N.A.: Sim, atrasei duzentos anos, shame on me, e pra previnir novos atrasos não vou prometer nada dessa vez. (?)
E sim, chap ligeiramente mais curto, mas a culpa não é minha. É do Sulu, ele só faz o que quer.
Não se enganem, a fic jamais terá um plot. Mas terá slash, prometo.
Todo meu amor pra Gi pela betagem e pra Mary que é linda demais pra ser verdade. (L)
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Mercúrio ao Pôr do Sol
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Capítulo Dois
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Quando chegou a vez de Sulu fazer o primeiro check-up médico a bordo da Enterprise, quase pensou em fugir, dar um jeito, uma desculpa, morrer, talvez.
Ele só podia imaginar o quanto o Doutor McCoy falaria quando visse a tatuagem.
Uma vez lá, Sulu tirou a camisa já esperando o pior, mas o doutor não comentou nada quando viu suas costas. O canto de sua boca tremeu levemente, denunciando nervosismo, mas nada além disso. Logicamente não durou muito.
– Você fez isso aí na Terra, eu espero. – McCoy comentou, parecendo algo entre bravo e seriamente preocupado, ainda que fingisse tranqüilidade.
– Sim, doutor McCoy. Nas Filipinas. – Sulu respondeu sorrindo. O médico sorriu de volta, de uma forma ligeira e não-feliz, algo como um rápido mostrar de dentes, mas sorriu.
– E com laser, suponho. – continuou no mesmo tom. Quando Sulu não respondeu de imediato, sua expressão ganhou sérios tons assustadores. – E não com métodos selvagens de agulhas e tintas de procedência desconhecida perfurando sua pele e sujando seu sangue com todo tipo de doenças e infecções, sendo a mais suave o tifo alpha-centuriano, que poderá contaminar até seus bisnetos, arrastando quatro gerações para delírios de febre até a morte mais lenta e dolorosa já imaginada.
Sulu fez o possível pra não se assustar. Quando não conseguiu, sorriu.
– Eu faço todos os exames que o senhor quiser, Doutor McCoy.
McCoy respondeu com uma cara tão brava que era quase um sorriso do avesso.
– Claro que faz! Como se fosse ousar.
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Na hora do jantar, Chekov parou pra observar as luzes da nave baixando quando o ciclo noturno começou, esquecido de continuar a comer. O tom de verde dos seus olhos mudava conforme a luz mudava, era bonito.
Ele disse alguma coisa em russo, e Sulu se pegou indeciso entre perguntar ou não o que ele tinha dito. Não precisou. Chekov olhou nos seus olhos, sério e solene, e disse, tropeçando levemente nas palavras.
– Essa coisa toda de viver é um pouco solitária demais.
Sulu não soube o que responder, mas sabia que concordava. Assentiu com a cabeça, sentindo uma dor pequena no peito. Quis abraçar Chekov, mas não era hora nem lugar.
– É. É mesmo.
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Sua mãe mandou uma comunicação contando todas as pequenas novidades de casa. Uma amiga de infância de Sulu estava grávida, a mesa da sala tinha quebrado, estava ventando um pouco demais para o gosto das avencas, sentimos-sua-falta. Seu pai falou um pouquinho também, sobre resultados dos campeonatos de vela e perguntou da tatuagem.
A resposta que Sulu mandou dizia que Hikaru era um ótimo nome para qualquer bebê e que podiam dizer isso à futura mamãe; que mesas eram baratas, que era só colocar as avencas dentro de casa (num lugar com luz), e que sentia-falta-também; que seu bisavô certamente velejava melhor que o campeão, que a tatuagem estava totalmente cicatrizada e não dando nenhum sinal de lhe dar poderes mágicos.
Não tendo o hábito de dividir essas coisas, não falou nada da inquietação pequena que lhe tomara o coração desde as palavras de Chekov. Talvez isso pudesse ser lido na sua voz, mas também não tentou emular nada diferente.
Também não contou sobre a consulta com McCoy – a parte do tifo alpha-centuriano poderia assustar, apesar dos exames terem dado negativo. E, afinal, era uma história para dividir com Uhura ou Chekov, quando chegasse a hora.
Em breve.
