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Canção Para Você
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Capítulo III – Boas Vindas!
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Tomoyo se desequilibrou e tentou se agarrar em qualquer coisa para não cair, mas não teve sucesso. Pelo menos conteve um grito.
Ultrapassou o braço da cadeira e caiu sentada no colo de um Eriol ainda adormecido. O rapaz acordou bruscamente, com o corpo em sinal de alarme e seus rápidos reflexos o fizeram sentar e segurar o que quer que tivesse sido arremessado contra ele.
Tomoyo sentiu o coração disparado dele e as mãos que ele colocara em sua cintura. Estava morrendo de vergonha e desejou ser um avestruz para cavar um buraco e enfiar a cabeça dentro dele.
– Eu sinto muito! – ela disse enquanto saía de cima dele, sem olhá–lo. – Desculpe–me por ter lhe acordado assim! Não era a minha intenção! – chegava a ser aterrorizante para ela que isso tivesse acontecido. O que ele pensaria dela agora? Provavelmente acharia que ela era uma tola desastrada, tal como todos os outros que ela conhecera.
– Tudo bem, não se preocupe! – ele acalmou–a, sorrindo e refazendo–se do susto. – Você se machucou?
– N–não... – ela era puro embaraço.
Finalmente conseguiu se levantar e foi sentar–se na poltrona que ocupava inicialmente.
"Acho que ele não vai mais falar comigo... vou mudar de lugar, assim não terei de olhar novamente para ele... se bem que, para fazer isso, precisarei novamente passar por ele... Qual foi a igreja em que invoquei o diabo?!", ela se dividia em opiniões.
Ia ter que aturar o fato de ficar ao lado dele por mais – consultou o relógio – cinco horas...
"Tempo demais", ela desanimou.
Colocou os fones de ouvido e procurou alguma música para escutar e tentar esquecer o acontecido.
Escutava a terceira música quando uma aeromoça chamou sua atenção e lhe mostrou o telefone do avião.
Tomoyo rapidamente tirou os fones e recebeu o telefone sem–fio, falando em japonês.
– Alô? – ela estava temerosa. Quem poderia ser para ligar durante o vôo?
– Tomoyo Daidouji! – era a voz de um dos seus tios–avós.
– Sim? – seu tom agora era deprimido.
– Aonde a senhorita pensa que vai? – ele perguntou, bravo.
– Estou indo para Londres – respondeu simplesmente.
– LONDRES? Quem autorizou a sua viagem a Londres? – o tio estava furioso.
– Não preciso que autorizem a minha viagem... caso tenha esquecido, sou maior de idade e posso tomar minhas decisões.
– Volte imediatamente para a casa, mocinha! Assim que o avião pousar, você trate de comprar outra passagem e voltar ao Japão! Onde já se viu alguém viajar sem o consenso da família?! Vai voltar, prestar vestibular e entrar em uma ótima faculdade em Tóquio. Além disso, vai pedir desculpas a todos por ser uma menina tão desobediente. Ficará de castigo, sem direitos a... – Tomoyo interrompeu antes que ele concluísse.
– Não vou voltar – ela se mostrava desinteressada.
– O QUE FOI QUE DISSE? – o tio estava pasmo. – COMO OUSA ME CONTRADIZER?
– Não vou voltar – repetiu, simplesmente.
– AH, MAS VOCÊ VAI SIM! SE NÃO VOLTAR... – ele era um poço de nervos, mas, como sempre, ela o interrompeu.
– Faça como quiser – e desligou o telefone, sem dar chance ao tio de gritar de novo.
Pronto. Seu dia quase perfeito tinha sido estragado.
Eriol pôde escutar os dois lados da conversa, tal era a raiva do tio quando falou com Tomoyo. Percebeu que, assim que reconheceu a voz, a jovem perdera o brilho de felicidade que havia se instalado em seu rosto.
– Por favor – ela se dirigiu à aeromoça. – pode levar o telefone. E se alguém mais ligar e me procurar, diga que eu pulei do avião e morri.
Mesmo com uma expressão de medo, a comissária acenou positivamente e saiu para guardar o aparelho.
– Acho que nunca vou conseguir me ver livre deles... por mais que eu tente – foi o desabafo da jovem. Ela tinha apenas comentado isso consigo mesma, só que, mais uma vez, Eriol ouviu.
– É sempre assim? – o Hiiragizawa perguntou.
