menina - respondeu Silco com um sorriso.
- Pelo menos compensou, ou pelo menos depois do segundo álbum, como disseste.
- Sim, não tivemos muito dinheiro antes disso, mas depois tornou-se um pouco arrebatador e tivemos de ter cuidado para não sermos explorados. O Vander foi preso durante uns meses por espancar um dos nossos agentes que nos estava a roubar.
- Quantas vezes é vocês foram presos?
- Na maioria das vezes só passámos noitadas na esquadra e acumulamos pequenos delitos. O Vander foi o único que esteve mesmo preso. Mas dessa vez não foi merecido. Estávamos habituados a não termos dinheiro, mas com certeza não gostávamos que se aproveitassem de nós. Tínhamos passado anos sempre a contar tostões para cobrir alguma despesa. Tivemos que pagar por uma garagem quando os vizinhos do Vander se cansaram do nosso barulho e chamaram a polícia três vezes. Depois alugámos um estúdio, o que foi um grande passo quer em termos de qualidade de som, quer em termos de preço. Eventualmente arranjei duas guitarras e o Benzo e a tua mãe também quiseram o upgrade. Arranjávamos sempre microfones rascas porque gostávamos do som, mas tivemos de melhorar para os concertos ao vivo, e mais tarde tivemos de comprar uma nova bateria quando o Vander destruiu a dele num dos seus acessos. Estávamos sempre à rasca de dinheiro.
- É difícil imaginá-lo assim - disse Jinx, olhando para o poster na parede. Parecia de facto beligerante, mas também, ainda tinha esse aspecto hoje em dia pela simples estrutura muscular e pelas tatuagens agressivas, e era o oposto de uma pessoa problemática.
- O Vander era um homem muito diferente na altura - disse Silco com aquele tom habitualmente sombrio dele. O que seguiu escapou sem esforço, algo gravado profundamente e tornado subconsciente ao longo do anos: - Às vezes tenho saudades dele.
Jinx pestanejou, olhando por cima do ombro. - Mas esse homem não te tentou matar?
- Sim, tentou. E eu não estaria aqui sem ele.
Jinx abriu a boca mas voltou a fechá-la sem dizer nada. Olhou para o ecrã e depois para cima para o poster de novo. Já tinham iluminação profissional e uma câmara decente naquela sessão fotográfica, por isso Jinx supôs que tivesse sido para o terceiro álbum. Isso, e a julgar pelos penteados que os pais dela usavam e os diferentes pontos de evolução das suas tatuagens que conseguia ver; aquele poster devia ter uns vinte anos, talvez de pouco depois da cassete que estava a ver e definitivamente no mesmo ano que a entrevista. O Pai já tinha a tatuagem com a data de nascimento de Vi no antebraço e Vander tinha o logo dos Rat Nation tatuado no peito e as mangas dos braços em estádio inicial. A Mãe tinha as pontas do cabo pintadas de azul eléctrico para contrastar com o azul marinho do resto, fazendo Jinx lembrar-se de uma chama de fogão, muito anos 2000. Tinha abandonado o estilo e deixado-o crescer na altura que Powder nasceu, mas o Pai e ela costumavam mudar de penteados e cores de cabelo como quem muda de roupa (ela tinha cabelo escuro e comprido na noite da fonte, mas já tinha o azul-chama na entrevista. No poster o Pai tinha uma crista preta, mas na cassete tinha o cabelo vermelho-chama espetado, e na memória mais vívida que Jinx tinha dele tinha o cabelo rapado, por isso era como se fossem três pessoas diferentes. Benzo era tão magro comparado com o seu eu actual rechonchudo que quase se parecia mais com um parente seu do que consigo próprio, mas tinha o mesmo sorriso convencido familiar. Silco tinha a mesma estrutura lingrinhas tornada ainda mais evidente pelo colete cheio de patches que usava e tinha o cabelo comprido solto para a fotografia, e a falta da cicatriz fazia o seu eu já claramente muito mais novo parecer-se com um adolescente com carinha de bebé.
Vander parecia um metaleiro badass, o cabelo quase do mesmo tamanho que agora mas sem barba, a sua expressão séria e a exibir orgulhosamente o porte descomunal e as tatuagens, mesmo o tipo de pessoa que se olhava e se via que não estava para brincadeiras. Provavelmente não se ia meter contigo se o deixasses em paz, mas se não deixasses, eras passado a ferro por um tanque com pernas. Ou talvez Jinx estivesse a projectar o Vander actual, o único que ela conhecia, aquele com uma expressão mais suave e arestas mais limadas, aquele que tinha criado quatro miúdos e lidava com problemas a falar ou afastando-se deles. Não o tipo de pessoa que ia partir baterias e espancar pessoas e afogar alguém num rio.
Algumas pessoas mudam mesmo.