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Acordar às sete e meia, tomar banho, cuidar das plantas, se apresentar na ponte às nove em ponto, deixar o posto às dezessete. Jantar e, três vezes por semana, fazer exercícios de esgrima com o amador da vez, que tentaria aprender e desistiria no primeiro arranhão.
Chekov, que fazia o turno junto com ele e tinha essas abençoadas horas livres no começo da noite, andava rondando esses treinos, de vez em quando. Sulu tentou convidá-lo para praticar, mas o garoto declinou com um sorriso todas as vezes.
Sulu pensou em dizer que sentia alguma timidez por Chekov, pelo menos uma vez por semana, aparecer desse jeito e assisti-lo treinar. Mas seria mentira e seria só pra ter alguma coisa pra dizer, então ele apenas ria e balançava a cabeça num tsc divertido e exasperado.
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Quando Uhura apareceu para assistir ao treino, olhos obviamente inchados e vermelhos de choro, Sulu parou tudo imediatamente. Trocou de roupa rapidamente, organizou as próprias coisas e foi encontrá-la, pegando-a pela mão com carinho até chegarem aos alojamentos dele.
Sentaram-se na cama, e Uhura começou a chorar no mesmo instante. Sulu a abraçou, fazendo pequenos sons de "tá tudo bem, passou". Uhura entremeava frases como "sempre eu que tenho que fazer concessões e não posso nem reclamar, porque a mãe dele morreu e eu nunca tenho coragem de chorar perto dele e é tão..." com outras como "ele é um idiota", e Sulu sabia que provavelmente não era nada além de uma crise pequena.
Quando ela parou de chorar, pelo menos um pouco, ele sorriu pra ela.
– Agora respira fundo, três vezes, e me conta tudo desde o começo.
Ela contou. Uma épica riqueza de detalhes, às vezes parando pra pensar na tradução de uma palavra que existia apenas em klingon e era exatamente o que representava a situação, às vezes ameaçando voltar a chorar.
Como Sulu temia, era uma briga boba dela com Spock, por motivos bobos, essas coisas que casal fazem normalmente. Quando ela terminou de contar já parecia se sentir bem melhor. Ele sintetizou sorvete e gim tônica pra ambos e colocou um filme qualquer – um lançamento que deveria ser romântico e bobo, e no final a mocinha morreu e Uhura voltou a chorar. Sulu providenciou mais sorvete, e mais gim tônica.
Se tivesse que contar pra alguém, Sulu diria que foi coagido a dizer tudo que disse depois. Sendo ou não verdade, o certo é que ele contou a Uhura sobre seu interesse por Chekov. Contou que tinha a ver com os cachos acobreados de seu cabelo, mas muito mais com os olhos que mudavam de cor conforme as luzes da nave, as discussões sobre física, aquela frase sobre solidão, e ao mesmo tempo com nada disso.
– Interesse, Hikaru? – Uhura riu, manchando a ponta do nariz dele com sorvete – A mim mais parece que você está completamente apaixonado.
Ele riu muito mais alto do que a situação pedia, e talvez já fosse o gim falando por ele. Nunca fora muito forte pra bebidas. Deu de ombros.
– E se estiver? Isso não me obriga a nada, eu não quero entrar em um relacionamento agora.
– Aposto que você não resiste nem mais duas semanas – ela respondeu, rindo ainda mais.
Uma campainha soou baixinho alertando que estavam ultrapassando o limite de ruído recomendado para o horário. Uhura aproveitou para ir, não sem antes abraçá-lo bem forte e agradecer baixinho.
– Converse com ele, Nyota. – ele sussurrou, pensando que era muito melhor em dar conselhos que em segui-los.
– Eu vou. Acho que vou dar uma passada no quarto dele agora, ele não vai gostar mas não quero adiar a conversa. – ela sorriu, aparentemente refeita – E você deveria fazer o mesmo.
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A decisão de fazer uma nova tatuagem veio assim que percebeu o dragão como totalmente cicatrizado. Agora seria uma planta, tinha que ser; era apenas questão de escolher qual, aonde, e como. Passava todo o tempo livre olhando fotos que colecionara das próprias plantas desde a infância, tentando decidir.
Sentia-se livre da obrigação e do peso de um significado, uma justificativa. Suas costas já carregavam o peso do seu mundo – todo o resto seria por amor.
Continua.