De repente Tomoyo lembrou que ele estava ali e que, provavelmente, tinha ouvido a conversa toda.
– É... nada do que eu faço está bom para eles. Acham que eu sempre tomo a decisão errada e por isso querem decidir por mim – sua voz soava triste.
– Não avisou a eles que viria para cá, não é?
– Não, não avisei – sorriu tristemente. – Fiz uma prova difícil no Japão e acabei ficando entre os cinco primeiros. Como prêmio, ganhei uma bolsa integral em qualquer curso na London College. Apenas uma amiga e minha mãe sabiam que eu vinha, mas acredito que a informação tenha vazado.
– E você pretende fazer qual curso?
– Música. Sempre gostei de cantar e compor letras – ela pareceu recuperar um pouco do ânimo.
– Eu também sou formado pela London College, só que me formei em Química. Sabe que ainda me pergunto o porquê de ter escolhido essa matéria? – ele riu, na esperança de arrancar alguma risada dela, mas tudo o que conseguiu foi um fraco sorriso. – Assim como você, música é a minha vida, embora eu prefira tocar ao invés de cantar...
O aviso dos cintos foi acionado ao mesmo tempo em que o silêncio novamente tomava conta do ambiente, mas um pequeno fato impediu que este último permanecesse por muito tempo.
O avião fez uma curva, resultando na inclinação da aeronave para a esquerda.
O corpo de Tomoyo retesou–se quando a morena percebeu que de onde estava podia olhar pela janela e ver o chão lá embaixo. Mais uma vez ela procurou segurar os braços da poltrona, pois tinha a sensação de que cairia a qualquer momento. Sua mão esquerda encontrou e esmagou a espuminha do apoio de braço da poltrona, mas a direita encontrou uma outra mão, pertencente ao jovem pianista ao seu lado.
Tomoyo paralisou de vez quando ele segurou a mão dela de volta, com firmeza, tentando passar calma e segurança. E funcionou. A jovem estava tão surpresa com aquele ato e prestou tanta atenção nele, que simplesmente se esqueceu do medo que deveria sentir.
Permaneceram de mãos dadas até o avião estabilizar mais uma vez e ele sentir que Tomoyo já não estava tão tensa.
"Ah, Deus! Agora é que eu não vou mais conseguir olhar para ele! Essas duas horas restantes podiam passar mais rápido, não podiam?", Tomoyo pedia.
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Aparentemente os pedidos de Tomoyo foram atendidos e exatamente duas horas depois o avião estava aterrissando no aeroporto de Londres, às nove da manhã no horário local – e seis da tarde no horário biológico da jovem japonesa.
Todos tiraram os cintos e se levantaram para pegar as bagagens de mão antes de deixarem a aeronave.
Eriol levantou primeiro e começou a esvaziar o compartimento acima deles, tirando de lá suas malas e as de Tomoyo, respectivamente.
Desceram a escada que os levava à pista de pousos e decolagens, sendo que o rapaz ia à frente e era seguido de perto pela jovem.
Um ônibus estava estacionado ali para levar os passageiros à parte de desembarque no aeroporto.
Os dois passaram a caminhar lado a lado e a conversar, enquanto seguiam para o transporte.
– Então, onde vai ficar? Algum hotel ou pousada? – ele quis saber enquanto se aproximavam do ônibus.
– Ficarei em uma pensão especial junto com os outros jovens que passaram na mesma prova que eu. Todos estudaremos no mesmo lugar. De acordo com as informações que eu consegui, a pensão é dos próprios organizadores e lá morarão, temporariamente, quinze jovens, dos quais, cinco são do Japão, cinco da Coréia do Sul e os outros cinco são da China – ela informou.
– Temporariamente?
– Sim... temos permissão de passar os primeiros três meses lá, para podermos arranjar um emprego e nos sustentar sozinhos.
– Entendo... e para onde vai depois que esse prazo vencer?
– Não faço idéia... talvez eu compre um apartamento ou divida um com alguém. Mas acho que não é hora de pensar nisso por enquanto... primeiro quero regularizar a matrícula para depois começar a bolar o futuro – ela estava sorridente de novo.
Eriol apenas sorriu de volta.
Entraram no ônibus e seguiram caminho para o interior do aeroporto. Ao chegarem lá, cada um pegou um carrinho e todos foram direto para a esteira de bagagem.
