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Canção Para Você
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Capítulo II – Medo de altura?
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A surpresa se foi tão rápida como veio, afinal, Tomoyo não demonstrava seus verdadeiros sentimentos.
Mas o artista podia jurar que viu um brilho de espanto nos belos, porém tristes, olhos violetas da jovem.
Tomoyo sentou–se no meio, sem esperar pelo rapaz, e voltou à sua antiga expressão melancólica, que ela acreditava ser neutra.
Assim que ele passou por ela (leia–se: espremeu–se entre as pernas dela e as poltronas da frente), Tomoyo pôde dar uma rápida e discreta examinada nele.
Tinha os cabelos de um azul–escuro brilhante, pele clara (porém não tanto quanto a dela), um porte mais alto do que o da garota e olhos igualmente azuis, escondidos por óculos de lentes redondas e finas. Ah, e também parecia ser mais forte depois da pequena demonstração que dera.
Ele se sentou e ficou olhando pela minúscula janela.
A vontade de Tomoyo era de começar a conversar com ele sobre música, que parecia ser a ambição daquele rapaz, e também pedir alguns conselhos, já que ela própria gostaria de seguir pelo mesmo caminho que ele.
– A propósito, sou Eriol Hiiragizawa – ele se apresentou, novamente em inglês, virando–se de repente e assustando a garota. Depois, estendeu a mão direita.
– Tomoyo Daidouji – a jovem respondeu, ainda recuperando–se do susto e dando–lhe a mão.
"Então ela é japonesa. Interessante...", foi o pensamento dele. E a partir daí, ele passaria a falar com ela em japonês.
Eriol não chacoalhou a mão dela, mas virou–a de costas e beijou–lhe o dorso.
Mais uma vez Tomoyo esqueceu–se de esconder as emoções e deixou que uma expressão de surpresa se instalasse em seu delicado rosto.
Quando o jovem soltou sua mão, Tomoyo ainda estava com cara de boba e só caiu em si quando ele inclinou a cabeça para o lado, numa clara expressão de desentendimento diante do olhar vago da moça.
– Obrigada por me ajudar com a mala – ela falou por fim, também em inglês, tentando consertar o seu deslize.
– Não tem de quê – ele respondeu em japonês. Ela entendeu que ambos passariam a conversar em japonês dali para frente. Eriol sorriu, mais uma vez.
"Será que ele não pára mais de sorrir? Nunca tinha visto ninguém sorrir tantas vezes no mesmo dia!".
Um silêncio se instalou entre os dois. A jovem optou por não fazer suas perguntas agora e guardou–as em uma gaveta no fundo de sua mente.
Uma aeromoça fazia o procedimento padrão, que consistia em explicar o que fazer em caso de queda ou incêndio e onde ficavam localizadas as saídas de emergência. Ao mesmo tempo, outros comissários verificavam se todos os passageiros estavam na posição certa e usavam os cintos para darem início à decolagem.
– Senhoras e senhores, aqui é o piloto dizendo que a nossa decolagem foi autorizada. A nossa equipe de comissários está pronta para atender às suas solicitações. Desejamos a todos uma boa viagem e obrigado por voarem com a Japan Airlines.
Logo depois o avião começou a taxiar, preparando–se para a decolagem.
E foi exatamente nesse momento que a morena se lembrou de que não era muito fã das alturas. Nunca gostara de aviões e só viajava neles quando realmente não tinha outra opção.
Como nesse caso.
Ela sempre tomava alguns calmantes antes das viagens, só para garantir que dormiria o trajeto todo e não precisaria se preocupar com possíveis desastres aéreos e nem com os muitos metros que se encontravam entre ela e o chão, mas como aconteceu toda aquela confusão com a lista, Tomoyo nem teve tempo de se lembrar de comprar o bendito remédio.
Suas esperanças estavam todas depositadas na mala que trouxera consigo e que, no momento, encontrava–se sobre sua cabeça. Aí estava outro problema: o avião já se encontrara em movimento e ela já estava de cinto, o que significava que não poderia sair com urgência para comprá–los.
"Ai, Tomoyo! Olha só a situação em que você foi parar!", ela pensava, começando a ficar com certo receio.
Eriol notou quando a jovem sentada ao seu lado começou a apertar – com muita força, diga–se de passagem – os braços da poltrona.