Voltou a olhar para a câmara. Estava numa cena diferente agora, uma filmagem nesta mesma casa, não tão organizada como agora e cheia de pessoas, todos eles juntos e, para sua surpresa, uma Vi bebé. Estava a bambolear pelo quarto, uma coisinha amorosa a falar com os brinquedos em língua de bebé no mesmo sítio onde agora Jinx estava sentada com Silco, enquanto os adultos à volta dela fumavam e trabalhavam numa das letras do Pai, todos tão jovens e tão diferentes dos seus eus actuais. Aqueles que ainda estavam vivos, pelo menos. Bem, ela supunha que os mortos também contavam como estando bastante diferentes.
- Os teus pais também morreram quando eras pequeno, não foi? - lembrou-se ela.
Silco assentiu. - Mais uma coisa que temos em comum.
- Yá, mas tu tiveste de te safar num orfanato. Eu não.
- Depois de dez anos, habituei-me.
- Nunca ninguém te tentou adoptar?
- Não. Só cresci e saí do sistema.
- Não eras um menino bem comportado? - espicaçou Jinx, fazendo Silco resfolegar.
- Talvez não bonito o suficiente para chamar a atenção de alguém. Não importou. Encontrei pessoas que se tornaram minhas, não esperei que elas aparecessem.
Isso definitivamente soava a algo que Silco fosse dizer. - Mas deve ter sido difícil.
- Tiveste uma infância muito mais difícil que a minha, Jinx.
- Como assim? Eu tive uma data de famílias.
Sim, pensou Silco. E todas a tinham abandonado. Toda a gente tinha falhado a esta criança. Se ele precisava de uma derradeira razão para impedir qualquer tentativa ofensiva de o retirar da vida dela, era aquela. Não ia ser mais uma família que a abandonaria.
Quando Silco não respondeu, Jinx voltou-se para a câmara, parou a cassete e trocou-a pela mais recente do grupo. Avançou durante um tempo, e quando se viu a si mesma, parou e rebobinou. Pressionou play num momento em que alguém estava a filmar Vander a segurá-la bebé nos braços, o contraste de tamanhos tão grande que era simultaneamente hilariante e amoroso. A Mãe apareceu na câmara para arrulhar à bebé e deu-lhe um beijo na bochecha. Duas senhoras estavam sentadas com Benzo, Silco e uma Vi de sete anos em sofás que Jinx reconheceu de casa, e Silco estava a brincar com espadas de esponja com Vi, distraindo-a por um pouco enquanto todas as atenções estavam voltadas para a sua irmãzinha. O Pai é que estava a filmar.
- "Parabéns, meu amor!" - disse ele, plantando um beijo baboso na cabeça dela e levando a máquina a aproximar-se da cara de Powder no processo. Ela guinchou deliciosamente, um enorme sorriso na sua carinha pequenina.
Olhem só para aquilo. Jinx fora uma bebé adorável. Nada de asneiras. Nada de azares. Só uma bebézinha rechochunda adorável com uma jubinha de cabelo.
Quem diria.
Mas pensando melhor, aquela era a última cassete da colecção. O último álbum dos Rat Nation tinha saído antes de ela nascer. Só um single fora editado uns anos depois, e depois tinham acabado. Isso não era uma coincidência. Ela amaldiçoava mesmo as coisas. Pelo simples facto de existir. Era ela.
Algumas pessoas não mudam.
Ainda assim, olhem só, as suas famílias do passado e do presente todas juntas em harmonia como se não houvesse nada de mal no mundo. Era... surreal. Aquela realidade existia mesmo algures no tempo, e ela tinha a prova disso nas suas mãos. A Mãe e o Pão vivos e a amarem as filhas, a fazerem festas de anos e a ouvirem canções infantis no meio de músicas de death metal, Silco e Vander sentados juntos, a comerem salgados e a beberem, uma familiaridade e conforto nas suas posturas revelando a sua confiança. Vi aparecia a pedir a Silco para brincar com ela, e ele sentava-se no chão e fazia-lhe a vontade enquanto falava com Vander e Benzo. Viu a sua própria festa de um ano durante algum tempo, saltitando entre cortes até aquelas duas senhoras de antes voltarem a aparecer na câmara.
- Quem eram elas? - perguntou, mostrando o ecrã a Silco. Ele deu uma passa no cigarro enquanto olhava, tendo mesmo acabado uma secção inteira de cabelo de Jinx.
- Esta era a segunda mulher do Benzo, a Mazie. E esta era a minha namorada na altura, Lucia.
- Já não tens namoradas. Ou namorados - comentou Jinx distraidamente, olhando para a mulher estranha quando a Mãe lhe fez zoom. Era bonita, alta, cabelo preto, pele morena e com uma maquilhagem bonita. Parecia ligeiramente familiar, mas Jinx não se lembrava dela. Jinx não conhecia bem o gosto de Silco no que tocava a homens ou mulheres. Sabia que ele já tinha namorado com ambos antes, mas era estranho ver uma namorada em pessoa (mais ou menos) quando não tinha mais ninguém com quem comparar naqueles anos todos que vivia com Silco.