Tomoyo e Eriol conversaram sobre os antepassados das duas famílias, com relação a origens, idiomas, hábitos estranhos e culturas. Os dois riram muito um com o outro.
Pegaram as respectivas malas, puseram no carrinho e caminharam para a saída da sala de desembarque. Antes de passarem pela porta, Eriol falou com Tomoyo.
– Bem, acho que é aqui que nos separamos.
– Sim... até algum dia, então – ela disse, animada. – E continue com as suas ótimas melodias!
– Obrigado – ele também estava feliz. – Boa sorte com a faculdade e com o trabalho, Tomoyo.
A jovem parou por um momento. Era a primeira vez que ele a chamava pelo nome e ela achou que tinha soado muito bem.
– Obrigada... – ela corou. – Eriol – sussurrou.
Ele abaixou–se um pouco e beijou a bochecha dela, sendo retribuído ao mesmo tempo.
Assim que cruzaram a porta, um mar de flashes estourou no rosto dos dois. Pessoas de todas as idades gritavam por Eriol, pediam autógrafos e tiravam mais fotos. Ela mal conseguia distinguir para que lado estava indo, tantas eram as luzes brilhantes.
Acabou seguindo os outros passageiros que estiveram no mesmo vôo que ela e achou a saída. Viu quando alguns seguranças faziam uma roda em volta de Eriol enquanto este rumava para a saída ao mesmo tempo em que distribuía autógrafos e cumprimentava os fãs.
"Pelo jeito ele é famoso por aqui... Também pudera! Mas... e agora, para onde eu vou?", ela perguntou–se.
Viu um homem baixinho e careca segurando três placas, sendo que uma delas dizia "Tomoyo Daidouji" e seguiu até ele.
– Oi. Eu sou Tomoyo – ela falou em inglês.
– Certo. Venha comigo, senhorita, vou levá–la para o alojamento – ele respondeu com um sorriso cortês na face.
Ela o seguiu até uma van que estava estacionada do lado de fora. O homem abriu o porta–malas e começou a colocar as malas da jovem lá dentro.
– Esperaremos as outras duas pessoas que faltam e poderemos ir, está bem? Enquanto isso, você pode ficar lá dentro – e indicou o interior do veículo.
– Claro – Tomoyo entrou na van e se acomodou ao lado de outra garota.
Dez minutos depois os cinco jovens estavam na van e o automóvel encaminhava–se para o alojamento deles.
Tomoyo apreciava a vista dos dois lados e ficava cada vez mais maravilhada.
"Londres é linda!", ela concluiu. "Não vejo a hora de poder andar por aí e conhecer os museus, as ruas e, principalmente, o Big Ben!", empolgou–se.
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Quase vinte minutos se passaram até que a van chegou à pensão.
Os jovens desceram do carro, pegaram suas malas e seguiram os dois homens que os guiavam e davam informações.
Na recepção, uma moça sorridente estava sentada atrás do balcão esperando por eles.
– Bom dia e sejam bem vindos! – ela saudou–os em inglês. – Assim que eu chamar seus nomes venham até aqui, por favor, para eu poder fazer o cadastro.
Um a um os jovens iam até a recepção e davam os seus dados, recebendo algumas instruções logo depois.
Tomoyo foi a última.
– Senhorita Daidouji – a moça chamou e a morena foi até ela. – Pode preencher esta ficha, por favor? – Tomoyo recebeu um formulário com dados pessoais a serem preenchidos.
Com a caneta que a recepcionista lhe emprestara, Tomoyo rapidamente escreveu tudo em inglês e devolveu para ela.
– Muito bem. Agora vou lhe dar algumas informações: o café da manhã acontece das 6h30 às 8h, o almoço é do meio–dia às 15h e o jantar vai das 19h às 21h. A recepção fica aberta até às 21h30, sendo que, com a cópia da chave que lhe entregaremos, poderá chegar a qualquer horário. Todos terão cinco dias de folga para acostumarem o relógio biológico porque as aulas da faculdade começarão na semana que vem, numa segunda–feira. Devem ter avisado que vocês só poderão permanecer aqui por três meses, sendo que devem procurar outro lugar para morar depois desse prazo, certo? – Tomoyo concordou com a cabeça. – Então acho que é só isso... aproveite a estadia e, qualquer dúvida, basta me procurar ou ligar para o ramal 17, que é o meu – ela terminou sorrindo.
– Obrigada – Tomoyo sorriu gentilmente. – Mas eu não sei o número do meu quarto... e nem onde ele fica.