Ele ia segurar a mão da jovem, porém, no instante em que roçou os dedos na mão dela, a jovem rapidamente retirou a mão, como que por um reflexo, e olhou para ele.
Tomoyo estava aflita e o contato não ajudou, deixando seu corpo em alerta. Virou–se para ele, inconscientemente procurando ajuda.
O rapaz viu quando ela mordia o lábio inferior e tentou tranqüilizá–la.
– Calma. Vai dar tudo certo. E nem ficaremos assim tão alto.
Um segundo foi o tempo que o cérebro de Tomoyo precisou para perceber que ele entendera o porquê do medo dela.
Havia deixado tão na cara? Chegara a um ponto tão crítico assim que ele pôde perceber que ela tinha medo de altura? Não estava controlando muito bem as reações, mas era tão óbvio? Ou ele seria um leitor de mentes? Sabia que aqueles sorrisos eram muitos!
Eram realmente várias dúvidas, mas Tomoyo jogou–as em outra gaveta mental. Teria tempo para pensar nelas, e possivelmente respondê–las, depois. No presente momento, estava mais ocupada vendo a pista chegar ao fim e sentir o avião se inclinar para cima.
Foi difícil para a morena controlar o seu medo enquanto o avião se estabilizava, mas, depois de poucos minutos, ele finalmente ficou reto.
Quando desligaram o aviso de prender os cintos, Tomoyo se levantou e foi checar se Freya havia colocado os comprimidos dentro de sua bolsa. A resposta foi negativa, Freya aparentemente havia se esquecido.
"Ah! Maravilha! Agora eu realmente estou feliz! Muito obrigada por esquecer esse pequeno detalhe! Onde foi que eu errei?!", ela perguntou–se.
O jeito agora era tentar não pensar na altura, mas sim no que a aguardava depois daquela viagem.
Sentou–se novamente, no assento do meio, mais calma, pensando sobre a Inglaterra. Nunca tinha ido para lá. Como deveriam ser os prédios e as casas? E os carros? Puxa, devia ser estranho dirigir do lado contrário...
Eriol levantou–se, pediu licença para ela e dirigiu–se ao banheiro.
Mas para isso ele precisou espremer–se entre as poltronas e as pernas de Tomoyo mais uma vez.
A morena nem quis dar uma olhada pela janela para apreciar a vista lá de baixo, por motivos óbvios.
Quando o Hiiragizawa voltou, optou por sentar–se na poltrona do outro lado de Tomoyo, que estava vazia desde a decolagem, aquela que dava para o corredor, assim não precisaria atropelar a jovem toda vez que precisasse passar.
As aeromoças passaram com o carrinho de comidas algum tempo depois, oferecendo o café da manhã, que consistia em dois pãezinhos, um croissant de chocolate, geléia de morango, manteiga, algumas uvas e um pedaço de manga. Logo atrás, outro carrinho vinha servindo as bebidas.
Tanto Tomoyo quanto Eriol aceitaram o desjejum e começaram a comer devagar.
A jovem dava algumas olhadas de esguelha para ele, como que querendo fazer uma pergunta, mas sem saber por onde começar.
– Está tudo bem? – Eriol perguntou, virando–se para Tomoyo quando esta levava o croissant até a boca.
– Sim, está – ela deu um sorriso tranqüilo, voltando a comer o seu delicioso croissant. E ela foi convincente... pena que Eriol não achou.
– O que quer me perguntar?
– Por que acha que quero te perguntar alguma coisa? – como ele poderia ter percebido a intenção dela? Estava assim tão evidente? De novo?
– Ei! Eu perguntei primeiro! – ele exclamou, brincalhão, ainda encarando a jovem.
Tomoyo não sabia o que dizer. Era óbvio para ela que queria conversar sobre a carreira dele... mas como chegaria nesse ponto sem parecer chata ou direta?
– E então? – Eriol mostrava–se um tanto impaciente. Não, essa não era a palavra certa para descrevê–lo... ele estava mais para... curioso. Sim, essa era a palavra!
– Bom... é que eu o vi tocar há um tempo atrás... – ela começou de forma tímida, mas voltada para ele. – No mês passado, mais precisamente.
– Ah, sim... – ele disse recordando–se daquele dia.
– A última música é linda – Tomoyo lembrava–se de cada sensação boa que passara por ela naquele instante.