- Não preciso deles - respondeu Silco. Prendeu o cigarro entre os lábios e perseverou contra o primeiro nó teimoso que encontrou numa nova secção de cabelo. - Gosto da minha família como ela é.
- Ok. - Jinx sorriu, satisfeita. - O Vander também não tem namoradas. A menos que 'teja a namorar com a amiga da polícia. Não sei qual é a cena deles.
Silco sentiu uma pontada no rosto. Sabia bem qual era a cena deles. Não o iria surpreender saber se eles se tivessem tornado íntimos ao longo da última década. Mereciam-se.
Jinx inclinou a cabeça para ao lado inquisidoramente, conduzindo a mente de Silco para outro lado de novo. - Como é namorar com uma rapariga?
- Era bom. As mulheres tendem a ser muito boa companhia quando são apaixonadas por alguma coisa. Leva a excelentes conversas.
- Oh. Qual era a paixão da Lucia? - perguntou Jinx, a voz ligeiramente mais aguda que antes.
- Música. Era pianista.
- Ah. E como é que a conheceste?
- Amigos em comum. Namorámos durante uns cinco meses. Ainda nos víamos e falávamos em festivais às vezes. Está casada agora, investiu na carreira e faz recitais pelo mundo fora.
- Uau. - Olhou para a mulher com uma carranca. Não gostava muito dela. - Então e rapazes? Qual é que preferias?
- Era diferente. Os homens têm uma maneira diferente de abordar as coisas, mais directa. Era interessante quando removias camadas e chegavas ao cerne. Não preferia um ao outro. Só dependia da pessoa.
- Algum não-binário?
- Não era um termo que se usava na altura, mas tive um encontro com uma pessoa que não se inclinava particularmente para nenhum género. Foi bastante interessante. Pintava, e a arte teria ficado óptima na capa de um álbum.
- Fixe! - disse Jinx, levantando os olhos por um momento. - Acho que há muitas miúdas giras. Há uma rapariga na minha turma que é super gira, a Lux. Mas ela é muito diferente de mim, não sei se funcionávamos como casal.
- A sério? Isso é bom. - Silco separou melhor as secções de cabelo. Lux. Tinha de dar uma olhadela sobre quem ela era. - Gostas dela?
- Só a acho gira. Amo o Ekko. - As palavras saíram sem esforço, deixando apenas um aperto na garganta depois de se aperceber do que dissera.
A pequena bolha frágil do faz-de-conta, de não pensar, estremeceu perigosamente sob o raspar de pensamentos intrusivos e ela conseguia senti-la prestes a rebentar. Todas estas distrações, estes pensamentos bons em vez da merda de-
O que lhes ia acontecer agora? Não tinha acabado oficialmente com ele, mas tipo... o que é que era suposto fazerem agora? Apostava que já tinha uma tonelada de mensagens dele, a pedir desculpa, a dizer que ela tinha percebido tudo mal, a estúpida ingénuazinha da puta da Powder-
Ele mentiu. Porque é que ele tinha de mentir? Porque é que ele tinha de mentir, porque é que eles tinham mentido-!
- Devias experimentar sair com uma rapariga se estás curiosa - disse-lhe Silco, trazendo Jinx de volta, os olhos desfocados. O raspar falhou a bolha por uma nesga, deixando-a voltar-se com uma sobrancelha arqueada.
- Pensava que não querias que eu namorasse.
- O que eu disse foi que tens muito tempo para namorar. Eventualmente. Outras pessoas. Se só namorares com uma pessoa, não vais saber do que gostas. Mas se não quiseres namorar, isso seria o ideal. Vais poupar-te a muitos problemas.
Podes crer, pensou ela. Sabia o que queria, quem queria. Só não queria que Ekko mentisse. Queria que ele se desculpasse. Mas isso não seria suficiente, pois não. Queria que ele a fizesse esquecer que tinha feito uma coisa tão estúpida e que a magoara tanto. Mas ele não podia fazer isso, pois não.
O olhar dela caiu e achou o ecrã abandonado. A gravação do seu bolo de aniversário, um bolo simples redondo com cobertura azul bebé e uma grande vela branca com rebordo cor de rosa, ajudou os seus olhos a focarem-se. Deviam ter havido cortes na cassete enquanto Jinx estivera distraída, porque haviam mais pessoas na festa agora, amigos que ela não reconhecia muito bem, mas alguns eram familiares.
- Oh, a Babette! - apontou ela quando viu a senhora pequenina no ecrã. Estava quase igual! Não mudara o estilo de maquilhagem naqueles anos todos. - Não a vejo há que tempos. Como será que ela 'tá?