– Ah! Que falha a minha! Deixe–me ver... – ela checou o computador. – Aqui está, a senhorita está no quarto 12 – a moça completou entregando–lhe um pequeno molho de chaves.
Tomoyo seguiu com a bagagem para o quarto indicado e ficou maravilhada com a decoração do local.
As paredes eram num tom de pêssego que combinava com as cortinas e com a colcha. A cama ficava à direita da porta, encostada na parede e tendo um criado–mudo de madeira branca do outro lado. Na parede de frente para a porta ficava uma janela baixa e do lado desta, um guarda–roupa igualmente branco e de madeira. Na parede oposta à cama, uma escrivaninha do mesmo material e da mesma cor era encontrada. Do lado dela, uma porta dava para o banheiro, igualmente branco e limpo.
– Acho que vai dar para o gasto! – ela comentou rindo.
Primeiro, ela desfez as malas e arrumou tudo nas gavetas e no armário. Depois, lembrou–se de ligar para Freya e comunicá–la do sucesso da viagem e da chegada.
Sentou–se na cama, pegou o celular e discou o número do quarto da jovem empregada, tendo o cuidado de colocar o código local na frente.
O telefone chamou quatro vezes até que uma pessoa atendeu.
– Alô?
– Por favor, a Freya?
– Ela não mora mais aqui. Quem é?
– É uma amiga dela – Tomoyo não podia revelar–se. – E, como assim, ela não mora mais aí?
– Um dos patrões a demitiu porque ela não tinha falado para ele da viagem da senhorita Tomoyo.
Tomoyo sentiu um aperto no coração. Freya fora mandada embora por ter acobertado sua "fuga".
– E a senhora sabe onde eu posso encontrá–la? Ou se ela tem algum outro telefone? – a morena quis saber.
– Não, não sei – a mulher respondeu simplesmente.
– Ahn... bem, obrigada pela atenção, senhora.
– Disponha – e ela desligou o telefone.
Tomoyo ainda segurava o celular enquanto pensava que fora a razão de Freya ter perdido o emprego. Sentia–se horrível por ter feito um mal desses a alguém que ela amava tanto.
Ainda na cama, ela ficou olhando para um ponto no tapete, perdida em lembranças que tinha da amiga quando eram pequenas. Uma batida na porta chamou a sua atenção.
Ao virar a cabeça para ver quem era, Tomoyo encheu–se de felicidade e, antes que pudesse se controlar, saiu correndo e abraçou forte a pessoa.
– Oi para você também, Tomoyo!
– Ah, Sakura! Eu quase morri de saudades! – ela dizia, à beira das lágrimas.
– Eu também! Mas agora você está aqui! E vamos poder matar a saudade desses dois anos longe uma da outra! – Sakura estava na mesma situação emocional que Tomoyo.
– Sim!! – a jovem exclamou alto.
– E para mim, não tem abraço, não? – outra pessoa falou.
– Ah, Syaoran! – ela soltou–se de Sakura e correu para abraçar o amigo. – Claro que tem!
– É muito bom te ver, Tomoyo! – ele disse, retribuindo o gesto da jovem.
– Você mudou bastante desde a última vez – Sakura disse, dando uma olhada melhor na amiga.
– Você também, Sakura.
A Kinomoto estava com os cabelos lisos e castanhos, um pouco abaixo da altura dos ombros e a pele estava mais bronzeada que a de Tomoyo.
– Só tem uma coisa que nunca muda, Sakura, o verde dos seus olhos! – a amiga brincou, arrancando risos dos dois.
Syaoran mantinha os cabelos bagunçados e com o mesmo corte de sempre, porém seu rosto carregava expressões mais maduras.
"Eles definitivamente formam um belo par!", Tomoyo concluiu.
– Sei que você ainda está meio desregulada com o horário, mas o que acha de darmos uma volta? – Sakura sugeriu animada. – Aproveitando que eu só começo o plantão hoje de noite...
– Para colocar os assuntos em dia? Acho uma ótima idéia! – Tomoyo leu os pensamentos da amiga.
– Vou te levar num shopping que é simplesmente ma–ra–vi–lho–so!
– Xii! Já vi que esse vai ser um passeio digno de mulheres... – Syaoran reclamou, fingindo–se de entediado.
– Isso mesmo! – afirmou Sakura.