– Obrigado. É uma composição original... ainda não tem um nome e aquela foi a primeira vez que eu a toquei em público.
– Ela tem letra? Ou seria apenas melodia? – a morena perguntou mais para si mesma, mas Eriol ouviu.
– Posso dizer que ela ainda não tem letra... mas penso em colocar uma... Quem sabe? – o rapaz sorriu. – O que vai tomar? – ele emendou algum tempo depois.
– Hã? Ah, sim... acho que ficarei apenas com um suco de laranja – Tomoyo disse.
Antes de se virar para ela, Eriol mirou a aeromoça que estava com o carrinho parado do seu lado.
– Um suco de uva e outro de laranja – ele informou a ela, em inglês.
A comissária encheu dois copos e os entregou ao jovem. Este, por sua vez, entregou o suco de laranja a Tomoyo, que estava um tanto perplexa com essa atitude. Ela logo recuperou a máscara que escondia suas emoções.
Também pudera, nenhum homem que conhecera havia sido tão cavalheiro com ela.
"Você nem conheceu tantos assim... mas tem que admitir que foi muito galante da parte dele...", a garota pensava.
Recebeu o copo de Eriol com um aceno de gratidão.
Mais uma hora de viagem passou e Tomoyo tinha se esquecido do medo de altura. Este tinha, simplesmente, ido embora, mesmo que ela ainda não sentisse segurança para arriscar uma olhada pela janela.
Ligou a tela da pequena tevê que se encontrava no encosto do banco à sua frente e passou a assistir a um filme de comédia. O filme não era nem um pouco interessante. Naquele momento, nada seria mais interessante para Tomoyo do que conversar com Eriol.
Ela gostara dele... do jeito dele, de como o cabelo combinava com os olhos... da expressão sorridente e despreocupada que sempre encontrava em seus olhos...
Dividida entre as falas dos filmes e os encantos do moço – atualmente – à sua direita, Tomoyo caiu em um sono gostoso e profundo. Dormiu como nunca tinha dormido antes e, esquecendo–se de Londres e de sua família, ela sonhou. E sonhou com tudo o que tinha direito.
Eriol estivera o tempo todo ouvindo algumas músicas pelos fones que foram entregues no início da viagem, mas não deixara de notar aquela jovem que estivera ao seu lado. De notar o quanto ela estava triste, por mais que tentasse esconder, e o quanto ela parecia abatida, como um executivo viciado em trabalho.
Em uma olhada mais aprofundada, percebeu que a respiração dela estava mais leve e devagar e que ela pouco se mexia. Constatou que Tomoyo dormia, ainda com a cadeira na posição sentada.
Com todo o seu cavalheirismo inglês, Eriol delicadamente reclinou a poltrona dela no máximo, procurando ajeitar a moça em uma posição confortável e alinhando o pescoço dela com o resto do corpo, a fim de evitar torcicolos. Depois, pegou um travesseiro e uma manta, que jogou sobre ela com o intuito de quebrar o efeito do ar condicionado gelado sobre o corpo da jovem, que vestia calça jeans e regata branca.
Depois de mais alguns minutos, ele também reclinou sua poltrona e ajeitou–se, pronto para imitar todos os outros passageiros e dormir.
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Sentindo–se totalmente descansada e recobrando as esperanças, Tomoyo despertou devagar. Abriu os olhos e piscou tentando fazer o cenário entrar em foco. Alguns botões fixados em um teto branco eram tudo o que a jovem conseguia distinguir dentro de seu campo de visão.
Realmente não conseguia se lembrar de onde estava. O sono tinha sido tão tranqüilo que havia, temporariamente, desligado a mente da jovem.
Virou–se para o lado direito e deparou–se com o pianista calmamente adormecido e com o rosto virado para ela. Estavam perigosamente próximos. Seu primeiro reflexo foi o de arregalar os olhos, mas depois se acalmou, afinal, quem não se acalmaria na presença dele?
Verificando o sistema de GPS que era exibido pela mesma tela em que assistira ao filme, ela viu que estavam praticamente no meio da viagem.
"Puxa, dormi por tanto tempo assim? E ainda sem calmantes? Novo recorde, Tomoyo...".