- Está bem.
- 'Tiveste com ela? Da próxima vez posso ir também?
- Encontrámo-nos por acaso. Já não falamos muito.
- Vocês conhecem-se há séculos. Como é que a conheceram?
- Costumávamos ir ao bordel dela com frequência. Fomos nos conhecendo.
- Vocês todos? - Ela sorriu maliciosamente, baixando a câmara e voltando-se para ele como se fosse ouvir a melhor coscuvilhice de sempre. Silco tentou reajustá-la à posição anterior mas ela tinha cabelo suficiente para se poder virar sem problema. - Vocês faziam orgias?
- Não exactamente. Mas éramos criativos.
- Sexo, drogas e rock n' roll, baby! Au - urrou Jinx, contraindo-se imediatamente depois pela dor nas costas. Esquecera-se que tinha algumas mazelas da noite anterior. Ainda assim, Silco riu.
- Bem, não éramos exactamente straight edgers, não.
- Então o qu'é que faziam nas vossas escapadelas? Drogas recreativas? Voyerismo? Ménage à troi? Algum de vocês era do BDSM? - Um arquejo. - Os meus pais eram kinky?
Silco teve de se rir, pegando no copo e bebendo um trago. Oh, eles tinham mesmo histórias boas desses tempos. Jinx com certeza acha-las-ia fascinantes; estava na idade de o fazer, quer Silco às vezes se esquecesse ou não, e não parecia achar um tema estranho ou constrangedor. Eram divertidas, parte desta cápsula temporal de boas memórias e paz que Silco queria dar a Jinx antes de ser forçado a trazê-la de volta à realidade, a aceitar a sua dor.
Como tudo o resto, sexo tornara-se em algo... diferente, depois de se ter afogado. Não havia prazer onde antes havia excitação e conforto. Precisava de exercer controlo sobre a outra pessoa de uma maneira extenuante antes, durante e depois do acto. Não o aliviava ou revigorada nem perto do que seria suposto dada a falta de vulnerabilidade que agora requeria para alcançar o mínimo de prazer. Já não gostava de ser tocado, e às vezes era difícil perceber como é que alguma vez gostara. Estas histórias eram um alerta, as consequências do fracasso, de confiar em alguém, mas por algum motivo que arreliava o seu bom senso, sentia-se cauteloso sobre as partilhar com Jinx. Devia protegê-la ensinando-a a abraçar a dor, mas era difícil. Só não queria que ela sofresse, que soubesse que estas histórias eram o resultado de todos aqueles episódios agradáveis do passado, apesar de ele próprio saber que esse era o melhor método.
- Tenho curiosidade do que é que se sente quando se faz sexo - confessou ela depois o silêncio dele, permitindo-lhe uma forma de evitar aquelas perguntas durante mais algum tempo. - É suposto ser bom, mas tipo, quão bom? Não pode ser melhor do que comer chocolate. - Agarrou na tablete ao seu lado e deu-lhe uma dentada pungente.
Silco continuou a sorrir. - Nem tudo é exactamente como outra coisa, Jinx.
- Masturbação já sabe bastante bem, por isso suponho que deva ser um nível acima disso? - Deu um estalido com a língua. - Duvido. São duas vezes mais chances de fazer merda. Com a minha sorte, de certeza que ia fazer alguma asneira e ia ser super constrangedor.
- Podes cometer erros. Faz parte de aprender. A outra pessoa também vai errar, e podem ambos rir sobre isso. Não precisa ser constrangedor. É suposto ser divertido, e sim, é suposto ser bom, melhor que masturbação quando encontras o parceiro certo. Diferente de chocolate, diria eu. - Jinx deu um sorriso rasgado, mastigando ruidosamente, apesar de ter revirado os olhos quando Silco continuou: - Mas nada de drogas ou álcool se fizeres uma cena. Nada de drogas, ponto, se eu não estiver por perto. E começa num sítio decente e asseado, nada de um buraco qualquer ao virar da esquina. Até o bordel da Babette é um bom sítio para começar se quiseres.
- Então vocês eram kinky!
- Consideravelmente.
- Conta-me! O que é que costumavam fazer?
- O que é importante é que podes explorar totalmente a tua sexualidade de forma satisfatória sem teres os empecilhos de-
- Vá lá, isso é uma seca, quero saber das outras coisas!
- Não acho que te devas privar de prazer, só de relacionamentos.
- A maior parte dos pais ia dizer que me devia focar em ter "relacionamentos sérios e importantes"
- Não, não devias, e confio que já saibas disso. Deves focar-te em ti. Só é mau quando alguém te deixa desconfortável. Espero que me digas se isso alguma fez acontecer.