– Então, eu acho que vou para casa preparar algo especial para o almoço – Li ponderava. – Virá almoçar conosco, não é Tomoyo?
– Mas você não tem que trabalhar hoje? – a jovem perguntou.
– Não... eu e Sakura combinamos que faríamos uma recepção legal para você, e para isso tiramos o dia de folga.
– Realmente... só o dia, porque à noite eu vou precisar ir ao hospital... Sendo enfermeira não fica fácil tirar 24 horas completas de folga em um dia de semana – ela lamentou.
– Esse é o bom de trabalhar num escritório... – Syaoran provocou. – Mas antes de mudar de assunto, aceita o convite para o almoço, Tomoyo?
– Só se não for incomodar – a jovem disse, tímida.
– Ah, mas é claro que vai incomodar! Vamos ter que fazer mais comida e lavar mais louça! – Sakura brincou. – Claro que não vai incomodar, né, Tomoyo!
– Não, é sério, eu não quero incomodar vocês.
– Bom, Syaoran, ela vai sim, nem que eu tenha que arrastá–la até lá! – Sakura piscou para Tomoyo. – E trate de fazer algo muito gostoso, viu? – ela dirigiu–se para o namorado.
– Sua ordem é um pedido! Digo, seu pedido é uma ordem, comandante Sakura! – Syaoran bateu continência e saiu marchando. – E só apareçam daqui a duas horas e meia! – ele gritou do corredor.
As duas riram com aquela demonstração malfeita de soldado. Só Syaoran para fazer aquilo, mesmo!
Elas caminharam até o tal shopping que Sakura mencionara e começaram a olhar as vitrines enquanto colocavam o papo em dia.
Lá Sakura comprou duas blusinhas, uma calça e um presente para Tomoyo, sem que esta soubesse.
Tomoyo achou tudo muito lindo, mas ainda não podia gastar nada, visto que estava por conta própria e precisava daquele dinheiro.
Porém a jovem não escapou das várias provas de roupa que Sakura insistiu que ela fizesse.
Duas horas e meia depois, elas rumavam para o apartamento em que Sakura morava com Syaoran e, durante o caminho todo, riram e comentaram sobre, literalmente, tudo.
Assim que pararam em frente à garagem, a Kinomoto entregou um grande embrulho para Tomoyo, que o recebeu surpresa.
– Nossa, eu nem vi quando você comprou isso! – a morena exclamava.
– Ah, é porque era pra ser uma surpresa... e também porque eu tinha encomendado há umas duas semanas. Só passei na loja e peguei – Sakura respondeu.
Tomoyo abriu o pacote e dele retirou um vestido... mas não era um qualquer, esse era de um modelo antigo.
– Gostou? – Sakura perguntou ansiosa e animada.
– Sim – foi a resposta confusa da morena. – Mas eu não sei exatamente onde devo usá–lo...
A amiga achava graça da cara de confusão de Tomoyo e resolveu explicar.
– É para um baile "à fantasia" que Syaoran e eu vamos dar em comemoração aos nossos quatro anos juntos... e eu gostaria muito que você fosse! – Sakura estava radiante.
– E eu só vou aceitar porque você insistiu muito, viu? – Tomoyo riu.
– Ok! – Sakura acompanhou o humor da amiga. – Mas depois falamos dos detalhes e da data... agora vamos ver o que o Syaoran preparou! Estou morrendo de fome!
Sakura entrou no prédio e chamou o elevador, sendo seguida por Tomoyo. Esperaram até a caixa metálica abrir as portas no sétimo andar.
Sakura destrancou a porta e deu espaço para Tomoyo passar.
– Fique à vontade! – ela falou para a amiga.
O apartamento de Syaoran e Sakura era razoavelmente grande, tendo uma sala de estar, uma de jantar, cozinha, lavabo, três quartos (sendo duas suítes) e um terraço que começava na sala e passava por todos os quartos.
– Hum! Esse cheiro está delicioso! – Sakura exclamou seguindo para a cozinha.
Tomoyo fez o caminho da amiga e encontrou Syaoran ao fogão, terminando de temperar o conteúdo de uma panela.
A Kinomoto perguntou o que tanto queria saber depois de cumprimentar o namorado com um rápido selinho.
– O que temos para hoje?
– Cornish Pastry – Syaoran respondeu, ainda encarando o fogão.
– Oba! – Sakura estava feliz em saber e, diante do olhar interrogativo de Tomoyo, explicou. – É patê de carne com batatas. Você vai adorar!