Percebeu que sobre ela estava uma manta, cuidadosamente arrumada, e que sua poltrona estava reclinada. Esquecendo–se mais uma vez de sua máscara, Tomoyo sorriu, tanto interna como externamente.
Teria ficado ali, formulando muitas hipóteses sobre Eriol, mas notou que realmente precisava ir ao banheiro. Só havia um pequeno problema: como chegar ao toalete sem acordar o rapaz?
Não tinha muito tempo para pensar em uma solução, então fez o que lhe pareceu mais prático naquele momento: levantou–se e passou por entre as pernas do jovem, tentando não encostar nele.
Sendo bem sucedida, Tomoyo rumou para o banheiro e fez uso dele. Quando saiu, viu a mesma menina tímida de antes.
Ela estava parada em frente à porta da cabine em que Tomoyo se encontrava e, com as mãos atrás das costas, olhava para os próprios pés, balançando–os vagamente.
A morena viu–se na obrigação de sorrir para a garotinha, tentando deixá–la mais à vontade.
– Será que a senhorita poderia me ajudar? – a menina perguntou, acanhada e sem encarar Tomoyo nos olhos.
– Claro! – Tomoyo abaixou–se para ficar na mesma altura da menina. – O que posso fazer por você? – emendou, ainda sorrindo.
– É que a minha mãe está dormindo e eu queria fazer xixi... mas eu não sei ir ao banheiro sozinha... e também não quero acordá–la...
A morena achou muito fofa aquela atitude da garotinha e ajudou–a.
Entraram mais uma vez no cubículo que chamavam de banheiro e Tomoyo ajudou a pequena.
– Muito obrigada, moça! – a menina disse enquanto lavava as mãozinhas.
– De nada – a jovem respondeu, fazendo um carinho na cabeça da garota antes dessa ir embora.
A situação foi bastante útil para deixar Tomoyo feliz. Olhava para os outros passageiros durante a volta para o seu assento, os mais velhos dormiam enquanto as crianças corriam pelos corredores, brincando.
Duas delas passaram correndo por Tomoyo quando essa estava se aproximando de sua poltrona e a jovem precisou de um movimento rápido para não ser atropelada, embora achasse graça daqueles pequenos seres humanos se divertindo tanto em um lugar como um avião. Adorava crianças.
Algumas aeromoças tentavam pegar as crianças e colocá–las de volta em seus lugares, porém, sem sucesso algum.
Finalmente a jovem chegou a seu destino e ficou parada tentando decidir como passar mais uma vez por Eriol, que para seu maior azar tinha mudado as pernas de lugar e juntado–as de uma maneira que tornava impossível a passagem de Tomoyo.
Ficou parada bolando uma solução para o seu problema... mas não chegava a lugar algum. Aproximou–se e afastou–se dele várias vezes, a fim de calcular a distância.
Para aumentar mais ainda o seu azar, uma criança vinha rapidamente em sua direção e o único erro dessa pequena criatura era que ela corria olhando para trás, provavelmente por fugir de alguma outra criança.
Tomoyo, pensando no garoto que corria desembestado, desviou para o lado, tentando apoiar–se sobre o braço da poltrona de Eriol, na esperança de evitar o choque – e conseqüente tombo – do garoto.
Teria dado certo se ela não tivesse calculado errado a distância dela ao braço da poltrona.
CONTINUA...
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N/A: Hey!
E cá estamos nós com mais um capítulo da fic! Bom, até agora nada muito interessante tinha acontecido, mas depois desse pequeno acidente, as coisas vão melhorar! Como explicado no resumo, o casal principal é Eriol e Tomoyo, mas o Syaoran e a Sakura têm papéis fundamentais no desenrolar da história e aparecerão, praticamente, sempre.
Esperamos que continuem acompanhando!
Kissus,
Mizu e Kimi
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Respostas às reviews
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Bruna cm Yamashina: Oii! Pois é, a família dela é bem chata... os tios ficam no pé dela e a mãe nem liga. Ninguém merece uma família dessas... Bom, de início a história pode parecer uma continuação do anime, mas ela não é por alguns motivos: na fic a Tomoyo ainda não conhece o Eriol e tem tios–avós, sendo que no anime ela e Eriol já são amigos e ela não tem outros parentes desse tipo. Resumindo, é universo alternativo. Tomara que goste desse capítulo e continue acompanhando e mandando reviews! Kissus!