- Okaaaay, Pai - disse ela arrastadamente, olhando-o de esguelha quando ele voltou a pegar no copo. Achava que se safava de lhe contar a parte boa, hã. Não importa, ela tinha mais de onde aquelas vieram. - Tu e o Vander alguma vez se comeram?
Silco engasgou-se na bebida. Jinx aguardou pacientemente que ele recuperásse.
- Isso é um sim ou um não?
- Não.
- Nunca namoraram?
- Não.
- Desconfia, desconfia~
- Diziam-nos isso bastantes vezes, para ser honesto, e nunca percebi bem porquê. O Vander nem sequer gosta de homens. Dormimos juntos muitas vezes, mas não era nada sexual. Ele era meu irmão. As pessoas são muito dadas a interpretar mal as coisas.
- Oh, 'tou a ver. É só que podia ter explicado algumas cenas, 'tás a ver. - Jinx não lhe deu tempo para pensar naquilo antes de perguntar: - É esquisito que nós durmamos juntos?
O raspar voltou, massacrando a bolha inocente de dentro para fora. Sua agueirenta, não podes ter nada, dás cabo de tudo.
- Quer dizer... - tentou ela. Silco abrandou a escova no cabelo dela. - Eu...
- Deixa-te desconfortável?
- Não. Claro que não, sou eu que me enfio na tua cama a toda a hora.
- Então não percebo o que há de errado com isso.
- Não, mas tipo... as pessoas não iam achar estranho, se soubessem? Se já pensam que... só dormi com o Vander ou com a Vi quando era pequena, não desde que vim morar contigo. Bem, com a Vi ainda foram algumas vezes, mas quando tentei com o Vander ele disse que eu já era crescida.
- A maior parte das pessoas não tem a ligação que nós temos.
- Quero dizer... yá. Tens razão. As pessoas...
- As pessoas são idiotas, Jinx. - Bem, não podia discutir com aquele argumento. - Não lhes devemos explicações. Eles vão fazer as suas próprias histórias seja como for.
Claro que iam distorcer as coisas e criar as suas pequenas fantasias. Não compreendiam o bem que Silco e Jinx faziam um ao outro; corrompiam o seu amor pela filha como era, quanto mais se soubessem mais sobre as suas vidas pessoais. O que não significava que essas pessoas estivessem livres das consequências de espalharem rumores.
- Vais matar o Finn, não vais? - perguntou Jinx, ambos seguindo o mesmo raciocínio.
Silco acendeu um novo cigarro. - Claro.
Jinx assuntiu. - Boa.
Lentamente, de forma menos abrupta, os pensamentos voltaram a arranhar. Não os queria, mas era ligeiramente mais fácil lidar com eles, eram menos ameaçadores, se tivesse o apoio de Silco.
- Se a polícia seguir isso, vais ter muitos problemas? - Claro que vai, sua estúpida-
- Vão usar todos os ângulos que conseguirem - disse Silco com calma. - Especialmente um que em que as pessoas acreditam tão facilmente.
Jinx baixou a cabeça de vergonha, sentindo o impulso de puxar o cabelo mal contido pela câmara nas suas mãos, mas ainda assim restou um aperto no coração.
- Desculpa não ter negado quando o Finn puxou o assunto.
- Não te preocupes. Estavas a tentar ajudar.
Jinx sentiu os olhos humedecerem-se automaticamente. Baixou o olhar; estavam a falar na cassete, e Jinx não registou as palavras da mesma forma que registou as vozes. Abriu a boca antes de pensar devidamente nas coisas: - O Vander não acredi... não ia acreditar em nada disso. Ele conhece-te.
- Ele não me conhece - atirou Silco, parando a escova. - O homem fraco que ele conheceu morreu naquelas águas.
- Ok.
Jinx baixou os olhos. Tinha pensado naquilo, quando Silco lhe contara a primeira vez; como é que o Vander o tinha tentado matar. Mas essa fora a segunda pergunta, a de curiosidade mórbida. Não é todos os dias que se conhece alguém a quem um membro da família tentara matar. A resposta fora bastante mórbida, sim; afogar-se deve ser uma maneira horrível de morrer. Não que Silco o tivesse descrito dessa forma. Só se focara no renascimento e na paz e nessas coisas. A ela soava-lhe mais a uma questão de sobrevivência, para ser honesta. Não podia ser fácil viver com uma coisa daquelas, por isso alguma reinterpretação devia ajudar. Se tudo o que ela tinha era a memória da irmã lhe bater e as palavras dela e já se sentia completamente fodida, quanto mais Silco com o que ele passara.
Por contraste, a cassete continuava a passar cenas do aniversário dela. Vi estava a brincar com a bebé Powder enquanto os adultos estavam por perto, a falar e a beber. Vander e Silco estavam a rir por alguma coisa que alguém tinha dito. Pareciam felizes.