A morena sorriu para ela.
– Eu vou preparar a sobremesa – Sakura dizia enquanto vestia o avental. – Dê uma conhecida na casa!
– Com prazer! – e foi olhar os cômodos.
Antes, porém, de sair da cozinha, Tomoyo analisou–a. O balcão da pia era branco e os utensílios também, assim como o fogão e a geladeira. O piso era cinza claro e as paredes eram cobertas de azulejos até certa altura, onde uma fina faixa com desenhos típicos de cozinha separava–os do resto liso. Tinha, na decoração, toques femininos e masculinos no ponto certo, dando a entender que um casal feliz morava lá.
Depois ela passou os olhos pela sala: os sofás e os móveis também eram brancos e tudo enfeitado com as cores vermelho e laranja, para dar uma alegrada.
Todo o resto da casa tinha móveis embutidos e de madeira branca, sendo que em cada ambiente uma cor era predominante. Na cozinha, era o branco, no lavabo, o azul, no escritório/sala de tevê era o preto, o quarto de casal era verde (sendo que o banheiro combinava) e o outro quarto era amarelo–claro (com o banheiro da mesma cor).
Tudo impecavelmente em seu devido lugar e formando uma casa alegre, limpa e arrumada.
Não podia negar que estava feliz com a companhia do casal. Ela se divertira tanto no shopping que a máscara ficou perdida em algum canto, esquecida.
Mas o sorriso desmanchou quando a morena encostou–se ao batente da porta do quarto do casal. Não que estivesse com inveja da amiga, nem nada assim, mas Tomoyo sentia falta de uma companhia masculina ao seu lado. Todas as suas amigas tinham namorados há algum tempo e eram felizes dividindo casas e interesses. Quando chegaria a vez dela?
"Não... talvez nunca chegue", ela se entristecia.
Não era do tipo de sair procurando por aí. Esperava que alguém viesse até ela.
"Mas desse jeito jamais conseguirei encontrar alguém... passarei o resto dos meus dias esperando pelo 'príncipe encantado' que nunca vai aparecer...", as lágrimas voltaram a seus olhos.
Só que Tomoyo não choraria. Driblaria esse obstáculo e seguiria com sua vida. Sozinha.
Guiou o pensamento de volta à Terra quando escutou o barulho da campainha.
– Quer que eu atenda, Sakura? – ela perguntou, elevando um pouco a voz para a amiga escutá–la da cozinha.
– Se puder fazer esse favor, sim! – foi a resposta gritada.
Tomoyo abriu a porta e encontrou o porteiro parado, com um gato amarelo nos braços.
– A senhorita Sakura está? – ele perguntou gentilmente.
– Está sim. Só um minuto – a morena virou–se para a cozinha e chamou a amiga, porém, em vez dela veio Syaoran.
– Ah! O Kero se perdeu de novo, não foi? – Li pegou o gato dos braços do porteiro. – Obrigado, senhor Ishikawa – ele agradeceu.
– Por nada – o porteiro saiu e Syaoran fechou a porta.
– Nossa... eu tinha até me esquecido dele – a Daidouji falou enquanto fazia um rápido carinho na cabeça do gato, que miou, apreciando a carícia.
Syaoran colocou o gato no chão e este foi em direção ao escritório.
Tomoyo ainda olhava pelo caminho que o bichano fizera quando Li tirou sua atenção.
– O almoço fica pronto em mais quinze minutos. Sente–se e assista um pouco de tevê.
– Certo – ela ligou a televisão. O filme exibido não era conhecido pela morena e, talvez por falta do que fazer, ela começou a prestar atenção e a tentar entender, em vão.
O almoço transcorreu tranqüilo, com todos rindo e comentando sobre situações engraçadas que tinham vivido. Quando acabaram, inclusive com a sobremesa, eram 14h47, sendo que a japonesa recém–chegada tinha 23h47 como seu horário padrão até o momento.
– Estava delicioso! – elogiou a morena. – Parabéns a vocês dois! – ela sorriu primeiro para Sakura e depois para Syaoran.
– Obrigada, Tomoyo – a Kinomoto agradeceu, sem graça.
– Sakura, como sempre, cozinhou muito bem! – ela continuou com os elogios.
– Ela aprendeu com o chefe! – Syaoran fez pose de superior.
– E aprendi mesmo! – Sakura admitiu contente. – Aprendi com o meu pai.
Li perdeu a pose, mas riu com as outras duas.
– Mas agora eu realmente tenho que ir... já é bem tarde em meu horário biológico e eu estou super cansada.
– Claro. Espero que tenha gostado da nossa pequena recepção – Sakura disse, sorrindo.
– Adorei! Obrigada... nada poderia ter me feito mais feliz logo na minha chegada! – ela pediu licença e se levantou, sendo seguida pelo casal. – Quer ajuda com a louça?
– Não precisa. Nós dois damos conta – Syaoran falou. – Apenas vá para casa e descanse.
– Hum... só tem um problema – Tomoyo parou de repente, lembrando–se de um detalhe. – Eu não faço idéia de como chegar até a pensão.
– Ah! Claro! Tinha esquecido isso! – Sakura bateu com a mão na testa. – Bom, eu posso lavar a louça e o Syaoran vai com você. Pode ser, querido?
– Aham – ele concordou.
– Muito obrigada – a Daidouji agradeceu. Virou–se para a amiga e deu um abraço seguido de um beijo na bochecha, ambos retribuídos. – Passa por lá sempre que quiser! Até mais!
– Pode deixar que eu passo, sim! Até! – acenou.
Tomoyo e Syaoran saíram e chamaram o elevador. Depois de chegarem ao subsolo, eles entraram em um carro azul–escuro, o mesmo que Sakura tinha usado para levar a amiga ao shopping.
Algum tempo depois eles chegaram à atual residência da morena. Despediram–se com um abraço e ele saiu.
– Muito charmoso esse seu namorado – disse uma jovem voz feminina parando ao lado dela.
Tomoyo se sobressaltou com o comentário vindo do nada e ao seu lado ela encontrou Kanna, outra vencedora da prova.
– O que disse? – a morena perguntou enquanto analisava o perfil de Kanna: olhos negros em contraste com o cabelo platinado e escorrido que ia até um pouco acima dos ombros, da mesma altura de Tomoyo e pele só um pouco mais escura que a da morena. Usava uma saia de couro preta até o meio das coxas, uma blusa regata vermelho–vivo decotada em "V", unhas longas e igualmente vermelhas, maquiagem intacta e forte, realçando o brilho dos olhos e sandálias de salto (muito) alto também vermelhas. Uma tiara preta era encontrada em seus cabelos, presa com alguns grampos para não escorregar.
– Que seu namorado parece ser muito atencioso e charmoso – ela repetiu com um sorriso travesso.
– O Syaoran? Não, ele não é meu namorado, só um amigo – Tomoyo explicou.
– Aham... sei – Kanna Tachiji estava desconfiada.
– É sério. Ele namora a minha amiga.
– Bom, namoro não significa casamento... – insinuou.
A morena revirou os olhos. Não tinha sentido em continuar com aquela discussão.
– Bem, vou me deitar... estou cansada. Boa tarde, senhorita Tachiji.
– Kanna... apenas Kanna, por favor.
– Então, boa tarde, Kanna – ela ia em direção ao seu quarto, mas parou e resolveu perguntar uma coisa para a recém–conhecida. – Vai sair?
– Claro! Não vou desperdiçar meus últimos dias de férias dormindo... meu namorado vem me buscar. Ele vai me levar pra conhecer o Big Ben.
– Ah... ok, então. Divirta–se – e deu um sorriso amigável, embora seu coração estivesse pesado.
– Obrigada – Kanna foi para a porta da frente exibindo o seu rebolado sensual e Tomoyo dirigiu–se para o seu próprio quarto.
Ela arrumou a cama para dormir enquanto seus pensamentos iam para longe, com relação ao emprego que teria que arranjar e ao lugar que precisaria comprar ou alugar para morar depois que seus três meses acabassem no alojamento.
Deitou–se e olhou para o teto por alguns minutos até adormecer.
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Acordou no mesmo quarto escuro, depois de oito horas de sono, sendo que seu despertador marcava 23h18, mas em seu horário original já era de manhã.
Decidiu que leria um livro, um dos vários que ela tinha levado. Escolheu um ao acaso que se chamava Yesterday's Island, um romance daqueles "água com açúcar".
Depois de algum tempo lendo, ela fechou o livro e saiu do quarto com destino à sala de tevê, que era comunitária. Provavelmente ninguém estaria de pé àquela hora, embora o aparelho estivesse ligado.