O que fazia mesmo uma pessoa pensar naquela primeira pergunta, não era?
- Porque é que o Vander te tentou matar?
Jinx voltou a erguer os olhos. Silco acabou o cigarro, demorando o seu tempo a expirar o fumo antes de apagar a beata no cinzeiro e lhe fazer sinal para ela se virar para que ele pudesse acabar de a pentear devidamente.
- O Vander é melhor pessoa para te responder a isso - disse ele sombriamente.
- Não sabes porquê? - perguntou Jinx. A ideia era estranhamente horrível.
- Oh, eu sei. Ele culpou-me pela morte dos teus pais e por dizer que não devia ficar convosco.
Jinx pestanejou. - Eu... Oh. Mas porquê?
- Eu queria reunir a banda. Se não tivesse feito isso, os teus pais não teriam saído de casa naquela noite. - Silco continuou a penteá-la durante um momentos antes expirar discretamente e pegar no copo. - E questionei a capacidade dele de vos adoptar. Ele não gostou disso.
- Ele tentou-te matar só por causa disso? - perguntou Jinx, confusa. Aquilo era muito pouca razão para tentar afogar alguém.
- Não disse que fazia sentido. O Vander nunca foi uma pessoa particularmente racional.
- Os meus pais morreram num acidente de carro. Que culpa é que tu tinhas disso?
- Como disse. Estavam na rua por causa de mim.
- Isso é estúpido. Ele culpou-te mesmo por isso? E só por o contrariares? Matar alguém não ajuda muito a situação dele.
- Eu aceito a culpa que tenho, Jinx. Foi mais difícil de lidar quando era mais novo, como tenho a certeza que compreendes.
Jinx abriu a boca e voltou a fechá-la. Mas era diferente. Ela quase matara a família de facto. Silco não tinha mexido no carro dos pais dela e os feito saltar em queda livre da ponte, e questionar alguém não te torna automaticamente merecedor de morte. Vander tinha mesmo feito aquilo por essas razões? Silco não mentia, mas... se calhar ele não lhe queria contar tudo, se calhar ele não sabia tudo - não é como se ele e Vander tivessem tido a oportunidade de se sentar e falar das coisas. Deve ser difícil teres uma conversa agradável sobre porque é que tentaste matar alguém com a pessoa que tentaste matar. Quer houvesse mais acerca daquela situação ou não, se Silco passara os últimos anos a acreditar que aquelas eram as razões, isso ainda era uma...
- Que merda - resumiu Jinx apropriadamente. - E ninguém sabe sobre isto.
- Sabem as pessoas suficientes.
- Então isso é ainda pior!
- Está no passado. Não interessa - disse Silco, e c'um caralho, ele podia não mentir mas as vezes dizia as maiores estupidezes, o que era igualmente mau e forçou Jinx a grunhir.
- Claro que importa! Ameaçaste contar a verdade para poderes ficar comigo, não foi?
- Que utilidade teria ameaçá-lo com algo que já sei ser inconsequente? Já te disse vezes suficientes que a polícia é corrupta e que tu deves ser ainda pior para chegares a algum lado. Além disso, eu já não odeio o Vander.
- Então ideias a Vi! Que é a mesma coisa! Pior! Ela nunca te fez nada!
- Fez-te a ti - disse Silco taxativamente. - Uma vez a mais.
Silco devia ter-lhe contado nesse momento. Viu a oportunidade e num lapso (tantos lapsos no que tocava à sua filha) deixo-a passar sem dizer nada.
- Tudo isto está no passado. Seguimos em frente e lidamos com as suas consequências.
- Isso é suposto querer dizer o quê?
- Não vamos ficar aqui muito tempo. - Assim que as palavras saíram, Jinx já estava a abanar a cabeça.
- Não.
- Não vivemos aqui, Jinx.
- Porque não?! Qual é o problema de ficarmos aqui? Pelo menos assim não te apanham!
- Não vou fugir ou privar-nos das nossas vidas só porque uns chuis estão a tentar pisar a linha.
- Mas... é mais fácil para eles apanharem-te em casa. - Se Ekko abrisse a boca iam apanhá-lo de imediato, e ela não podia ter a certeza que ele não o faria. - E podes crer que amanhã não vou à escola!
- Não vais faltar muitos mais dias - avisou-a Silco, para choque de Jinx.
- Mas-! Eles vão pôr bófias atrás de mim!
Silco cerrou o maxilar à ideia dos porcos da polícia fazerem isso mesmo. - Eu trato disso.
- Vais fazer o quê?
- As pessoas que comprei na polícia claramente não estão a fazer bem o seu trabalho. Devia ter começado mais alto, e alguns deles devem-me bastante. Vou fazê-los considerar as suas opções.
- Mas e se eles-! - tentou Jinx de novo, mas foi a vez de Silco abanar a cabeça e fazer o batimento de Jinx disparar.