Assim que fez a curva do corredor e parou em frente à sala, Tomoyo avistou uma figura sentada no sofá branco. Era Kanna. A morena resgatou sua máscara e, depois de colocá–la, sorriu.
– Ah! Olá... como foi o seu passeio? – Tomoyo perguntou.
– Foi ótimo! Primeiro nós visitamos o Big Ben e depois fomos tomar um chá na casa dele – ela estava empolgada em seu mini shorts rosa–choque, com a camiseta um pouco mais larga da mesma cor. Tomoyo deduziu que aquilo seria um pijama... ou pelo menos uma tentativa de.
– Que bom que se divertiu! Temos que aproveitar, afinal, são os nossos últimos dias de folga... depois disso, vai ser só correria. Aliás, deixa eu te perguntar uma coisa, como você mal chegou e já tem um namorado? – a morena estava realmente curiosa para saber como Kanna conseguia ser assim tão rápida, enquanto que ela, Tomoyo, só ficava esperando a chegada de alguém... que talvez nem sequer aparecesse.
– Bem, nós já namorávamos há alguns meses... às vezes eu vinha para cá, e outras ele ia passar um tempo por lá. Calhou de a prova trazer pessoas para morar e estudar logo aqui – nesse ponto da conversa, Kanna se levantou para pegar mais uma almofada e, como sempre, foi rebolando em direção ao outro sofá.
Tomoyo começou a se perguntar que tipo de homem aceitaria ter uma relação com alguém tão insinuante e provocante como ela. Lembraria de perguntar depois.
O programa exibido pela tevê, naquela noite, era um concurso de beijos com alguns casais. A morena decidiu que não perderia seu tempo assistindo àquilo.
– Bom, acho que vou voltar a dormir... até mais! – ela disse a Kanna ao mesmo tempo em que se levantava.
– Mas já? Pensei que fosse me fazer companhia. Se bem que, por falar em companhia, você já deu uma olhada nos caras que vieram da Coréia do Sul? Nossa! Eles são tuuudo de bom! Gatérrimos! – Kanna tinha estrelas nos olhos quando falava dos rapazes que tinham chegado por lá antes delas. – Por que você não tenta sair com algum deles enquanto ainda são livres, desimpedidos e desocupados? Reparei pelo seu jeito que você não tem namorado.
– Pelo meu jeito? – a morena sentou–se novamente.
– É... tipo assim, você é muito certinha e toda santinha recatada... precisa ser mais liberal se quiser achar alguém – ela continuava com seus planos.
– Mais liberal? – Tomoyo repetiu arqueando as duas sobrancelhas.
– É... Mas eu já ouvi dizer que as santinhas são as piores... veja o meu exemplo, eu era considerada uma santa quando fazia o colegial... depois eu comecei a fazer alguns cursos de moda e mudei radicalmente as minhas atitudes.
Tomoyo mal acreditava no que ouvia: Kanna? Uma santa? Inimaginável... impossível, melhor dizendo. Resolveu que realmente sairia dali agora...
– Agora eu vou dormir... vejo você amanhã – a Daidouji acenou para Kanna. – E obrigada pelos conselhos!
"Que eu nem vou utilizar...", completou em pensamento.
CONTINUA...
OoOoO
N/A: Oi!
Mais um capítulo foi postado!
E nele Sakura e Syaoran deram o ar da graça! E também apareceu a Kanna... Nós simplesmente amamos criá–la e escrever sobre ela, já que essa personagem é totalmente o oposto de nós duas. Aliás, coitado do namorado dela... ficamos imaginando que tipo de homem gostaria de tê–la como namorada... E tadinha da Freya! Ela não merecia esse castigo!
Bom, apesar disso tudo, esperamos que não desistam da fic e continuem a lê–la.
Kissus,
Mizu e Kimi
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Respostas às reviews
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Lili–chan: Oii! Tudo bom? Nós sabemos o quanto é difícil achar uma fanfic deles como casal principal... Só que mais difícil ainda é achar pessoas que gostem de ler fics deles. Nós chegamos a cogitar a mudança do casal principal dessa história: inverter, colocando o Syaoran e a Sakura como principais e a Tomoyo e o Eriol como secundários... mas acabamos desistindo porque a história não ia ficar tão boa quanto a original. Ficamos felizes em saber que está gostando da história! Obrigada pelos elogios! Tomara que continue a ler e a mandar reviews! Kissus!