- Tenho bons advogados, e ainda melhores homens. Estes primeiros dias vão requerer acção, mas não tarda vai tudo voltar ao normal.
- Bem, não podemos ficar aqui p'ra esses dias de acção? - implorou Jinx.
Silco levantou-se, fazendo Jinx grunhir de frustração quando ele disse que ia preparar o jantar.
- Não nos podemos mudar para algum lado?! Se não p'r'áqui, p'a outro lado qualquer? - perguntou ela aos gritos como se a cozinha fosse do outro lado do mundo.
- Vou pensar nisso - respondeu Silco num volume normal, admitindo que essa era uma possibilidade.
Enquanto Jinx brincava com a máquina, ajustando-a antes de começar a entrançar o cabelo e pensar que se calhar não ia conseguir manter o envolvimento deles com a polícia por muito mais tempo em segredo, Silco ligou o telemóvel enquanto esperava que a refeição pré-feita aquecesse no microondas. Uma chuva de notificações começou a cair mas Silco ignorou-as, focando-se na mensagem de Sevika 'a festa está reservada' e certificando-se no Instagram e no Twitter que os seus homens não tinham sido estúpidos para publicar algum plano nas suas redes sociais. Conhecia-los, sabia que iriam cumprir qualquer trabalho que lhes fosse exigido porque apreciavam o pagamento generoso (dinheiro estava em terceiro lugar nas suas tácticas de persuasão) e temiam as consequências do fracasso (medo em segundo, violência em primeiro), mas conhecê-los incluía saber que a maioria era jovem e que os seus níveis de idiotice eram opostos à idade. Silco gostava de os manter sob olho com perfis falsos, e como efeito secundário acabava por ver quais eram as irrisórias novas tendências e que música horrível estava agora na moda. Confirmou as stories, uma delas partilhada por um capanga particularmente estúpido (iria perceber isso daí a pouco) onde tinham partilhado um vídeo com letras berrantes 'bitches fighting fuck yeah!'. Teria deslizado para a esquerda se as luzes piscantes no vídeo não tivessem reflectido num cabelo azul familiar e ele parou, clicando no reel original.
A música saiu ao berros do telefone quando a pessoa filmou, de forma trémula e confusa a princípio, Jinx a centímetros de distância de Sevika. Não era imediatamente claro que estava a ser agarrada pela mulher, mas o murro atirado foi claro, ainda mais claro foi como Sevika o retribuiu, tivesse sido por pura reacção instintiva ou por vingança, com uma cabeçada que atirou Jinx para trás. Um cabelo rosa forte apanhou as luzes e Vi saltou para o enquadramento, começando a típica luta de rua que tanto ela como Sevika eram profissionais, entretenimento vazio para a internet e para idiotas que deviam ter mais cuidado com a maneira como falavam sobre o seu braço-direito e a sua filha.
Bem. Ia ter de ter uma conversa com Sevika, não era?
Iria arrepender-se não falar com Jinx sobre isso, especialmente sobre a irmã. Mas quando jantaram sentados no chão e Jinx implorou por mais coisas que a fizessem esquecer, Silco acabou por ceder mais uma vez apesar de si próprio. Não ia conseguir fazê-lo tão facilmente no futuro próximo.
.
Thieram estava pronto para o alarme disparar mesmo antes de Ran atirar com o taco de basebol e rebentar o vidro. Vander podia ter vidro duplo nas portas e janelas do bar, mas sinceramente, Thieram já vira Lock partir janelas dessas sem o mínimo de esforço; é fácil quando se sabe onde bater e se tem a força de um touro. Ran claramente sabia uns truques também. Entraram sem perder um segundo e Dustin urrou em sintonia com o alarme berrante quando começou a atirar mesas e cadeiras ao chão a pontapé, sacando da faca e dando-lhe a sua lambidela habitual antes de a cravar na mesa de snooker, talhando linhas e curvas no tecido verde só porque sim. Não era grande artista, mas não ia deixar que isso o parásse. Ran foi sempre a direito para a fila de garrafas coloridas de vidro atrás do balcão e começou a parti-las desapaixonadamente, fazendo chover estilhaços e álcool por todo o lado. Era melhor artista de caos do que Dustin, mais objectivos, apesar de, pensando melhor, talvez fosse uma abordagem muito metódica para que o caos pudesse ser caos como deve ser. A caixa registadora foi a seguir, despida de todo o dinheiro depois de ser aberta à pancada sem misericórdia. Lock centrou a sua atenção na jukebox e três murros bem colocados deixaram-na num caco. Thieram olhou da ombreira, pegou com um suspiro numa das cadeiras que Dustin tinha atirado ao chão e atirou-a contra as janelas. Era uma pena. Gostava do The Last Drop; era um bom sítio, com uma boa vibe, a sério. Não se importava se pudesse trabalhar aqui aos fins de semana.
Ran acabou com essa hipótese ao puxar de um pacote de fósforos e o atirar para o álcool.
Quatro minutos, entrar e sair. É impressionante quantos estragos se consegue fazer em tão pouco tempo. Correram de volta para a carrinha, puxando as máscaras que tinham usado e regressaram aos subúrbios para uma ronda celebratória de shots e provavelmente póquer.
.
continua
.
.
Nota de autor: Finalmente, já chega de 'o que vai acontecer?' para algum 'está a acontecer'.
Então, muitas notas para partilhar.
A alcunha da Ava na entrevista da revista "Ava of Death/Ava da Morte" vem da música dos Eleine que lhe deu o nome para começar. Shark/Tubarão e Hound/Cão de Caça são auto-explicatórios, e o Damyan como Plague/Peste era apropriado quer na temática da banda quer em termos de temática de casal. E o Benzo é só Benzo.
Pedi ajuda a dois colegas meus do metal sobre cenas de bandas e assim. O Silco, o Vander e os outros começaram os Rat Nation em 1996, o Silco e os pais da Vi tinham 16, o Benzo 20 e o Vander 22, mas conheceram-se antes. O Vander tinha saído da escola no secundário e era melhor amigo do Benzo, que por sua vez tinha chumbado vários anos e acabou na turma do Damyan da Ava e do Silco. O primeiro álbum seria de 1997, o segundo de 1998 (quando a Vi nasceu) e o poster e o terceiro álbum de 2000. O quarto álbum seria de 2004, depois a Powder nasceu em 2005 e as coisas começaram a acalmar para a banda. Lançaram um single em 2007 e estavam a tentar voltar a juntar-se num estúdio quando os pais delas morreram em 2011, e isso acabou com as coisas. Isso, e um pequeno incidente de afogamento.
LoudMess é um trocadilho com o nome da revista de metal portuguesa Loud!. Queria que fosse Loudness mas achei que LoudMess era um trocadilho engraçado.
Não ouvia muita música pesada quando era mais nova, mas um nome que sei que está na cena mais pesada há que tempos é a Angela Gossow, antiga vocalista dos Arch Enemy, e era esta vocalista que tinha em mente quando o Silco menciona isto. Fui apresentada ao nome dela aos 14 por um dono fascinante de uma loja de metal independente numa cidade pequena (o que era um feito por si só) como "a mulher com uma voz que dá inveja a muitos homens". Para uma óptima recomendação de mulheres a tocar guitarra e baixo, oiçam Aephanemer.
A ideia da sessão pin up foi inspirada pelos calendários pin up dos Belzebubs xD
Straight Edge é uma subcultura do movimento punk onde as pessoas não consomem álcool ou drogas mas são parte dos aspectos mais hardcore e pesados da cultura. Um colega meu foi o primeiro a introduzir-me o termo (ele era straight edger, com tatuagem e tudo) e queria fazer referência a isso. Ele era/é uma pequena enciclopédia do metal (ficariam surpreendidos com a quantidade de metaleiros que há na aeronáutica, holy shit, a menos que lá trabalhem, e nesse caso sabem. Mas também os encontrei nos meus outros trabalhos, por isso suponho que estejamos só em todo o lado \m/ xD)
As cenas idiotas da banda foram sugestões do meu amigo que eu chateio até à exaustão por feedback e sugestões. Também tinha achado um vídeo cómico que tinha a onda certa para como os rapazes se comportavam, mas foi apagado e já não o encontro :(
Os "scratching thoughts" ou pensamentos a arranhar foi uma expressão que tirei do fanfic da letterstorosie "talk revolution to me"/ "fala-me de revolução" que também estou a traduzir. É um fic muito interessante.
Parece que os nomes de alguns dos homens do Silco são mesmo oficiais, como Ran e o Lock (também já o vi chamado de Mek e na verdade tenho esse nome no capítulo 2, por isso passam a ser duas pessoas diferentes), mas o Dustin (o tipo que lambe coisas) não tenho a certeza se é oficial? Já vi o nome em fanfics e não sei se é um nome do fandom ou não, mas uso-o também, espero que não haja problema.
Por fim, o logótipo dos Rat Nation, que eu receava ser demasiado Black Metal-y mas que foi sancionado pelo meu colega do black metal como sendo bastante Death Metal-y :D (embora ele tenha proposto umas alterações que eu não consegui fazer, infelizmente) hannibalcatharsis-zero dot tumblr dot com /post/701653616269950976
Sinto que a história entrou num impasse que eu queria escrever, mas que não sei se é muito agradável de ler. Espero que se sintam de maneira diferente (digam-me caso não) e que eu vá ter uma opinião diferente dos próximos capítulos.
Obrigada por lerem.
